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2. KÜLTÜR, KİMLİK VE ÇOKKÜLTÜRLÜLÜK

2.2. Kimlik Kavramı

2.2.2. Kimlik Kavramına Farklı Yaklaşımlar ve Kimlik Çeşitleri

2.2.2.1. Alt Kimlik

2.2.2.1.2. Etnik Kimlik

agrário

Apesar de estar em evidência na geografia e em outras ciências como a antropologia e a sociologia, o conceito de território é bastante antigo e foi fundamental para a formação da ciência geográfica.

A palavra território epistemologicamente é próximo de terra- territorium quanto de terreo-territor (terror, aterrorizar) (HAESBAERT, 2004), ou seja, tem relação direta com a idéia de dominação de uma área através do terror, do medo.

Inicialmente na geografia esse conceito estava estritamente ligado à apropriação do solo pelo Estado. O defensor mais conhecido dessa proposta era o geógrafo alemão Ratzel, que via a sociedade somente de forma passiva incapaz de gerar transformações espaciais (RAFFESTIN, 1993). A partir dessa ótica apenas o Estado era capaz de formar território (SOUZA, 2001). Essa percepção da escola alemã conduzida por Ratzel foi tão forte e atrelada ao poder político no período, que nem a escola francesa, a priori, conseguiu desconstruir essa linha de pensamento.

Ressaltamos que a fase em questão era a segunda metade do século XIX, onde os Estados eram (via de regra) totalitários, justificando, de certa forma, o panorama teórico e metodológico utilizado nesse período inicial da ciência geográfica.

No entanto, os estudos geográficos recentes mostram que a formação do território não é feita apenas pelo Estado, mas também pelo domínio do solo através das relações de poder estabelecidas pela sociedade por meio da produção capitalista do espaço. Nesta perspectiva alguns territórios coexistem e em alguns casos eles são interdependentes.

Apesar do território se caracterizar como uma apropriação do espaço a partir das relações de poder, é possível coexistir mais de um território no mesmo espaço. Nesta situação eles não são necessariamente excludentes, podendo existir concomitantemente no

espaço e no tempo, gerando ou não conflitos e se articulando ou não nas relações capitalistas da produção do espaço.

No bojo da tentativa dessa compreensão, percebe-se que há a existência de várias escalas territoriais no espaço agrário e que eles se apresentam de diferentes formas. Nesta direção os agentes produtores dos territórios se mostram compostos pelas forças e formas diferentes de apropriação que são norteadas pelas relações de trabalho. A despeito desta colocação Haesbaert (2004, p. 344) complementa alegando que “toda relação social implica uma intenção territorial”.

Ressalta-se ainda que as relações de poder têm uma escala de produção de território bastante variada, mas não se concretiza em apenas uma única pessoa, organização ou grupo social. Mesmo quando a percepção do poder é aparentemente personificada em um único indivíduo, na verdade ele pertence a um grupo unido por congruências de interesses.

A formação do pensamento geográfico sobre o conceito de território hoje tem como principal norte Raffestin e a sua obra Por

uma geografia do poder. Autores como Milton Santos e Rogério

Haesbaert entre outros partem dele para explicitar os seus conceitos de território. Ratificando FABRINI (2011, p. 98) diz que “a interpretação hegemônica do território foi constituída por diversos autores a partir do pensamento de Raffestin”.

A concepção central desse conceito que ampara este autor é a de que o território:

[...] é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por consequência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a “prisão original”, o território é a prisão que os homens constroem para si (RAFFESTIN, 1993, p. 143 - 144).

Para esta pesquisa, no entanto, vamos entender o território como uma extensão apropriada através do poder estabelecido via produção capitalista do espaço realizado através das relações de trabalho.

A priori achamos necessário lembrar que compreender o espaço por meio do território, é ter como premissa que o espaço é anterior ao território (SOUZA, 2001 e RAFFESTIN, 1993) e que são as relações sociais estabelecidas nele que o faz objeto de análise. Raffestin afirma que o território “é a cena do poder e o lugar de todas as relações, mas sem a população, ele se resume a apenas uma potencialidade” (RAFFESTIN, 1993, p. 58).

Dessa forma o território não é o espaço simplesmente, mas o espaço construído pelos agentes sociais através de suas relações de poder, (por meio da realização do trabalho) considerando ser toda relação um lugar do poder. Como agentes podemos identificar não só os indivíduos, mas também as organizações, como: Família, Estado, Empresa, Igreja entre outras que compõe o território a partir da

extensão dos seus usos e dos seus movimentos conjuntos e/ou dissociados. Essas organizações, via de regra:

[...] canalizam, bloqueiam, controlam, ou seja, domesticam as forças sociais. [...] pois exprime de uma só vez o jogo das organizações no espaço e no tempo. Elas “canalizam” quer dizer que obrigam a tomada de linhas de função determinada, quer se trate do espaço concreto, geográfico, quer do espaço abstrato, social; “bloqueiam” significa que agem sobre as disjunções, para isolar e dominar; “controla”, ou seja, têm tudo ou procuram ter tudo sob o olhar, criam um espaço de visibilidade no qual o poder vê, sem ser visto. (RAFFESTIN, 1993. p. 39).

As relações de poder dessas organizações acabam por refletir inúmeros níveis hierárquicos e diferentes estratégias na (re)produção do território. Na análise da produção do território no espaço agrário no modo capitalista de produção é essencial considerar as relações estabelecidas entre as instituições e os assentados da reforma agrária federal no território da microrregião de Vitória de Santo Antão.

Os agentes representantes do agronegócio e o Estado atuam como as principais instituições condicionadoras do espaço agrário brasileiro em função da capacidade de direcionamento das relações de trabalho que viabilizam e acentuam a extração da mais-valia dos trabalhadores e a formação dos territórios com o maior poder de apropriação do espaço.

Os trabalhadores também atuam modificando o espaço e formando território, mas o seu poder de transformação sofre uma série de limitações em função da sua condição de possuidor da sua

força de trabalho como único bem. No recorte espacial em análise (a microrregião de Vitória de Santo Antão) há como peculiaridade a existência de trabalhadores possuidores de um bem que vai além da propriedade da própria força de trabalho, ou seja, eles detêm a terra onde vivem e trabalham. Mesmo nesta privilegiada condição, esses trabalhadores caracterizados como assentados da reforma agrária também submetem a sua força laboral aos agentes representantes do agronegócio e se inserem territorialmente dentro do território canavieiro pernambucano.

Essa inserção dá-se via submissão não só da sua força de trabalho, mas também de sua terra que tem a sua renda extraída pelo agronegócio com o apoio do Estado através da implementação de políticas públicas viabilizadora de tal cenário.

2. A (re)produção do espaço agrário brasileiro: