A formação e a avaliação de magistrados nem sempre foram objeto de preocupação específica no Brasil. Muitas das pesquisas anteriores realizadas a respeito do Poder Judiciário, do papel dos juízes e de seu perfil não tomaram esta temática como problemática específica a ser investigada.
As primeiras pesquisas de relevo no Brasil acerca da magistratura surgiram apenas nos anos 1990. A importância de tais buscas anteriores é inegável, pois foram fundamentais para conhecer a magistratura brasileira e as tendências de transformação pelas quais passava e ainda passa o Poder Judiciário.
Na literatura jurídica, entretanto, sempre houve referência a esta problemática nas obras de Edgard de Moura Bittencourt, Sálvio de Figueiredo Teixeira, José Renato Nalini e outros autores nacionais, muitos deles magistrados que identificavam as consequências da ausência de uma formação mais qualificada, capaz de preparar os magistrados para exercer as suas atribuições profissionais.
Na produção internacional, destacam-se as referências a esta problemática nas obras de Boaventura Sousa Santos (2011, p. 95), para quem “a criação de uma cultura jurídica democrática passa pela transformação das faculdades de direito, mas também pela transformação dos modelos de recrutamento e formação”.
No Brasil, algumas das primeiras pesquisas, procuraram traçar o perfil da magistratura brasileira (VIANNA, 1997 e SADEK, 2006), enquanto outras (LEITE, 2004) realizaram avaliação por objetivos esperados e alcançados em curso de aperfeiçoamento e especialização ofertados pela ESMEC de 1995 a 2002.
As pesquisas de Vianna e Sadek, apoiadas e encampadas pela AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros), são responsáveis pela desmistificação de uma certa imagem que o senso comum estabeleceu em relação aos juízes; e mesmo se pode considerar essas pesquisas como decisivas para a destruição de uma série de preconceitos relativamente à profissão e àqueles que a exercem, entre os quais a falsa ideia de que os juízes eram pessoas completamente reservadas, quase inacessíveis, que nunca concediam entrevistas e somente falavam apenas nos autos dos processos, a fim de preservar sua “neutralidade”, jamais emitindo qualquer opinião de natureza política. Ao contrário do que pensava o senso comum, como revela Beneti,
Mudou a visão judicial, superada a Weltanschauung clássica, marcada pela doutrina da neutralidade absoluta, reclusa na leitura passiva dos textos legais. A crítica da vida e das instituições e a ânsia participativa permeiam os quadros da magistratura. Na magistratura, a hierarquia administrativa não mais se impõe só à proclamação, exigindo o acréscimo da credibilidade. A democratização interna dos tribunais, a equalização no tratamento de seus integrantes, o criticismo ativo e a ansiedade de comunicação com a sociedade são fatos evidentes. (BENETI apud SADEK, 2006, p. 99)
Existem diversos estudos sobre o papel do Judiciário, gestão judiciária e outras temáticas relacionadas, publicados como livros e artigos ou mesmo pesquisas em andamento. Alguns destes estudos foram produzidos pelos próprios juízes e servidores do Judiciário, em saudável exercício da crítica, resultado da
pesquisa e da reflexão com vistas à melhoria e ao aprimoramento constante da instituição judiciária. Outros, resultam de pesquisas como aquelas que têm sido realizadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e há dados em abundância a serem analisados, fruto também da divulgação oficial do boletim Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A ENFAM chegou a realizar em 2007 um levantamento dos grupos de pesquisa que estavam produzindo conhecimento sobre Poder Judiciário e editou uma obra na qual constam teses de doutorado e docência livre, dissertações de mestrado, monografias de cursos de especialização e outros trabalhos disponíveis na Biblioteca Digital de Dissertações e Teses (BDTD) do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT/MCT) na área de Direito. Esta bibliografia foi coletada e organizada pela ENFAM como catálogo no intuito de reunir as referências necessárias para subsidiar a implantação da própria Escola Nacional e seus programas de formação.
Pesquisando no Banco de Teses e Dissertações (BCTD), da CAPES, há poucos trabalhos específicos sobre a temática da formação de juízes ou educação judicial e nenhum respeitante à formação de magistrados estaduais de carreira. Entre os trabalhos específicos sobre educação judicial e formação de juízes, há a tese Formação de Juízes do Trabalho no Brasil após a Constituição Federal de 1988: a Escola da Magistratura da Justiça do Trabalho da 15ª região apresentada por Targa (2008) na Universidade de Campinas (UNICAMP), na qual a autora destaca com bastante propriedade em seu trabalho, fruto de investigação de natureza documental e estudo de caso, a dificuldade em preencher as vagas dos concursos realizados como um reflexo da crise do ensino jurídico:
Inúmeros concursos de ingresso à Magistratura são efetivados sem que as vagas oferecidas sejam preenchidas. Na raiz do problema encontra-se o desmonte do ensino jurídico no Brasil, com proliferação de faculdades e ausência de implantação de política de formação prevista na Constituição Federal para os magistrados. Aqueles que ingressam na carreira, cada vez mais jovens, conquanto submetidos a concursos que verifiquem seus conhecimentos jurídicos, necessitam receber os saberes vinculados ao exercício da complexa função jurisdicional, necessidade que permeia todo o desenvolvimento da vida profissional do magistrado. (Targa: 2008, xi).
Outro trabalho identificado, não especificamente sobre formação de juízes ou educação judicial, mas que tangencia tais assuntos, é a dissertação de mestrado A Constituição do Docente On Line em um Contexto de Educação Corporativa, de
autoria de Bárbara Burgardt Casaletti, defendida no Mestrado em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), trabalho no qual sua autora realiza pesquisa qualitativa descritiva, examinando inclusive a atividade de tutoria prevista na Resolução nº 71/2010, do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CJST), que instituiu o Plano Nacional de Educação a Distância e Autoinstrução para os Servidores da Justiça do Trabalho, além das Resoluções 126/2011 e 159/2011, do CNJ, que instituíram o Plano Nacional de Capacitação Judicial de Magistrados e Servidores e a Formação de Magistrados e Servidores do Poder Judiciário, respectivamente.
Nas áreas da Economia e da Administração, há trabalhos interessantes e significativos, inclusive com análises estatísticas, sobre o desempenho do Judiciário, o grau de satisfação da população com este poder do Estado e com as suas decisões, bem como sobre o grau de confiabilidade da instituição.
No âmbito da Administração, já há também algumas pesquisas que enfocam a questão relacionada à celeridade processual e produtividade no Poder Judiciário, mas pouquíssimos são ainda os trabalhos acadêmicos especificamente vinculados à temática da educação judicial, exigindo dos estudiosos e pesquisadores a realização de investigações mais amplas, tanto teóricas quanto de campo, que possam abrir os horizontes para esta problemática.
A maioria das teses e dissertações sobre Poder Judiciário, nada menos do que 850, entre dissertações e teses cadastradas no site do IBICT (http://bdtd.ibict.br) abordam questões relacionadas diretamente à atuação dos juízes na garantia dos direitos fundamentais, na interpretação das normas, no controle jurisdicional de políticas públicas ou mesmo sobre a crise de legitimidade do Judiciário, sua relação com a mídia e seu papel no Estado Democrático de Direito, especialmente no que concerne à efetivação dos direitos sociais.
Pouquíssimos são, portanto, os trabalhos na área da Educação que se reportaram especificamente à formação de magistrados e à educação judicial, destacando-se, neste aspecto e como já se fez observar, a tese de doutorado de Leite (2004), que realizou avaliação por objetivos esperados e alcançados em curso de aperfeiçoamento e especialização ofertados pela ESMEC de 1995 a 2002, defendida na Universidade Federal do Ceará (UFC) e a dissertação de mestrado de Silva (2014), voltada para uma análise curricular dos cursos de formação de magistrados, apresentada na Universidade de Brasília (UnB).