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Se a presença dos jesuítas está ligada de forma muito próxima à dos indígenas, o mesmo não ocorre em relação aos escravos africanos que chegaram nos navios negreiros na segunda metade do período colonial. Quer fosse pela escassez de padres para atender a essas novas almas, quer fosse pelo embotamento da consciência em relação à causa da escravidão dos negros (fato presente na sociedade desde muito antes da Idade Média), ou, ainda, quer fosse pela preferência na continuidade dos trabalhos já implementados junto às colônias indígenas, o certo é que os

jesuítas, salvo casos específicos, não tiveram a mesma proeminência na catequização dos escravos.

A situação vergonhosa da escravidão oferecia poucas oportunidades para que aqueles homens e mulheres mantivessem o mínimo de vínculo com suas origens. Eram violentados, separados de seus familiares e parentes, proibidos de praticar sua religião e costumes e não tinham, ao contrário dos índios, uma forma estruturada para aprender a Língua, o que dificultava ainda mais sua sobrevivência numa terra desconhecida. As irmandades foram, segundo RUSSELL-WOOD (2005) “uma resposta associativa a uma necessidade coletiva e individual sentida pelos negros e mulatos da colônia (...) discutida em três categorias: educação religiosa ou socorro espiritual, assistência médica e busca de identidade” (P.193).

A formação das irmandades de negros, a exemplo das já existentes em Portugal, é outro elemento na composição das origens da participação voluntária no Brasil. RUSSELL-WOOD121 (2005) apresenta um estudo profundo sobre o período e ressalta que as irmandades “representaram o nascimento da consciência social na Europa” (P.191), associações que já em Portugal incluíam diversas religiões, raças e idiomas, misturando brancos e alguns negros trazidos da África. Foi seguindo esses modelos, principalmente baseados nos estatutos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que essas irmandades se formaram no Brasil Colônia.

As principais características dessas irmandades foram apresentadas de forma detalhada por RUSSELL-WOOD121 (2005):

primeiro a ênfase na prática das virtudes cristãs em palavras e atos; segundo, um espírito de responsabilidade coletiva pelo bem-estar físico daqueles irmãos (e seus dependentes) que precisassem de esmolas, assistência médica, alimentos, roupas e sepultamento; terceiro, quando os fundos permitiam, um compromisso com a ajuda caritativa aos pobres e doentes da paróquia (p. 192).

A voluntariedade está presente nessas irmandades não apenas em suas ações caritativas, mas na própria conformação organizativa. Formavam-se a partir de grupos de negros ou mulatos, tanto homens como mulheres, que desejavam criar uma entidade associativa que fosse oficialmente reconhecida. Apesar de estarem sob a benção de um santo protetor da cultura católica e ligadas a uma paróquia, eram ambientes onde os diferentes rituais garantiam algum grau de participação a todos os membros.

As irmandades possuíam uma diretoria ou mesa eleita anualmente sob a presença do padre da paróquia. O voto era indireto, contrastando com as irmandades de brancos, onde o voto era direto e secreto. Os candidatos à diretoria eram apontados pelos membros da mesa com representações das diferentes alianças étnicas e tribais.

Só eram elegíveis homens libertos. Somente para os cargos de escrivão e tesoureiro é que se exigia que fossem alfabetizados, sendo que apenas assinar o nome já se considerava um atestado de alfabetização. Todos os membros da irmandade tinham que pagar uma contribuição anual, mas, para serem elegíveis à mesa, os membros pagavam uma anuidade superior.

A mesa era auxiliada por um grupo de conselheiros, um corpo administrativo secundário formado por membros com mais experiência no desempenho do cargo, os quais atuavam sob convocação. Tendo em vista as disputas entre grupos étnicos, o papel dos conselheiros como mediadores era de grande importância. As reuniões eram registradas como minutas em livros, bem como toda a movimentação financeira em livro caixa. Esses escritos serviram de base para o estudo dessas organizações posteriormente.

As irmandades só se tornavam oficiais com autorização da Coroa, de quem recebiam um parco recurso para criar e manter suas igrejas, mas nunca no mesmo nível que as irmandades de brancos. Mantinham-se principalmente com contribuições (mesmo dos negros ainda escravos que contavam com o auxílio dos senhores), fianças, aluguéis, donativos e heranças.

A captação desses recursos partia, principalmente, da iniciativa dos membros da mesa, que, por serem libertos, tinham maior possibilidade de mobilização social. Embora fossem negociações estritamente focadas nas necessidades das irmandades, tratava-se de um exercício político pelo qual gradualmente os membros da mesa construíam um papel de liderança na sociedade de brancos.

Os membros das irmandades eram denominados mordomos e mordomas e se ocupavam das tarefas determinadas pela mesa, tais como:

preparar a igreja da irmandade para as festas, visitar doentes ou levar comida para irmãos presos. As mulheres pertencentes à irmandade tinham um papel vital e essencial na prestação de serviços sociais aos irmãos atingidos pela doença ou pela pobreza e suas famílias (p. 208).

A tarefa de organizar e acompanhar os cortejos fúnebres, com o passar do tempo, ganhou proeminência social, atraindo a filiação de brancos para irmandades de negros.

Os cortejos fúnebres mostravam que o morto tinha importância. Um cortejo pomposo era sinal de prestígio social . Esses simpatizantes brancos se tornavam doadores e passavam a contar com os benefícios da irmandade, muitos deles se acercaram dos negros e de suas causas, sendo a principal delas a abolição da escravatura.

RUSSELL-WOOD121 (2005) afirma, ainda, que as irmandades recebiam apoio da Igreja e dos colonos brancos, pois auxiliavam na manutenção da ordem social. As irmandades negras exigiam de seus membros uma postura coerente de cristãos que mesclavam esses valores aos seus valores de origem.

No sincretismo religioso, desenvolveram práticas próprias, ligando conteúdos de sua origem aos novos, resultantes da cultura religiosa cristã. Acima de todos os benefícios que as irmandades proporcionavam, no caso dos negros e mulatos, tanto livres como escravos, a possibilidade de expressão política e social e a manutenção da identidade foram os principais.

Num cenário de profundas injustiças e desigualdades, a assistência prestada aos membros das irmandades representou um elemento fundamental para a saúde e assistência social mesmo dos libertos, sendo, com outras ações caritativas, um precursor das políticas públicas sociais, confirmando a relação da ação voluntária na saúde e na assistência social. A caridade era um valor ensinado e esperado como prática voluntária do ser cristão, sendo, certamente, o elemento balizador da dignidade humana no período121.

Benzer Belgeler