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Para fazer uma revisão do pensamento teórico sobre o papel do Estado na economia capitalista assumo aqui, em especial, a literatura que expressa o pensamento marxista de alguns dos autores que se destacaram nesta análise.

Consolidou-se entre os estudiosos marxistas, o princípio de que as ações do Estado na sociedade capitalista são definidas principalmente em função dos interesses da burguesia. O Estado estaria sempre subordinado ao capital e seria diretamente um órgão de classe.

Marx, em sua obra A Ideologia Alemã, afirma:

O Estado não é nada mais do que a forma de organização que os burgueses constituem pela necessidade de garantirem mutuamente a sua propriedade e seus interesses [...]. O Estado é a forma pela qual os indivíduos de uma classe dominante fazem valer seus interesses comuns e na qual se resume toda a sociedade civil de uma época. (1845, p.124).

Marx não formulou exatamente uma teoria do Estado, mas elaborou muitos aspectos importantes. Partindo, no entanto, de uma visão instrumentalista do aparelho de Estado – o Estado seria uma entidade neutra manipulada pela classe dominante - Marx não percebeu o caráter relacional de classes que permeia a ação estatal.

Com Gramsci, a teoria do Estado avançou ao fixar dois importantes aspectos: “no primeiro, amplia-se o conceito de Estado através do prisma da hegemonia e, no segundo, reinterpreta-se a problemática do poder político à luz da noção de aliança de classes.” (ASSIS, 1987, p. 12). A autora avalia que a grande contribuição gramsciana é o tratamento dado de forma ampla ao aparato estatal, que passa a ser visto para além de aparelho de administração e

coerção, mas também como superestrutura ideológica para exercício de hegemonia de um grupo social. Assim, se para Marx a classe que possui a primazia econômica detém, direta ou indiretamente, os meios de violência e, por via de consequência, a liderança do processo social, Gramsci, no entanto, estabelece diferenças entre dominação e hegemonia, estabelecendo diferenças importantes entre os conceitos de direção e de domínio. (ASSIS, 1987).

Podemos dizer que é a partir de Gramsci que se redefine o conceito de Estado estabelecido por Marx. Para ele, a instituição estatal é o aparato político das classes dominantes, admitindo, portanto, seu caráter de classe. No entanto, acrescenta a esse aparato político, o caráter ideológico e a dimensão de lócus onde se estabelece uma correlação de forças contraditórias, nas palavras do autor de “um equilíbrio instável de compromissos”. Afinal, como ensina Assis (1987, p. 14): “a aliança entre classes hegemônicas e grupos afins, se supõe uma identidade momentânea de interesses a ponto e uni-los em torno de uma estratégia política comum, não elimina, por outro lado, divergências estruturais importantes.”

Caberá, entretanto, a Poulantzas71 aprofundar a conceituação sobre o caráter relacional do Estado. Em sua primeira formulação o autor rejeita o Estado como uma entidade de direito próprio, afirmando tratar-se, na verdade, de uma relação social. Assim sendo, no terreno da dominação política, o Estado não se encontra ocupado por uma só classe, mas por várias classes e frações de classes dominantes, que funcionam, em regra, sob a direção da classe ou fração hegemônica que constitui o bloco no poder.

O Estado não é uma entidade instrumental intrínseca, não é uma coisa, mas a condensação de uma relação de forças. Esta correspondência se estabelece em termos de organização e de representação: a classe ou fração hegemônica, além de seus interesses econômicos imediatos, de momento e a curto prazo deve assumir o interesses político do conjunto da classes e frações que compõe o bloco no poder, portanto, seus próprios interesses políticos a longo prazo: ela deve unificar e unificar o bloco no poder sob sua direção. (POULANTZAS, 1978, p. 104).

Essa característica de inter-relação de diferentes classes e frações de classe que compõem o bloco no poder leva o autor a afirmar que no capitalismo a entidade estatal

71Segundo o autor as classes sociais são “conjuntos de agentes sociais determinados principalmente, mas não exclusivamente, por seu lugar no processo de produção, isto é, na esfera econômica”. (POULANTZAS 1978, p.

14). Para o marxismo, segundo o autor, as classes sociais só existem na luta de classes, uma vez que as mesmas definem-se pelo seu lugar no conjunto da divisão social do trabalho. Este lugar de classe se distingue da posição

de classe em determinadas circunstâncias, referindo-se a situações onde determinada classe social, ou uma

fração ou camada de classe pode não ter posição de classe correspondentes a seus interesses (por exemplo, a aristocracia operária que tem posições de classe burguesa).

representa o interesse no longo prazo da classe dominante, e por isso deve manter a

autonomia relativa junto a cada segmento de classe [...] uma espécie de razão ou consciência

da classe dominante (ASSIS, 1987, p. 16). Assim, existiria uma “margem de manobra para realizações de ações legitimadoras da ordem e do Estado burgueses que não entrassem em choque com as políticas de interesse estrito do capital”. (MARQUES, 1997, p. 70).

Em face do terreno de dominação política ocupado por diversas classes e frações de classes e atravessado por contradições internas, o Estado capitalista, embora representando de forma predominante os interesses da classe ou fração hegemônica - ela própria variável -, assume uma autonomia relativa em relação a essa classe ou fração e com respeito à outras classes e frações no boco do poder. É, de um lado, porque ele assegura o interesse político geral do conjunto do bloco no poder,

“organizando o equilíbrio instável de compromisso” (Gramsci) entre seus

componentes sob a direção da classe ou fração hegemônica; de outro lado, porque ele organiza essa hegemonia com respeito ao conjunto da formação social, e então, igualmente, com respeito às classes dominadas, segundo as formas específicas que suas lutas assumem sob o capitalismo. (POULANTZAS, 1978, p. 104, grifo nosso).

O Estado, portanto, além de concentrar a relação de forças entre os componentes no bloco do poder, concentra também as relações de forças com as classes dominadas, trazendo as lutas populares constitutivamente para o Estado, neste caso, não por meio do exercício de poder, mas sob a forma de focos de oposição ou resistência ao poder das classes dominantes. (ARAÚJO; TAPIA, 2011 p. 17). Assim, Poulantzas afirma que a autonomia relativa deve ser entendida como resultante das:

diversas medidas contraditórias que cada uma dessas classes e frações consegue introduzir na política estatal, mesmo que sob a forma de medidas negativas: a saber por meio de oposições e resistências à tomada ou execução efetiva de medidas em favor de outras frações no bloco do poder. (POULANTZAS, 1980, p. .156).

Posteriormente, reformulando sua teoria, Poulantzas passa a definir o Estado não mais a partir de suas funções, mas de sua natureza, na qual o Estado seria um campo de poder, onde se condensariam as lutas e conflitos entre as classes e frações de classe.

Este campo organizaria as classes dominantes em torno dos interesses de curto prazo das frações hegemônicas no bloco do poder, e da classe burguesa no longo prazo. Isto seria possível pela autonomia relativa do Estado no que tange aos interesses particulares dos grupos e frações de classes. Da mesma forma, o Estado desorganizaria as classes dominadas por concentrar em si, a relação de força entre os dominados e dominadores. (MARQUES, 1997, p.70).

Assim, não sendo o Estado a fonte de poder, mas sim, um campo de lutas, admite-se que no seu interior existirá o contraditório, posições divergentes com relação às classes e ao bloco no poder.

Poulantzas argumentou em sua obra como o Estado do tipo capitalista atua e modifica o equilíbrio de forças nas lutas políticas, servindo para organizar as classes dominantes e desorganizar as classes dominadas, mas também problematizou como a natureza fragmentada e desunificada do aparato de Estado dificulta a imposição de linha estratégica para atuação do Estado, reconhecendo, com isso, a existência das classes dominadas e suas lutas no interior do no próprio Estado, assim como, à distancia deles. (JESSOP, 2009, p. 131 - 144).

Em toda sua obra Poulantzas afirma a preponderância dos interesses burgueses na ação Estatal, o que se mostra, de certa maneira, conflitante com essa sua segunda teoria na medida em que assume a contingência dos efeitos da luta de classes.

Jessop (1983), discutindo os problemas decorrentes da garantia dos interesses das classes dominantes no Estado em um contexto contingente de luta de classes, aprofunda a discussão sobre os conceitos de estratégia e hegemonia. Para o autor, o grupo ou fração de classe que conquistar a hegemonia irá impor sua estratégia de acumulação influenciando o modelo econômico.

Para Jessop, a forma do Estado é a materialização dos projetos, estratégias e lutas ocorridas no passado. A seletividade das estruturas estatais, não apenas influi de forma central nos padrões de acumulação e nos projetos de desenvolvimento, como é ela própria, produto de lutas travadas anteriormente e das diversas estratégias dos atores. (MARQUES, 1997, p. 75).

Sob o aspecto destas estratégias, Offe (1975) entende que, para garantir os interesses capitalistas, “as estruturas estatais seriam dotadas de seletividade, que filtraria as questões apresentadas ao Estado, implementando as ações associadas diretamente à criação e recriação das condições de acumulação e ao processo de legitimação da dominação de classe”. (OFFE

apud MARQUES, 1997, p. 74).

Santos (1982) lembra que a principal função política do Estado não é resolver ou superar as contradições sociais, mas antes, mantê-las em estado de relativa latência por meio da eliminação de tensões pontuais. O autor denomina este movimento como mecanismo de

dispersão distinguindo: mecanismos de socialização/integração; mecanismos de trivialização/neutralização; mecanismos de repressão/exclusão. Tais mecanismos estão presentes em todas as políticas setoriais do Estado e são acionados, via de regra, por meio do Direito. “Esta atomização social, que permite ao Estado impor uma ordem universal e

igualitária é condição lógica e razão eficaz do acionamento dos mecanismos de dispersão das contradições.” (SANTOS, 1982, p. 26).

Para explicar o caráter de classe do Estado, Marques (1997) destaca três abordagens presentes na literatura marxista: a existência das elites econômicas e estatais; a articulação dos capitalistas e a reprodução dos valores burgueses.

Segundo o autor, os marxistas que revisitaram a obra de Mills72 associam o caráter de classe do Estado à existência de uma elite no poder. Essa elite dominante, que Domnhoff (1979, p.12) vai descrever como “o braço operacional da classe dirigente” seria composta pelos capitalistas ou por membros do alto escalão de suas empresas, e atuariam para exercer sua dominação por vários processos, dentre eles influenciando a formatação de políticas públicas nas grandes questões de interesse do capital. Já para Miliband (1972), a elite estatal seria composta por pessoas no comando das diversas instituições que compõem o Estado (governo, judiciário, legislativo, etc.), mas entende que a classe capitalista não integra diretamente o Estado, mas se faz representar em função da socialização política e cultural, ou seja, dos conjuntos de valores compartilhados com os capitalistas.

A articulação entre os capitalistas, segundo Dumnhoff, é decorrente da origem de classe comum (que implica em frequentar mesmos ambientes sociais, clubes, escolas, etc., compartilhando o mesmo sistema de valores). Outra forma importante de articulação apontada pelo autor são as entidades representativas de classe, que em função do poder de que dispõem junto ao Estado, influenciam fortemente as políticas públicas.

Para Santos (1982), o Estado não é capitalista por suas características institucionais, nem pela composição das classes das elites que comandam seus aparelhos, mas sim, porque seu papel é constitutivo no processo de acumulação. Como é este um processo contraditório e instável, o Estado precisa assegurar as condições de acumulação e ao mesmo tempo permanecer exterior a elas, implicando em um processo de dominação fragmentado, consoante com as lutas de classe.

Finalmente, para Miliband o “compartilhamento do universo de valores e representações é a explicação de fundo para o caráter de classe do Estado na sociedade capitalista. (MILIBAND apud MARQUES, 1997, p.73). O controle do Estado estaria entregue a pessoas imersas no mesmo conjunto de valores da classe dominante, que, por isso, compreenderiam e transformariam os interesses dos capitalistas em interesses nacionais.

Há, segundo Marques (1997), um outro aspecto importante estudado por Offe e Volker que envolve a forma institucional do Estado capitalista e refere-se à dependência estrutural que tem o Estado da acumulação para sua sobrevivência financeira. Offe (1984) destaca que o poder público está estruturalmente impedido de organizar a produção material segundo seus critérios; depende indiretamente, via tributação, do volume da acumulação privada; tal condição faz com que o Estado crie as condições políticas favoráveis a acumulação de capitais; e ainda, como a base do poder do Estado não é própria, mas origina-se de processo eleitoral, o poder é determinado pelo volume de recursos de que dispõe. Portanto, os únicos recursos que garantem a efetividade do poder de Estado vem da acumulação capitalista. (ARAÚJO; TAPIA, 2011, p. 26). Tais circunstâncias colocariam o Estado em dependência do capital, dificultando a implementação e medidas em desacordo com os seus interesses.

Marques (1997) acrescenta ao debate mais dois outros aspectos importantes. Para este autor, os marxistas acertam ao privilegiar os capitalistas como atores decisivos na ação do Estado, mas entende que não são os únicos, destacando a relevância dos agentes estatais e das corporações profissionais setoriais. Observa que, a classe capitalista, para implantar as suas políticas, depende de agentes estatais, funcionários de Estado que se disponham e que consigam fazê-lo.

Se a classe capitalista ou alguma de suas frações defendem uma determinada política dependerão dos funcionários do Estado para implementá-la. Estes, apesar de constrangidos pelas conjunturas concretas de que se cercam, podem agir por conta própria. Além disso, mesmo que tenham interesse em implementar determinada política de interesse do capital, ainda devem conseguir fazê-lo, tarefa às vezes bastante árdua. Da mesma forma, mesmo que o capital em determinado momento tenha interesse em extinguir ou substituir instituições e funcionários rebeldes ou ineptos, também terá que conseguir fazê-lo. Esta será outra tarefa extremamente difícil, visto que a consolidação das agência estatais em estruturas burocráticas modernas lhes empresta uma grande inércia. (MARQUES, 1997, p. 90).

Além disso, não se pode ignorar que a luta política é contingente e que as classes no interior do Estado são compostas por frações passíveis de se transformarem em atores políticos, segundo seus próprios interesses, podendo até se associar a frações que, apesar de ocuparem posição decisiva de poder, defendem ações danosas ao interesses do capital como um todo.

Quanto às corporações profissionais setoriais, Marques (1997, p. 93) lembra que os “setores da sociedade que circunscrevem políticas estatais não são naturais, mas produzidos socialmente, sendo na maior parte das vezes resultado complexo de lutas e alianças entre

diversos atores, dentro e fora do Estado.” Considera essencial, para análise política, compreender as estratégias que utilizam os diversos atores,

As corporações e os demais mediadores realmente obtêm hegemonia dos setores e cumprem funções intelectuais gramsciana. Assim, a forma como as posições potenciais de poder da burguesia, ressaltadas anteriormente, se transformam em vantagens concretas na implementação de políticas depende da ação de mediadores. Não quero afirmar que os mediadores cumprem uma função ideológica em proveito do capital, muito pelo contrário. O que gostaria de destacar é que a transformação das posições potenciais de poder da burguesia em resultados depende da existência de determinados padrões de articulação com mediadores globais e setoriais (pois aqui também as fronteiras são flutuantes). (MARQUES, 1997, p. 93).

Benzer Belgeler