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22 KISA VADELİ KARŞILIKLAR i) Karşılıklar
O consentimento da vítima, nos casos de tráfico de pessoas, para fins de exploração sexual, é bastante relevante, porquanto representa que não houve violência, coação, aliciamento ou fraude para a obtenção de sua aquiescência em mudar para o exterior e exercer a prostituição, a qual já exercia no país de origem, apenas buscando melhores condições remuneratórias para o exercício profissional que sempre realizou, principalmente em relação a países com melhores remunerações ou condições de trabalho de maneira geral, do que a realidade de países subdesenvolvidos.259
Nesse sentido, a respeito do consentimento da vítima no delito de tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, existe disciplina distinta de tratamento pelo Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, relativo à prevenção e repressão ao tráfico de pessoas e à Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas.
Dispõe o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, relativo à prevenção e repressão ao tráfico de pessoas, que o consentimento manifestado pela vítima não é levado em consideração quando demonstrado, de forma taxativa, o uso de meios comissivos enumerados na definição de tráfico (conforme disposto no art.3, alínea b) como ameaça, uso da força, outras formas de coação, rapto, fraude, engano, abuso da situação de autoridade ou de vulnerabilidade ou a concessão ou recebimento de pagamentos ou benefícios.
A seu turno, a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, em seu art.2º, §7º, expressamente estipula que o consentimento da vítima será irrelevante para caracterizar o delito, haja vista que o uso de qualquer tipo de engodo ou coação para que a pessoa aceite seu deslocamento integra o próprio conceito do delito do tráfico de pessoas.260 A partir de então, depreende-se que nosso legislador, nos tipos
259BORGES, Paulo César Corrêa (Org.). Tráfico de pessoas para exploração sexual: prostituição e trabalho sexual
escravo. São Paulo: NETPDH; Cultura Acadêmica, 2013, p.30.
260 CASTILHO, Ela Wiecko Volmer de. A legislação penal brasileira sobre tráfico de pessoas e imigração
penais que cuidam da incriminação do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, elegeu não considerar o consentimento como uma causa ensejadora de atipicidade da conduta ou exclusão da antijuridicidade, razão pela qual, verificada a sua presença, ainda que ininterrupta, durante todo o processo do tráfico de pessoas, restará caracterizado o crime.261
Acerca do consentimento, dispõe o trabalho Tráfico de Pessoas em Pauta:
Muitas pessoas caem na rede do tráfico nacional e internacional a partir de propostas totalmente enganosas de emprego e de condições de vida no local de destino. Algumas estão cientes dos riscos ou desconfiam das promessas. Outras, por sua vez, já vão sabendo, pelo menos em parte, o que lhes espera. Isso, no entanto, não invalida a caracterização da situação como tráfico de pessoas. O Protocolo de Palermo afirma explicitamente que, havendo algum tipo de exploração no destino final, o consentimento dado pela vítima, independente da modalidade, será considerado irrelevante se houver sido obtido pelos meios citados na definição, entre eles, engano, fraude, abuso de autoridade ou vulnerabilidade, ou seja, situações em que a pessoa não tem alternativa real e aceitável a não ser se submeter ao abuso. Isso quer dizer que, se uma pessoa vai para o exterior sabendo que vai trabalhar no mercado do sexo, mas acaba sendo explorada sexualmente, isso ainda configura tráfico. O mesmo vale para alguém que tenha concordado em exercer trabalho doméstico ou rural em outra cidade em troca apenas de casa e comida. A exploração do trabalho dessas pessoas continua sendo um crime e uma violação de direitos humanos. No caso de crianças e adolescentes é possível configurar o tráfico de pessoas mesmo sem nenhum desses meios listados pelo Protocolo, por serem considerados seres humanos em desenvolvimento. No Brasil, a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas vai mais longe e considera o consentimento dado pela vítima irrelevante em todos os casos, sem depender dos meios utilizados.262
Daniela Muscari Scacchetti verifica que o consentimento da vítima, na delimitação do tráfico de pessoas, constitui um dos tópicos de maior discussão, pois as organizações criminosas se utilizam de um certo grau de colaboração da vítima para concretizar as fases do delito, principalmente no que diz respeito ao aliciamento. Entretanto, consoante entendimento exarado pelo Protocolo de Palermo, tal consentimento restaria irrelevante para a qualificação do fato como tráfico de pessoas. Neste ínterim, nossa Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas coteja maior grau de proteção à vítima, desconsiderando seu consentimento em qualquer circunstância, não exigindo que ele tenha sido manifestado pelo uso, por parte do perpretador, de ameaça, força, coação, rapto, fraude, engano, abuso de autoridade, http://6ccr.pgr.mpf.mp.br/pfdc/informacao-e-comunicacao/informativos-pfdc/edicoes-de-2006/maio-
2006/seminario_cascais.pdf. Acesso em: 14 nov.2014.
261 FERRACIOLI, Jéssica. O tráfico de seres humanos entre as novas formas de criminalidade. Mestrado em
Direito Penal. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2012, p.188.
262 TRÁFICO de Pessoas em Pauta – Guia para jornalistas com referências e informações sobre o enfrentamento
pagamentos, benefícios ou se aproveitando da situação de vulnerabilidade da vítima. Desta feita, ainda que a vítima não refute o recrutamento e o transporte, assentindo em ser explorada, restará configurado o tráfico de pessoas. “Tal disposição se adequa à necessidade de respeito à dignidade como um direito humano fundamental, refletindo uma visão mais avançada e humanitária em relação àquela constante do Protocolo de Palermo.”263
Por sua vez, André Estefam leciona que o consentimento da vítima, representado pela anuência da mesma em se prostituir ou submeter-se à exploração sexual, não rechaça a circunstância criminosa do ato, em virtude do modus operandi dos responsáveis pelo tráfico de pessoas se fundamentar, na maioria das vezes, na fraude e na coerção. Usualmente as pessoas são recrutadas mediante promessa de que irão obter um considerável retorno financeiro no País de destino. No entanto, quando lá chegam, vivenciam uma situação adversa, tendo seus passaportes retidos pelo ora “empregador” que as coage a trabalhar em condições degradantes e insalubres, não sendo raro obrigadas a consumir drogas para que, em estado de entorpecimento, pratiquem sexo com clientes a elas designados.264
Diante do exposto, imprescindível referir que para parcela da doutrina, o fato de a legislação brasileira considerar irrelevante o consentimento da vítima para a verificação do crime de tráfico de pessoas implica verdadeiro “paternalismo” estatal, que autorizaria o Estado a impedir um comportamento consciente e voluntário da pessoa com o fim de protegê-la de si mesma, num julgamento legislativo prévio e sem possibilidade de prova em contrário.
Esta corrente de pensamento entende que não pode haver presunção absoluta de vulnerabilidade no Estado Democrático de Direito, de cunho liberal, sob pena de violação à liberdade de autodeterminação sexual das pessoas que, no contexto dos fatos, não sejam vulneráveis, nem estejam em relação de exploração. Também haveria conflito com o direito penal mínimo, que determina a criminalização apenas de condutas lesivas ou efetivamente perigosas sem o consentimento da vítima. Se o Estado quer proteger a dignidade sexual, deve permitir o pleno exercício da sexualidade, mesmo que seja como forma de subsistência e desde que exista consentimento livre de coação, fraude ou qualquer forma de vulnerabilidade. Em nossa opinião, o entendimento
263 SCACCHETTI, Daniela Muscari. O tráfico de pessoas e o protocolo de Palermo sob a ótica de direitos humanos.
In: Revista Internacional de Direito e Cidadania nº11, out.2011, p.26.
mais adequado à questão em pauta é a análise das circunstâncias caso a caso, verificando-se a forma pela qual a vítima exarou o seu consentimento.