2. KİL VE BENTONİT’İN TANIMI
2.1 Kil ve Kil Grupları
Na tinta de Machado de Assis, a sociedade brasileira das décadas de 1840 a 1890 reflete o reforço da centralização pelo “regresso”, como examina Raymundo Faoro (2001, p.126) em “Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio”. A pirâmide aparece com a mesma conotação que em Pimenta Bueno, com barões, capitalistas, conselheiros, banqueiros, comendadores, comerciantes, coronéis e fazendeiros ocupando os níveis mais elevados, todos ao redor do Imperador, que os atraía com a concessão de honrarias e fazendo-os integrar a burocracia estatal. O Monarca como pintado por Machado está sempre vigilante e faz sentir a sua existência em todos os aspectos da vida social.
O autor alerta para os perigos da centralização excessiva sobre as eleições realizadas nas províncias, com a Guarda Nacional, então submetida ao Ministério da Justiça, recorrendo à violência para garantir que os resultados obedecessem aos rumos traçados pelo poder central. Não havia participação popular efetiva e a disputa pelo poder envolvia somente as elites domesticadas pelo governo nacional; a soberania popular havia sido usurpada pela soberania real, sem que o povo notasse tal usurpação, camuflada pelo carisma e autoridade do Imperador onipresente. Nessa esteira, os próprios partidos políticos organizavam-se de cima para baixo, eis que as articulações políticas mais importantes davam-se na capital e de lá partiam para o interior, impondo-se sobre o círculo eleitoral. Inexistente a autonomia provincial e municipal, as agremiações fixavam-se no Rio de Janeiro, onde suas lideranças tinham maiores chances de se relacionar com o Imperador, detentor das prerrogativas de conceder títulos de nobreza, nomear ministros e conselheiros de Estado, escolher senadores e prover outros postos, como os de
comandantes das Forças Armadas, magistrados, bispos, agentes diplomáticos e presidentes provinciais.
Indo de encontro com o discurso de muitos liberais, Machado de Assis entendia que não era o Império o responsável pela centralização do Estado brasileiro. Na sua visão, o governo apenas havia positivado circunstâncias centralizadoras pré-existentes, sendo o arcabouço legal incapaz de, por si só, determinar as características da sociedade e da política brasileira, muito menos de gerar transformações significativas. Ou seja, a morte da vida local que havia provocado a centralização e não vice-versa. No mesmo sentido, Raymundo Faoro previa que, a despeito da criação dos colégios eleitorais e da introdução de eleições diretas na segunda metade do século XIX, o governo central continuaria controlando o processo eleitoral e a conquistar as vitórias desejadas enquanto o eleitorado não se emancipasse economicamente.
Dentre os liberais que enxergavam na legislação um cabal instrumento para a descentralização, destacava-se Aureliano Tavares Bastos (1937, p.365), por apresentar um programa descentralizador amplo, englobando propostas para os poderes legislativo, executivo e judiciário provinciais. No que tange ao primeiro, defendia, antes de tudo, a reintegração as faculdades previstas no Ato Adicional de 1834, inclusive com o cumprimento de seu artigo 3º, dividindo-se em duas câmaras o poder legislativo provincial. Haveria, então, as câmaras dos representantes, para as quais os eleitores escolheriam candidatos de seu próprio município, e os senados provinciais, que exigiriam idade mínima de seus membros e concederia mandatos mais longos, o que, na visão do estadista, os instituiria como elemento conservador.
Entendia-se, portanto, que os senados moderariam as transformações desejadas pelas câmaras dos representantes e serviria como um conselho para os presidentes de província. Assim, seriam evitados conflitos entre o presidente e o legislativo provincial, conferindo-se maior prestígio e dignidade ao sistema político. A assembléia provincial nomearia os senadores do Império, sem ter de submeter qualquer lista ao Imperador. Desse modo, perderia força a rede de articulações políticas que rondava a capital. Para aumentar a eficácia da assembléia, ante a dificuldade em reunir as duas câmaras, seria formada, dentre os seus membros, uma comissão permanente responsável por votar medidas urgentes, facilitar o
despacho de negócios secundários e preparar os trabalhos da sessão anual. Além disso, seria tal comissão, e não mais o governo central, a autoridade para aprovar ou anular as eleições de juízes de paz e vereadores, prevenindo-se não só o arbítrio, mas também o desperdício de tempo da Administração Geral e solucionando o inevitável problema de desconhecimento das questões locais.
Porém, pouco adiantaria uma assembléia mais forte e dotada de mais atribuições em face de um poder executivo delegado do Imperador. O remédio prescrito por Tavares Bastos era a eleição do presidente de província, que poderia, como ocorrera nos Estados Unidos, começar pela via indireta, mediante votos dos membros da assembléia provincial, e passar para a via direta, respeitando-se a autonomia de cada província para adotar o método que melhor lhe conviesse. Então, a dupla autoridade anteriormente exercida pelo presidente de província nomeado pelo Imperador seria divida entre o presidente de província eleito, responsável pela gestão dos negócios locais com o auxílio de secretários, e os comissários da administração central, atribuídos dos negócios gerais.
Outros liberais poderiam até estranhar o argumento de Tavares Bastos de que nem mesmo a legislação mais liberal deveria ser uniformemente aplicada a todas as municipalidades do Império. Entretanto, no seu entender, na construção de um Estado descentralizado, deveriam prevalecer as circunstâncias particulares na organização de cada instância de governo, em especial no Brasil, onde a extensão e a riqueza das municipalidades, bem como as características físicas e a densidade da população variavam tão intensamente.
Por meio de medidas gerais e específicas, as assembléias provinciais deveriam assegurar a cada uma de suas localidades o sistema de governo mais proveitoso, regulando inclusive o funcionalismo público, conforme originalmente previsto no Ato Adicional de 1834.
Embora elogioso ao Código de Processo Criminal quanto ao estabelecimento de uma Polícia local, delegada a uma autoridade eletiva, e à entrega do julgamento de crimes a magistrados perpétuos e inamovíveis e o de delitos secundários a juízes populares, o estadista não o apresenta como melhor alternativa à organização vigente na época. Organização essa que acumulava nas mãos de comissários
nomeados pelo governo central os poderes de prender, processar e julgar. Mas, se o Código não era a melhor alternativa, qual seria?
Nenhuma lei uniformizadora por certo, mas a atribuição ao legislador provincial da responsabilidade de dar a cada localidade a instituição policial e forças auxiliares mais convenientes. No que tange ao sistema de Justiça, Tavares Bastos reconhecia que a situação do Brasil imperial colocava como aspirações mais próximas a independência da magistratura com relação ao Poder Executivo e a consagração de garantias individuais. Porém, o estadista não perdia de vista que as assembléias provinciais deveriam deter a competência para legislar sobre a organização dos tribunais locais. O sistema estadunidense é citado como modelo para a divisão das funções do Judiciário entre tribunais federais, para questões de caráter nacional e internacional, e tribunais de estados, para conflitos comuns.Enfim,TavaresBastos sentenciava que, enquanto hierarquicamente organizada em um edifício vinculado, do seu primeiro ao último andar, ao Imperador, a ordem judiciária não despertaria nem o receio nem a confiança do povo.
Remetendo às críticas feitas pelos conservadores ao Ato Adicional de 1834, Tavares Bastos questiona a suposta preocupação com a dominação das câmaras municipais pelas assembléias provinciais. Afinal, explica que, por ocasião da Lei de Interpretação de 1840, só se modificou aquilo que prejudicava a centralização, só se “interpretaram” as disposições que deslocavam atribuições do poder central para o provincial, tornando esse mais independente.
Mesmo que a referida preocupação fosse genuína, ela seria infundada, pelo menos na vigência do Ato, na medida em que, envoltas pelos ares contrários ao pensamento centralizador, as assembléias naturalmente renunciariam a “uma tutela vexadora e perniciosa; e marchariam as provinciais para o ideal dos Estados- Unidos, onde a municipalidade é escola da liberdade e de governo” (BASTOS, 1937, p. 149). Nesse sentido, a única interpretação aceitável do Ato Adicional seria a que deixasse expresso o reconhecimento da plena autonomia das municipalidades, de maneira que os eventuais excessos ou equívocos cometidos pelas assembleias pudessem ser posteriormente reprimidos pelos tribunais de Justiça, corrigidos por reformas ou, finalmente, aperfeiçoados pelo tempo.
O aperfeiçoamento das instituições no decorrer do tempo também é elemento das reflexões de Paulino José Soares de Souza, o Visconde do Uruguai, membro do Partido Conservador que já havia ocupado os cargos de Presidente de Província, Senador, Ministro e Conselheiro de Estado. Uruguai (2002, p.23) fazia um balanço entre as vantagens e os inconvenientes da centralização.
De um lado, pesavam a uniformização da moeda, do Clero e da Magistratura, a administração das Forças Armadas e de obras interprovinciais, a resolução de conflitos entre províncias e de assuntos internacionais, o desenvolvimento das localidades estagnadas e a ligação de todas as partes do Império. De outro, o cerceamento da liberdade dos cidadãos e a dependência em demasia do governo central. Diferentemente da relação estabelecida por Machado de Assis, aqui é a centralização que é apontada como causa da morte da vida nas localidades. Diante de tal ponderação de pontos positivos e negativos da centralização, Uruguai asseverou que:
É muito mais razoável concluir que não se deve atender destacada e exclusivamente a cada uma das considerações expedidas. Que cumpre combiná-las, procurar o justo meio e atender sobretudo ao estado e circunstâncias do país. Não procurar o melhor em abstrato, teoricamente e no papel, mas o que é relativamente possível e atualmente aplicável. Remover os inconvenientes que é possível arredar, resignar-nos aos inevitáveis, ou procurar atenuá-los, a esperar do tempo, do desenvolvimento do espírito público e do senso prático da população, aquele maior grau de melhoramento que podem atingir as sociedades humanas. (URUGUAI, 2002, p. 444)
Porém, entre Tavares Bastos e Visconde de Uruguai havia muito mais diferenças do que convergências. “A Província”, do primeiro, e sua inspiração nitidamente norte-americana serviam como verdadeiros contrapontos à obra do segundo. Uruguai refutava qualquer analogia entre o Brasil e os Estados Unidos, pois afirmava que, ao contrário dos estadunidenses, os brasileiros não haviam herdado os hábitos de ordem e legalidade, o senso prático para os negócios, nem tampouco uma educação que os fizesse capazes de se autogovernarem23.
23 Uruguai fala em autogoverno, mas fica claro que ele não se restringe à noção da autonomia que
responde pela escolha dos representantes e recrutamento de funcionários por parte dos entes federativos, que mencionamos em momento anterior (self-rule). Uruguai trata, na realidade, do self- government, do hábito que os norte-americanos herdaram da Inglaterra de exercer o poder político diretamente. A esse respeito, veja-se COSER, 2008, p.126.
A ex-colônia recebera como legado da metrópole portuguesa a centralização da monarquia. Mas a verdade é que Uruguai não falava pejorativamente da herança ibérica centralizadora, defendendo-a perante aqueles que atribuíam à Constituição de 1824 a permanência dos males que afligiam o Império. A seu ver, quando a regência passou a empreender as medidas descentralizadoras, a Constituições e quer havia recebido a regulamentação necessária para produzir os seus efeitos benéficos. Carentes de compreensão e execução, as teses constitucionais encerrariam “verdadeiros tesouros, com os quais se julgariam felizes muitas nações” (URUGUAI, 2002, p. 449).
Além da educação e dos costumes inadequados à descentralização, na visão de Uruguai, a legislação brasileira, por não discriminar nem classificar detalhadamente as atribuições administrativas, não daria azo à descentralização. Esse é um dos argumentos que também Pimenta Bueno utilizava para criticar o Ato Adicional de 1834, tendo em vista que o esforço descentralizador teria provocado verdadeira confusão entre as competências nacionais e provinciais. No entender de Uruguai, na impossibilidade imediata de autogoverno, na ausência de uma cultura de respeito aos direitos e de obediência ao dever, seria preferível garantir, por meio da regulamentação, as liberdades públicas, protegendo-as contra invasões do poder, tanto público, quanto privado. Nessa esteira, o Estado seria o portador dos interesses gerais, o promotor do bem público, e recorreria ao Direito Administrativo, com seus regulamentos e instruções organizadores de um sistema hierárquico, como mecanismo para fazê-los prevalecer sobre os interesses particulares, que não se desprendem do indivíduo (COSER, 2008, p.126). Pouco a pouco, por meio do próprio Estado, o povo brasileiro adquiriria os hábitos de ordem e legalidade imprescindíveis para a conquista das liberdades públicas, estando habilitado a autogovernar-se futuramente.
Em suma, o poder central em Uruguai é um educador da população. Por seu intermédio é que o Brasil sairia de um quadro de centralização e de ausência de liberdade, passaria a um quadro de centralização, mas com liberdade cívica, até aproximar-se da descentralização com liberdade política. Optando-se pela descentralização imediata, a população brasileira não conheceria a liberdade, em razão da dominação de um poder local sobre o outro. Já para Tavares Bastos, o
Estado encarnava, por si só, um obstáculo à liberdade, que só seria alcançada com a autonomia das províncias. Por isso, a descentralização deveria ser imediata.