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1. GİRİŞ

1.1 Mutasyonlar

1.1.2. Yapay (İndüklenmiş) Mutasyonlar

1.1.2.3. Kimyasal Mutajenler

Gostaria de iniciar a discussão deste trabalho com um texto de Clarice Lispector. Acredito que este texto possa nos ajudar a encontrar um caminho que nos guie até mais próximo da resposta à nossa questão inicial, que consiste em encontrar os pontos de aproximação entre a experiência religiosa e a experiência estética contemplativa, no que dizem respeito à busca pelo sagrado:

Estado de Graça,

Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro a inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece com os que lidam com arte.

O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que soubesse que realmente se existe. Neste estado, além da tranqüila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve. É uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.

E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.

No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo que existe – pessoa ou coisa – respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável.

Não é nem de longe o que mal imagino deve ser o estado de graça dos santos. Esse estado jamais conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas o estado de graça de uma pessoa comum que de súbito se torna totalmente real porque é comum e humana e reconhecível.

As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta, silenciosa. É como numa anunciação. Não sendo porém precedida pelos anjos que, suponho, antecedem o estado de graça dos santos, é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.

Depois, lentamente, se sai. Não como se estivesse estado em transe – não há nenhum transe – sai-se devagar, com um suspiro de quem teve o mundo como este é. Também já é um suspiro de saudade. Pois tendo experimentado ganhar um corpo e uma alma e a terra, quer-se mais e mais. Inútil querer: só vem quando quer e espontaneamente.

Não sei por quê, mas acho que os animais entram com mais freqüência na graça de existir do que os humanos. Só que eles não sabem, e os humanos percebem. Os humanos têm obstáculos que não dificultam a vida dos animais, como raciocínio, lógica, compreensão. Enquanto que os animais têm a esplendidez daquilo que é direto e se dirige direto.

Deus sabe o que faz: acho que está certo o estado de graça não nos ser dado frequentemente. Se fosse, talvez passássemos definitivamente para o outro lado da vida, que também é real mas ninguém nos entenderia jamais. Perderíamos a linguagem em comum.

Também é bom que não venha tantas vezes quanto eu queria. Porque eu poderia me habituar à felicidade – esqueci de dizer que em estado de graça se é muito feliz. Habituar-se à felicidade seria um perigo. Ficaríamos mais egoístas, porque as pessoas felizes o são, menos sensíveis a dor humana, não sentiríamos a necessidade de procurar ajudar os que precisam – tudo por termos na graça a compensação e o resumo da vida.

Não, mesmo se dependesse de mim, eu não quereria ter com muita freqüência o estado de graça. Seria como cair num vício, iria me atrair como um vício, eu me tornaria contemplativa como os fumadores de ópio. E se aparecesse mais a miúdo, tenho certeza que abusaria: passaria a querer viver permanentemente em graça. E isto representaria uma fuga imperdoável ao destino simplesmente humano, que é feito de luta e sofrimento e perplexidades e alegrias menores.

Também é bom que o estado de graça demore pouco. Se durasse muito, bem sei, eu que conheço minhas ambições quase infantis, eu terminaria tentando entrar nos mistérios da Natureza. No que eu tentasse, aliás, tenho certeza de que a graça desapareceria. Pois ela é a dádiva, e se nada exige, desvaneceria se passássemos a exigir dela uma resposta. É preciso não esquecer que o estado de graça apenas uma pequena abertura para uma terra que é uma espécie de um calmo paraíso, mas não é a entrada nele, nem dá o direito de se comer dos frutos de seus pomares.

Sai-se do estado de graça com o rosto liso, os olhos abertos e pensativos e, embora não se tenha sorrido, é como se o corpo todo viesse de um sorriso suave. E sai-se melhor criatura do que se entrou. Experimentou-se alguma coisa que parece redimir a condição humana, embora ao mesmo tempo fiquem acentuados os estreitos

limites dessa condição. E exatamente porque depois da graça a condição humana se revela na sua pobreza implorante, aprende-se a amar mais, a perdoar mais, a esperar mais. Passa-se a ter uma espécie de confiança no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes intoleráveis.

Há dias que são tão áridos e desérticos que eu daria anos de minha vida em troca de uns minutos de graça.

Neste texto, Clarice Lispesctor fala de um modo de estar no mundo que se assemelha muito ao que estávamos chamando, até aqui, de experienciar o sagrado, este modo se chama o ‘estado de graça’. Clarice afirma que o estado de alma ao qual se refere não deve ser igualado à inspiração dos artistas, nem ao estado de graça dos santos, é o ‘estado de graça’ de uma pessoa comum. Isso também acontece em meu trabalho, já que em nenhum momento falei sobre artistas ou santos. Discorri apenas sobre contempladores de obras de arte e homens religiosos, ou seja, pessoas comuns.

A autora parece estar discorrendo sobre o mesmo modo de estar no mundo dos contempladores e religiosos, o modo ‘Eu-Tu’, já que é apenas nesta maneira de abrir-se ao mundo, ao totalmente outro, que nos re-conhecemos. Buber (1979) diz que o homem é um ser que está sempre se relacionando com o mundo, porém pode fazê-lo de duas formas: através de uma atitude cognoscitiva, a qual trata o outro como objeto (um ‘Isso’) com características fixas, que servem de instrumento para se atingir uma finalidade; ou de modo dialógico, ou seja, reconhecendo o outro em sua alteridade como existente. Esse segundo modo de se relacionar com o mundo faz com que o outro não possua características fixas, sendo necessário que, a todo o momento, seja mantido um diálogo entre ‘Eu e Tu’. Este outro se apresenta, neste modo, como uma obra aberta a ser relida e refeita por aquele que contempla.

Buber (1979) não condena o modo ‘Eu-Isso’ de estar no mundo, já que afirma que é através dele (quando estamos frente a um mero objeto) que conseguimos produzir ‘ciência’ e passá-la adiante. Clarice parece concordar, já que afirma que se o ‘estado de graça’ fosse nos dado freqüentemente “talvez passássemos definitivamente para o outro lado da vida, que também é real

mas ninguém nos entenderia jamais. Perderíamos a linguagem em comum” (Lispector, 1975, p.102).

No modo de se relacionar ‘Eu-Tu’ também produzimos conhecimento, porém neste caso ele é totalmente diferente do ‘cientifico/verificável’. Isso acontece porque apesar de produzirmos conhecimento através do diálogo com um outro desconhecido, esta produção é totalmente diferente da que estamos acostumados. Neste diálogo ao conhecer o outro (“Tu”) também tenho acesso a um auto conhecimento (“Eu”).

Este conhecimento produzido no diálogo, não tem uma finalidade. Como afirma Clarice: Apenas isto: sabe-se. Mas sabe-se de que? Sabe-se de si. O transcendente, neste caso, me leva a mim mesmo. Inverto a frase do texto: ganho a terra, uma alma e um corpo. Através do profundo contato com o mundo, como este se apresenta, experimento a dádiva indubitável de existir materialmente. É isso que acontece com os homens que entram em contato com o sagrado através dos símbolos da religião e da arte.

Os símbolos, por serem paradoxiais, podem ser entendidos como os melhores representantes do ‘totalmente outro’. Eles fazem parte do mundo, mas ao mesmo tempo estão apartados deste, estão suspensos. Por isso facilitam o contato com o transcendente. O símbolo não tem finalidade instrumental, ele possui uma dimensão de totalmente fora, totalmente estranho, totalmente outro, mas ainda sim está aqui-e-agora, e é por isso que mesmo estando quase desencarnado consigo me dirigir a ele. Posso estar totalmente com ele, formar uma unidade. O diálogo pressupõe dois em consonância, Eu e Outro – Outro e Eu. Habitando o mundo do outro, a sua verdade, conheço a minha verdade.

É uma anunciação, faz-se a luz, e saindo do escuro vejo o mundo e me vejo nele. Passo do temor frente à escuridão do mundo ao fascínio da existência. Tudo está claro, existe um sentido. A forma como o outro chega até mim me toca, pois eu estava atento à sua aparição, apenas o esperava, calmo, sem pré-concepções. E por não possuir juízos prévios, esta forma do outro me parece a forma mais apropriada, a ‘melhor forma’. Sem finalidade, a forma é

bela porque é plena, nada falta e nada sobra. Ela é verdadeira no que diz respeito à sua existência.

Infelizmente, como dito anteriormente ela é bela para mim, porque eu a esperava e ela apareceu. E por isso, “As descobertas nesse estado são indizíveis e incomunicáveis. É por isso que, em estado de graça, mantenho-me sentada, quieta silenciosa.” (Lispector, 1975, p.102). Como em uma oração, uma meditação. Não é possível explicar essa beleza, ela é inefável, e nem pode-se exigir dela nada além desta sensação leve e suave de ‘ser-com’. Nunca sentimos fastio ao experimentar a graça, mas uma hora, sem mais porquê, sai-se deste seu estado.

Aos poucos aterrisa-se novamente, neste local em que, como diz Tillich (1976) estamos condenados ao destino, à vacuidade, à culpa. Porém, como escreve Clarice, voltamos da graça melhor do que entramos, somos capazes de aceitar os estreitos e pobres limites da condição humana. Na graça aprendemos a amar mais, a perdoar mais e a esperar mais.

Agora, pode-se compreender o que aproxima a experiência religiosa e a experiência estética contemplativa: tanto uma quanto a outra nos possibilitam, através de suas hierofanias, seus símbolos, que entremos em ‘estado de graça’. Ambas proporcionam este momento de re-ligação. Nos re-aproximamos do mundo e de nós mesmos, de nossas verdades. A partir delas damos sentido a nossa existência, nos sentimos realmente presentes no mundo. Somos inteiros e recebemos o mundo inteiro.

Atualmente, porém, vivemos em uma sociedade de custo-benefício, as coisas apresentam valor enquanto nos servem para que consigamos atingir uma finalidade. O valor das coisas está em seu ‘objetivo’, ou seja, no que as torna objetos de consumo. Elas são usadas e descartadas porque não nos dizem respeito, foram adquiridas para um fim. Por isso as usamos como ferramentas, estamos sempre as utilizando para um projeto de futuro, um ainda não. Assim, preocupados com o por vir, não temos tempo de contemplá-las em sua pura existência, no aqui-e-agora.

Este futuro pelo qual nos ocupamos, não é o futuro do vir-a-ser, das próprias potencialidades, em que constrói-se a si mesmo a cada minuto presente em busca do sentido; é um futuro instrumental, em que utilizamos as coisas no agora para chegarmos a um final já programado, geralmente ditado pela sociedade. Hoje em dia, raramente estamos construindo a nós mesmos juntamente com o mundo, pelo contrário, recebemos um manual, um discurso pronto e obedecemos sem prestar atenção se realmente nos cabe.

É por isto que nesta sociedade, mesmo depois de conquistar muitos objetivos, não raramente, nos sentimos vazios, sozinhos, e questionamos se realmente conquistamos algo de Valor. O Valor a que me refiro aqui é diferente do valor de uso, é o Valor da coisa por ela mesma, no que ela me toca por ser quem é, em tudo que ela tem de Sagrado. Fica claro, então, a importância de o homem passar por experiências religiosas e estéticas contemplativas, ambas, enquanto busca do Valor, da Verdade, do Sagrado, proporcionando seus ‘estados de graça’ que fazem com que consigamos suportar melhor os dias áridos e desérticos, confiando que haja um sentido para nossa existência.

-Aproximação ao processo terapeutico

Observando a sociedade atual pude notar que devido às características citadas acima, salvo raras exceções, os homens parecem não ter interesse, ou tempo de se dedicar a experiências que os levem a este contato com o Sagrado.

Pode soar estranho pensar isto, visto que a cada momento vimos surgir uma nova religião, uma nova seita, etc. Porém estas parecem não proporcionam a verdadeira re-ligação, parecem impor verdades, que são ‘compradas’ por seus fiéis sem devida reflexão. O Deus dessas religiões é um Deus tão ‘bonzinho’, que faz com que os religiosos nem tenham que entrar em contato com suas angústias, suas questões, consigo mesmos. Tudo está pronto, e se você seguir à risca as normas da igreja seu futuro está garantido, pelo menos o futuro que este Deus programou para você. Por outro lado, cresce cada vez mais o número se pessoas que se dizem não religiosas, ou que não acreditam na existência de um Deus.

Também vê-se que a nossa cultura, representação maior das manifestações artísticas de um povo, já quase não tem força. Hoje é preferível comprar a cultura alheia porque não temos tempo de ir atrás da nossa. Engole- se esta cultura estrangeira de uma só vez, sem degustá-la, talvez para assim não perceber que ela não nos diz respeito. Além do mais, por incrível que pareça, a cultura alheia é de mais fácil acesso: mais barata, mais divulgada, etc. Enquanto isso a nossa cultura, que proporcionaria um momento de reencontro conosco, mantém-se marginalizada, escondida, ridicularizada, e quando ‘bem tratada’ inacessível pelo seu alto custo.

Como comentado, atualmente os homens tratam os outros como coisas, objetos para um fim, se tornando objetos também. Tem-se que seguir regras, normas de funcionamento, manuais, para atingir a finalidade imposta pela sociedade. Vez ou outra, quando estes homens acham que não vão dar conta de seu isolamento, de suas carencias, surge a indicação de um bom ‘auto- ajuda’ que vai instruí-lo a encontrar um modo mais ‘prazeroso’ de chegar ao ‘seu’ objetivo e ser feliz. Porém ai novamente os homens estão seguindo passos, indo pelo caminho de outros, e não desbravando o seu próprio.

Por tudo isso, e mais, que sem experienciar momentos de contato consigo mesmos, de re-ligação, um contato com uma realidade sagrada, o homem sente-se muitas vezes apartado de si mesmo, sem rumo, sem um sentido que guie sua existência. Parece não ter um ponto de apoio, sente-se ansioso, querendo controlar a si mesmo como se fosse objeto. Quer encaixar- se nas normas da sociedade, porém nem sabe se estas têm sentido para ele.

Então, a partir da leitura de textos de alguns autores, como Cardella (2002), Cardinalli (2000), Juliano (1999) e Pompéia (2000) sobre a psicoterapia, pude pensar que o setting terapêutico pode ser visto como um espaço atualmente utilizado para que o homem se re-encontre: experiencie momentos sagrados. Este homem que procura a terapia vem em busca de socorro, geralmente está sofrendo, ‘patologizado’. Está tão imerso neste modo de ser que a sociedade impõe que não consegue entrar em contato consigo mesmo, não sabe quem é realmente. Seu sintoma parece surgir como um pedido para que ele pare, se olhe, se sinta.

Procurar a terapia seria o primeiro passo para que o homem abandone este modo restrito de ser: o modo da reprodução, que lhe causa sofrimento. Quem procura terapia quer se cuidar, se tocar, envolver-se consigo mesmo, quer refletir. E, no caso, o trabalho do terapeuta é exatamente devolver o paciente para si mesmo, como um espelho e, assim, ajudar a re-instituir um diálogo dele consigo mesmo. O psicólogo convida o paciente a transformar o discurso pronto que recita a si mesmo, no qual se utiliza de fundamentos adotados do cotidiano, em diálogo, com a finalidade de aprofundar-se no real significado do que diz.

O terapeuta instiga este diálogo através de um método, o não saber, o não julgar, o não ter pré-concepções, e o olhar interessado, o acolhimento, a tentativa de compreensão. Ou seja, ele quer que o paciente se olhe com estranheza, como um outro, pois a alteridade não traz respostas e sim enigmas que instigam a ir mais fundo. Olhando para sua vida como quem contempla uma obra de arte, abrindo-se e envolvendo-se com ela sem julgamentos e sentindo-se acolhido, o paciente sente-se autorizado a envolver-se, encantar- se com sua história. Assim, de modo pré-reflexivo e sem as censuras do dia-a- dia, o homem fica livre para nomear as coisas como as sente realmente, clareá-las. Sai-se do escuro, verdades são desveladas.

Estas verdades, porém são pessoais, singulares e liberam do sintoma, deixando-o livre para desenvolver-se em busca do sentido próprio. Entrando em contato real com a obra que é a própria vida, envolvendo-se consigo mesmo o homem pode desenvolver-se. Fazemos poesia com a própria vida e por isso passamos a achá-la bela, desse modo, com a terapia também aprendemos “a amar mais, a perdoar mais, a esperar mais. Passa-se a ter uma espécie de confiança no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes intoleráveis.” (Lispector, 1975, p.103).

Benzer Belgeler