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A proposta hermenêutica de Schleiermacher fundamenta:se na busca pelo sentido correto dos textos. Essa busca, segundo o próprio Schleiermacher, dá:se através da observação de algumas regras de interpretação: “Regras gerais, para a determinação correta da significabilidade, deixam:se fornecer parcamente” (1999, p.85). Isso, inclusive, já foi apresentado no subtópico anterior.

Entretanto, nessa “determinação correta da significabilidade”, está presente uma questão crucial: segundo a hermenêutica schleiermacheriana, cada texto tem apenas um único sentido correto. É o próprio Schleiermacher quem apresenta essa questão no comentário abaixo (1999, p. 63:64):

Ora, se uma passagem é tomada alegoricamente, então, o sentido alegórico é também o sentido único e simples da passagem, pois ela não tem nenhum outro; e se alguém quiser compreendê:la historicamente, então, não restituirá o sentido das

palavras novamente, pois ele não lhes atribuirá o significado que elas têm no contexto da passagem; assim como, em caso inverso, quando uma passagem de intenção diferente é explicada alegoricamente.

Pelo comentário acima, fica claro que Schleiermacher está se referindo especificamente a determinados fragmentos textuais. A nota acima, por exemplo, faz alusão a um fragmento textual que contém uma alegoria. No entanto, Schleiermacher (1999, p. 75) aplica igualmente esse princípio a outros elementos textuais, além de fragmentos:

Agora, disto segue:se que o princípio da unidade do significado vale sempre tanto para o elemento formal como para o material. Cada partícula e cada flexão tem um único significado verdadeiro, em relação ao qual cada emprego se relaciona como o particular para com o universal e, portanto, cada emprego em relação a outro como um particular aos outros (particulares).

Como a práxis da interpretação schleiermacheriana se dá por meio da observação de regras, o único sentido correto de um fragmento textual também deve ser buscado por meio delas. No excerto a seguir, Schleiermacher explica uma das regras necessárias para a determinação do sentido correto de uma passagem: é o contexto de uma passagem que deve determinar o seu sentido exato. Leiamos a explicação (1999, p. 70):

A regra é, por isso, a principal, porque cada determinação e fixação do particular deve ser uma operação progressiva que, a partir da interpretação do particular, determina por fim o sentido preciso do singular através de toda a sua circunvizinhança.

Celso Braida (In: SCHLEIERMACHER, 1999, p. 17:18) faz um comentário muito feliz acerca da regra acima, no qual reforça a ideia do sentido textual exato:

Seja uma palavra ou uma frase, quando isolada ela tem apenas um significado (Bedeutung) indeterminado e indefinido (múltiplo); ela terá um sentido (Sinn) preciso, portanto, um sentido unívoco, quando estiver no interior de um conjunto de frases coordenadas, o qual delimita um único uso dentre os vários possíveis.

Diante de tudo quanto foi apresentado acima, fica novamente patente que a hermenêutica de Schleiermacher é puramente textual. É exatamente por isso que a hermenêutica contemporânea a denomina de exegese ao invés de hermenêutica. Somente quando examinada sob a perspectiva textual, a proposta de Schleiermacher será entendida corretamente. Se for analisada sob a ótica da hermenêutica contemporânea, cujo conceito de compreensão envolve “a consciência da própria filiação da obra ao nosso próprio mundo” (GADAMER, 1999, p. 435), a proposta interpretativa de Schleiermacher será considerada absurda ou, no mínimo, não será entendida.

Pelo fato de a entenderem corretamente, vários teóricos da hermenêutica contemporânea confirmam a validade do princípio schleiermacheriano apresentado há pouco. Mais que isso,

eles reconhecem que o sentido textual, tal qual proposto por Schleiermacher, é o ponto de partida para que o intérprete possa “colocar em jogo os próprios conceitos prévios”, conforme a definição contemporânea de interpretação.

Gadamer, por exemplo, afirma que a experiência hermenêutica não pode se extraviar do sentido expresso no texto em si. Em outras palavras, a compreensão das coisas de que fala o texto estará condicionada à apreensão do sentido contido no texto propriamente dito. Leiamos as palavras do próprio Gadamer (1999):

Disso podemos extrair que o que é verdadeiramente comum a todas as formas da hermenêutica é que o sentido de que se trata de compreender somente se concretiza e se completa na interpretação, mas que, ao mesmo tempo, essa ação

interpretadora se mantém inteiramente atada ao sentido do texto. Nem o jurista

nem o teólogo vêem na tarefa da aplicação uma liberdade face ao texto. (p. 493, grifo nosso)

Também a experiência hermenêutica tem sua própria consequência, a de ouvir sem extraviar:se. [...] Aquele que procura compreender um texto tem também que manter a distância alguma coisa, ou seja, tudo o que se faz valer como expectativa de sentido a partir dos próprios preconceitos, desde o momento em que o próprio

sentido do texto o rechaça. (p. 674, grifo nosso)

Para Gadamer, o sentido do texto em si é o ponto de partida para interpretação, segundo a definição da hermenêutica contemporânea, mas não corresponde à totalidade da tarefa de interpretar. Na visão de Gadamer, que atribui à hermenêutica um valor universal e filosófico, constitui:se em um reducionismo limitar a interpretação à apreensão do sentido textual (1999, p. 548, grifo nosso):

Teremos de nos perguntar quais são as condições sob as quais se coloca esta tarefa diferente. Pois é certo que, face à real experiência hermenêutica que

compreende o sentido do texto, a reconstrução do que o autor pensava realmente é uma tarefa reduzida.

Deve ficar claro, entretanto, que Gadamer não descarta a proposta de Schleiermacher, mesmo que a considere reducionista.

Paul Ricoeur também apresenta a apreensão do sentido textual como o ponto de partida para a interpretação. Contudo, ele aplica um novo termo para o sentido textual em questão: símbolo. Segundo sua proposta, a interpretação, ou seja, “a decifração do sentido escondido” só pode acontecer mediante a apreensão do símbolo, isto é, do sentido direto, primário e literal daquilo que se deseja interpretar (RICOEUR, 1988, p. 14:15, grifo do autor):

Chamo de símbolo a toda a estrutura de significação em que um sentido direto, primário, literal, designa por acréscimo um outro sentido indireto, secundário, figurado, que apenas pode ser apreendido através do primeiro. Esta circunscrição

Em compensação, o conceito de interpretação recebe ele também uma acepção determinada; proponho dar:lhe a mesma extensão que ao símbolo; a interpretação,

diremos, é o trabalho de pensamento que consiste em decifrar o sentido escondido no sentido aparente, em desdobrar os níveis de significação implicados na significação literal; mantenho assim a referência inicial à exegese, isto é, à

interpretação dos sentidos escondidos. Símbolo e interpretação tornam:se assim conceitos correlativos; há interpretação onde existe sentido múltiplo, e é na interpretação que a pluralidade dos sentidos é tornada manifesta.

Como se pôde ver, o princípio da unicidade da significação correta do texto, conforme a proposta de Schleiermacher, não foi descartada pela hermenêutica contemporânea. Esta – uma vez que suas pretensões universais e filosóficas não foram atendidas – fez apenas ampliações naquele, tornando:o em ponto de partida apenas.

Essa proposta de Schleiermacher também será muito útil para o presente capítulo da dissertação. Afinal de contas, como aquele teórico, desejamos apreender o sentido correto das várias passagens do teatro aristofânico. Concentrar:nos:emos nesse ponto de partida. Somente depois de alcançar o entendimento do texto em si, será possível caminhar em direção a uma hermenêutica mais universal e filosófica, em que se colocam no jogo aristofânico os próprios conceitos prévios, como propõem os hermeneutas contemporâneos.

Benzer Belgeler