No senso comum, quando se fala em desigualdade social, a associação que se faz é com os grupos mais pobres da sociedade. No entanto, consideramos que a noção de desigualdade social diz respeito à desigualdade na distribuição de riquezas que há entre os polos mais ricos e mais pobres de nossa sociedade. É importante observar que tal disparidade nos rendimentos implica um acesso diferenciado a direitos e serviços para cada camada socioeconômica.
Medeiros (2005) afirma que desigualdade e pobreza, assim como desigualdade e riqueza, têm estreita relação: estão referenciadas à distribuição de recursos no País, estando os ricos concentrados no extremo superior da distribuição e os pobres na base. A riqueza se vincula à pobreza na medida em que é possível transferir para os pobres uma boa parte dos recursos dos ricos, trazendo com isso a possibilidade de erradicar a pobreza por meio da redução dos níveis de desigualdade. A desigualdade social pode ser estudada, dessa forma, considerando-se, em suas diferenças, as classes socioeconômicas que estão nos extremos da sociedade: os grupos que têm rendimentos familiares per capita mais altos e as camadas que possuem os mais baixos rendimentos.
A desigualdade social no Brasil não é um fenômeno recente: a sociedade brasileira foi estruturada, desde a chegada dos portugueses em nossas terras, a partir de um padrão altamente concentrado de distribuição social da riqueza. Ao analisar a história no Brasil desde os tempos coloniais, Campos et. al, em 2004, afirmavam:
Tem sido marcante no Brasil a inalteração do jogo distributivo, mesmo quando se trata do aparecimento de novos jogadores e da mudança do perfil de geração e apropriação da riqueza. Embora o país tenha passado pela fase colonial entre 1500 e 1882, pela fase monárquica entre 1822 e 1889 e, por fim, pela fase republicana (pós- 1889), não parece haver registros de modificação substancial no perfil distributivo. Aliás, este perfil foi potencializado com a expansão interna do capitalismo... (CAMPOS et. al, 2004, p.27)
Ao analisar a história recente do Brasil, Pochmann (2010) observou três padrões de mudança social – alteração das posições de distintos segmentos populacionais no interior da estrutura social. Entre 1960 e 1980, houve forte expansão tanto da renda nacional per capita quanto da desigualdade de renda. O período de 1981 a 2003 foi marcado pela estagnação da
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renda nacional per capita e a contenção da desigualdade, ainda que exposta a forte oscilação. A partir dos anos 2004, no entanto, surge um novo padrão de mudança social no Brasil, que combina a expansão da renda nacional per capita e a queda da desigualdade pessoal da renda. Isso ocorre em função tanto da recuperação do ritmo de crescimento econômico desde 2004 quanto da ampliação da renda das famílias, em especial aquelas na base da pirâmide social, por decorrência de políticas públicas como aumento do salário mínimo, de políticas de transferência direta de renda a segmentos vulneráveis via Previdência e Assistência Social e da recente adoção da política de inclusão bancária, elevando a concessão de crédito especialmente aos segmentos de baixa renda.
Nesse período, tem se assistido à redução da taxa média anual de desemprego e da pobreza, bem como ao aumento do salário mínimo, da ocupação e dos anos de escolaridade dos brasileiros. Pochmann (2010) mostra que, entre 2005 e 2008, encolheu o menor estrato de renda no Brasil (até R$ 188 per capita), pela ascensão de 11,7 milhões de pessoas para estratos de maior renda. Os estratos médio (R$ 188 a R$ 465 per capita) e alto (acima de R$465 por pessoa) ganharam maior representatividade populacional: 7 milhões de pessoas ingressaram no estrato médio e 11,5 milhões de pessoas migraram para o alto.
Barros et. al (2010) corroboram a análise de Pochmann ao falar que, a partir de 2003, tem se observado uma espetacular redução da pobreza e da desigualdade de renda no Brasil, metade em função do crescimento econômico do país e metade devido à diminuição da desigualdade de renda. Nesse período, a renda familiar per capita entre os 10% mais pobres cresceu três vezes mais rápido do que a média de crescimento para a população (15,4% x 5,1%), enquanto entre os 10% ricos a renda familiar per capita cresceu 1,4%. Considerando a relação entre o aumento de renda entre os 20% mais pobres e os 20% mais ricos entre 2001 e 2007, houve uma redução da desigualdade em 30%.
Soares (2010), analisando as causas desse processo, ressalta a renda proveniente do trabalho como o maior determinante da queda da desigualdade, mas também dá destaque às transferências governamentais, responsáveis por um terço da redução das desigualdades. Barros et. al (2010) também ressaltam como fator expressivo para tal diminuição a elevação da renda não derivada do trabalho, que dobrou entre os 10% mais pobres, enquanto só se elevou 10% entre o décimo mais rico da população.
Em 31 de março de 2011, O Estado de S. Paulo anunciava a mudança da pirâmide de distribuição dos brasileiros por classes socioeconômicas no período entre 2005 e 2010, em função de um incremento no ganho de renda, levando a uma mobilidade social. A representação gráfica dessa distribuição deixou de ter o formato de pirâmide, característico de
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países pobres com grande contingente de pessoas em estratos de renda baixa, e passou a ser um losango, evidenciando uma distribuição socioeconômica mais equilibrada entre as diferentes camadas sociais e mais frequente em países desenvolvidos. O jornal atestava também que 31 milhões de pessoas subiram de classe social no ano anterior – 19 milhões saíram das classes D e E rumo à classe C, integrando a “grande classe média”, e quase 12 milhões de pessoas passaram da classe C para as classes A e B, que têm maior poder aquisitivo. (DE CHIARA, 2011)
Barros et al. (2010) afirmam que esses processos de incremento de renda das camadas mais pobres da população brasileira, com consequente redução de desigualdades sociais, foram acompanhados de uma melhoria no acesso a um leque de oportunidades, especialmente entre os grupos mais vulneráveis. Analisando 14 indicadores, tais autores notam um crescimento muito acelerado, entre 2001 e 2007, em cinco deles, entre os quais destacamos o acesso à escola e à informação e a redução do trabalho precoce. Ao mesmo tempo, houve um retrocesso, nesse período, em relação ao desemprego juvenil. No que concerne à educação, verificou-se um progresso lento na taxa de conclusão do ensino fundamental e muito lento na taxa de conclusão do ensino médio.
A diminuição da desigualdade na distribuição de renda no Brasil também é atestada pela queda que tem se observado no Índice de Gini1, indicador calculado anualmente na Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD). Quanto menor o Índice de Gini, menor a desigualdade na distribuição de renda no país. A PNAD de 2011 mostra que o Índice de Gini para a distribuição dos rendimentos do trabalho foi de 0,501, mantendo a tendência de queda observada desde 20062 (IBGE, 2012a).
Frente ao otimismo que surge ao entrarmos em contato com tais dados, é importante fazer uma pausa para nos perguntarmos: qual é a real dimensão dessas mudanças, alardeadas tão fortemente pela mídia? Como isso afeta os padrões historicamente constituídos de uma concentração alarmante das riquezas nas mãos dos mais ricos, face a uma participação ínfima dos mais pobres nos rendimentos do país?
Soares (2010) alerta-nos para o fato de que, apesar do otimismo que tal padrão de queda pode despertar se analisado isoladamente, é necessário perceber que tal redução é
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O Índice de Gini é uma medida do grau de concentração de uma distribuição, cujo valor varia de zero (a perfeita igualdade) até um (a desigualdade máxima). Calcula-se, na PNAD, o Índice de Gini relativo à desigualdade na distribuição de renda no Brasil. (IBGE, 2012a)
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Tendência de queda observada no Índice de Gini nas últimas PNADs: em 2006, foi 0,541; em 2007, foi de 0,528; em 2008, foi de 0,521 e em 2009 foi de 0,518. (IBGE, 2010)
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pequena. O autor destaca que o Índice de Gini no Brasil ainda tem um valor alto, permanecendo o país entre os mais desiguais do mundo.
A redução progressiva da desigualdade na distribuição de renda no Brasil nos últimos anos também tem como contrapartida o fato, revelado pela PNAD de 2011, de que permanece elevada a diferença entre a renda concentrada nas mãos das camadas com os rendimentos mais altos e mais baixos no país. Verificou-se nessa pesquisa que
(…) no Brasil, os 10% da população ocupada com os rendimentos mais elevados concentrou 41,5% do total de rendimentos de trabalho, enquanto os 10% com os rendimentos mais baixos detiveram 1,4% do total das remunerações. Em 2009, estes valores foram, respectivamente, 42,5% e 1,2%. Ou seja, houve ligeira redução da concentração de rendimento de trabalho entre os 10% com rendimentos mais elevados. (IBGE, 2012a)
Assim, apesar da diminuição da desigualdade na distribuição de renda entre os brasileiros, a PNAD de 2011 mostra que permanece muito acentuada a disparidade entre os rendimentos concentrados nas mãos do décimo mais rico e do décimo mais pobre de nossa população.
No mesmo sentido, Barros et. al (2010), analisando os indicadores trazidos pela PNAD de 2008, apontam que, apesar da redução da desigualdade, da pobreza e da extrema pobreza observada nos últimos anos, seus índices continuam altos para um país com a renda
per capita do Brasil. Ilustram os autores: “O que um brasileiro pertencente ao 1% mais rico –
isto é, que vive em uma família com renda per capita acima de R$ 4.400 por mês – pode gastar em três dias equivale ao que um brasileiro nos 10% mais pobres teria para gastar em um ano.” (p.27)
Neste momento, faz-se interessante trazer uma observação realizada por Campos et. al (2004): a de que tanto os mais ricos quanto os mais pobres “se escondem” no Brasil, não declarando oficialmente a sua situação socioeconômica em registros oficiais. Quanto à omissão de informações por parte dos pobres, a explicação que os autores trazem é a de que eles fariam isso devido ao estigma que carregam por sua pobreza. Já quanto aos ricos, isso poderia estar ligado tanto a algum estigma (que os autores não se propõem a investigar) quanto a explicações mais simples, como medo da violência ou intenção de fraudar o controle de suas riquezas. De qualquer forma, essa observação dos autores nos faz pensar se a situação das desigualdades sociais em nosso país não é muito mais alarmante do que aquela retratada pelas pesquisas oficiais, como as que trazemos neste capítulo.
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