2. GEREÇ VE YÖNTEM
3.1. Fleplerin yaşayan alanlarının değerlendirilmes
3.1.4. Kimyasal geciktirme grubunda fleplerin yaşayan ve nekroz alanları Metilen mavisi günde bir kez 10 gün süre ile % 1’lik 1 ml/kg dozunda
O século XVIII é conhecido historicamente como o século das “Luzes”, por ter sido influenciado pelo movimento europeu da Ilustração, quando a razão passa a ser o grande mote. Herdeiros de um conjunto de transformações mentais ocorridos desde o Renascimento Cultural até a crise da consciência europeia do século XVII, homens e mulheres ligados às letras, assim como grupos de intelectuais, ávidos por compreender o mundo e as relações humanas nos quais estavam inseridos, analisam, comparam e experimentam, como também contestam, por meio da razão, todo e qualquer caráter de faculdade inata.180 A ciência para
eles passa a ser a da Natureza, sendo o laboratório criado para operações misteriosas, como cortar, dissecar, observar por microscópio e agitar frascos com substâncias estranhas. Segundo Paul Hazard, “Estamos perante a crítica universal; exerce-se em todos os domínios, na literatura, na moral, na política, na filosofia; ela é a alma desta idade controversa”.181
Todavia, esta é apenas uma das faces do século XVIII no mundo Ocidental no que se refere ao universo das ideias, como, aliás, Paul Hazard enfatiza em seu estudo. A grande massa de homens e mulheres estava fora do círculo dos salões, e permanecia, de modo geral, alheia ao furto realizado pela Natureza, lugar antes ocupado pelo Criador. Massa essa que ainda permaneceria pautada por um mundo comandado pelo sopro onipresente de Deus, com
180Paul Hazard, O Pensamento Europeu no século XVIII (De Montesquieu a Lessing). Lisboa: Editorial
Presença, s.d., p.36.
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práticas culturais ritmadas pelo compasso religioso e à espera de uma salvação eterna, sobretudo nos lugares cujas monarquias desde o século XVI teriam optado pela Contra- Reforma.182
Como na América Portuguesa, onde, para além dos pequenos grupos ligados às letras, os ideais da Ilustração dificilmente foram acessados. Ao analisar os documentos da época, torna-se claro que na vila do Recife, por exemplo, as ideias mais vitais e caras ao movimento das Luzes atingiram uma parcela diminuta de sua população. Quando conseguiam atingir um número maior de pessoas, dava-se por vias diversas e/ou transversais e não de forma sistematizada, tendo em vista, entre outras coisas, as dificuldades na obtenção e na circulação de livros, e ocorrendo, muitas vezes, “ao sabor” de diferentes apropriações e interpretações. Segundo Julita Scarano, na América Portuguesa,
os ideais da Ilustração afetaram apenas as pessoas mais cultas, como os intelectuais das Minas Gerais, mas isso não significa que a população tenha acompanhado ou tomado conhecimento das novas modas culturais, e abandonado suas antigas convicções. O apelo às forças sobrenaturais, a importância da magia e a persistência da crença na existência de um mundo que se sobrepõe a este mundo carnal continuou e manteve sua preponderância no decorrer daquele século e também nos posteriores.183
Para Scarano, a ciência e as mudanças na maneira de significar a vida e a Deus não teriam modificado a visão corrente que tinham os luso-americanos de um mundo de enigmas e de mistério envolvendo todas as coisas. As ideias místicas, a religiosidade e a precariedade da vida, a falta de explicação para fenômenos corriqueiros como os astronômicos e os meteorológicos, conta ela, levavam as pessoas a uma busca do espiritual, do mágico, à crença na possibilidade de obter auxílio por diferentes meios.184
Assim acontecia no Recife setecentista. Sua população se voltava constantemente ao invisível, ao Alto, para significar a vida e a morte, para fazer os seus apelos e receber algum tipo de sinal como ajuda. Tanto que, no dia 5 de março de 1774, teria caído uma tempestade tão forte na vila, repleta de raios e barulhentos trovões, que “assustou-se o povo de tal sorte,
182No entanto, deve-se ter em conta a circulação de ideias entre a denominada cultura popular e a cultura erudita
e, com isso, a recepção de determinados novos valores nas camadas que se encontram distantes dos espaços de discussão filosófica, como parece ocorrer no Recife setecentista, sobretudo no que se refere a uma certa racionalização do trabalho e na apropriação de um instrumental burocrático-administrativo por parte dos irmãos da Irmandade de São José do Recife, por exemplo. Isto será melhor tratado no capítulo terceiro deste trabalho.
183Julita Scarano, Fé e Milagre: Ex-votos pintados em madeira: Séculos XVIII e XIX, São Paulo: EDUSP, 2004,
p.11.
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que começou a praticar devotíssimas procissões; e o do bairro do Recife, invocando a proteção de N.S. da Conceição do Arco da Ponte, atribuiu ao seu patrocínio o aplacar-se a tormenta sem causar dano algum naquele bairro”.185
Dessa forma, para maior parte da população, principalmente para os grupos subalternos dos quais, por exemplo, faziam parte os oficiais dos quatro ofícios anexos e confrades de São José, a fé é que era soberana e a sabedoria da fé, quase sempre, superava a razão. Segundo Virgínia Assis, na capitania de Pernambuco, até mesmo os “barões do açúcar” não deixavam de prestar sua homenagem a Deus e acreditavam piamente em céu e inferno, no milagre da consubstanciação, em Cristo e na Virgem Maria. São testemunhos de sua fé, a grande quantidade de imagens sacras em suas casas, as narrativas dos milagres, os ex-votos, as inúmeras igrejas construídas sob seus patrocínios, assim como a fundação de irmandades do Santíssimo Sacramento, que, na função processional de levarem o Viático a enfermos e moribundos, seus membros acabavam por cumprir um preceito básico do catolicismo, que seria a última comunhão de Cristo, simbolizando a fé em uma vida futura.186
A preocupação com o fenômeno da morte era, de fato, algo sempre presente nessa sociedade, pois esse acontecimento independia da vontade de cada um, dependia somente da vontade do Criador. Eles acreditavam na salvação da alma e em uma vida plena no pós-morte. Não aleatoriamente que este tema figura como uma constante nos Compromissos das irmandades leigas da América Portuguesa, pois, eram elas responsáveis, em grande medida, pela encomenda da alma de seus membros por meio de celebrações de missas em seus nomes. E quanto maior fosse o número de missas recebidas pela alma que deixara o corpo, maiores seriam as possibilidades para ela se livrar do fogo eterno do inferno.187
Essas missas eram levadas tão a sério que os capelães que atendiam as irmandades as registravam em um livro específico. Assim acontecia na Irmandade de São José188 e em
outras, como, por exemplo, na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Recife, que registra, em 11 de agosto de 1752, o seguinte: “O Padre Manoel Bernardez da Camara
185Francisco A. Pereira da Costa, op.cit., vl.6, 1984, p.328.
186Virgínia Maria Almoedo de Assis, Pretos e Brancos a serviço de uma ideologia de dominação (o caso das
Irmandades do Recife), Dissertação de Mestrado, Recife: CFCH/UFPE, 1988, p.63-66.
187Ibidem, p.74. De acordo com Virgínia Assis, quanto mais rica a irmandade, maior o número de missas
celebradas. Podemos perceber a disparidade na quantidade de missas celebradas por diferentes grupos sociais nos exemplos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e do grupo de oficiais capineiros do Recife.
188Não conseguimos encontrar esse livro de certidões de missas da Irmandade de São José, mas sabemos de sua
existência por ter sido citado na documentação referente à administração da dita irmandade. Os registros de missas direcionadas às almas de seus confrades que tivemos acesso encontram-se, principalmente, no primeiro Livro de Receitas e Despesas da Irmandade de São José, cuja referência encontra-se por todo esse capítulo.
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(...) Certifico que dice des missas pela alma de Francisco Pinto Irmão de Nossa Senhora do Rozario dos Pretos desta Vila,e receby dous mil reis do Procurador da dita Irmandade (...)”.189
Os oficiais capineiros da Praça da Polé, das Cinco Pontas, da Rua da Praia e da Boa Vista também possuíam conjuntamente um livro de recibos, no qual também registravam as despesas com as missas encomendadas. Nesse livro consta um registro que diz:
Certifico eu abayxo aSignado, que disse hua Missa pella alma de Miguel, escravo do Padre Antonio morador em olinda, com a esmolla de duzentos Reis que receby de Matheos [Pereira] Capitam mandante da Praça dos Capineiros, e por virdade passej esta de mesma Letra e Signal e o juro in Verbo Sacerdotis. Recife 10 de Junho de 1772. Manoel Rodriguez Ferreira.190
Os rituais de “boa morte” eram de extrema importância para essa sociedade, pois tinham a função de homenagear o morto e ajudá-lo a trilhar o caminho para o outro mundo, a realizar a “grande passagem”. A exemplo disto, Loreto Couto conta, em 1759, como se dava essa prática entre os membros da Irmandade de São Pedro dos Clérigos do Recife: “(...) fasem fervorosa assistencia a seos Irmaõs na ultima infirmidade, acompanhando todos em corpo de cómunidade com sirios brancos, esquife proprio, estações com responsos, ao Irmão que morre, e lhe fazem muytos sufragios pela sua alma”.191 Dentre esses rituais, certamente, o
sepultamento tinha uma posição de destaque. Havia um temor muito grande em não ter seus corpos sepultados ou mesmo de terem um sepultamento sem honras. Também era importante que a sepultura fosse feita em terreno sagrado, pois, no imaginário religioso setecentista, isto significava encaminhar a alma para a salvação.192
Assim, encontramos alguns registros no livro de contas da Irmandade do Patriarca São José que sugerem a importância conferida ao sepultamento dos corpos, entre os quais
189Cf. Recife, Arquivo da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em
Pernambuco – IPHAN/PE, Livro de Recibo de Esmolas de Missas da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário
dos Pretos. 1751-1849, Livro 33, p.11.
190Cf. Recife, Arquivo da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em
Pernambuco – IPHAN/PE, Livro de Recibos (1765), arquivo deslizante nº 6, prateleira nº 2, Caixa nº 6, fl.5v. Daqui para frente, o presente documento será citado da seguinte forma: IPHAN/PE, Livro de Recibos, e o fólio correspondente da citação feita. Faz-se necessário informar que este livro de recibos de missas dos capineiros encontra-se, no Arquivo do IPHAN, como pertencente ao corpo documental da Irmandade do Patriarca São José dos Oficiais dos Quatro Ofícios Anexos.
191Domingos do Loreto Couto, op. cit., p.157. Como informação ao leitor, “responso” é uma oração ou uma
súplica que se diz pelos defuntos. Isso quer dizer que, durante a condução do corpo do morto, os membros da Irmandade de São Pedro dos Clérigos faziam paradas para realizar os tais responsos.
192Daniel Precioso, Legítimos vassalos: pardos livres e forros na Vila Rica Colonial (1750-1803), São Paulo:
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podemos citar dois bem significativos: em 1763 aparece uma “Despesa que fez em pagar a hum preto que abrio huma sepultura pera um pobre que botarão na porta da Igreja”, e entre os anos de 1782 e 1783, “Pelo que se deo de esmolla do defunto que [apareceu] afogado na praia e se [deo] sepultura (...)”.193 Em ambos os registros, a Irmandade decide providenciar o
sepultamento dos dois homens, que, apesar de não serem seus confrades, não tiveram como arcar ou preparar previamente o sepultamento de seus corpos. Dessa forma, é possível ver o quanto o sepultamento era importante para essa sociedade, além de mostrar também outro princípio do catolicismo durante o setecentos: a caridade.
Na doutrina mística de Antônio de Pádua – o santo lisboeta –, por exemplo, o homem perfeito é o homem caridoso, que vive só do fogo da caridade. A prática das virtudes evangélicas e, sobretudo, o amor dispõem a pessoa para acolher o dom do Senhor, assim, o amor é necessário. Na mística, todo amor vem de Deus, por isso, Ele nos oferece a possibilidade e os elementos que caracterizam o amor: a benevolência, a ajuda e a confiança. Uma vez que Deus ama e que nele esse alo é extensivo ao seu ser, Ele não ama nenhum ser menos que a si mesmo. Portanto, quando Deus ama uma alma, Ele, de certo modo, a põe dentro de si e a torna igual a si.194
Citamos acima Santo Antônio, que por sinal é padroeiro de Pernambuco, onde a devoção a este santo era fortíssima em tempos coloniais, como também citamos a invocação do povo do Recife pela proteção de Nossa Senhora da Conceição durante uma tempestade em 1774. Nesses tempos, os santos continuaram a ser muito populares, assim como as hagiografias não tinham perdido o seu papel na cultura colonial, daí a permanência da sua difusão entre os crentes, que viam na vida dos santos o modelo de vida a ser seguido.
De acordo com Caio Boschi em seu trabalho de referência sobre as irmandades leigas coloniais, havia um caráter intimista na religiosidade na América Portuguesa, na qual o sobrenatural era atingido pela intermediação dos santos, estes entendidos pelos crentes dessa época, praticamente, como entidades familiares, próximas e acessíveis. Ele explica que, embora teoricamente a invocação dos santos tenha sido incentivada por decretos reformistas do Concílio de Trento, ela correspondia, na prática, a reinvindicações essencialmente imediatistas e temporais. Para além da afinidade epidérmica ou pela identidade de origem
193IPHAN/PE, Livro de Receitas e Despesas, p.35 e 85v.
194CARUANA, E., BORRIELO, L., DEL GENIO, M. R. & SUFFI, N. Dicionário de Mística. São Paulo: Paulus,
2003, s.v. “Antônio de Pádua” e “amizade”. Resumidamente, “mística” é a experiência que se faz no plano sobrenatural e nos mistérios do encontro homem-Deus. Para ela, provindo de um único Criador, a natureza humana é a mesma em toda parte, feita a imagem de Deus e voltada para a consecução da semelhança com ele. Para os cristãos, a imagem é o dom recebido com o ser e esta semelhança se realiza sob o influxo do Espírito Santo, na dependência da Encarnação redentora e mediante a imitação de Cristo, Cabeça do Corpo místico, que é a Igreja. Para mais informações, ver neste mesmo dicionário, s.v. “mística”.
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geográfica, as invocações eram escolhidas pelas pessoas, muitas vezes, pela afinidade com suas agruras vivenciadas no mundo terreno.195
São inúmeras as invocações encontradas no Recife setecentista, fato que pode ser percebido, só para começar, pela quantidade de oratórios particulares construídos em diversos pontos da cidade: quarenta e dois, de acordo com Loreto Couto, que eram embutidos na face exterior das paredes das casas, “dando as ruas maior lustre”.196 Segundo Pereira da Costa,
nesses pequenos santuários de madeira se venerava um santo qualquer, como o do nome dos donos da casa, ou outro da sua particular devoção, mas, a maioria era dedicada à Nossa Senhora. Na frente desses oratórios, “se rezavam com ajuntamento de pessoas de um e outro sexo, permitindo apenas que se rezassem pelas mulheres das suas janelas, e pelos homens das lojas ou portas das suas casas”.197 Em dias festivos, os fiéis colocavam como extensor desses
nichos uma espécie de altar sobre a calçada, coberto por um toldo que chegava até o meio da rua, improvisando, assim, uma capela para realizarem as celebrações dos atos religiosos.
Como visto, algumas dessas invocações possuíam nichos em casas de particulares ou em alguma via pública. Outras tantas poderiam possuir até seu templo próprio, ou apenas um altar lateral em alguma igreja da vila. Era o caso de Nossa Senhora do Rosário, que tinha seu próprio templo, construído pela inciativa dos confrades da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Recife, e, nos altares laterais de sua igreja, estavam abrigadas as invocações à Nossa Senhora da Boa Hora, a São Domingos, e aos santos pretos Eslebão, Moisés, Benedito, Antônio de Catagerona, Efigênia e o Rei Baltazar.198 Também era o caso
de São José, que também tinha seu próprio templo, construído pelos confrades da Irmandade do Patriarca São José dos Oficiais dos Quatro Ofícios Anexos, e que abrigava em seus altares laterais às invocações à Nossa Senhora das Mercês, ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos e à Santa Apolônia. Foi, por exemplo, neste altar de Santa Apolônia que o Governador Correia de
195Caio César Boschi, Os leigos e o poder: Irmandades Leigas e Política Colonizadora em Minas Gerais, São
Paulo: Ed. Ática, 1986, p.59.
196Domingos do Loreto Couto, op. cit., p.159.
197Francisco A. Pereira da Costa, op.cit., vl.6, 1984, p.492. Segundo Pereira da Costa, os exercícios religiosos
praticados nesses nichos, nada tinham de edificantes aos olhos das autoridades civis e eclesiásticas. Ele explica que foram tantos os abusos, irreverências e desordens que, muitas vezes, era solicitada a intervenção da polícia. Por isso, em 1787, o bispo diocesano, D. Fr. Diogo de Jesus Jardim, proibiu esses exercícios religiosos ao ar livre, em plena rua, e noturnos. Todavia, depois de algum tempo, as prescrições do bispo foram pouco a pouco sendo relaxadas, até se tornarem completamente abolidas e os exercícios religiosos voltaram a ser feitos em frente a esses oratórios. Ver nessa mesma obra, p.494.
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Sá se encontrava no dia 9 de fevereiro de 1756, dia da santa, de acordo com anotações desse dia em seu diário: “Fui às Cinco Pontas fazer oração à Santa Apolônia”.199
A escolha – e apropriação – dessas invocações poderia se dar por diferentes vias: pelo exemplo de vida deixado pelo santo, por uma qualidade sua específica e admirada, pelo seu dom de interceder pelos homens, pela identidade do fiel com algum episódio de sofrimento em sua vida ou com algum de seus aspectos físicos – como a cor da pele –, entre muitas outras vias. Assim, os pretos, escravos ou forros, por exemplo, tendiam a buscar alívio e socorro invocando santos de pele mais escura, como Santo Eslebão, São Benedito e Santa Efigênia, pois supunham que dificilmente os santos brancos saberiam compreender os dissabores e sofrimentos dos negros.200
Outro exemplo esteve na tendência de artífices invocarem santos que exerceram em vida os mesmos ofícios que os seus, ou que, de alguma forma, os representassem, como: Santo Elói, que era, além de bispo, ourives; São Crispim e São Crispiniano, irmãos que ganhavam a vida como sapateiros; Santa Apolônia, que se tornou orago daqueles que exerciam o ofício de tirar dentes; e São José, santo carpinteiro. Evidentemente que a escolha dessas invocações era muito complexa e de identificação pessoal, e a invocação de um determinado santo não excluía a invocação de outro ou de outros. Podia-se “adotar” um santo para devoção pessoal e invocar muitos outros de acordo com as diversas situações e ocasiões. Segundo Caio Boschi, na América Portuguesa, o caráter essencialmente prático e imediatista das invocações buscava suprir a insegurança emocional de seus coetâneos, levar consolo e prestar auxílio nas doenças, o que teria permitido a prática de uma religião calcada no íntimo e direto contato com os santos. Por isso, o culto aos santos, longe de ser uma
199“O Diário do Governador Correia de Sá 1749 a 1756”, op.cit., p.310 e 371. Também identificamos abrigadas
na Igreja de São José as invocações à Santa Luzia, à Nossa Senhora do Bom Parto, ao Senhor Bom Jesus da Caridade, ao Senhor Bom Jesus dos Pescadores e à Nossa Senhora da Luz. No entanto, todas essas invocações são encontradas na dita igreja apenas no século XIX, com exceção da invocação à Santa Luzia, da qual ainda temos algumas dúvidas, pois existe como patrimônio da Irmandade de São José uma imagem desta santa produzida no século XVIII, mas ela só é citada no inventário da Irmandade de São José do ano de 1941 e não conseguimos obter mais dados sobre ela. Para mais informações, ver em: IPHAN, “Igreja de São José do Ribamar”, op. cit., vl.1, 2004, na lista das imagens religiosas pertencentes à Igreja de São José, s.p.
200Caio César Boschi, op.cit., p.26. Não é o nosso objetivo aqui entrar em detalhes sobre os atributos de cada
uma dessas invocações – exceto a invocação a São José –, nem sobre o porquê das escolhas de cada uma delas pelos fiéis, mas sim apresentar o ambiente mental em que estavam inseridos os coetâneos do Recife setecentista. Para informações sobre esse assunto, ver, entre outros trabalhos: BEZERRA, Janaína Santos. Pardos na Cor &