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Kilim Üretiminde kullanılan Araç ve Gereçler

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3.2. Kilim Üretiminde kullanılan Araç ve Gereçler

O agregado é a personagem livre não proprietária de maior grau de dependência. O romance contém um estudo profundo dessa situação social, dá a conhecer os subterfúgios que lhe permitem aproximar-se da família e com ela permanecer até a morte, a grande variedade de suas atividades, sua posição dúbia de pertencer à família sem o pertencer de fato.

O primeiro contato com os Santiago é marcado pelo charlatanismo. José Dias apareceu na fazenda em Itaguaí quando Bento acabara de nascer. Dizia-se médico homeopata. Curou de febres um feitor e uma escrava, razão pela qual Pedro Santiago, pai de Bento, propôs que vivesse ali, com pequeno ordenado. José Dias, para quem assalariamento representaria limitação à liberdade de ir e vir, recusou a remuneração e estabeleceu-se mediante casa, comida e o que quisessem dar por festas (Cap. 5). Com a nomeação de Pedro como deputado, o agregado o acompanhou ao Rio de Janeiro e obteve um quarto no fundo da chácara. Diante do pedido para que voltasse à fazenda, para curar novamente febres, confessou não ser médico. Não foi despedido, como pedia, pois Pedro ―já não podia dispensá-lo‖, já que ele ―tinha o dom de se fazer aceito e necessário; dava-se por falta dele, como de pessoa da família‖ (Cap. 5).

O dom de se fazer necessário será sua constante ao longo do livro, assim como o de almejar ser como pessoa da família. Quando da morte de Pedro, com Bento ainda pequeno,

foi tomado de uma dor enorme. O testamento reservava-lhe ―uma apólice e quatro palavras de louvor‖. José Dias copiou as palavras, enquadrou-as, pendurou-as em seu quarto: ―Esta é a melhor apólice‖, dizia. Após a missa de sétimo dia, ele foi despedir-se de Glória, que, grata pela pungência da dor manifestada em razão da morte do marido, ordenou-lhe que ficasse. Assim ele realizou a primeira transição. Tratava-se então de reeditar junto a ela tanto o dom de se fazer necessário quanto o de ser como da família.

Vemos então José Dias desempenhar as mais diversas atividades. Era uma espécie de assistente de Cosme, advogado criminalista: copiava autos para ele e o acompanhava ao tribunal, vestia-lhe a toga, louvava seus discursos entre parentes e amigos. Desempenhava tarefas administrativas: dava recados, fazia compras, pagava contas, recebia aluguéis, o que não é pouco importante, já que parte significativa dos investimentos de Glória concentrava-se em aluguéis de imóveis e escravos. Ele contava com um grau de confiança suficiente para que parcela da renda familiar passasse por suas mãos. Era também responsável por alguns momentos de lazer da casa: lia romances em voz alta, era parceiro de gamão e cartas e, na síntese de Bento, divertia a todos ―ao serão e à sobremesa‖ (Cap. 5).

José Dias também contou com papel relevante na criação e formação de Bento. Uma imagem sintetiza a ambiguidade da condição do agregado, que oscilava entre a familiaridade forçada e o servilismo: ―José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo‖ (Cap. 24). Quando Bento era criança, o outro cuidava de seus ―arranjos em casa‖: de livros e sapatos, da higiene, além de lhe corrigir os plurais; na época, a consciência de sua condição de subordinação já o fazia ―meio sério para dar autoridade à lição, meio risonho para obter o perdão da emenda‖ (Cap. 24). Ajudava o mestre das primeiras letras, assistia às lições ministradas pelo padre Cabral e tecia reflexões eclesiásticas. Acompanhava Bento à missa (Caps. 24 e 95). Quando Glória fica doente, é José Dias quem busca o jovem no seminário (Cap. 67), aonde ia levá-lo (Cap. 58), e onde o visitava às vezes (Cap. 61). Quando Bento se forma em direito, é o único a ir a São Paulo assistir à formatura, na Faculdade de Direito, descendo depois a serra ―lépido e viçoso, como se o bacharel fosse ele‖ (Cap. 98). Também é o único a visitar Capitu e Bento na Tijuca, onde passavam a lua-de-mel (Cap. 103). É ele, ainda, quem faz companhia a Cosme e Glória na velhice (Cap. 142). Quando José Dias morre, Bento confessa sua tristeza: ―Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele?‖ (Cap. 143).

Como exemplo da sujeição sofrida, é tratado com secura similar à dispensada a escravos. José Dias diz a Cosme:

– Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero dizer é que o clero ainda tem grande papel no Brasil. [E Cosme responde:]

– Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão (Cap. 3; grifo nosso).

A frase de Cosme, ―ande, vá buscar o gamão‖, recorda o ―vá-se embora‖, sem cerimônia, usado com o escravo Tomás. A ordem de levar o jogo recorda passagens em que escravos são designados para buscar algo ou enviar recados (Caps. 6, 70, 71). Em outro ponto, Bento ordena sumariamente que ele se cale: ―No carro disse a José Dias que se calasse‖ (Cap. 124). Sua subordinação também se reflete na necessidade de mudar de opinião no meio da frase para não discordar de Glória. Em um momento, ele defendia a opinião de Justina sobre Escobar; no outro, a oposta:

(...) pode ser que a senhora D. Justina tenha alguma razão. A verdade é que uma cousa não impede outra, e a reflexão casa-se muito bem à curiosidade natural. Parece curioso, isso parece, mas...

– A mim parece-me um mocinho muito sério, disse minha mãe. – Justamente! confirmou José Dias para não discordar dela. (Cap. 93)

Em outro momento, Glória pergunta a opinião de José Dias, mas o impede de responder: - Sr. José Dias, ainda duvida que saia daqui um bom padre?

- Excelentíssima...

- E você, Capitu, interrompeu minha mãe (...) você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre? (Cap. 65)

Pobre José Dias. Como Justina, não tem a autonomia necessária à sustentação de ideias próprias, como nos informa o narrador: ―Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo‖ (Cap. 5). O constrangimento sofrido se reflete no caráter contraditório da associação entre ―opinar‖, que pressupõe a liberdade para externar convicções pessoais, e ―obedecendo‖, que traduz o imperativo de submeter seu juízo a outrem. Caso semelhante lhe ocorre em cena com Capitu, ao final do livro. Quando já casada com Bento, ela se manifesta contra a ideia de tratar Ezequiel como ―o filho do homem‖ e o agregado troca prontamente o epíteto:

―Como vai isso, filho do homem?" "Dize-me, filho do homem, onde estão os teus brinquedos?" "Queres comer doce, filho do homem?"

– Que filho do homem é esse? – perguntou-lhe Capitu agastada. – São os modos de dizer da Bíblia.

– Tem razão, Capitu – concordou o agregado –. Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. Eu falava assim para variar... Tu como vais, meu anjo? (Cap. 116)

A expressão ―tem razão, Capitu‖, recorda o ―justamente‖ anos antes dirigido a Glória; observa-se a mesma mudança abrupta, sem maiores considerações ou questionamentos.

A falta de autonomia se manifesta também em como precisa travestir seus desígnios íntimos com a aura de que atendem a interesse alheio e nobre. A estratégia é desvendada por Capitu:

Você não se lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez, há dous meses? D. Glória não queria, e bastava isso para que José Dias não teimasse; mas ele queria ir, e fez um discurso, lembra-se?

– Lembra-me; disse que o teatro era uma escola de costumes.

– Justo; tanto falou que sua mãe acabou consentindo, e pagou a entrada aos dous... (Cap. 18)

Para ir ao teatro, seu desejo individual é investido de um imperativo alheio a ele – apresentar Bento à escola de costumes que seria o teatro – e superior à mera vontade de divertir-se, já que o traço pedagógico das artes serviria à formação do caráter do jovem. Esse mesmo mecanismo, apresentado sinteticamente por Capitu, constituirá o padrão por meio do qual José Dias pretende realizar uma viagem à Europa. A justificativa dessa viagem residiria sempre no benefício para Bentinho, seja para o rapaz estudar leis e ao mesmo tempo conhecer outros países e línguas (Cap. 26), seja para estudar a medicina homeopática e não a ―podridão alopata‖ ensinada no Rio de Janeiro (Cap. 53), seja para pedir ao papa perdão à promessa de Glória e a liberação do seminário (Cap. 95). José Dias não seria mais que um fiel acompanhante. Posteriormente, Bento realizaria diversas viagens à Europa, com o objetivo de simular visitas a Capitu, exilada. José Dias nunca o acompanhou. A não realização desse sonho chegou a comover o próprio Casmurro: ―Ia a bordo despedir-se de mim, e as palavras que me dizia, os gestos de lenço, os próprios olhos que enxugava eram tais que me comoviam também‖ (Cap. 142).

Os laços de subordinação refletem-se ainda na necessidade de adular. Já se mencionou que, em casa, ele louvava os discursos de Cosme no tribunal (Cap. 5). À época em que o padre Cabral ensinava latim, doutrina e história sagrada a Bentinho, José Dias assistia às lições, depois qualificava o menino como ―prodígio‖, e dizia à mãe ter conhecido muitos meninos inteligentes, mas que o dela excedia a todos eles (Cap. 24). Ainda criança, Bento era qualificado por José Dias como ―reverendíssimo‖ (Cap. 41). Quando da partida para o

seminário, a despedida entre Glória e Bento forma, a seus olhos, um ―quadro amantíssimo‖ (Cap. 53); durante o seminário, ele diz a Glória que ―Deus lhe dera, não um filho, mas um anjo do céu‖ (Cap. 61), um ―santíssimo filho‖ (Cap. 95). Ele foi o primeiro a qualificá-la como ―santa‖ (epíteto que, ao fim, foi a única inscrição tumular) e chegou a recriminar o vigário por não aceitar prontamente essa inscrição, dizendo que se este a houvera conhecido, mandaria gravar ―santíssima‖. Também se refere a Glória como dona de um ―coração amantíssimo‖, uma pessoa ―boa como a mãe de Deus‖, ―terníssima‖ e ―dulcíssima‖ e, por três vezes, como ―excelentíssima‖ (Caps. 25, 61 e 65). Qualifica Cosme como um ―cavalheiro perfeitíssimo‖ e a família como a de maior ―nobreza de sentimentos‖, composta por pessoas ―ilustres e virtuosas‖ (Cap. 25). Se, como afirma Bento, o superlativo servia para ―dar feição monumental às ideias‖ (Cap. 4), vale assinalar que a mais monumental ideia que expressa é a da bajulação.

A louvação alcança também a religião católica, forma indireta de agradar a sua benfeitora: o estado eclesiástico é considerado ―perfeitíssimo‖; o papa Pio IX tem ―coração paternal e augustíssimo‖ (Cap. 39). Não lhe é difícil conjugar o enaltecimento da família e a ―devida‖ veneração a deus:

(...) tinha amigos em Lisboa, mas a nossa família, dizia ele, abaixo de Deus, era tudo.

– Abaixo ou acima? – perguntou-lhe tio Cosme um dia. – Abaixo – repetiu José Dias cheio de veneração.

E minha mãe, que era religiosa, gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar, e sorriu aprovando. José Dias agradeceu de cabeça. (Cap. 5)

A ―veneração‖, longe de ser expressão de sentimento interior e pessoal de religiosidade, constitui a dupla lisonja de seus superiores: mediante o estabelecimento de hierarquia em que no topo figura deus e logo abaixo Maria da Glória, afaga sua excelentíssima diretamente e também por meio da louvação de sua religião. O sorriso de aprovação e o aceno de cabeça traduzem acordo em torno da adequação de seu comportamento. Ao cabo, o agregado parece enquadrar-se na sintética caracterização de adulador apresentada por Giordano Bruno, em Os

vínculos:

Os aduladores aumentam as virtudes modestas, atenuam os defeitos, desculpam os erros, incluem os malfeitos no cômputo das virtudes, e o fazem cautelosamente, para não trair a própria arte da adulação. E assim atraem para si pessoas não particularmente astutas. (BRUNO, 2012, p. 30)

A cautela é a única característica do adulador, segundo Bruno, que não é exercida magistralmente por José Dias. Sua ―arte‖ é percebida por diversos personagens. Pádua se refere a ele como ―um adulador baixo‖ (Cap. 52). Cosme caçoa de seus rapapés publicamente, afirmando que ele ―é um grande prosa‖ (Cap. 39) e fazendo-lhe ―elogios de galhofa‖ (Cap. 61). Justina, sem se valer dos eufemismos de Cosme, qualifica-o como um ―bajulador‖, cujos ―elogios da Igreja‖, repletos de ―afetação‖, não seriam verdadeiros, uma vez que no fundo ele era ―tão religioso‖ como um ―lampião‖ (Cap. 21). Sobre o fato de que José Dias, na qualidade de bajulador, atrairia para si pessoas não particularmente astutas, vale recordar o juízo de Helen Caldwell segundo o qual: ―José Dias resume e simboliza a mediocridade e superficialidade de Dona Glória e seu círculo‖ (CALDWELL, 2002, p.73).

Bento e Capitu revelam ter conhecimento da situação de José Dias. Embora a própria maneira como Bento conduz o relato gere a impressão, posteriormente, de que era completamente inocente sobre os caminhos e descaminhos do mundo, é ele o primeiro a se referir explicitamente à condição do agregado, já na cena em que conta à vizinha a recordação do seminário, realizada por José Dias há pouco. Bento omite de Capitu a denúncia da proximidade do casal, o que a deixa sem entender o interesse de José Dias em recordar a promessa. Bento propõe que é por pura maldade, e acrescenta: ―deixe estar que me há de pagar. Quando eu for dono da casa, quem vai para a rua é ele, você verá; não me fica um instante‖ (Cap. 18). Bento tem consciência do poder que terá, mas não lhe ocorre valer-se dessa prerrogativa imediatamente, para obter apoio ao plano de resistir à batina. Capitu lhe abre os olhos para essa possibilidade e para o fato de que José Dias, apesar de ter falado antes na necessidade de colocá-lo no seminário, poderia falar depois o oposto. Ela sugere, inclusive, a maneira como se dirigir a ele:

Não lhe fale acanhado. (...) mostre que há de vir a ser dono da casa, mostre que quer e que pode. (...) Faça-lhe também elogios; ele gosta muito de ser elogiado. D. Glória presta-lhe atenção; mas o principal não é isso; é que ele,

tendo de servir a você, falará com muito mais calor que outra pessoa. (Cap.

18; grifo nosso).

No mesmo capítulo, Capitu insiste em que Bento deveria falar-lhe ―com boa cara, mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem obrigação de o trazer‖ (Cap. 18). O essencial está na clara percepção de que, apesar de Bento não passar de um jovem herdeiro, já exerce influência sobre o agregado, manifestada na obrigação de que ele o sirva, explicitamente mencionada, e na imagem de que deveria se dirigir a ele como quem pede um

copo de água a quem tem obrigação de levá-lo, o que mais uma vez o aproxima dos escravos. No entanto, Bento não podia ainda exercer plenamente esses poderes, o que o obrigava a ordenar com boa cara e a fazer elogios. No capítulo seguinte, ele reflete acerca do plano de Capitu, convencido de que poderia render bons frutos e ciente de que só era adequado a José Dias por causa da fragilidade de sua condição social: ―Capitu tem razão (...), a casa é minha, ele é um simples agregado‖ (Cap. 19; grifo nosso).

José Dias realmente muda sua disposição ao perceber que o jovem é capaz de ter desígnio próprio, oposto ao materno. A surpresa fica evidente. Diante da notícia de que, apesar do desejo de Glória, Bento não queria ser padre, sua primeira reação foi endireitar-se, ―pasmado‖. Ouviu o discurso de Bento ―espantado‖ e, diante da conclusão: ―Conto com o senhor para salvar-me‖, demonstrou assombro:

Os olhos do agregado escancararam-se, as sobrancelhas arquearam-se (...). Toda a cara dele era pouca para a estupefação. Realmente, a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova; eu próprio não me conhecia. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único. José Dias ficou aturdido. (Cap. 25)

O próprio José Dias revela explicitamente sua disposição com relação a Bento, em que pé se darão suas relações. Ao ouvir de Bento que este precisa de um favor, a palavra mágica lhe desperta ansiedade: ―um favor? Mande, ordene, que é?‖ No mesmo capítulo, acrescenta: ―Mas que outra cousa quero eu, senão servi-lo? Que desejo, senão que seja feliz, como merece?‖ (Cap. 25). No capítulo seguinte, afirma que ―se vontade de servir é poder de mandar, estamos aqui, estamos a bordo‖ e que ―trabalhará com alma‖ (Cap. 26). As ideias de ―servir‖ e a correlata ―mandar‖ aparecem diversas vezes em seu discurso, no qual se apresenta sem disfarçar sua submissão. É um passo decisivo no início da transição para servir a Bento, o de prestar um favor diretamente a ele, sendo-lhe útil em desígnios próprios, distintos dos da mãe. Trata-se, como sempre, de se fazer necessário. A partir desse momento, muda a política de José Dias junto aos Santiago. Ele não deixará de trabalhar contra Capitu, mas passará a lutar contra o seminário, procurando conduzir a si e ao jovem, como vimos, de diversos modos, à Europa. Começará a introduzir nas conversas familiares a noção de que Bento poderia não se ordenar (Cap. 35), que poderia faltar vocação a ele (Cap. 39), que um ano seria o bastante para testar sua vocação (Cap. 50).

Bento sai do seminário e estuda em São Paulo. Consumado o casamento entre Bento e Capitu, ocorre a aceitação de José Dias: ―e ríamos de José Dias, que conspirou a nossa desunião, e acabou festejando o nosso consórcio‖ (Cap. 102). Há uma passagem em que fica

evidente que foi dado mais um passo no processo de transição: ―José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe, alternando os jantares da Glória com os almoços de Matacavalos‖ (Cap. 104). Na noite anterior ao afogamento de Escobar, José Dias estava na casa de Bento e Capitu, e ainda com Sancha e Justina, que dormiu por lá, enquanto os demais voltaram para suas casas. Com a morte de Escobar, é José Dias quem examina o discurso escrito por Bento e o considera digno do morto e do autor. Com a morte de Glória, José Dias o acompanha nos trâmites de sepultamento e demonstra ter sido tomado de ―grande melancolia‖ (Cap. 142), como quando da morte de Pedro Santiago, décadas antes. Depois de tanto tempo e tantos serviços prestados, declara, sem cerimônias, que pretende ficar em casa de Bento: ―posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança, veio dizer-me que, com legado ou sem ele, não se separaria de mim‖ (Cap. 143). Bento ainda caçoa da situação, dizendo que talvez a esperança de José Dias fosse enterrá-lo e que preparava ―os cuidados da terceira geração‖. José Dias morreu antes, sua última palavra foi um superlativo, mas não, como a maioria, destinado a louvar pessoa ou instituição. Seu último superlativo foi um dos poucos dedicados a expressar um juízo completamente desinteressado:

Morreu sereno, após uma agonia curta. Pouco antes ouviu que o céu estava lindo, e pediu que abríssemos a janela.

– Não, o ar pode fazer-lhe mal. – Que mal? Ar é vida.

Abrimos a janela. Realmente, estava um céu azul e claro. José Dias soergueu-se e olhou para fora; após alguns instantes, deixou cair a cabeça, murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que proferiu neste mundo. Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele? (Cap. 143)

Já mencionamos que Bento fica comovido, embora revele isso de uma maneira que explicite a contraditoriedade do sentimento que os unia, traduzido pela hesitação em revelar abertamente que fora tomado por emoção: ―Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele?‖ A manifestação de afeto, embora bastante contida, em tudo se opõe ao descaso com que Bento comunica de passagem a morte de Capitu ―A mãe - creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça‖ (Cap. 145). Também é bem diferente da fria reação à morte de seu filho, Ezequiel: ―Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro‖ (Cap. 146). Afinal, embora na posição de agregado, José Dias esteve ao lado de Bento em todos os momentos importantes de sua vida, na organização cotidiana da criança, no processo de alfabetização, nos primeiros estudos, nas missas, nas idas ao seminário, na lua-de-mel, na formatura, nas mortes de Escobar, da mãe, do tio.

Só no momento da morte, José Dias discorda frontalmente de Bento, fazendo valer sua vontade, sem subterfúgios, uma vez ao menos: ―Que mal? Ar é vida‖. Nesse instante, já não precisa de rodeios e rapapés. É difícil conceber o que seria José Dias fora dessa situação de subordinação, tamanho é seu poder conformativo. Maria Sylvia de Carvalho Franco, em estudo sobre a civilização do café que, no século XIX floresceu no vale do Paraíba, escreve que, embora circunstancialmente brotassem as condições que permitissem ao homem livre e não proprietário ―desvendar o mundo do ponto de vista das mudanças que nele pretenderia realizar‖ (FRANCO, 1969, p. 109), o mais frequente era que, ―em sua vida de favor‖, experimentasse ―a dominação‖ como ―uma graça‖:

ele próprio reafirmou, ininterruptamente, a cadeia de lealdades que o prendia

Benzer Belgeler