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Tratando dos resultados de análises sobre o impacto da reforma agrária na qualidade de vida das populações assentadas, destaca-se o estudo da FAO (1995 apud Leite, 2011). Nele, selecionou-se uma amostra de 44 assentamentos dispersos por todo o País. Todos foram fundados entre 1985 e 1989. Os resultados do estudo indicaram que, com base em variáveis como geração de renda, tecnologia, capacidade de comercialização da produção etc., os assentamentos atenderam aos objetivos de manter esse excedente populacional no campo e desenvolver o meio em que se inserem.

É relevante destacar esse estudo pelo fato de ele ser uma avaliação realizada a mais de uma década, o que demonstra que já nas investigações desse período os resultados fortaleciam os argumentos em favor da continuidade dessa política.

Já o estudo de Heredita et. al (2002), teve foco em algumas regiões com significativa concentração de projetos. A pesquisa obteve vários resultados e dentre estes se destaca o fato de que com relação a suas condições de vida, 91% dos entrevistados apontaram uma melhoria. Já com relação ao seu poder de compra, 62% relatam perceber uma melhoria. A investigação sobre a propriedade de bens duráveis confirma as respostas. Ocorreram externalidades positivas sobre a economia local. Por fim, as expectativas dos beneficiários quanto ao futuro também são positivas.

Nesse estudo, ainda que mais atual, pode-se observar que as avaliações do impacto dos assentamentos sobre a qualidade de vida dos assentados permanecem positivas, além de destacar as perspectivas deles quanto ao futuro.

Segundo Heredita et al. (2002), Leite et al. (2004) e Medeiros e Deere (2005 apud

Leite e Ávila, 2007, pág. 18):

“No caso brasileiro a reforma agrária gerou efeitos positivos no plano municipal,

como a diversificação da produção agrícola, a expansão do mercado de trabalho e o fortalecimento político dos beneficiários, cujas demandas por infraestrutura física e

social não podem ser facilmente ignoradas. A partir do momento em que recebem uma parcela de terra, as famílias começam a ter acesso a outros tipos de benefícios, como créditos para a construção de casas e plantio, que possuem também efeitos- demanda sobre o restante da economia. Outro efeito institucional importante do processo de reforma agrária foi o estabelecimento de um diálogo entre o poder público com setores sociais antes jamais atendidos, alterando-se as tradicionais relações de clientelismo dominantes no meio rural brasileiro”.

Ainda segundo Leite e Ávila (2007), os assentamentos em si já são um resultado. Mesmo levando-se em conta a significativa heterogeneidade dos assentamentos encontrados no País, assim como as precárias infraestruturas, quando se compara a situação pretérita e presente dos assentados, facilmente se constata as melhorias em suas condições de vida. A experiência tem demonstrado que tais benefícios são potencializados quando ocorre a concentração de projetos, contribuindo para uma maior reformulação daquela realidade regional.

Pode-se apreender dos resultados expostos por essas citações que o impacto dos assentamentos supera as mudanças de caráter puramente econômico. Elas geram mudanças em vários outros aspectos da vida dos beneficiários tais como a afirmação de suas cidadanias, maior representabilidade política etc. Ressalta-se ainda a importância dada aos resultados mais expressivos observados em regiões que concentram maiores números de projetos de assentamento. Esses mesmos resultados não foram verificados em regiões que apresentam projetos praticamente isolados.

Ao contrário, Graziano (1997apud Romeiro e Buainain, 1997), que é ex-presidente do Incra, questionou fortemente o modelo de reforma agrária atual. Para ele, o desafio não é quantitativo e sim qualitativo. Nesse aspecto, os resultados são medíocres e de fato está ocorrendo uma favelização da zona rural. Ele relata ainda que pela falta de critério os assentados são desqualificados, o que contribui para um resultado produtivo pífio, em sua maioria apenas para subsistência. Outro problema, segundo ele, é o custo de cerca de R$ 30.000 por família assentada. Afirma que seria melhor oferecer esse valor na forma de um salário mínimo mensal por 20 anos.

Apesar dos autores que citam o ex-presidente do Incra rebaterem a maioria dos argumentos utilizados por ele, os mesmos concordaram em parte com outros e apontaram ainda mais alguns. Segundo eles, não há dúvidas de que esse processo precisa ser repensado e aperfeiçoado.

Em conformidade com o acima descrito, relata Mello (2008), verificou-se uma forte sequência de conflitos e crimes por parte de um grupo de assentados. No entanto, o problema do arrendamento das terras enquadrou a quase totalidade dos mesmos. Foi necessária uma intervenção por parte do Incra e da Polícia Federal para conter a violência e expulsar os arrendatários. Apesar da crença em uma relação entre os crimes e os arrendamentos, de fato isso não se verificou. A realidade demonstrou que em todos os assentamentos os arrendamentos estavam relacionados com as constantes frustrações de safra, a quase completa ausência de assistência técnica e de infraestrutura básica.

Essa citação, retirada de um estudo sobre alguns assentamentos na região sul do Brasil, serve de exemplo para a problemática qualidade dos assentamentos. Problemas em assentamentos semelhantes a esses podem ser verificados em praticamente todas as regiões do País.

A dimensão da qualidade de vida abrange conceitos para além dos, até esse instante, evidenciados. Ela incorpora o estoque de capital social, as relações político institucionais, os aspectos ambientais, a sustentabilidade de seu desenvolvimento, dentre outros tantos aspectos. Abaixo, serão comentados alguns deles.

3.2 Capital Social, Político Institucional, Aspectos Ambientais e Desenvolvimento

Benzer Belgeler