REA, Henri de la Ville de Mirmont não teve a carreira marcada por reconversões maiores, o que requer ponderação. Por que, afinal, teria ele investido tanto nessa publicação? Duas variáveis aparecem aqui como decisivas: os vínculos com sua terra natal e sua i li aç oà lite ia .
Nascido em 1858 no seio da aristocracia católica de Bordeaux, De la Ville de Mirmont teve uma educação de elite. Normaliano, ele integrou a promoção de Clerc e Jullian (1877), prestando três anos mais tarde a agrégation de lettres, na qual obteve um respeitável quinto lugar. Não obstante, a chance de estudar no exterior ou não lhe foi ofertada ou não o seduziu. Em todo caso, ele iniciou logo na seqüência a carreira docente, a qual se passaria toda no sudoeste da França. Seu primeiro posto foi no Liceu de Pau (1880-3), de onde ele partiu para se tornar Maître de
Conférence e, depois, Professeur de Langue et Littérature Latines na Faculdade de Letras da
cidade onde nasceu (1883-1923). Além disso, De la Ville de Mirmont escreveu para jornais locais e participou do serviço de instrução pública da prefeitura de Bordeaux.
O grosso de sua produção foi dedicada à literatura e à retórica antigas. Tradutor de Cícero e comentador de vários prosadores e poetas, ele defendeu uma tese sobre o papel dos deuses no épico de Apolônio Ródio e em Virgílio (1894). Dos dezenove artigos que escreveu nas revistas dedicadas aos estudos greco-latinos até 1920, a maioria tratou da vida e da obra de escritores. Não obstante, explorou também temas análogos aos dos colegas, como atesta a série de quatro textos seus sobre a astrologia galo-romana (REA,
1902: 115-111; REA, 1903: 255-293; REA, 1906: 128-164; e REA, 1907: 69-82, 155-171).
Mas o envolvimento com a literatura ia além da profissão. Sua esposa, Sophie Malan, foi uma escritora de relativo sucesso. A mesma ocupação seduziu também um de seus filhos, Jean de la Ville de Mirmont. Apesar da curta carreira, abreviada pela morte nas trincheiras, Jean foi considerado uma jovem promessa, sendo mesmo laureado postumamente pela Académie
Française. O desaparecimento precoce do filho
abalou muito o casal, o qual se dedicou depois a publicar suas cartas e biografia. É a partir de tais fontes que se pode apreender algo do ambiente familiar (DE LA VILLE DE MIRMONT, J., 1917 e DE LA VILLE DE MIRMONT, Mme., 1935). Note-se que as referências às temáticas greco-latinas são aí usuais, povoando tanto o que o jovem Jean viu no conflito (aà ete aàlutaàdosà a osà o t aàoà O ide te ), como suas memórias (as temporadas na propriedade da família em Royan, chamada
Les Argonautes, ou ainda a relação com os
amigos antiquisants do pai, Paris e Jullian). Embora tal faceta lite ia e provincial tenha afetado a atividade de Henri De la Ville de Mirmont, afastando-o de fontes não textuais e limitando reconversões similares às dos colegas, ela o sensibilizou à temática da REA. De fato, se abordagens literárias como a sua encontravam ainda ecos em Paris, tratava-se de uma tendência criticada na Nouvelle Sorbonne. Não parece assim fortuito o retrato que Radet registrou do amigo: u àlati istaàdeà aça ,à figu aào igi alàeàí teg a,à no estilo destes eruditos do século XVI que lhe eram tão familiares e com os quais ele sentia afi idadesàeletivas à ‘Eá,à :à -404).
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ARTESO investimento em novas disciplinas é um modo bastante comum de se firmar posição em mercados universitários em franca expansão. Se bem-sucedido, ele engendra espaços relativamente autônomos, nos quais experts se reconhecem e se fazem reconhecer como tais. Ao menos de início, motivados pela promessa de um ambiente mais livre, ou seja, desprovido de grandes concorrências e tradições previamente estabelecidas, os defensores desses saberes se veem forçados a migrar de áreas bem institucionalizadas para aventurar-se em vias heterodoxas de consagração. Os usos das á tiguidadesàNa io ais àpor parte dos indivíduos reunidos em torno da REA remetem invariavelmente a processos análogos.
A referida expressão já havia sido cunhada, contudo, antes do fin-de-siècle. Seja para evocar a ideia de antiquariato, o que remetia às suas raízes etimológicas, seja como sinônimo de arqueologia do território francês, falou-se em á tiguidadesàNa io ais àdesde ao menos o Antigo Regime. Em 1776, por exemplo, Louis XVI se valeu de uma variante sua para compor o terceiro princípio diretor da então recém-reformada Académie des Inscriptions et Belles- Lettres,à ualàseja:à elaàes la ecerá os títulos, diplomas e antiguidades da história da França e das outras Nações, principalmente aquelas cujos interesses e os eventos estão ou foram o i adosà o àa uelesàdaàF a ça à apudàG‘ELL,à :à .àNo século seguinte, em 1862, foi-lhe ainda concedida outra ancoragem institucional com a criação do Musée des Antiquités Nationales de Saint-Germain-en-Laye, cujo acervo abrigava coleções arqueológicas francesas que se estendiam da pré-história ao medievo. Tratava-se, nesse caso, de uma iniciativa de Napoleão III, interessado tanto em responder aos avanços da ciência prussiana quanto em reverter para si os lucros simbólicos das escavações em Alésia, derradeiro bastião da resistência gaulesa aos romanos.
Os sentidos fixados pelo tempo não foram propriamente desconsiderados quando á tiguidadesàNa io ais àapareceu em 1899 como título de uma das seções de artigos da REA. Ainda assim, para além deles, o velho rótulo passou a designar também um amplo e inovador programa de pesquisa. Mas do que tratava tal programa? Antes de tudo, importa aqui sublinhar que sà á tiguidadesàNa io ais foi associado um duplo objeto: a história regional e a nacional. A lição proferida por Clerc ao assumir a Chaire départe e tale d’histoi e de Provence é bastante esclarecedora quanto à relação que se pretendia estabelecer entre essas duas esferas. Na ocasião, ele lançou ao seu auditórioàasàsegui tesàpe gu tas:à oà àaàhistó iaà detalhada das províncias e das cidades a base indispensável da história nacional? Não é vão tentar a síntese da história da França enquanto não se tiver para a sustentar uma massa compacta de monografias locais? à CLE‘C,à :à .à Que ia-se, portanto, chegar ao Todo (a
177 Outra marca distintiva dasà á tiguidadesàNa io ais foi a fusão desse seu duplo objeto à temática dasà o igens .àPo à e to,àpe sa ànesses termos não era exatamente uma novidade, sobretudo ao se considerar que Grécia e Roma Antigas ostentavam então a fama de serem o berço do Ocidente e dos universais a ele vinculados (a invenção da razão, das artes e das ciências). A questão, no entanto, era que as nações europeias não possuíam apenas raízes greco-latinas. Daí as ressalvas da equipe inicial da REA aos grandes marcos cronológicos que organizavam o ensino nas Faculdades de Letras francesas (Antiguidade, Idade Média e Tempos Modernos): não obstante sua validade, eles eram excessivamente gerais quando se tratava das especificidades locais. áà soluç oà p opostaà o à asà Antiguidadesà Na io ais à passavaà por estudos minuciosos das regiões de uma Nação, o que deveria ser feito desde seu mais remoto passado. Era preciso, pois, inventariar quais povos haviam habitado cada localidade, suas crenças, hábitos e relações com vizinhos, bem como a dinâmica histórica de tudo isso. Não por acaso, um dos gêneros mais praticados entre os principais colaboradores da REA foi o estudo monográfico de cidades e de regiões, cujo paradigma havia sido estabelecido com um dos trabalhos pioneiros de Jullian sobre Bordeaux (1895). Some-se a isso toda uma gama de investigações pontuais (com destaque para a religião e a política), bem como a descrição crítica de materiais arqueológicos e epigráficos recém-descobertos. Se a história nacional deveria ser construída a partir de algum lugar, acreditava-se na REA que seria esse o ponto.
Mas o grande trunfo da disciplina coroada por um tal programa era mesmo sua disposição a englobar métodos e resultados provenientes de outros saberes para dar-lhes uma orientação própria. Desse modo, toda uma gama de ciências novas poderia ser mobilizada caso oferecesse instrumentos para a reconstrução da história de regiões e, por extensão, de Nações20. O mesmo valia para os mais tradicionais estudos célticos, germânicos e greco- latinos: cada um deles, à sua maneira, elucidava aspectos da formação dos Estados europeus. Em suma, não se queria simplesmente instituir um novo espaço disciplinar contra aquilo que já existia. O que se propunha era, de fato, uma encruzilhada de saberes, na qual os diversos especialistas poderiam se sentir à vontade para contribuir com a construção do edifício da história nacional. Por certo, tal esforço coletivo requeria artífices responsáveis pela síntese e
20 É novamente Michel Clerc quem, antes mesmo da criação da REA, anuncia de forma exemplar quais
sa e esà dizia à espeitoà à histó iaà ueà eleà al ejavaà p ati a :à à p e isoà e o e à aosà o he i e tosà especiais da geologia e da antropologia, mas infelizmente essas ciências estão ainda longe de estabelecer seus resultados definitivos. (...) É à linguística que é preciso recorrer para determinar com alguma probabilidade, por intermédio dos nomes dos lugares, a área geográfica habitada por esses povos; à arqueologia, para reconstituir ao menos em linhas gerais sua maneira de viver. (...) É sobretudo graças à epigrafia, ciência também muito recente, mas já absolutamente segura de seus métodos e resultados, que ósà pode e osà e o stitui à aà i age à daà Ma selhaà g egaà eà daà P ove eà o a a à (CLERC, 1893b: 8-10. Itálicos no original).
178 era neste momento que os pesquisadores voltados às á tiguidadesàNa io ais àentravam em cena, ao mesmo tempo auxiliando na confecção das partes e colando-as umas às outras.