Analisadas as trajetórias de duas personagens ícones do deslocamento do sertão para a cidade, torna-se imprescindível a reflexão sobre todo esse processo. Ao serem transportados de um mundo ao outro, Fabiano e Macabéa sofrem as transformações advindas dessa “viagem”. Eles saem do sertão, de uma fixidez sociocultural, onde não são sujeitos a quase nenhum tipo de mobilidade social, mas almejam a metrópole, local representativo de outra dimensão socioeconômica e cultural, que oferece aos retirantes possíveis chances de transformação de suas existências.
Ao contrário do sertão, a cidade simboliza sonhos e esperança. Apesar de todos os percalços, é um ambiente atraente, sedutor. Os seus perigos ficam escondidos, disfarçados. Não se vive numa metrópole sem que se tenha consciência de sua grandeza. O indivíduo deve estar preparado para fazer uma ruptura quase que completa com o passado, e deve contemplar novos cursos de ação que não podem ser guiados simplesmente por hábitos estabelecidos.
Num universo social pós-tradicional, organizado de forma abstrata, o indivíduo sofre uma mudança maciça. A modernidade confronta o indivíduo com uma complexa variedade de escolhas e ao mesmo tempo oferece pouca elucidação sobre as opções que devem ser selecionadas. Dessa forma, a tendência é que a metrópole crie indivíduos inadequados, com dificuldades de se adaptar, alheios às transformações pelas quais suas vidas provavelmente vão se submeter.
Em relação ao universo de Fabiano e Macabéa, o que pôde ser observado remete-nos à questão de se ter ou não consciência da condição de retirante, de excluído. Fabiano é simplório e inofensivo, no entanto reconhece seu lugar no mundo. Macabéa, por sua vez, não tem noção sequer do próprio corpo, vive isolada do resto do mundo e, na sua ignorância, julga-se feliz.
Vidas secas é feita de ausências: de água, de nomes, sobrenomes, palavra, respeito. A todo o momento podemos perceber a noção de que a palavra deve ser entendida como a via principal do conhecimento e, consequente, desenvolvimento. Os retirantes assombram-se com as coisas anônimas que compõem a realidade do cenário urbano, que se propaga no anonimato de cada um à margem.
Sob esta perspectiva, não podemos entender a seca como única fonte dos problemas do sertanejo. Em qualquer estação do ano, a condição de sobrevivência
dessas pessoas é de limitação extrema. Assim, a linguagem reflete as adversidades do sertão na dificuldade de expressão e embaraço na ordenação do pensamento. Assim, Fabiano sente falta da linguagem, sem a qual a dificuldade de sobrevivência numa cidade grande aumenta. Como animal encurralado, Fabiano sempre se mostra sufocado pelo meio.
No entanto, o que se nota em Vidas secas é que Graciliano dá voz àqueles que mal sabem entender os próprios sentimentos. Mesmo privado do necessário à dignidade humana, Fabiano simboliza a superação de limites, ao buscar vencer as intempéries da vida dura do sertão e carregar esperança no futuro para os filhos. Sua coragem possibilita a reinvenção da falta, atitude que marca a relação do sujeito com o mundo. Nesse conjunto mesclado de desejos e privações, o silêncio funciona como uma ferramenta em prol da comunicação desesperada de Fabiano, que anseia viver dignamente.
Macabéa, por outro lado, não possui consciência como Fabiano. As palavras também lhe são escassas, mas seu futuro encontra-se traçado, previsível pela percepção limitada da moça. Com poucas chances de sobrevivência num ambiente que repele sua existência marcada pelas faltas, é engolida pelo progresso da cidade. A hora da estrela, ironicamente, concretiza-se com a morte da protagonista. Neste momento, o narrador assume o perfil de Clarice e busca entender a morte de Macabéa como um encontro da personagem consigo mesma. Assim, a morte da personagem representa redenção. Ao morrer, ela nos faz refletir sobre o papel da mulher dentro da sociedade. Ela passa a ocupar espaço, passa a ser notada. Mulher, nordestina e pobre, sua condição é de insignificância. Sua morte traz à tona o cotidiano de mulheres que sofrem o revés de não serem reconhecidas enquanto cidadãs.
Desse modo, o universo clariceano propicia ao leitor uma reflexão sobre as incongruências sociais, nas quais os valores humanos se encontram ultrajados. Nesse sentido, o texto de Clarice é socialmente engajado, na retratação de seres humanos massacrados pelo cotidiano. A presença do grotesco confere à narrativa o avesso do feminino que não se espera. Macabéa é a retratação da mulher no anonimato. Mostra-se amorfa, sem coragem de ter esperança, sem se importar com a falta de passado, mas contenta-se com um presente medíocre. Ironicamente, a moça, incapaz de entender e se articular pela linguagem, tem o futuro despertado pela palavra de uma cartomante.
Em ambas as obras, as vozes dos autores, narradores e personagens participam da dialogicidade orquestrada em sinfonia. Graciliano e Clarice projetam o ser humano
em constante tentativa de inserção no ambiente social que habitam. Desse modo, a teoria bakhtiniana é elucidativa na análise das vozes sociais das personagens. Os narradores, tanto em Vidas secas quanto em A hora da estrela, são vozes fundamentais na mediação e esclarecimento da interação indivíduo e sociedade.
Em Vidas secas, notamos a impossibilidade de a história ser contada a partir da visão de Fabiano, visto que a personagem não tem instrução e apresenta sérias dificuldades em se comunicar. Graciliano, assim, dá onisciência ao narrador, que, através de um olhar sensível, revela-nos a precariedade da condição humana nordestina. Em A hora da estrela, o narrador, diferentemente, atravessa uma crise de identidade desencadeada pela incômoda existência da moça nordestina: Macabéa representa a verdade que deseja ignorar. Ironicamente, sua rejeição inicial transforma-se em necessidade de aproximar-se e proteger a moça.
Um dos aspectos mais reveladores dentro da análise nasce do fato de que as personagens de Vidas secas são conscientes de sua pobreza verbal, admiram os que possuem a capacidade de comunicação simbólica e aspiram quase que desesperadamente, a linguagem como fator libertador de sua condição subumana. Só a linguagem confere sentido humano à existência. No contexto das obras, a circularidade, responsável pela estagnação, é rompida pela escolha final de Fabiano.
Em contraponto ao que encontramos na análise de Vidas secas, percebemos em Clarice , em A hora da estrela, a busca da real condição humana. Sua poética, tecida e incrustada na cidade e no tempo presente, revela a angústia do mundo contemporâneo e a solidão humana. Macabéa, na total precariedade de linguagem, de ambições, de desejos e de família, é incapaz de perceber a possibilidade da existência de um futuro.
No processo reflexivo permitido pelos textos de Clarice e Graciliano, o leitor se depara, ao final das narrativas de Vidas secas e A hora da estrela com a necessidade de repensar a sua responsabilidade social . As últimas palavras do narrador de A hora da
estrela sugerem tempos de colheita, de novos frutos, do surgimento de novas possibilidades, esperanças, escolhas: Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos...