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1.2. Literatür

1.2.3. Kentsel Lojistik Performansı

Nesta seção discuto as concepções e práticas relacionadas às políticas públicas culturais na cidade de Itabira, de maneira a responder a uma das minhas questões de pesquisa. Preciso registrar, antes de começar a discussão, um fato que seria até mesmo curioso caso não fosse reiteradamente apontado na literatura especializada na área de administração pública como uma espécie de mazela social: a descontinuidade e o amadorismo das políticas públicas de cultura na cidade de Itabira.

Na minha pesquisa documental, para minha surpresa não encontrei registros das políticas públicas de cultura na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Como esta organização foi fundada em 1985, no período de coleta de dados, entre 2008 e 2009, esperava encontrar pelo menos vinte e três anos de história, documentos que acusassem os erros e acertos na área da cultura.

Deparei-me com um setor de documentação pobremente equipado, e que se assemelhava muito mais ao estereótipo de repartição pública que povoa a minha cabeça: funcionários

desmotivados, sem qualquer qualificação formal para atuarem mesmo no suporte da área cultural, um problema considerável para a área cultural (HJALAGER, 1997). O pouco que havia para ver se referia a cartazes de festivais de inverno, e material ilustrativo de ações pontuais, como peças de teatro e shows promovidos pela Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e só.

Como eu buscava por evidências dos mecanismos de concepção e de organização das políticas públicas na cidade de Itabira, fiquei frustrado com a condução política do processo. A cada ciclo de quatro anos, período que coincide com o mandato do poder executivo municipal, a cultura adquire um novo foco, dependendo de como componha os interesses da política partidária no período. Com isso, simplesmente não existe uma política de Estado para a cidade. Não há qualquer menção a uma visão de que cultura a que se deseja que os cidadãos itabiranos tenham acesso, e tampouco qualquer registro de participação popular na formulação das políticas públicas da cidade.

Para não dizer que não há absolutamente nada formalizado, dois elementos existem, do ponto de vista formal, pelo menos: o conselho municipal de cultura, a quem cabe, do ponto de vista formal, definir a cultura local nos níveis de concepção, práticas e acesso em todos os seus níveis, e a lei municipal de incentivo à cultura, chamada de Lei Drummond.

Ao conselho municipal de cultura caberiam ações de viabilizar à população o acesso às formas de manifestação cultural locais, de modo que tivessem a possibilidade de produzir e de intercambiar práticas culturais com outros segmentos da sociedade e outros grupos de referência que não o seu de origem. Contudo, as atas de reunião do conselho se limitam a reuniões pontuais, cerca de uma por ano, para discutir uma pauta mais ou menos desenhada pelos representantes do poder executivo municipal. Com isso, os representantes da comunidade se sentem desestimulados a participar, já que a disponibilização de recursos obedece, no final, aos desígnios do poder executivo. Em outras palavras, é fácil, por exemplo, alegar ausência de recursos para a execução de projetos culturais a partir das demandas populares se estes não se converterem tão facilmente em votos quanto outras formas de

cultura, como shows com artistas populares – um quadro em que a política partidária sufoca a política pública47.

A legislação municipal de incentivo à cultura caracteriza, sob a minha ótica, a

particularização da cultura na cidade. Os editais são elaborados com o propósito de estimular a produção cultural local, com a contrapartida de renúncia fiscal. Na prática, os propositores de projetos definem o que será culturalmente disseminado como oficial na cidade. Se não houver livros, por exemplo, o governo municipal deixará de estimular escritores, e assim sucessivamente. Como Brant (2001) coloca, este mecanismo possibilita ao poder público transferir, a cada projeto patrocinado pelo setor privado, a responsabilidade de sua execução, em um quadro preocupante porque o que não for objeto de atenção simplesmente deixa de existir sob a ótica da mera regulação do interesse público. Se já é preocupante que em Itabira a política partidária dirija as políticas públicas, quando se identifica que o governo local assume um papel apenas regulador, e não fomentador da cultura da cidade, o quadro é bastante preocupante.

Em virtude desta limitação, tive de estimular, nas minhas entrevistas individuais, a discussão sobre políticas públicas locais, o que, para minha alegria, ocorreu em quantidade e qualidade acima das minhas expectativas. Passarei a isso agora.

Considero que a maneira pela qual a cultura se apresenta, o que discuti na seção anterior, é influenciada sobremaneira pelas concepções e ações do Estado. Isso não significa, entretanto, que caiba ao poder público definir o que é cultura, é importante frisar; mas que ele pode, nos termos que lhe diz respeito, garantir condições para que as diferenças entre as pessoas se manifestem em múltiplas formas de acesso à cultura. Seu papel, assim, é fomentar o acesso à cultura de cada grupo social dentro de uma comunidade. Dito isso, passemos à análise começando pela formulação de políticas públicas.

Conforme o artigo 215 da Constituição Federal, já citado, “[...] o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais” (PINTO; WINDT;

47 Ainda que as políticas públicas sejam, a rigor, o resultado de um embate político, que se manifesta em primeira instância na disputa eleitoral, e, posteriormente, na concorrência de propostas que atendem a grupos sócias distintos, a situação observada chega ao exagero, como descrito em seguida.

CÉSPEDES, 2008, p. 95). Isso implica, em certo nível, que o direito à cultura seja efetivo à medida que o acesso a ela é disponibilizado. As demandas da população, nesse sentido, precisam ficar evidentes, já que a ele se dirigem os esforços de formulação de políticas públicas. Em Itabira, onde a formulação das políticas públicas de cultura cabe à Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade48, que assume, na prática, esse papel, há problemas conforme os depoimentos a seguir.

(080) Não há trabalho de identificação [das demandas culturais da população] Outras pessoas decidem dentro de um gabinete... E no caso de cultura, tem que ir pra rua, se não for... você não sabe o que as pessoas tão [fazendo], o ensejo delas. A pessoa assume a cadeira lá, “Ah, não, eu quero fazer isso”. É o desejo dela, e não o que a comunidade está desejando. É diferente, tem que inverter. E eles não percebem isso, não transcendem. Eu acho que é o maior motivo é esse [da baixa demanda]... Na Fundação Cultural não há ninguém especificamente [profissional] que... tenha essa condição de trabalhar com a comunidade ou com arte. A maioria de lá são só que o vereador indicou fulano de tal pra trabalhar lá. (entrevista 11)

O fragmento discursivo (080) aponta diversos elementos que, per se, caracterizam um quadro problemático no que tange à cultura. O percurso semântico da unilateralidade na formulação das políticas públicas aparece em primeiro lugar, explicitamente, quando o entrevistado coloca que não há trabalho de identificação das demandas culturais da população. Interdiscursivamente, opõe esta não identificação ao autoritarismo (implícito pressuposto) do personagem outras pessoas, que decide, unilateralmente, a cultura que será difundida para os itabiranos.

Um segundo percurso semântico, o da profissionalização, explicita, por meio de interdiscurso que opõe a profissionalização à indicação política, a ausência de profissionais capacitados a trabalhar com a comunidade ou com a arte. Como resultado, a indicação de políticos, conforme a seleção lexical vereador, preenche as vagas destinadas à atuação na área cultural. O discurso (081) ratifica os aspectos aqui levantado, e leva esse problema à questão da democracia cultural.

48 Cabem aqui alguns comentários, sustentados pela observação do contexto local, sobre a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Embora juridicamente seja uma autarquia municipal, o que formalmente lhe outorgaria autonomia administrativa, isso não ocorre na prática. Os recursos são injetados anualmente pelo governo municipal que, assim, faz uso político desta organização, indicando pessoas para ocupar diversos cargos, o que inclui a superintendência e escalões menores. Não obstante constituir uma organização não- governamental, atua como uma espécie de secretaria municipal de cultura, com diversos funcionários públicos ali alocados atuando como típicos burocratas, sem formação específica para atuação na área cultural.

(081) [O povo] não é ouvido... falta ouvir o povo. Existe o conselho de cultura, mas que nunca funcionou. O conselho de cultura é sempre quem o prefeito quer, não só nesse governo, como no outro também. Então, assim... se tem uma pessoa lá dentro do conselho de cultura... que não é aquele que o prefeito quer... a pessoa não é ouvida... ele é ignorado, ele é massacrado pelos outros, entendeu? E acaba até se afastando do processo, né. .. Então, assim, a cidade teria que ser ouvida como um todo. E, infelizmente não é. (entrevista 12)

Neste texto, a seleção lexical falta ouvir o povo metaforiza o distanciamento político dos cidadãos do processo de formulação de políticas públicas, confirmando as discussões de Oliveira, Pereira e Oliveira (1998) e de Secchin e Caliman (2008) sobre os problemas da participação popular, que normalmente não superam as barreiras da formalidade democrática, conforme a expressão existe o conselho de cultura, mas que nunca funcionou.

Assim, a criação de conselhos gestores tem pouco sentido, excetuando o legal, em um quadro em que tais organismos não são continuamente alimentados por informações dos diversos grupos sociais de interesse. O resultado é que o poder executivo adquire uma força desproporcional no processo, tanto em termos políticos, quanto na elaboração de ações que, de certa forma, reforçam seu próprio poder, já que a indicação de quem o prefeito quer leva a que o não indicado por ele não seja ouvido ele é ignorado, ele é massacrado pelos outros. Isso gera limitações no atendimento das demandas dos cidadãos.

(082) Não. Nem à cultura, nem ao lazer, nós não temos necessidades atendidas, você tem pouquíssimas opções... Nós não temos opções de lazer viáveis, a não ser uma cachoeira lá em Ipoema. Eu acho que a gente não tem opção de lazer e infraestrutura para o tamanho da cidade que a gente tem, pela quantidade bacana de equipamentos culturais que nós temos, eles são subutilizados, alguns parques foram construídos e hoje já estão inclusive depredados. (entrevista 09)

O não atendimento de necessidades culturais e de lazer, principal discurso do fragmento discursivo (082), é diretamente relacionado ao poder público e à quantidade restrita de opções. A figura cachoeira seria, sob a ótica do entrevistado, uma das poucas opções viáveis de lazer na cidade. Mas não se trata apenas de uma questão de oferta em relação ao porte da cidade, mas também de subaproveitamento do que existe, notadamente dos explicitamente enunciados equipamentos culturais, aspecto que discutirei com maior atenção mais adiante.

Muitas das críticas se devem a uma percepção mais ou menos generalizada de ausência de políticas públicas formalizadas, o que implica ações articuladas em torno de interesses políticos eventuais, dependendo da orientação dos que estão no poder.

(083) Você precisa ter uma política cultural definida, indiferente de quem seja o prefeito, indiferente de quem sejam as pessoas que estejam no poder. (entrevista 01)

A interdiscursividade é muito evidente no fragmento discursivo (083), uma vez que é colocada, de forma antagônica, a definição, no sentido de formalização, à transitoriedade dos políticos que assumem o governo local. O efeito de sentido criado pelo enunciador é que na ausência de definições estruturadas sobre as condições de acesso à cultura da população local, prevalecem os interesses de grupos específicos que assumem o papel de definir o que é cultura durante um período determinado. O mesmo enunciador prossegue no fragmento discursivo (084).

(084) A política cultural ela não está formatada, a política cultural, eu imagino o seguinte, ela tem que ser política, mas apolítica... Ela tem que estar atenta, ao que se produz como cultura naquele município... ela foi colocada como Fundação Carlos Drummond de Andrade, porque é o que satisfaz uma grande parte da elite itabirana... pessoas assim, extremamente informadas, né? ... Então se criou a Fundação Cultural também dentro de uma certa concepção, dentro de uma cobrança dessa própria elite... Não é cultura só para elite não, não é que ela promove cultura só para elite não, mas ela vem de uma elite... Itabira, por exemplo, tem peça de teatro aqui que eles não fazem questão de divulgar... E quando você chega no teatro, você repara que quem está ali são ... as mesmas pessoas que eles envolvem, são as mesmas que vão ao teatro... Não é o povão. Eles não têm acesso... não é porque eles fecham as portas para essas pessoas não entrarem não, porque não divulgam. (entrevista 01)

O primeiro percurso semântico desse texto é a formatação, cujo implícito subentendido é de formalização. Ela precisa, nos termos do entrevistado, ser política, mas apolítica. A seleção lexical utilizada é muito precisa quanto ao sentido do que é dito, porque encerra as ideias de embate entre perspectivas distintas. Nesse sentido, política, e, ao mesmo tempo, não partidária, não transitória, não eleitoral. É o interesse dos cidadãos, nessa medida, que precisa ser objeto de atenção.

O segundo percurso semântico se refere à dicotomia interdiscursiva entre cultura do povo e cultura da elite, já discutida por autores como Chauí (2001; 1989) e Ianni (1994). Ao enunciar que a política cultural tem que estar atenta, ao que se produz como cultura naquele

município, e, em seguida, que a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade satisfaz

grande parte da elite itabirana, o entrevistado cria um efeito de sentido que marca a diferença entre a cultura produzida na cidade versus a que vem da elite via fundação.

O terceiro percurso semântico encerra uma crítica ao acesso dos menos favorecidos à cultura, enunciados como povão. A divulgação de peças de teatro, por exemplo, se restringiria às pessoas que já o frequentam, de forma que nem chegam à maior parte da população notícias sobre a oferta cultural. O resultado, nas palavras do entrevistado, é que são as mesmas

pessoas que eles envolvem, são as mesmas que vão ao teatro, um processo que não impede, mas restringe, objetivamente, o acesso de outras pessoas que não componham a elite itabirana.

(085) [A formulação de políticas públicas] vai depender das cabeças da Fundação Cultural, vai depender do prefeito... dos políticos. Então eles falam assim: “ah, o povo gosta é de... Calypso, né? Vamos dar pão e circo pra eles. Então vamos colocar Calypso na praça, lá, né. Aí, vai, e traz o Calypso”... Aí vai lá, vai aquela multidão na praça: “Oh, conseguimos nosso negócio”, né. Então acho que, assim, é... às vezes não é nem a questão do povo que tem que ser ouvido, não. Mais assim, as cabeças pensantes que estão infiltradas... pessoas mais esclarecidas, que podem sentir melhor a necessidade daquele negócio, né. .. Mas tem que ter alguém lá que sente que o povo... que pensou uma coisa completamente diferente disso, pra mostrar outros valores pra eles, né. Às vezes fica numa postura muito de... pão e circo e esquece ... as pessoas alienadas mesmo, né... É, um certo distanciamento. (entrevista 12)

No fragmento discursivo (085), mais uma vez a não formalização de políticas públicas aparece como um elemento do processo cultural local. Mas ele acrescenta alguns discursos interessantes. O primeiro apresenta uma perspectiva crítica sobre o que é ofertado à população local. Por meio da metáfora pão e circo, uma alusão a um período da história do império romano, os personagens o prefeito, e os políticos proporcionariam acesso ao que o povo gosta, uma visão cujo implícito subentendido é tipicamente eleitoral, pois convertem em votos a satisfação com a cultura ofertada.

A discordância do entrevistado com essa visão de política cultural o leva a desqualificar os cidadãos, pois às vezes não é nem a questão do povo que tem que ser ouvido, não, no que reproduz o estereótipo do povo ignorante e desqualificado, que precisa ser conduzido por pessoas competentes (CHAUÍ, 2001). Ele propõe, por meio da metáfora cabeças pensantes

que estão infiltradas, que esclarece que se trata de pessoas mais esclarecidas (do que o povo, não esclarecido, implícito subentendido), que podem sentir melhor a necessidade daquele

negócio. O entrevistado se inclui nesse grupo inserido no povo, portanto, próximo dos seus interesses, e capaz, assim, de evitar o distanciamento em andamento na cidade.

A não formalização das políticas culturais na cidade de Itabira ainda traz à baila duas questões: a necessidade de articulação em torno das ações de cultura da cidade a sua continuidade ao longo do ano.

(086) Seja fundação, seja secretaria, se ela tiver vontade política, suporte político, ela consegue fazer e muitas vezes não é recurso, muitas vezes a pessoa esta ali querendo fazer uma ação e não é nem o dinheiro, é uma articulação que ela precisa um braço institucional para conseguir fazer as coisas. A Fundação tem que entender, ela é hoje a oficialidade da cultura na cidade... (entrevista 09)

Um implícito subentendido do fragmento discursivo (086) é que faltaria vontade política para a efetividade das ações da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. Por se tratar da

oficialidade da cultura na cidade, caberia aos seus dirigentes desenvolver ações institucionais voltadas ao desenvolvimento cultural local. O entrevistado interdiscursivamente opõe o dinheiro às ações, criando um efeito de sentido que não se trata de recursos apenas para promover a cultura, mas de uma articulação de medidas pelo poder público, o que inclui a pulverização de ações, que trata da questão da continuidade ao longo do ano, conforme o depoimento seguinte.

(087) [Existem ações, mas falta uma política] que tenha continuidade... O festival de inverno, ele existe e ele é sucesso. Mas ele é um mês no ano. Você tem os outros 11 meses aí de pulverização e aí você tem uma apresentação dos drummonzinhos quando você tem um evento político... (entrevista 06)

O festival de inverno de Itabira, um dos mais importantes e antigos de Minas Gerais, é realizado anualmente em julho, com dezenas de atividades. De acordo com o entrevistado,

grande parte dos recursos públicos destinados à cultura é alocada no festival, havendo pouca movimentação ao longo do ano. Estaríamos tratando de uma cultura de uma nota só? Para tentar responder a essa questão, é preciso discutir a legislação municipal de incentivo à cultura.

(088) Não tem [políticas públicas estruturadas]. Fora a lei, que é uma lei que já existe que fala como que a gente deve agir e tal. Fica alguma coisa em aberto... Isso aí é definido pela comissão de cultura. E a gente pensa até que nem pode haver, sabe por quê? Poucos são os artistas de qualidade de Itabira. Porque também aprovar qualquer projeto não é legal, não vai contribuir, né. (entrevista 05)

(089) As políticas públicas são definidas por quem está administrando. Não tem uma cobrança, não tem uma coisa... De política pública que você sabe que tem uma regra básica para todo mundo, só a lei de incentivo. Fora disso... e aluguel de espaço49. (entrevista 09)

Os fragmentos discursivos (088) e (089) apontam que outro desdobramento da ausência de políticas culturais é o apoio excessivo sobre a legislação municipal de incentivo à cultura: a lei Drummond. Ela teria um caráter, antes de qualquer coisa, prescritivo, pois fala como que a

gente deve agir (seleção lexical do fragmento discursivo 088). Corresponderia, suponho, ao núcleo estruturante de política pública. Contudo, como esse tipo de legislação se refere ao estímulo para a apresentação de projetos culturais, do ponto de vista da concepção de políticas públicas, transfere ao agente privado o papel de definir que tipo de acesso será propiciado e que público específico será atendido com aquele produto cultural. Na prática, se não houver ações claras de regulação por parte do poder público, a tendência é de particularização das políticas públicas.

Outro percurso semântico desse texto é o da qualidade dos artistas itabiranos. De acordo com o enunciador, a baixa qualidade justificaria a não existência de políticas públicas. Há, além de um evidente problema de entendimento sobre de que forma são concebidas as políticas públicas culturais, outro aspecto muito relevante: um tom de elitismo na discussão da qualidade. Quem, objetivamente, define a qualidade de um artista e sob que critérios? Um artista de apelo popular, apreciado pelos segmentos sociais menos favorecidos, apresenta

qualidade aos olhos da elite local? Penso que, para que uma discussão desse tipo fosse frutífera, seria imprescindível que todos os segmentos da sociedade itabirana estivessem representados. Mas não falo da imagem comum que se tem de representação, de alguém que

49 Aluguel de espaço se refere à comercialização de tempo de uso do teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, uma importante fonte de renda dessa organização.

responde, por si próprio, em nome daqueles que representa; falo de um representante que fala

Benzer Belgeler