1. DÜZLEMSEL MEKANİZMALAR
1.5. Kinematik Zincirler
A máxima proferida pelo deputado Numa Pompílio de que “governo é governo” parece enunciar uma verdade que deveria ser entendida como autoevidente, até mesmo por sua proposição tautológica e pelo emprego do verbo no presente atemporal. Em sua estruturação simétrica e cíclica, sujeito e predicado se equivalem pela utilização do mesmo substantivo, cuja ênfase confere ao vocábulo ‘governo’ ares de fetiche. Todavia, é conveniente questionar os termos desse truísmo que atribui ao governo uma feição eterna, onipotente e transcendental, a fim de rediscutir as derivas históricas que forjaram noções cristalizadas de governo, autoridade e de verdade ao longo da vigência da forma republicana no Brasil.
Em Numa e a ninfa, Lima Barreto trabalha uma interpretação audaciosa ao sugerir que um dos principais problemas da república era a própria concepção dominante de governo defendida pelos republicanos positivistas, notadamente os militares. Barreto critica a
compreensão ditatorial que embasava as práticas de governamento na república, referida até mesmo pelos seus defensores como uma “ditadura republicana”, visto que o objetivo era a instalação de um governo “forte”, de inspiração positiva.
Desde Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto repudiava o entendimento da república como uma “ideia religiosa e transcendente” (BARRETO, 1997, p. 167), discutindo como a gestão de Floriano Peixoto foi marcada por arbitrariedades, decorrentes de sua noção de governamento, que se exerceria como uma “tirania doméstica”, “cruel e paternal ao mesmo tempo” (BARRETO, 1997, p. 187). O florianismo é relembrado em Numa e a ninfa como um marco da ditadura republicana, cuja tenebrosa memória jamais deveria ser mistificada ou esquecida, visto que sua noção de governamento “traz no bojo, no fim das contas, um grande desprezo pela vida humana” (BARRETO, 2001, p. 447). O enquadramento discursivo de
Numa e a ninfa utiliza a estratégia de espelhamento, contrastando a figura histórica de Floriano Peixoto à personagem fictícia do general Bentes, aspirante ao cargo de presidente da república no enredo.
Em certa medida, Lima Barreto repercutiu as críticas realizadas por Sílvio Romero no livro Doutrina contra doutrina, publicado em 1894, no qual o crítico literário aponta os entrelaçamentos entre militarismo e positivismo como uma “hibridação extravagante” (ROMERO, 1894, p. LXIX), que produziu efeitos danosos tanto ao exército quanto ao país, visto que, como alerta Romero, “quem tem governado a república [tem] sido o exército; e o sectarismo positivista é quem tem dirigido o exército, cada vez a mais” (ROMERO, 1894, LXXXVIII). Na leitura de Sílvio Romero, o consórcio entre militarismo e positivismo produz “um novo gênero de jesuitismo” (1894, p. LXVI).
Em Numa e a ninfa, existem algumas elaborações ficcionais desses “crentes” e “fanáticos com a mania de catequese de qualquer jeito” (BARRETO, 2001, p. 419). A personagem Inácio Costa é o principal representante deste fervor religioso, mantendo “uma forte crença nos efeitos milagrosos da palavra república” (BARRETO, 2001, p. 418). O narrador faz uma descrição acurada deste tipo social que se notabilizou nas primeiras décadas do governo republicano:
Havia no seu feitio mental uma grande incapacidade para a crítica, para a comparação e fazia depender a toda felicidade da população de uma simples modificação na forma de transformação da chefia do Estado. Passara pelos jacobinos florianistas e tinha a intolerância que os caracteriza e a ferocidade política que os celebrizou.
Feroz e intolerante, com o apoio do positivismo autoritário, a sua concepção de governo se consubstanciava na ditadura e daí resvalava para o despotismo militar. Não se dirá que não fosse sincero; ele o era, embora houvesse nos seus intuitos alguma mescla de interesse de melhoria na sua situação burocrática.
Julgava-se com a certeza; e, firmado na ciência, pois tirava toda a sua argumentação do positivismo, todo ele baseado na ciência, da matemática, condenava os adversários à fogueira.
Escusado é dizer que pouco sabia de matemática e falava por fé. Era um crente que tinha a certeza da revelação política. (BARRETO, 2001, p. 418-419)
Costa estudou na Escola Militar, onde teve contato com as ideias positivistas. Embora o exército brasileiro tenha sido um centro difusor importante do positivismo, é necessário assinalar que a emergência do positivismo no Brasil iniciou-se entre as décadas de 1860 e 1870, incluído no “bando de ideias novas” como falou Sílvio Romero, encontrando um ambiente cultural propício para sua dispersão. Segundo Gilberto Freyre (2004, p. 219), contribuiu para isso a convergência entre a importância do culto a Maria entre os brasileiros e a devoção positivista à figura da mulher.
Além de teoria do conhecimento, o positivismo comtiano se propunha a ser um programa de reforma social, baseado no desenvolvimento técnico-científico e no esquematismo histórico (WILLIAMS, 2007). Embasados numa noção temporal linear e progressiva, a doutrina positivista preconizava que a evolução social cumpriria três estágios, culminando na etapa positiva, na qual a condução governamental estaria a cargo da república ditatorial.
Os militares foram os principais aderentes e divulgadores das ideias positivistas, devido à ênfase nos aspectos científicos, que se conformava com formação técnica que eles valorizavam, inclusive “em oposição à formação literária da elite civil” (CARVALHO, 1990, p. 28). Com a implantação da república, os positivistas conseguiram difundir o afã cientificista por outros setores da sociedade, concorrendo para “uma valorização mítica de quanto pudesse ser qualificado como ‘científico’” (FREYRE, 2004, p. 1024).
O culto à ciência como baluarte da modernidade foi um fenômeno comum nos países latino-americanos, de forma que construíram tradições de pensamento bastante heterogêneas, devido às traduções que realizaram do “bando de ideias novas”. Para Sommer (2004, p. 83), o positivismo na América Latina é marcado pelo ecletismo, que juntou o programa desenvolvimentista de Comte ao organicismo de Spencer.
No Brasil, Holanda destaca que os positivistas “[e]m certo instante, chegaram a formar a aristocracia do pensamento brasileiro, a nossa intelligentsia” e faz uma descrição desse
grupo convergente com as características da personagem Costa do romance Numa e a ninfa, assinalando que os positivistas “[v]iveram narcotizados por uma crença obstinada na verdade de seus princípios” (HOLANDA, 1995, p. 160).
O positivismo adquiriu prestígio e produziu impactos no campo intelectual durante os primeiros decênios do governo republicano. Até mesmo Lima Barreto não ficou incólume a esses influxos, como assinalou Sevcenko (2003, p. 264), que notou a presença da epistemologia positivista na organização dos textos de Barreto e de Euclides da Cunha, evidenciando os efeitos desse ideário no raciocínio criativo da época.
Diferentemente de Holanda (1995), para quem o bacharelismo criou condições para a inserção do positivismo na cultura brasileira, a personagem Inácio Costa considera que os republicanos positivistas teriam acabado com a “pedantocracia bacharelesca”. A orientação discursiva de Numa e a ninfa insiste no argumento de que o governo republicano era contra a formação literária, mas, por outro lado, era deficitário na promoção de conhecimentos científicos sólidos, desembocando numa situação de rejeição ao saber e à cultura humanista, já que a ignorância podia ser fecunda ao governo, como afirma um antigo político (BARRETO, 2001, p. 501).
A crítica de Barreto ao inconsistente culto cientificista e tecnocrata tinha como alvo a articulação entre saberes e poderes que garantiu aos militares e aos positivistas uma predominância política e cultural na instituição da razão governamental republicana. Essa aliança hegemônica reforçou duplamente o traço autocrático, formando uma noção de governo baseada na autoridade sem alteridade. O narrador faz a genealogia de alguns traços dessa “concepção quarteleira” de governamento.
Há, porém, entre os militares uma corrente mais forte que a daqueles que querem um exército adestrado, automático, garboso e eficiente; é a dos políticos. Não que eles sejam eleitores ou deputados; o que eles são é crente nas virtudes excepcionais da farda para o governo e para a administração. A farda, a longa e pesada tradição que representa e evoca, promete muito a todos que a vestem; e os militares não pesam os meios que dispõem para realizar esse muito que lhes é prometido. Para eles, o uniforme dá qualidades especiais; todos são honestos, todos são clarividentes, todos são enérgicos. A tradição de Floriano, sempre mal analisada e sempre falseada em grandeza e poder, muito concorre para isso e faz repercutir no povo a concepção quarteleira.
Há doutrinadores a afirmar que os grandes fatos políticos e sociais do Brasil têm sido realizados pelos militares. O Exército, escrevem eles, tem levado este país às costas. (BARRETO, 2001, p. 499)
A participação do Exército na proclamação da república e a atuação dos presidentes militares marcaram o imaginário cultural brasileiro, contribuindo para a aceitação social de governantes fardados, e até mesmo para o fascínio que a população tinha por figuras despóticas, como Floriano Peixoto, alcunhado popularmente como “Marechal de Ferro”. O modelo de gestão governamental pautado na autoridade pessoal e paternal, cujo ápice foi o período florianista, tornou-se uma inscrição sempre disposta a se atualizar, seja através de golpes mais ou menos explícitos.
Freyre aborda a preferência por governantes “fortes”, mas refutou a hipótese de caudilhismo no Brasil, optando por utilizar o termo “caciquismo”, notoriamente etnocêntrico, para se referir às lideranças autoritárias na política brasileira. Para distinguir o fenômeno brasileiro dos desmandos presentes em outras repúblicas sul-americanas, Freyre (2004, p. 892) ressalva que o “caciquismo” brasileiro é “quase sempre elegantemente moderado ou contido dentro de um gosto, quase invencível nos brasileiros, pelos ritos ou pelas aparências de legalidade”.
Em Numa e a ninfa, a crítica contundente às “aparências de legalidade” questiona os modelos jurídicos e institucionais que conferem legitimidade às práticas de poder e de governamento abusivas, usufrutuárias. O narrador destaca também a simulação da legalidade na política dos estados, como no caso de Contreiras, governador eleito por ser parente de Bentes e que utilizava a força policial como forma de coação sobre os opositores, transformados em réus e obrigados em seus “depoimentos” a “dizer tudo o que convinha à autoridade” (BARRETO, 2001, p. 545), de forma que o aparato estatal é utilizado para simular a legalidade do exercício de poder do próprio Estado, como o narrador sublinha no seguinte excerto:
Havia em Contreiras, como em todos os déspotas de sua escola que se seguiram, um terror extremo diante da lei que violavam. Não tinham coragem de fazê-lo francamente, claramente, ousadamente; mascaravam as suas violências, os seus assassinatos, com subterfúgios legais e outros, falando sempre em liberdade, em ordem, em paz e prosperidade. (BARRETO, 2001, p. 546)
A disjunção entre discurso e prática superpõe processos de significação contraditórios da razão governamental no Brasil, explicitando a lógica polivalente da economia política de uma república, cujos lemas nacionais, desde o “ordem e progresso” até o “saúde e fraternidade”, nunca tiveram seus sentidos construídos coletivamente. Até mesmo a palavra
“república” para os partidários mais fervorosos, como Inácio Costa, poderia soar como “um ídolo oco, vazio de significação”, “uma simples palavra, um palavrão” e “que não continha uma ideia segura” (BARRETO, 2001, p. 517). Todavia, o narrador pondera que “[n]ão se pode bem dizer que fosse totalmente vazio; havia nele, no ídolo, alguma coisa; um desejo imoderado de sangue, de violência, de carnificina” (BARRETO, 2001, p. 517).
A vigência de um governamento pautado na oscilação entre a biopolítica e a tanatopolítica não favorece a construção coletiva dos sentidos e das concepções que embasem a possibilidade de vivência comunitária heterogênea, visto que os dispositivos governamentais impõem significações sociais, que objetivam controlar material e simbolicamente os governados. Em certa medida, muitos impasses dos sentidos republicanos no Brasil estão demarcados no delineamento semântico proposto pelos positivistas e militares, cujos traços permanecem reverberando na história política brasileira.
Em Numa e a ninfa, Lima Barreto utiliza o recurso comparativo, a fim de questionar e abrir a possibilidade de outras significações para a noção de república, colaborando assim para a construção de outras políticas. A personagem Bogóloff, russo e velho anarquista, serve como um contraponto comparativo, especialmente nas conversas que estabelece com Inácio Costa. Bogóloff se surpreende com as opiniões de Costa, que “tinha do governo uma concepção paternal de mujique”, identificando no positivista o desejo de “entregar todos os poderes a um só, a um tirano se esse tirano fosse um militar” (BARRETO, 2001, p. 516).
Bogóloff sublinha as contradições de Costa, que falava em “princípios republicanos”, mas era incapaz de entender “todo esforço dos homens de pensamento em restringir a autoridade, o poder total de um só” (BARRETO, 2001, p. 516), desprezando as técnicas governamentais modernas, que priorizam a “necessidade de contrapesos, de recíproca fiscalização entre os depositários do governo, para que nenhum fosse efetivamente governo” (BARRETO, 2001, p. 516). No entender de Bogóloff, Inácio Costa preza o “governo absoluto”, desejando efetivamente um “regímen russo” ou dos “canatos tártaros”.
Em outra cena, envolvendo Benevenuto e Inácio Costa, este explica que a ditadura republicana consistiria em “suprimir, em diminuir as atribuições desse Congresso, dessa Justiça que perturbam o regímen” (BARRETO, 2001, p. 446), pois em seu entender a divisão entre os três poderes entorpeceria a ação do governo. Para Costa, o florianismo foi o melhor período republicano e deveria ser um modelo a ser seguido, embora não tenha deixado nenhuma obra de grande estadista, como pondera o narrador.
A constante remissão à gestão florianista possui um simbolismo importante ao marcar a possibilidade de repetição que um eventual governo de Bentes poderia ocasionar. Benevenuto percebe o medo do povo com a candidatura do general, já que a população “conhecia essa espécie de governos fortes, conhecia bem essas aproximações de ditadura republicana” (BARRETO, 2001, p. 447). Benevenuto considera que o florianismo foi um “esfacelamento da autoridade, um pululamento de tiranos; e, no fim, um tirano chefe que não podia nada” (BARRETO, 2001, p. 447). Ele rememora o período:
Os moços, os que tinham visto os acontecimentos de 93, quando meninos, no instante da vida em que se gravam bem as dolorosas impressões, anteviam as execuções, os fuzilamentos, os encarceramentos, os homicídios legais e se horrorizavam.
Benevenuto era um desses, desses que aos doze anos viram maravilhas do Marechal de Ferro, o regímen da irresponsabilidade; e não podia esquecer os pequenos episódios característicos do espírito de sua governança, todos eles são brutais, todos eles intolerantes, além de acompanhamento de gritaria dos energúmenos dos cafés. (BARRETO, 2001, p. 447-448)
Se Inácio Costa pregava uma insolúvel conciliação entre liberdade e ditadura como forma de garantir a governabilidade, Benevenuto acredita que “a principal função do governo é desagradar” (BARRETO, 2001, p. 448), invertendo a máxima de Bossuet. Embora escrevesse os discursos de Numa, Benevenuto “não compreendia esse negócio de política”, pois “sentia bem que ao contrário dos que abraçam uma qualquer profissão, os políticos não pretendem realizar o que a política supõe, e isto logo ao começarem”, concluindo suas reflexões com um questionamento irônico: “Singular e honesta gente! Que se diria de um médico que não pretendesse curar os seus doentes?” (BARRETO, 2001, p. 447) .
Mesmo nos posicionamentos mais críticos, como no caso de Benevenuto e do narrador de Numa e a ninfa, é discernível uma concepção de governamento marcada pelo binarismo hierarquizante, em que os governantes detêm o conhecimento necessário para exercer as ações governamentais, sem a possibilidade de interferência dos governados. A analogia entre o político profissional e o médico faz pensar sobre a agência dos governados e dos pacientes sobre a própria cura. Essas visões sobre o escopo do governamento nas primeiras décadas da forma republicana apresentam um contexto controlado pelas oligarquias. Porém, é possível vislumbrar pequenas e decisivas resistências, que potencializaram forças poliárquicas.
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