Qual a paz que eu quero conservar pra tentar ser feliz? (O RAPPA)
O século XX viu surgir sistemas ideológicos que mobilizaram o pensamento e as forças sociais no mundo todo, entretanto as décadas de oitenta e noventa do mesmo século, presenciaram a derrocada destes conceitos. A queda do muro de Berlim foi o grande marco deste processo, com ela vimos parte do pensamento acadêmico conservador bradando, euforicamente, o fim das ideologias. O ápice desta mentalidade se deu com o escritor, Francis Fukuyama em sua obra, “O fim da história e o último homem”, proclamando o fim da história e de todas as ideologias (FUKUYAMA, 1992). O chamado Neoliberalismo atuou, além de tudo, como uma estratégia para acelerar o fim das bandeiras de luta populares e reivindicatórias (GASPARETTO, 2016). Por algum tempo as oligarquias sonharam com uma sociedade sem oposição às suas pretensões de acumulação injusta de capital e de livre destruição dos recursos naturais do planeta.
Em contraste com o refluxo do movimento tradicional o novo milênio viu se agigantarem novas formas de lutas sociais e políticas. As mudanças econômicas ocorridas na segunda metade do século XX mudaram a perspectiva do capitalismo saindo-se da produção de modelo fordista, o que acarretou um declínio no antigo movimento operário, pulverizando as formas de luta classista e ajudando a aflorar uma série grupos sociais, étnicos e culturais que estavam sedentos de participação. Estes novos sujeitos sociais, imbuídos de novas práticas de mobilização social modificaram o debate político, a tal ponto que as ciências sociais avistaram, nestes, a força de novos movimentos sociais e culturais, que poderiam atuar politicamente para além da dicotomia: força do capital versus força de trabalho (SANTOS, 2008).
As diferenças são marcantes em relação aos movimentos tradicionais, pois os novos movimentos não estão montados em um sistema de hierarquia rígida e centralizada e nem se orientam por sistemas ideológicos fechados e tradicionais. Estes novos movimentos visam à ruptura com a estrutura capitalista, mas buscam também a revolução em todos os aspectos da vida social. Tal transformação social passa, sim, pela transição econômica, mas exige, sobretudo a defesa de bandeiras relativas à liberdade; emancipação humana; direitos fundamentais; direito a Paz Ativa e democrática; direitos ecológicos; culturais; raciais; étnicos; de gênero e de autoidentidade afetiva (GOHN, 1997). Deste modo a crítica dos novos movimentos é particular, pois toca em pontos específicos, mas também é ampla, pois defende um modelo social culturalmente plural; socialmente igualitário; politicamente democrático; ecologicamente equilibrado e economicamente justo (TOURAINE, 2005; SANTOS 2008).
O modelo antigo de mobilização social perdeu espaço para o sentimento de participação democrática presente nos novos movimentos. Neste sentido, Maria Gohn nos diz que, “os novos movimentos sociais falam mais de uma autogestão que de um sentido de história, e mais de democracia interna que de tomada de poder” (GOHN, 1997). Os novos movimentos sociais trazem a expressão das demandas de vários setores populares sedentos de participação e empoderamento. A Cultura de Paz surge dentro desta nova visão de mobilização social, portanto ela está no cenário em que se agiganta a luta dos negros; mulheres; índios; homoafetivos em suas várias formas; sem teto; sem terra; artistas e de todos os grupos e setores que pleiteiam a transformação desta sociedade em outra mais fraterna, justa, solidária e acolhedora. Construir um movimento em prol da Paz Ativa, neste contexto, é transformador, pois “fazer emergir uma Cultura de Paz mostra-se como um ato revolucionário, através do qual saímos de uma relação de dominação para fazer surgir uma nova realidade” (NASCIMENTO; MATOS, 2014).
A cultura de paz é um movimento social que emerge, considerando todos os pontos acima relatados. O objetivo central deste movimento é algo absolutamente legítimo e necessário: a busca pela Paz Ativa e a oposição às várias formas de violência. Para dar andamento a estes ideais é preciso falar na defesa dos direitos humanos ou direitos fundamentais da pessoa humana, para além do formato material que se moldou desde a Declaração de Direitos de Virgínia de 12 de junho de 1776, na Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos do dia 10 de dezembro de 1948, feita pela Assembleia Geral da ONU.
A defesa dos Direitos Fundamentais precisa ter um tônus fortalecido pela vibração e vivacidade dos desdobramentos práticos e perceptíveis destes direitos (BONAVIDES, 2013). Não basta a formalidade escritural do direito, é preciso sair do papel para o mundo. Diante disto, fica evidente que a compreensão dos direitos humanos para a Cultura de Paz não se dá na perspectiva que os teóricos liberais os concebem, pois para os mesmos os direitos humanos reconhecidos são basicamente os direitos formais a liberdade e participação política. A Cultura de Paz reconhece que estes direitos formais são importantes, entretanto insuficientes. Precisamos ir além disto (MATOS, 2015; BIANCO, 2014).
No contexto desenvolvido pelo Movimento em Cultura de Paz é preciso a amplitude do rol de direitos, incluindo também os: sociais; econômicos; culturais; ao trabalho; à saúde; à educação; à Paz; à autodeterminação dos povos; ao desenvolvimento sustentável; meio ambiente e qualidade de vida; conservação e utilização do patrimônio histórico-cultural; mudança de sexo; democracia direta; à informação e ao pluralismo cultural (SARLET, 2009; BIANCO, 2014; BONAVIDES, 2013).
Pensamos que todo este aroma renovador se amolda aos ventos trazidos pelo novo milênio e pela nova era, tempo novo no qual afloram espiritualidade e sensibilidade reformulando os valores sociais e humanos. Embalados por isto, os novos movimentos superam a ideologia cientificista de antes, que quase sempre encarava a sensibilidade como fraqueza. Estas novas mobilizações sociais abrem espaço em seu pensamento para o acolhimento e a afetividade. Esta nova maneira de pensar não vê o ser humano como uma máquina ou engrenagem, mas consegue perceber a importância de cada ser em si e de cada alma com seus contrastes e suas diferenças.
Esta nova fronteira do pensamento abre espaço a uma Educação de novo tipo, a pedagogia da Paz Ativa ou Edupazeamento como veremos a seguir.