Ao remetermo-nos à historicidade do Brasil, observaremos que as relações sociais, que submeteram negros, índios, mulheres, crianças e adolescentes ao homem branco europeu, faz parte de um sistema mais amplo de dominação que remonta à tentativa portuguesa de transplantar para o Brasil uma organização baseada no poder patrimonial, de arquétipo patriarcal10 (Safiotti, 1979).
Essa tentativa, que se caracterizou como “preservação e adaptação de todo um corpo de instituições e de padrões organizatórios-chaves, com vistas à criação de um novo Portugal”, emergiu nas condições sociais da vida cotidiana dos colonizados (Fernandes, 2006), e fundou, aqui, uma “colonização para subalternização” (Freyre, 1986, p. 220), provocando não apenas a colonização de terras brasileiras, mas, além disso, a colonização de corpos, comportamentos, ações, e, sobretudo da vida dos indivíduos.
Essas circunstâncias da colonização, como projeto europeu aristocrata e escravocrata, apresentaram-se como elementos decisivos na vida das mulheres (Safiotti, 1979). Para as mulheres brancas, preservaram-se os conceitos de fragilidade feminina e a procriação de filhos legítimos. Segundo Saffioti (1979), o comportamento das mulheres brancas deveria representar exemplos de bons costumes. Não se permitia a elas manifestar-se socialmente, pois, afinal, todos os seus comportamentos deveriam enquadrar-se na moralidade e na obediência. Mesmo com condição social privilegiada,
10 Para Weber, o Estado Patrimonial se dá quando o príncipe organiza seu poder político sobre áreas
extrapatrimoniais e súditos políticos (Weber, citado por Silveira, 2006). Esse modelo ainda se trata de uma face do poder patriarcal, pois o seu arquétipo possui raízes na ordem familiar, “posto que com o crescimento de poder do governante sobre seus súditos, abarcando uma grande parcela de regiões e conjuntos populacionais, a administração necessitou racionalizar-se e desenvolver um aparato administrativo capaz de cobrir essa nova dimensão territorial e demográfica” (Silveira, 2006, p. 5).
estas mulheres não deixavam de ser vítimas de opressão social, econômica e familiar (Cerdeira, 2004).
O papel atribuído às mulheres negras se deu de forma ainda mais destrutiva. Além das funções que as inseriam na exploração do sistema produtivo de bens e serviços, o uso do seu corpo por parte do senhor lhes era uma obrigação diária. Enquanto as mulheres negras eram destinadas à exploração de força física e à supressão dos desejos sexuais dos senhores, as mulheres brancas tinham a obrigação de cumprir as atividades relativas aos seus papéis de esposas e mães dos filhos legítimos, não podendo questionar a relação de seus maridos com as escravas, por sua condição feminina de subalternidade. Essas condições eram aceitas sem grandes resistências, em virtude da educação que recebiam em ambientes de famílias rigorosamente patriarcais. Segundo Saffioti (1979), “documentos históricos assinalam que pela característica rígida com que as jovens mulheres eram educadas, pela falta de instrução e pelas sucessivas maternidades, estas se submetiam com bastante facilidade à autoridade do pai ou do marido” (p. 168). Existiam também as mulheres brancas das classes mais pobres. Para elas, a luta pela sobrevivência se fazia constante, afinal, como mulheres livres, analfabetas e também invisíveis aos olhos das autoridades políticas, muitas delas sem a presença de um marido, precisaram ocupar papéis considerados “masculinos”, representando, assim, forças contrárias às funções estritamente femininas postas pela sociedade da época (Dias, 1984).
Essa realidade em torno das mulheres só será alterada com o contexto da passagem do Império para a República. De fato, não há mudança estrutural na posição social da mulher, mas, temáticas como direito à educação, à informação e a presença em eventos sociais para mulheres de classes mais abastardas já começam a ser discutidos. O argumento de católicos de que a educação das mulheres fragilizaria a estrutura da
sociedade patriarcal é desconsiderado, a partir do processo de ruptura dos dogmas da Igreja Católica e dos preceitos de governo do Império.
Nessa conjuntura, teóricos começaram a se opor às concepções acerca da educação feminina, mesmo que os princípios ainda estivessem se resvalando diante da considerada inferioridade mental da mulher. Sobre este aspecto, o filósofo Tito Lívio, citado por Saffioti (1979), argumenta que a mulher não estava condenada à ignorância, haja vista que a desigualdade das capacidades intelectuais entre os sexos se deve a determinantes históricos. Assim, a solução para recuperar o “atraso mental” a que se atribuiu à mulher estaria na promoção de sua própria educação. No entanto, na prática, essa educação feminina não escapou dos princípios da Igreja Católica e do liberalismo.
Com a queda do regime monárquico, a República brasileira nasce num contexto social de busca de inovações. Nesse período, surgem preocupações em torno da adaptação das minorias para os novos tempos. Assim, marca a ruptura da instrução oficial das amarras do catolicismo, tornando possíveis as primeiras organizações de ensino para jovens mulheres no ensino primário e em cursos profissionalizantes. O argumento que regia essas inovações se apoiava na seguinte problemática: se a mulher era, desde os anos iniciais, a formadora da vida do indivíduo do sexo masculino, ela deveria ser educada, a fim de desenvolver com eficácia o processo educacional das crianças, especificamente do homem (Saffioti, 1979).
Em face do exposto, entendemos que a valorização da educação feminina vinculava-se à permanência da reprodução social da valorização masculina. Apesar da discussão em torno da necessidade da educação romper com preceitos morais da Igreja Católica, na prática, a educação para mulheres reproduzia as concepções cristãs de educação, certamente isso se deve ao motivo do catolicismo ter objetivos aliados aos interesses dos oligarcas.
Em consonância com esse argumento, Almeida e Martins (2008) afirmam que a educação destinada à mulher não se desprendeu dos atributos de pureza, doçura, moralidade cristã, entre outros, incutidos pela Igreja Católica à mulher. Nessa concepção, as mulheres, responsáveis pela beleza e bondade, deveriam reproduzir seus comportamentos na vida social. Para isso, a educação adequada consistiria na formação de uma sociedade mais evoluída. Essa preocupação com a instrução das mulheres constituía parte do projeto civilizatório almejado para o país, nas primeiras décadas da República. Com a instauração da ordem burguesa, da modernização e da higienização no país, surge a necessidade de transformar capitais e metrópoles com hábitos mais civilizados, similares aos modelos europeus. Nesse período, em que a mão de obra da economia passa de escrava a livre, medidas de disciplinamento e controle são tomadas como forma de adequar mulheres e homens, pertencentes aos extratos mais
empobrecidos11 “ao novo estado de coisas inculcando-lhes valores e formas de
comportamentos” europeus (Del Priore, 2008, p. 362).
De acordo com Del Priore (2008), essa situação direcionava também a preocupação com a organização das famílias e de uma classe dirigente sólida, pois essas deveriam ser “respeitosa as leis, aos costumes, as regras, e as convenções” (p. 362). Do ponto de vista das classes empobrecidas, esperava-se cumprimento do trabalho e disciplinamento no cotidiano. E, no que concerne às mulheres, recai grande parte de pressões acerca do comportamento familiar e pessoal desejado que lhes garantisse apropriada inserção na nova ordem, considerando que delas dependeria, em grande escala, a consecução de novos propósitos.
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Neste período de ascensão capitalista no Brasil, todos os indivíduos que não correspondessem aos ideais do progresso, dentre eles, “mulheres, crianças, menores, vadios, vagabundos e capoeiras” são tomados nas linhas do controle e enquadrados em ações educacionais e corretivas (Abreu & Martinez, citado por Rizzini, 1997).
Neste processo de disciplinamento da nova ordem, o Código Penal, o sistema judiciário e a ação policial se tornam os recursos primordiais para controlar e estabelecer normas sociais para mulheres dos segmentos mais empobrecidos. Partindo da premissa que essas mulheres tinham natural propensão à transgressão12, toda ação desses elementos governamentais, que constituíam um sistema coercivo, incidia nas mulheres diversos tipos de violência e opressão. Assim, moderava-se a linguagem das mulheres, estimulando boas maneiras e bons hábitos, reprimindo os excessos das palavras. Esse controle era realizado de forma violenta, pois as classes dominantes priorizavam ações punitivas e corretivas ao invés de direção intelectual ou moral (Soihet, 2006, p. 364).
Nas últimas décadas do século XX, com a hegemonia alcançada pelo
neoliberalismo13 como ideologia prática materializada no Brasil, a vida e os
comportamentos das mulheres pobres sofrem impactos ainda mais severos. Segundo Cohn (2000), esse contexto econômico, caracterizado por uma reorganização no cenário social do país, provocou acirramento da desigualdade social e deterioração das condições de trabalho e de sobrevivência. Esse fato agravou vários problemas sociais, ocasionou diversas violações de direitos e reorganizou os papéis assumidos pelas mulheres.
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Lombroso e Ferrrero (2004) estudaram diversas características das mulheres que se envolviam no cometimento de delitos, tais como: assimetria craniana e facial, mandíbula acentuada, estrabismo, dentes irregulares, clitóris, pequenos e grandes lábios vaginais grandes, além da sexualidade exacerbada e dotada de perversão, caracterizadas normalmente pela prática da masturbação e do lesbianismo. A quantidade das características presentes em cada mulher determinava o tipo da anomalia (Lombroso & Ferrero, 1980). É válido ressaltar que, a depender do estigma, como é nos casos de lesbianismo, isso bastava para a mulher ser considerada depravada ou perigosa.
13 Esse modelo, padronizado internacionalmente, tem orientado a economia dos Estados para a realização
de diversas reformas e adequações às regras internacionais, as quais correspondem à globalização do mercado, a concretização do Estado mínimo, a desestatização da economia, o crescimento da competitividade e das privatizações. Sobre essa questão, Cohn (2000) alerta que o enfrentamento aos problemas sociais, no modelo neoliberal dentro do modo de produção capitalista, tem sido feito por meio de políticas, que, por sua vez, se dão de forma fragmentada e controvertida, as quais, na maioria das vezes, ao invés de promover a inclusão social dos cidadãos, acabam legitimando a subalternização das classes mais pobres.
Com essas condições do modo de produção capitalista, temos assistido ao
fenômeno denominado feminização da pobreza14. De acordo com Mariano e Carloto
(2009), este termo é designado quando os impactos desiguais, gerados pela inconsistência social da crise capitalista, têm afetado de maneira severa a vida das mulheres pobres, destacando-se que a pobreza não tem apenas raça e idade, mas também sexo. Apesar de estarem em condições de penúria, como vários contingentes de homens pobres no mundo, as mulheres pobres, e especificamente as negras, compõem as camadas de rendas mais baixas, e as maiores taxas de precarização do trabalho e desemprego (Prá, 2001). Segundo Prá (2001), “dentre o mais de um bilhão de pessoas da população mundial que se encontra em extrema condição de pobreza, 70% são mulheres” (p. 177).
Nesse estado das coisas, a luta pela sobrevivência tem direcionado as mulheres a comportamentos conhecidos como masculinos. Múltiplos são os exemplos das famílias chefiadas por mulheres que assumem novos ramos de atividades e desempenham novos papéis na sociedade.
O campo do cometimento de crimes ou contravenções, historicamente masculinizado, também tem sido alterado. Ao longo dos anos, cada vez mais mulheres, especificamente as mais jovens, têm se envolvido com a criminalidade. Embora a quantidade de crimes seja inferior ao cometido pelos homens, é necessário ressaltar que as mulheres em condição de miséria vêm se tornando mais vulneráveis à seleção do sistema penal (Andrade, 2012), fazendo-nos entender que a criminalidade, apesar de ser um fenômeno complexo, está associada à pobreza e à desigualdade social.
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Esse termo “feminização da pobreza” surge nos anos 1970, mas, conforme afirma Lopes e Azevedo (2006), ganha força durante a IV Conferência Mundial das Mulheres, em Beijing (China), no ano de 1995, para denunciar o aumento progressivo da pobreza entre as mulheres e dar visibilidade ao fato que elas estão cada vez mais pobres que os homens.