3.4. Kişiye Yönelik Sağlık Bilişim Teknolojileri
3.4.1. Kişisel sağlık kayıtları
Freud deu pouca atenção aos aspectos racionais da obra de Dostoiévski que não são facilmente redutíveis aos determinantes inconscientes, como, por exemplo, o uso de argumentos e personagens marcados pela influência consciente de outros autores e que são importantes no surgimento de heróis criminosos em Dostoiévski, como é o caso de Raskolnikov. Leonid Grossman aponta a influência de Balzac em Dostoiévski. Sabe-se que a tradução para o russo de Eugênie Grandet foi o primeiro trabalho impresso do romancista russo286 e que deixou marcas em sua obra. Grossman mostra que o momento da descoberta das moedas no colchão de Prokhartchin é um eco direto da descrição do porta-moedas de Eugênie Grandet.287 Mas seria em Le père Goriot que estaria uma grande semelhança de situações com “O senhor Prokhartchin: ambos alvos da chacota dos inquilinos de uma pensão.”288 Também em Goriot o personagem é visto através da opinião dos demais, sendo ele próprio localizado fora das descrições do narrador. Schnaiderman ainda aponta outras ligações entre os dois escritores, como a denominação que o narrador de Balzac dá a Goriot, “pai eterno”, e o Eterno marido, de Dostoiévski.
Lukács, em seu ensaio de 1943, também aponta a influência de Balzac em Dostoiévski: “Raskolnikov é Rastignac da segunda metade do século XIX.”289 Mas tanto Lukács, como Schnaiderman apontam para a originalidade de Dostoiévski que consiste exatamente na maneira como ele se liga ao escritor francês. Enquanto Balzac queria ser, como ele mesmo dizia, o historiador de sua época, usando um tempo histórico rigorosamente marcado, com alusões 286 Leonid Grossman, Dostoiévski artista, 1967, p.94; Boris Schnaiderman, Dostoiévski – prosa poesia,
p.93.
287 Leonid Grossman apud Boris Schnaiderman, Dostoiévski – prosa poesia, p.93. 288 Boris Schnaiderman, Dostoiévski – prosa poesia, p.94.
cronológicas, Dostoiévski “idealiza a mudança dos tempos, dos homens, da psicologia, da moral humana e das concepções de mundo.”290 É talvez nesse sentido que Adorno mostra que a psicologia de Dostoiévski é da essência e não dos homens empíricos: Goriot, mesmo em seu delírio é distinto de Raskolnikov, pois no primeiro a linguagem e a lógica não chegam a ser abaladas como são radicalmente no segundo.291
Lukács lembra a semelhança do tema de Crime e Castigo e o tema do mandarim em Balzac292, mas aponta a diferença: em Balzac esses momentos são isolados, ilustrações da questão principal do romance, enquanto que em Crime e
Castigo este é o problema essencial: “com grande e consciente espírito artístico,
ele o coloca no centro.”293 Raskolnikov não sabe o que roubou. Trata-se de saber se Raskolnikov pode se tornar Napoleão, se ele pode ultrapassar os limites morais e suportar isso psicologicamente, e quais as forças, inibições, motivos e recursos psíquicos nas circunstâncias de seu ato criminoso. Essa influência levou Dostoiévski a abordar um tema importante: a experiência psicológica dos personagens.
Segundo Lukács, o conhecimento de si próprio por meio de uma experiência, o conteúdo e as conseqüências de uma ação, é algo importante para o mundo culto dos séculos XIX e XX. Mas em Dostoiévski isso se dá de forma singular, pois ele não tem em mira objetivos sociais ou ambições individuais. Dostoiévski expõe o esforço pelo autoconhecimento quando o indivíduo se dirige para outra pessoa, sentindo por meio delas o efeito sobre determinadas ações; ou, de uma outra maneira, expõe o isolamento e a solidão das pessoas, quando em sua introversão o pensamento alheio se torna algo incógnito, que serve para 290 Ibidem, p.147.
291 Cf. Boris Schnaiderman, Dostoiévski – prosa poesia, p.95.
292 Se, apertando um botão, uma pessoa pudesse matar um desconhecido mandarim chinês, ganhando
com isso um milhão, teria o direito de pressionar o botão?, in Georg Lukács, Dostoiévski, in Ensaios sobre literatura, 1965, p.148.
subjugar ou ser subjugado. As experiências constituídas pelos conflitos psicológicos entre os personagens expõem o isolamento no qual o indivíduo está submetido, levando-o ao desequilíbrio emocional (Stavroguin, de Os demônios) ou a uma idéia fixa (Raskolnikov). Lukács soube analisar a conseqüência dessas experiências que aparecem em distintas formas e em vários personagens de Dostoiévski. Isso permite pensar que o crime de Raskolnikov – o assassínio de uma usurária que segundo se diz freqüentemente tinha semelhanças com o pai de Dostoiévski – não pode ser redutível a um complexo de Édipo. Assim também em Os irmãos Karamázov. A psicologia de Dostoiévski vai além em mostrar o conhecimento que o indivíduo obtém de si mesmo enquanto atua na sociedade. Para Lukács, Dostoiévski expressa uma tentativa desesperada de autoconhecimento, desesperada porque o homem solitário tenta inutilmente demolir uma muralha que o separa de outro homem: “é uma tentativa desesperada e sempre inútil. Durante a experiência, exprime-se, na mais pura das suas formas, a tragicidade – ou a tragicomicidade – do homem solitário.”294
293 Georg Lukács, Dostoiévski, in Ensaios sobre literatura, 1965, p.149. 294 Ibidem, p.153.
Assim, a partir desses elementos apresentados, é possível pensar na insuficiência da interpretação freudiana em relação a Dostoiévski. O ensaio que foi publicado como introdução a uma nova tradução alemã de Os irmãos
Karamázov, de certo modo sugeria uma via interpretativa para o romance e que
não parece ser a mais adequada, por ocultar elementos importantes da obra como os que foram apresentados aqui. As análises de Freud sobre obras de arte, quando não são considerados os vários elementos que as compõem, acabam por ocultá- las em grande parte. Teorias que servem ao esclarecimento sempre acabam por deixar um ponto cego, que deve ser incessantemente procurado. Não apenas a psicanálise, mas também teorias como o marxismo, o estruturalismo, a hermenêutica… podem deixar de lado elementos valiosos, caso o pensamento, que deveria ser sempre inquieto e desconfiado, abandone o movimento do seu objeto e a tensa relação entre o universal e o particular.
A reflexão dialética da teoria crítica ainda hoje se apresenta como valiosa forma de realizar uma exposição da complexa realidade em que sobrevive o humano, ou talvez melhor dizer, sua escandalosa e irônica simplicidade, embora a teoria crítica ensine a importância de se suspeitar de seus próprio achados.
É certo que após a plena constituição da psicanálise como ciência e após os inúmeros debates que se tem feito sobre os problemas da interpretação psicanalítica na arte, ela se mostra distinta da maneira como Freud a realizava, embora a moda biográfica ainda tenha peso forte nessa sociedade individualista. Mas a teoria crítica, conforme essa pesquisa tentou mostrar, não apenas busca a psicanálise para pensar os momentos projetivos numa obra – tanto do lado do autor, como do receptor – mas mostra que ela vai ainda além, expondo como, por meio do indivíduo, a sociedade se faz ouvir, mesmo à sua revelia e contragosto, mas permanecendo sempre atenta para os momentos em que a ciência promove o emudecimento da arte.