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1. BÖLÜM

4.3 Kaya Oyma Yapının Sayısal Modellemesi

4.3.1 Kesit-1

De acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT) e a United Nations Statistical Commission (UNSTAT), o turismo consiste na atividade de quem viaja ou permanece em lugar que não seu ambiente normal por não mais do que um ano consecutivo, em razão, entre outras, de lazer ou trabalho (COOPER ET AL, 2001). De acordo com esses autores, o World Travel and Tourism Council (WTTC) estimava, em meados dos anos 1990, que o turismo já seria a maior indústria do mundo, responsável pela geração de 204 milhões de empregos diretos e indiretos e por 10% do produto interno bruto (PIB) mundial.

Ao desqualificar turismo como uma ciência ou disciplina, Tribe (1997) aponta que o termo não se refere a uma metodologia de análise e explicação da realidade, mas a um campo que

tem como objeto os fenômenos provocados pelo deslocamento temporário de pessoas. A partir de extensa revisão da literatura sobre os diversos conceitos empregados para definir o termo turismo, este autor oferece uma definição ampla, que captura a complexa e multifacetada natureza da atividade turística: “[Tourism is] the sum of the phenomena and relationships arising from the interaction in generating and host regions, of tourists, business suppliers, governments, communities, and environments.” (TRIBE, 1997, p. 641).

Esta definição consegue englobar elementos relacionados ao turista (motivação, escolha e satisfação, entre outros), aos negócios (marketing, hospitalidade, recreação), às comunidades receptoras de visitantes (percepção da atividade, impactos sociais, econômicos e culturais), aos ambientes natural e construído, aos governos dos países receptores (medição, regulação, planejamento e fomento da atividade turística) e aos governos dos países geradores do fluxo turístico (efeitos econômicos, sociais e culturais) (TRIBE, 1997).

Cooper et al. (2001) dividem o mercado turístico em três segmentos de mercado, de acordo com o propósito da viagem. O primeiro segmento é “lazer e recreação”, o que inclui férias, esportes, turismo cultural e a visita a parentes e amigos. O segundo segmento é o de “profissional e de negócios”, englobando viagens para participação em reuniões e conferências, missões empresariais, desfrute de viagens de incentivos, etc. O último segmento inclui “estudos e saúde”, entre outros propósitos.

Smith (1989) identifica cinco tipos diferentes de turistas no segmento de turismo de lazer, formado a partir da disponibilidade de tempo para atividades de lazer, disposição de renda discricionária e ocorrência de sanções legais da comunidade de origem para a prática desta atividade.

O primeiro é o “turismo étnico”, voltado ao conhecimento de lugares distantes da civilização

e culturas primitivas44. O segundo tipo é o “turismo cultural”, voltado a lugares pitorescos e

deliciosamente atrasados, na perspectiva dos turistas, marcados por anacronismos e pela ausência de problemas contemporâneos presentes em grandes centros urbanos, como congestionamento, poluição visual, oferta de produtos em série, etc.

44 Os conceitos de civilização e cultura primitiva são atribuídos, de forma geral, a partir dos valores presentes em grandes centros urbanos e países de desenvolvimento econômico avançado.

O terceiro tipo é o “turismo histórico”, voltado à glorificação dos fatos e monumentos do passado, com a visita a atrações como museus, catedrais e grandes monumentos. De forma geral, este tipo de turismo desenvolve-se em centros importantes da história mundial, como Roma, Egito, Paris, etc.

O quarto tipo é o “turismo ambiental e ecológico”, voltado à visita de atrações naturais.

O último tipo é o “turismo recreacional”, composto, de forma geral, pelo composto sol, mar e praia. Fazem parte deste tipo de turismo viagens movidas pelo desejo de aventura, prática de esportes e sexo.

Las Vegas simboliza um dos tipos de turismo recreacional: mercado de apostas, apresentações artísticas de nomes famosos no show business, prostituição e possibilidade de embarcar em um mundo marcado por outro padrão de moralidade.

Urry, em influente obra a respeito das transformações nas viagens de lazer no mundo contemporâneo (URRY 1996), analisa algumas práticas sociais presentes no

desenvolvimento do turismo como atividade de lazer45. O turismo consiste no movimento de

pessoas para destinos fora de seus ambientes normais de trabalho e residência, para o desenvolvimento de atividades que contrastam com as ações empreendidas em seu dia a dia. Isto caracteriza a atividade turística como um período de exceção, presidido pela intenção, por parte do viajante, de retornar a seu ambiente de origem após um determinado período de tempo, geralmente curto.

O contraste entre as práticas turísticas e as atividades exercidas no dia a dia das pessoas passa, muitas vezes, pela construção do consumo turístico a partir de devaneios e fantasias construídos socialmente, através de TV, revista, rádio e internet. Deste modo, muitos objetos alvo do olhar do turista não são vistos de forma direta, a partir de suas características físicas ou históricas, mas como representações distorcidas da realidade, através de signos pré- estabelecidos.

45 Cabe destacar que mesmo no “turismo profissional e de negócios”, não raro acontecem atividades de lazer. Como será visto neste capítulo, uma parcela importante do segmento de turismo cultural é formada por turistas de negócios ou profissionais.

Esses objetos são incessantemente capturados e reproduzidos em fotos, filmes, desenhos e cartões postais, entre outros, gerando incontáveis representações da realidade ou de outras

representações46. Ao mesmo tempo, turistas e intermediários turísticos buscam

incessantemente novos objetos que possam ser alvo desse consumo e olhar, ampliando o conjunto de destinos disponíveis no mercado turístico mundial.

De acordo com Beeho e Prentice (1997), o produto turístico baseia-se essencialmente em experiências intangíveis, a partir dos benefícios, fantasias e interpretações que as atrações possibilitam ao turista desenvolver. As experiências não são algo universal ou padronizado, sendo vividas e interpretadas de forma diferenciada por cada turista, a partir de seus sentimentos, visão de mundo, repertório cultural e preconcepções.

Em uma pesquisa feita na cidade britânica de South Tyneside, Pocock percebeu que a imagem que os visitantes tinham do lugar era fortemente influenciada por textos de Catherine Cookson, ficcionista popular que escreveu vários livros sobre o local (CHHABRA; HEALY; SILLS, 2003). Os turistas, de forma geral, ficavam satisfeitos com as experiências advindas da visita a South Tyneside a partir de expectativas criadas pela leitura dos romances de Catherine Cookson. Pocock argumenta que isso demonstra o poder que fontes secundárias podem ter de criar expectativas e gerar demanda de visitação a um lugar.

A partir dos hábitos dos turistas de comprar lembranças dos lugares visitados, Graburn (1989) resume a importância das experiências intangíveis na atividade de turismo: “Souvenirs are tangible evidences of travel that are often shared with family and friends, but what one really brings back are memories of experiences.”

Os gráficos 3 e 4 mostram a evolução do turismo internacional, em termos de chegadas de turistas internacionais e receitas advindas da atividade, respectivamente:

46 Como coloca Goodwin, a respeito do hábito dos turistas de fotografar a reprodução de cenários de uma telenovela inglesa, a revelação das fotos representa o consumo de uma representação de uma representação de uma representação (URRY, 1996).

Gráfico 3 - Evolução da chegada de turistas internacionais no período 1965-2003 (em milhões). Fonte: INSTITUTO BRASILEIRO DE TURISMO, 2004.

Evolução da chegada de turistas internacionais no período 1965-2003 (em milhões) 0 100 200 300 400 500 600 700 800 1 965 1 966 1 967 1 968 1 969 1 970 1 971 1 972 1 973 1 974 1 975 1 976 1 977 1 978 1 979 1 980 1 981 1 982 1 983 1 984 1 985 1 986 1 987 1 988 1 989 1 990 1 991 1 992 1 993 1 994 1 995 1 996 1 997 1 998 1 999 2 000 2 001 2 002 2 003

Gráfico 4 - Evolução das receitas geradas pelo turismo internacional no período 1965-2003 (em US$ bilhões). Fonte: INSTITUTO BRASILEIRO DE TURISMO, 2004.

Evolução das receitas geradas pelo turismo internacional no período 1965-2003 (em US$ bilhões)

0 100 200 300 400 500 600 1 965 1 966 1 967 1 968 1 969 1 970 1 971 1 972 1 973 1 974 1 975 1 976 1 977 1 978 1 979 1 980 1 981 1 982 1 983 1 984 1 985 1 986 1 987 1 988 1 989 1 990 1 991 1 992 1 993 1 994 1 995 1 996 1 997 1 998 1 999 2 000 2 001 2 002 2 003

A partir do final dos anos 1980, com a emergência do tema turismo cultural na literatura acadêmica, conceitos diversos surgiram para delimitar o novo campo de estudos (BALCAR; PEARCE, 1996).

A revisão dos conceitos de cultura como produto ou processo é útil como introdução à discussão das diversas definições de turismo cultural presentes na literatura.

De acordo com Bennett (1995), o termo cultura pode ser usado para designar um produto ou processo. No primeiro caso, cultura significa o resultado do conjunto de atividades artísticas e culturais, na forma de produtos tangíveis e intangíveis. A cultura consiste em edifícios, músicas, danças, pinturas, festivais, entre outros produtos, gerados pelas diversas áreas culturais.

No segundo caso, cultura assume um sentido antropológico, referindo-se ao modo de vida de uma determinada população. Neste sentido, pode-se dizer que existe uma cultura brasileira, afro-brasileira, paulistana, entre diversas outras.

Pensando cultura como processo, Volkerling (1996, p. 190) coloca: “Culture is that set of socially structured practices by which meanings are produced and exchanged within a group (Crane 1992a, 1992b, 1994; DiMaggio 1978, 1987, 1992; Swidler 1986; Thompson 1990).”

Na literatura acadêmica, podem ser distinguidos dois conjuntos de definições sobre turismo cultural. O primeiro define turismo cultural a partir da demanda (motivos e experiências de viagem), enquanto o segundo foca aspectos da oferta (consumo de atrações classificadas como culturais).

As definições baseadas na demanda apresentam turismo cultural sob o foco das motivações de viagem e experiências pessoais dela oriundas. Neste sentido, não são os atributos de espaços ou objetos, mas interpretação dada à experiência turística, que definem se ela pode ou não ser classificada como cultural. Trata-se de um conceito baseado na demanda por experiências culturais, a partir da agenda pessoal de cada turista.

Silberberg (1995, p. 361) define turismo cultural como: “[...] visits by persons from outside the host community motivated wholly or in part by interest in the historical, artistic, scientific or lifestyle/heritage offerings of a community, region, group or institution.”

A motivação, por parte de um turista, em consumir experiências culturais em determinado destino pode resultar em visitas ao patrimônio edificado local ou na simples observação de como um grupo de pessoas relaciona-se em um bar ou restaurante, através de hábitos como se reunir à mesa para um chá ou café.

Poria, Butler e Airey (2003) afirmam que objetos nunca podem ser vistos de forma direta, mas apenas através de representações marcadas por construções sociais e signos pessoais. Seguindo esta linha, não existiriam histórias ou interpretações autênticas, já que todas as narrativas são subjetivas. Neste sentido, o turismo cultural é definido através da classificação de experiências pessoais como culturais, e não em termos do consumo de objetos e lugares supostamente impregnados de valores históricos, artísticos e culturais.

As definições de turismo cultural baseadas na demanda, ou seja, nas experiências pessoais advindas do consumo turístico, têm como principal ponto positivo levar em conta o fato de os turistas interpretarem o mesmo objeto ou destino de formas diferentes. Como diz Ronaldo Martins, gerente de operações, e um gerente de produtos da Flytour Travel Operator, relatando o comportamento de turistas que visitam Ouro Preto em um pacote de viagens:

Ronaldo Martins: Alguns turistas passam por uma obra de Aleijadinho como se fosse um poste.

Gerente de produtos: Exatamente, como se fosse um poste. Eu já vi um turista passar pela obra de Aleijadinho e dizer, “- Porra, esse cara errou aqui.” [risos] Até levei um susto quando ouvi isto.

Ronaldo Martins: E, se brincar, ainda fala, “- Nossa, está velho, mal conservado. Por que eles trazem a gente para cá?” [risos] (Entrevista em São Paulo, 06.06.2005).

O conjunto de definições de turismo cultural baseadas na demanda apresenta como principal problema a delimitação de o que constituiria atração cultural. A dependência das experiências pessoais dos turistas, com a atribuição de significados a diversos espaços e objetos de forma diferenciada, torna difícil definir o que é e o que deixa de ser uma atração cultural.

O alargamento indefinido dos espaços e objetos havidos por culturais, bem como a natureza “subjetiva” da experiência turística, dificultam a operacionalização do conceito por parte do poder público, em uma proposta de fomento e regulação do turismo cultural em bens edificados.

As definições de turismo cultural baseadas na oferta baseiam-se no consumo turístico de equipamentos e atrações previamente classificados como culturais: sítios e centros históricos, festivais, gastronomia local, centros de interpretação patrimonial, mercados tradicionais, museus, entre outros espaços, objetos e eventos. Trata-se de um conceito baseado na oferta de atrações culturais, previamente classificadas como tal e aptas ao consumo do fluxo turístico.

O conceito técnico de turismo cultural da European Association for Tourism and Leisure Education (ATLAS) revela o foco no consumo turístico de elementos previamente classificados como culturais: “[Cultural tourism is] All movements of persons to specific

cultural attractions, such as heritage sites, artistic and cultural manifestations, arts and drama outside their normal place of residence.” (RICHARDS, 1997, p. 24).

McKercher e du Cros (2003) definem turismo cultural como o consumo turístico de atrações previamente classificadas como culturais. O conceito de patrimônio cultural da International Commission on Monuments and Sites (ICOMOS) é usado para definir a oferta de atrações culturais de uma cidade, região ou país. Logo, a oferta de atrações culturais consiste em:

Cultural heritage is a broad concept that includes tangible assets, such as natural and cultural environments, encompassing of landscapes, historic places, sites and built environments as well as intangible assets such as collections, past and continuing cultural practices, knowledge and living experiences. Examples of tangible heritage include museums, historical buildings, religious sites and arguably theme parks if they have a heritage focus, whereas intangible heritage includes collections, performance and festivals. They do not include, however, tourist attractions without a clear, recognizable cultural or heritage focus. (MCKERCHER; DU CROS, 2003, p. 48).

A definição de turismo cultural proposta por McKercher e du Cros (2003) parece ser a mais apropriada para o objeto deste estudo, por uma série de fatores. Em primeiro lugar, este conceito de turismo cultural consegue prover uma delimitação razoável do segmento do mercado turístico, sem excluir elementos tangíveis e intangíveis que possam ser classificados como patrimônio cultural.

Em segundo lugar, o objeto de estudo da dissertação – fomento e regulação estatal de atividades de turismo que envolvam bens culturais edificados – contempla edificações previamente classificadas como patrimônio histórico e artístico nacional, independentemente das experiências pessoais advindas da visitação turística.

Em terceiro lugar, a expansão dos objetos alvo do olhar do turista (URRY, 1996) e o consumo de experiências diferenciadas a partir da agenda pessoal do turista (PORIA; BUTLER; AIREY, 2003) não impedem a concentração do fluxo turístico em destinos e grandes atrações culturais e a identificação destes objetos e espaços enquanto tal.

A visita à Torre Eiffel, em Paris, compreende o conhecimento de um dos ícones culturais da cidade, a apreciação da obra de engenharia e o cumprimento de uma obrigação por parte de

grande parcela de turistas em estadia ou passagem pela cidade47. O monumento possibilita uma miríade de interpretações, atribuições de significado e vivências pessoais diferenciadas a seus consumidores, todos dispostos a pagar o preço do ingresso para entrar na torre e consumir serviços e produtos em Paris em sua passagem ou estadia na cidade.

Benzer Belgeler