A localização de Alexandria, situada em um ponto de cruzamento de muitos povos do mundo grego, mas que também facilitava o acesso às profundezes do Egito foi um fator que estimulou a rápida aglomeração de pessoas no local. O crescimento da cidade foi ainda mais intensificado pela efervescência comercial do local, cujo porto logo se tornou importante. O movimento constante de ir e vir estimulava a intensidade das mudanças e as intensas trocas culturais, além da rápida circulação não só de artigos, mas principalmente de informações, saberes, técnicas, ideias e rumores.
Antes da chegada de Alexandre, as vantagens e desvantagens do terreno escolhido para a futura cidade já eram conhecidas pelos gregos viajantes e marinheiros que comercializavam em Náucratis e por soldados que chegavam como militares colonos. Em oposição à maioria dos autores que enfatiza as conveniências visíveis do local como motivadores de Alexandre, Goddio e Bernand realçam as condições desfavoráveis do porto. Os arqueólogos (GODDIO; BERNAND, 2004, p. 114-115) consideram que os egípcios não tinham feito nada para tornar esse litoral menos inóspito para estrangeiros anteriormente. A costa era inconveniente para mercadores gregos e fenícios, enquanto para os egípcios representava um sistema eficiente de defesa, pois além do mar, só era possível entrar no território através dos principais afluentes do Nilo. Além disso, durante o período faraônico, os governantes do Egito exerciam um rígido controle em relação às fronteiras. Apesar do difícil acesso, a prosperidade comercial do local era notória para os gregos, com considerável experiência nos mares, e assim, não se sentiam desafiados a desbravar esse litoral.
Platão e Aristóteles tinham visões opostas quanto à construção de uma cidade no litoral. Platão considerava o risco de o local se tornar muito exposto ao comércio internacional, podendo corromper a metrópole, e o fácil ingresso de estrangeiros poderia inflar a população a promover a anarquia, pois mercadores e navegantes não eram bem vistos. Contudo, Aristóteles acreditava que uma cidade aberta ao comércio internacional teria mais facilidade de se defender por terra e mar. A facilidade de transporte e comunicação dentro do próprio território também seriam vantajosas. Como Alexandre foi pupilo de Aristóteles é provável que essa visão o tenha influenciado (GODDIO; BERNAND, 2004, p. 148).
Alexandre teria considerado essas circunstâncias ao fundar Alexandria, por ter adquirido um grande conhecimento dos mares e litorais e estar informado sobre a importância do Egito. Assim, a cidade se situou bem nessa comunidade global em expansão e no sistema de mercado mundial que emergia (WILLIAMS, 2004, p. 21). Em virtude das circunstâncias, a fundação de Alexandria rapidamente impulsionou a continuidade dessa tendência “internacionalizante”. O mar estava associado a ser “cosmopolita” e aberto a todas as influências, promovendo uma riqueza econômica, de povos e idéias. Alexandria é indissociável desse princípio, ou seja, a permeabilidade da metrópole foi determinante para o seu desenvolvimento (FINNERAN, 2005). Outro fator que facilitou a integração das culturas na visão de Williams é que por ser uma cidade nova, Alexandria não tinha uma elite tradicional dominada por poucas famílias. Pelo contrário, com o seu alargamento, seus grupos de destaque foram sendo formados por comerciantes de fronteira, ao invés de laços de família (2004, p. 46).
No séc. II Alexandria já era a maior metrópole do mundo conhecido e o posto comercial mais dinâmico (GODDIO; CLAUSS, 2006, p. 54). Conforme crescia, precisava do Egito inteiro para alimentá-la. A cidade não necessitava de um território próprio (de uma chora que a abastecesse), pois além de todo o Egito lhe enviar produtos, ela recebia tudo que chegava dos outros países (BERNAND, 2001, p. 53-54). Dessa forma, tornou-se praticamente auto-suficiente. A diferença em relação ao período de comercialização anterior, é que Alexandria, nomeada por Rostovtzeff de “o maravilhoso novo portão”, promoveu a abertura do Egito, o que não teria sido realizado sem a cooperação de estrangeiros acostumados com uma economia monetária e experientes em relação ao sistema comercial do mundo mediterrâneo (1941, p. 364). A novidade não foi apenas a entrada de estrangeiros, o que já ocorrera antes, mas o fato de torná-los bem-vindos e necessários, além de lhes garantir um papel de protagonista nas negociações.
Os Ptolomeus e os gregos comerciantes que chegaram com eles introduziram uma economia monetária no Egito (conforme já existia em outras regiões gregas). Fizeram isso provavelmente por se sentirem desafiados diante da necessidade de organizar a conquista macedônia e as terras enormes e férteis que a conquista do Egito abriu para eles (BINGEN, 2007, p. 187). Os reis adotaram um sistema monetário exclusivo. Ou seja, o dinheiro estrangeiro que entrava no território deveria ser convertido em moeda ptolomaica. Assim, a cunhagem de moedas em Alexandria era
usada em um circuito fechado, pois as que eram confeccionadas na cidade permaneciam restritas ao Egito, e moedas produzidas em outros lugares do Mediterrâneo não entravam no país. O sistema teve origem com o primeiro Ptolomeu, que fechou as fronteiras para moedas estrangeiras em 305 (GODDIO; BERNAND, 2004, p. 143). Confiantes na sua riqueza e poder, Rostovtzeff (1941, p. 401) argumenta que os Ptolomeus provavelmente fizeram isso para se isolarem do resto do mundo helenístico. Os reis queriam que seu império fosse uma unidade fechada, com uma estrutura e uma cunhagem uniforme, o que os tornaria auto-suficientes. Nesse sentido, foram diferentes dos Selêucidas, mais “adaptáveis” ao meio. Rostovtzeff está aparentemente equivocado em falar de isolamento, pois toda a realidade criada para a cidade caminhava no sentido contrário. Acreditamos que isso foi feito para os reis serem os condutores das negociações e terem maior controle sobre seus lucros.
Conforme a comercialização crescia, o controle dos Ptolomeus sobre a região também se fortaleceu, permitindo que Ptolomeu I Soter construísse uma marinha forte, através do estímulo à imigração, que introduziu novas técnicas de construção naval (WILLIAMS, 2004, p. 54). A predominância nos mares e as conquistas fora do Egito possibilitaram aos reis o acúmulo de grandes fortunas para a construção de sofisticados monumentos que embelezaram Alexandria rapidamente (WILLIAMS, 2004, p. 38).
O sucesso econômico de Alexandria estava diretamente relacionado à sua posição como potência naval, e o controle dos mares estava atrelado à riqueza antiga e duradoura do Egito. Ou seja, conquistas militares e sucessos econômicos estavam interligados (WILLIAMS, 2004, p. 32). Alexandria se desenvolveu então como um importante centro para a construção naval, ao mesmo tempo em que se tornou uma cidade sofisticada e exuberante.
Com relação à produção egípcia, o território era o principal produtor de papiro do Mediterrâneo, que era comercializado através de Alexandria. É provável que no período faraônico os reis tivessem monopólio sobre o papiro. No entanto, foi sob os Ptolomeus que sua produção se expandiu a ponto de exportar para toda a região (BAGNALL; RATHBONE, 2004, p. 23). A produção e difusão do papiro passaram a ser ainda mais controladas pelo governo depois da conquista romana (CAPPONI, 1975, p. 146).
Antes da transformação em província, o trigo egípcio já era importante para o Mediterrâneo e o crescimento de Roma no período republicano exigiu maiores safras.
Assim, Roma tornou-se cada vez mais dependente do seu fornecimento. Durante o Principado, África e Egito ocuparam o lugar da Sicília como os maiores fornecedores de Roma, em virtude do aumento de necessidades da cidade, e a Sicília simplesmente não era grande o suficiente para abastecer o crescente mercado romano (ERDKAMP, 2005, p. 219). A maior parte do trigo egípcio chegava à capital do império através de impostos. Assim, não se deve colocar tanta ênfase na sua comercialização (ERDKAMP, 2005, p. 208). A própria cidade de Roma era o seu maior destino, apenas em anos muito produtivos o suprimento era direcionado para as cidades do Oriente (ERDKAMP, 2005, p. 226). Com base em dados fornecidos por Flávio Josefo, a historiografia é praticamente consensual com relação à importância do Egito como o fornecedor de um terço do trigo necessário à Roma, sendo os outros dois terços supridos pela África 9. No entanto, Erdkamp duvida da afirmação de Josefo com base em outras informações e defende a predominância do Egito em relação à África (2005, p. 226). Os acadêmicos (CASSON, 1984, p. 82; ERDKAMP, 2005, p. 233) discordam também com relação ao momento que o suprimento egípcio se tornou vital para Roma, se ainda na República (perspectiva defendida por Casson) ou apenas no império (visão de Erdkamp). Erdkamp diz que há poucas menções nas fontes para defender a visão de Casson, no entanto, ele nem menciona as importantes passagens de Cícero com relação à questão, como veremos mais adiante.
Aparentemente a riqueza do país era motivo suficiente para os romanos intervirem nas questões internas do Egito, e pode ter sido essa abundância que o salvou da conquista direta pelo império por tanto tempo. Em outras palavras, não foi uma coincidência que a batalha final pelo trono imperial tenha sido disputada nos portões de Alexandria (GODDIO; CLAUSS, 2006, p. 56).
O transporte em larga escala de grãos do vale era essencial para o suprimento de comida na própria Alexandria, assim como em Roma, e o Nilo a ligava também, à costa do Mar Vermelho, através do entreposto de Copto. Alexandria também se tornou o mais importante ponto de acesso e condutor dos artigos da Índia, Arábia e de outros lugares do Oriente. Itens de luxo como incensos, pimentas, temperos, perfumes e pedras preciosas chegavam ao Egito via Alexandria e de lá eram mandados para outros lugares. Muitos desses produtos eram ainda manufaturados, processados e difundidos na cidade, juntamente com produtos artesanais baseados em produtos nativos, como papiro, vidro e
têxteis. Alexandria era também conhecida no Mediterrâneo oriental pelo seu trabalho de artes: jóias, vidros, mosaicos e esculturas eram particularmente proeminentes (BAGNALL, 2004, p. 52-53).
A disseminação desse comércio de luxo, se já era importante sob os Ptolomeus, em virtude de uma cultura de ostentação estimulada pelos reis, se intensificou no final da República e atingiu o seu ápice no Império. Em decorrência das conquistas, dos triunfos e butins realizados por generais vitoriosos, a entrada de artigos orientais em Roma começou a criar “modas” e estimular o comércio de artigos de luxo. Roma passou a consumir uma grande quantidade de artigos de luxo a partir de sua disponibilidade em Alexandria (WILLIAMS, 2004, p. 91). Grande parte ficava restrita no mercado egípcio e alexandrino, mas o resto ia para a Itália e outras regiões. Andrew Wallace-Hadrill (2008, p. 328) defende que o aumento do luxo foi possibilitado pelo aumento do comércio, mas também trouxe prosperidade a mercadores e artesão, possibilitando uma maior mobilidade social. Como Alexandria era a maior fornecedora de trigo, além de fonte de abastecimento para artigos de luxo, não resta dúvida de que tais bens viajavam nas mesmas embarcações, sendo até um incentivo a mais para os mercadores fazerem a viagem (2008, p. 332). Segundo Wallace-Hadrill, (2008, p. 360) tratava-se de um processo com três estágios: iniciava-se com a importação de artigos exóticos do Oriente, através de conquistas e butins que estimulavam “modas”. Tais modas criavam um apetite maior por esses produtos, o que aumentava a produção e comercialização com o Oriente. E o último estágio era o da imitação de tais modas em Roma, ao ponto de divulgar os mesmos produtos para o Ocidente.
Dessa forma, Alexandria servia como ponto de contato entre todos os portos do Oriente e tinha uma posição importante para suprir a si mesma com a quantidade de produção egípcia exigida pela sua população. O porto de Alexandria se destacava pela comercialização lá realizada, mas principalmente por servir de condutor para produtos de que boa parte do Mediterrâneo dependia. No final do período ptolomaico, através desse vínculo com o Oriente, a presença alexandrina no Mediterrâneo tinha diminuído e se deslocado para o Mar Vermelho, de onde exportava itens de luxo trazidos pelo Nilo dos portos (WILLIAMS, 2004, p. 101). Fraser (1972, p. 133) considera que apesar da “decadência cultural” do final do período ptolomaico, Alexandria ainda era o maior centro de “comércio mundial”. A posição fraca do Egito no Mediterrâneo apresentou-se como uma boa oportunidade para Cleópatra, que fez Alexandria reconquistar sua
autoridade em questões mundiais. Assim, para a rainha, restaurar a glória dos seus antepassados significava retomar o Mediterrâneo. Portanto, deu pouca importância para o comércio com o Oriente através do Mar Vermelho (WILLIAMS, 2004, p. 110).
Sob Roma, Alexandria era a segunda cidade do império, e o mais importante núcleo comercial do Mediterrâneo Oriental, pelo qual passava produtos de todo o mundo. No entanto, deixou de ser a capital marítima, perdendo seu predomínio como potência naval (WILLIAMS, 2004, p. 114). Como já foi dito, a estrutura urbana de Alexandria facilitava a movimentação e a rápida circulação de produtos através da comunicação entre os dois portos. O sistema hipodâmico da cidade, com grandes avenidas, foi outro fator que facilitou o transporte e a circulação de produtos, pois os artigos podiam ser levados através de uma rota direta (GODDIO; BERNAND, 2004, p. 148). O porto de fora era usado principalmente para essa comercialização internacional, mas o porto interno do lago Mareótis era também importante, pois era aonde chegavam às embarcações vindas de dentro do Egito. Ballet (1999, p. 33) considera que o lago era um verdadeiro “mar interior”, pois unia Alexandria ao Nilo, e mais a oeste, ao Mar Vermelho. Era esse lago que concedia a Alexandria sua reputação de primeiro empório da região. O lago era ligado por canais ao Nilo, mas também ao mar, por isso ficava repleto de viajantes e comerciantes (EMPEREUR, 1998, p. 215).
O Egito não era importante para o império apenas pelo trigo, mas pela quantidade de riquezas que afluía para Roma através de impostos, por ser a província mais populosa e rica do império (CAPPONI, 1975, p. 168). A incorporação do Egito trouxe até mesmo inflação nos preços de Roma, pela quantidade de riqueza absorvida dos Ptolomeus (CAPPONI, 1975, p. 157). Tais impostos em trigo geravam excedentes, pois o montante era superior às necessidades da população. O excedente era revendido pelo Estado de volta à Alexandria, que tinha então o suficiente para se nutrir e alimentar muitas grandes cidades do baixo Mediterrâneo (CLARYSSE, 2000, p. 60).
Com a intensificação do comércio com o Oriente e o aumento no fornecimento de trigo para a capital, havia um fluxo praticamente contínuo de carregamentos de Alexandria para Roma a partir do século I a.C., com o envio de manufaturados da própria cidade, além do trigo e itens de luxo (CASSON, 1984, p. 83). Dessa forma, o porto de Alexandria tornou-se o mais importante do Mediterrâneo para a circulação de produtos mundiais e artigos de luxo e se sobressaiu também como ponto de escoamento da produção egípcia de trigo e papiro. O porto interno era vital para escoar os artigos
mundiais para dentro do Egito, e levar toda a produção do vale à Alexandria, que encaminharia esses produtos por variadas regiões do Mediterrâneo. Sob Roma, o porto se manteve ativo e fervilhante, mas foi reordenado pela potência, pois a maior parte era destinada à cidade e ditada pelas necessidades do Império.