Historicamente, o problema da moradia e principalmente o da habitação popular ou de pessoas de baixa renda sempre foi um problema social no Brasil. A “carência”127 de imóveis e a vasta população necessitada tem suscitado amplos debates sobre esta temática.
No período escravocrata, a solução para a falta de moradias foi a senzala que abrigaria e manteria reclusa a mão de obra do escravo. No período de industrialização, a solução buscada deu-se por via da construção de vilas operárias. Posterior a este momento, houve um grande afluxo populacional e uma expansão espontânea por áreas habitáveis. A necessidade de unidades habitacionais tornou-se questão social e política.
No momento de ascensão industrial as vilas funcionavam como alternativa àqueles trabalhadores oriundos de zonas rurais que buscavam melhores alternativas e, portanto, trabalho nas cidades. A moradia consistia no fator atrativo para o trabalhador e para as necessidades industriais128, pois enraizava o obreiro em uma empresa. Além de ser o locus privilegiado de encontro da força de trabalho futura ao longo das gerações, a construção de vilas e casas operárias aqueceu o mercado imobiliário cujo capital retornava, na maioria das vezes, ao próprio empreendedor, por via dos aluguéis pagos. O início do século XX definiu o urbanismo e a política urbana que viria a ser consolidada no Brasil: a modernização excludente, o investimento nas áreas que representam a cidade oficial e a consequente segregação populacional, bem como a sua diferenciação baseada na higienização da pobreza.
127
Argumento bastante difundido assenta-se na noção de déficit habitacional que é defasagem entre o ritmo de crescimento populacional e a oferta de moradias. Esta seria a razão dos elevados preços dos imóveis, uma vez que não haveria o bastante para todos. O ritmo de construção das moradias não acompanharia o crescimento populacional e com isso adviriam diversos problemas como a pobreza, a miséria, a fome e a marginalidade. Entretanto, esta argumentação é falaciosa ao passo que, fundando-se em critérios demográficos, a população seria a única responsável pelo problema. Esta argumentação relembra a moral malthusiana de que os pobres são os únicos responsáveis pela pobreza devido ao alto índice de fecundidade.127 Na verdade o preço do terra urbana limita a possibilidade de acesso aos que não tem condições de custear os altos preços dos imóveis. Se de fato existe um déficit habitacional a razão é eminentemente política, pois a terra necessária para a produção de casas está nas mãos de poucos proprietários ou mesmo do Estado que não garante o deito de morar.
128“As grandes tecelagens introduzem um fator de racionalização na construção de habitações. Ao lado das fábricas são erguidos agrupamentos de moradias. Ruas inteiras, vilas, quarteirões de casas são construídos para os operários pelo empresário industrial”. BLAY, Eva Alterman (org.). A luta pelo espaço. Textos de sociologia urbana. Petrópolis: Vozes, 1978, 1 ed., p. 78.
64 As políticas de higienização social não são recentes no Brasil. Ela constitui um dos elementos fundantes na ideologia do urbanismo tecnocrata. Hermínia Maricato exemplifica com o caso da cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX e começo do XX.
O rápido crescimento populacional urbano sem o acompanhamento de serviços de saneamento foi a causa de epidemias – cólera, febre amarela – que tomavam conta da cidade. Uma política higienista saneadora também foi empreendida nesse período, com determinação e truculência. Se as obras e ampliação do sistema viário atingiam apenas uma parte de uma população pobre que era expulsa, a campanha da vacina atingia a todos. (...). A reforma urbana no Rio de Janeiro, chamada de “Regeneração”, foi a mais importante em razão de a cidade ser na época a capital federal. Outras cidades, contudo, seguiram o mesmo caminho, que foi inspirado pela reforma de Paris, executada pelo urbanista barão de Hausmann, sob o comando de Napoleão III, entre 1850 e 1870. Manaus, Belém, Porto Alegre, Curitiba, Santos, São Paulo, passam pelas obras que conjugaram saneamento com embelezamento e segregação territorial. O saneamento tinha como objetivo, além das medidas propriamente higienistas, afastar das áreas centrais os pobres, os mendigos e negros, juntamente com o seu estilo de vida. E o embelezamento consistia em dar a essas áreas um tratamento estético e paisagístico que pressupunha a inexistência de pobreza. A solução do problema de moradia da massa trabalhadora pobre, entretanto, não fazia parte desses projetos de reforma urbana.129
Esta forma de planejar, pode-se dizer, constitui a essência do planejamento urbano realizado pelo Estado em associação ao capital imobiliário. Tal modelo sofreu alterações, amenizando alguns pontos em relação à lógica puramente sanitarista, entretanto a base constitui e mesma. Cabe salientar que Fortaleza também viveu um período similar, chamado de Fortaleza Belle Époque130.
Com o surgimento das grandes favelas, o problema habitacional ganhou proporções gigantescas131. O Estado passa a intervir com programas de habitação popular visando sanar o déficit de unidades habitáveis. Entretanto, ao adquirir o sonho da casa própria, o morador compromete boa parte da vida para sanar uma dívida. Este modelo foi implementando desde 1964 com o Banco Nacional de Habitação132 e se perpetua ainda hoje
com os projetos de moradia popular, como o “Minha Casa, Minha Vida” do Governo Federal.
A lógica de pensar a solução da moradia é a mesma. No contexto da história recente do Brasil, vigora a proposta de construção de conjuntos habitacionais financiados pelo Governo Federal
por via do “Programa Minha Casa, Minha Vida” (PMCMV).
Este programa do Governo Federal conta com a participação e parceria dos municípios e estados da federação, sendo financiado pela Caixa Econômica Federal. O Ministério das Cidades é o órgão estatal de gerenciamento do programa. Tal projeto
129
MARICATO, Hermínia. Habitação e cidade. São Paulo: Atual, 1999, 5 ed., pp. 28-29
130
PONTE, Sebastião Rogério. Fortaleza Belle Époche. Reforma urbana e controle social 1860-1930. Fortaleza: Demócrito Rocha, 2010, 4 ed.,
131 DAVIS, Mike.
Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 1 ed., 2006, p. 105.
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65 governamental não sanará os problemas da moradia, uma vez que se destina às populações de 0 até 3 salários mínimos que terão que custear com orçamento, muitos deles insuficientes, as mensalidades da unidade habitacional até que o imóvel seja totalmente quitado. Além disso, a instalação das unidades habitacionais estão localizadas em áreas distantes, impossibilitando a locomoção rápida para as regiões de trabalho, escola e hospitais. Acrescido a isso, os conjuntos não dispõem de espaço favorável para famílias numerosas em caso de coabitação, uma vez que, em média, os imóveis possuem 55m2.
O PMCMV não apresenta explicitamente possibilidades transformação de muitos dos problemas de nossas cidades, reproduzindo a consideração isolada dos aspectos que coincidem a qualidade do habitat urbano. Ao reduzir o morar às unidades habitacionais, sem menção às questões que definem a localização e suas relações com o espaço e a vida mais ampla das cidades, o Estado brasileiro acaba por colaborar na reprodução dos vários problemas de nossa urbanização (...)133.
Em todos estes momentos históricos verifica-se um elemento primordial: a oferta de moradia tem vínculo direto e tem sido usada para preservar e controlar a força de trabalho134, salvo em casos excepcionais em que um programa é realizado, como o PMCMV, sem as condições necessárias de locomoção eficaz para as áreas de concentração de empregos.
Atualmente, a segregação sócio-espacial urbana busca afastar o problema da pobreza e da marginalidade com a construção de casas populares, que em suma passam a ser o local propício de localização do grande exército de reserva potencial. O problema, pela lógica do planejamento estatal, estaria setorizado em determinadas zonas. Isolado o problema, as áreas centrais da cidade estariam livres para florescer e se desenvolver, ao passo que a periferia trabalharia para o centro135. A moradia assemelhar-se-ia mais ao modelo de cidades- dormitórios do que o espaço em que o indivíduo poderia ampliar as suas potencialidades e cultivar o habitar, que é uma construção cultural.
133“Outro aspecto importante diz respeito à consideração dos parâmetros mínimos explicitados como referência para o dimensionamento dos espaços. Trata-se de mais outra herança da cultura moderna europeia, que teve no Existenzminimum da arquitetura alemã uma diretriz que se disseminou em todo o mundo. (12) No PMCMV os parâmetros mínimos tornam-se o limite máximo das unidades, uma vez que estas são entregues prontas e já acabadas, oferecidas como a possibilidade definitiva de moradia. Impõe-se uma solução que irá onerar o orçamento doméstico em um período considerável, e quaisquer alterações e adaptações, ainda que limitadas de antemão, vão demandar ainda mais despesas, acarretando um comprometimento adicional do já exíguo orçamento doméstico. O processo de morar, que deveria pressupor escolhas, participação e tomadas de decisão em diversos níveis e ao longo do tempo, se vê empobrecido e resumido à mera relação de compra de um produto como outro qualquer, com o esvaziamento e empobrecimento de sua dimensão política. A necessidade de adensamento não justifica a solução dos apartamentos conforme especificados, uma vez que é possível atender à necessidade de ocupação adensada por meio de soluções espaciais diferentes do mero empilhamento e repetição de unidades e andares-tipo”. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.133/3936. Acesso em: 14/07/2012. 134
BLAY, Eva Alterman (org.). Ob. Cit., pp. 77-86.
135 O centro aqui referido não é o centro geográfico ou mesmo o local comumente chamado de “centro” da cidade. O centro refere-se à localidades ou às localidades onde se concentram a maior quantidade de serviços essenciais, como hospitais, creches, escolas, áreas de lazer, consumo e as moradias mais caras.
66 Esta atitude desesperada de instalação física das populações de baixa renda nas cidades tem gerado núcleos de habitação segregados. Esta segregação espacial estende-se a todas as demais atividades destas populações. Distinguimos dois momentos no processo de segregação: a favela urbana e as cidades-dormitórios. A favela que proliferou no Brasil na década de 50 apresenta características muito marcantes de fenômeno ilegal. Seu aspecto mais agressivo se deva à sua implantação junto a zonas mais urbanizadas das cidades onde a oferta de trabalho é maior e é possível a eliminação de transporte. Sua presença ostensiva é reveladora da incapacidade dos mecanismos urbanos de assimilar de forma adequada estas populações. Isto levou os órgãos oficiais a tentarem “soluções” de emergência. A favela é uma permanente denúncia do sistema de práticas sociais contraditórias que ameaçam a ordem estabelecida, isto é, a ordem urbana. (...). O conjunto de decisões e atos que pretendem resolver o problema habitacional da população marginal nas cidades tem acelerado o processo de segregação.136
Há, de fato, a existência de políticas urbanas inconciliáveis. De uma lado, o planejamento que dá primazia ao lucro, na qual vê a cidade como um mercado; e de outro, o modelo que busca ampliar o atendimento das necessidades básicas de ordem social, cultural, biológicas e psicológicas. Entretanto, o planejamento urbanístico no tocante à moradia tem compromissos distintos à solução do problema, uma vez que visa preservar e assegurar o progresso do capital. Ora, existe a necessidade de garantir os bens coletivos aos produtores e à coletividade; por outro ponto de vista, visa garantir o pleno desenvolvimento das forças políticas e econômicas que buscam sempre a ampliação dos lucros. Desta maneira, projetos urbanísticos defendidos como equipamentos sociais muitas vezes atendem às demandas alheias à população necessitada.
A distribuição arbitrária e impositiva de moradia, dos equipamentos necessários e seus espaços que deveriam satisfazer às necessidades humanas, na verdade, julgam poder submeter o real e o humano à vontade de um planejamento técnico em que o habitar e o habitat perdem o sentido, passando a valer a lógica do loteamento, das cidades-dormitórios, da vida regrada e programada onde se come e se dorme, jamais se vive ou habita. No planejamento dito estratégico, o “morar” inverte-se em “alojar”. O morador perde a condição
de agente construtor para a situação de “deportado”.
Não é só o Estado e os interesses dos grandes empresários nacionais que impõem medidas danosas à população. Os organismos internacionais, como a FIFA, também possuem poder de barganha na propositura de um modelo de intervenção urbana. Contudo, cabe salientar que os projetos para Copa do Mundo de 2014, muitos deles, são defendidos pelo próprio Estado. Citemos como Mike Davis esclarece a raiz deste processo de exclusão sócio- espacial com relação a eventos internacionais:
136
67 No Terceiro Mundo urbano, os pobres temem os eventos internacionais de alto nível – conferências, visitas de dignatários, eventos esportivos, concursos de beleza e festivais internacionais -, que levam as autoridades a iniciar cruzadas de limpeza da cidade: os favelados sabem que são a ‘sujeira’ ou a ‘praga’ que seus governos preferem que o mundo não veja (...) A segregação urbana não é um status quo inalterável, mas sim uma guerra social incessante na qual o Estado intervém regularmente em nome do ‘progresso’, do ‘embelezamento’ e até da ‘justiça social para os pobres’, para redesenhar as fronteiras espaciais em prol de proprietários de terrenos, investidores estrangeiros, a elite com suas casas próprias e trabalhadores de classe média. Como na Paris de 1890 sob o reinado fanático do barão Haussman, a reconstrução urbana ainda luta para maximizar ao mesmo tempo o lucro particular e o controle social. A escala contemporânea de remoção populacional é imensa: todo ano centenas de milhares, por vezes milhões de pessoas – tanto aqueles que têm posse legal quanto os invasores – são despejados à força de bairros do Terceiro Mundo. Em consequência, os pobres urbanos são nômades, ‘moradores transitórios num estado perpétuo de realocação’137
.
Quando o progresso surge, grande contingente populacional é retirado das suas moradias e de seus vínculos sócio-afetivos para dar lugar às ditas obras de utilidade pública138. Desta maneira, as populações, ora residentes em um determinado local, passam a ser constantemente remanejadas para outras localidades em um fluxo histórico permanente, cada vez mais distante dos principais polos da cidade. Normalmente, são lançadas para áreas localizadas nos limites geográficos das cidades e não se beneficiarão com as obras de
“utilidade pública”, agora instaladas no seu antigo local de moradia. Assim, a contradição se enraíza no seio da cidade que passa a se orientar pela existência de “bairros de ricos” e “bairros de pobres”, configurando urbes em que a tônica da existência humana está marcada
pela segregação sócio-espacial.
Engels traz lição esclarecedora referente ao problema da moradia ao analisar o contexto da época e a situação da classe trabalhadora diante do crescimento das cidades, como Paris e em Londres:
Na realidade, a burguesia tem apenas um método para resolver à sua maneira a questão da habitação, isto é, resolvê-la de tal forma que a solução produza a questão sempre de novo. Este método chama-se ‘Haussmann’. Por ‘Haussmann’ entendo não apenas a maneira específica do bonapartista parisiense de abrir longas artérias, diretas e largas em meio aos bairros aos bairros operários de ruas estreitas e de guarnecê-las de ambos os lados com grandes edifícios de luxo, (...). Por ‘Haussmann’ entendo também a prática generalizada de abrir brechas nos bairros operários, especialmente nos de localização central nas nossas grandes cidades, essa prática sendo seguida por considerações de saúde pública e de embelezamento, devido à procura de grandes áreas comerciais centralmente localizadas ou por necessidades de circulação, tais como ferrovias, ruas etc. Qualquer que seja o motivo, o resultado é em toda parte o mesmo: as vielas e becos mais escandalosos desaparecem ante a grande autoglorificação da burguesia por esse êxito imediato.139
137
DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 1 ed., 2006, p. 105.
138
Vale ressaltar que o conceito de utilidade pública não se aplica e nem tem eficácia se tiver como fundamento a violação de Direitos Fundamentais coletivos e difusos.
139
68 Em resumo, é na lógica do haumanianismo140 social dos trópicos que a burguesia e o Estado buscam resolver o problema da moradia. A exclusão para os limites da cidade acompanha o crescimento da cidade e acumulação de capital excedente. Na medida em que o espaço periférico se valoriza e se torna área propícia para o desenvolvimento da produção e da circulação, o Estado não hesita em perpetrar a mesma política de remoção e segregação.
2.3. Direito à moradia e direito à cidade na legislação e o problema da especulação