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Assim, o princípio da insignificância é o critério de aferição de atipicidade ma- terial de uma conduta, em virtude da ofensa irrelevante ou inexistente ao bem jurídico protegido. Com isto quer-se dizer que, apesar de a conduta criminosa adequar-se formalmente ao tipo penal, o resultado é insignificante, justifican- do a desnecessidade teleológica de punição.

Não há previsão legal do princípio da insignificância, o que enseja o prota- gonismo do Judiciário na construção legal do conteúdo desse princípio, com especial enfoque para a atuação do STF, que progressivamente vem reconhe- cendo a incidência da insignificância para afastar a classificação de um fato da realidade como crime. Tendo em vista o especial destaque da jurisprudência para a construção de critérios de análise da incidência do princípio da insigni- ficância, pode-se citar como marco o Habeas Corpus no 84.412, DJ 19-11-2004

de relatoria do ministro Celso de Mello.

O caso em questão abordava a ocorrência de um furto de R$ 25,00, dan- do ocasião ao estabelecimento dos seguintes critérios para aplicação do refe-

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156 rido princípio: (i) a mínima ofensividade da conduta do agente, (ii) nenhuma

periculosidade social da ação, (iii) reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (iv) inexpressividade da lesão jurídica provocada. Este é o acórdão “paradigma” a partir do qual a jurisprudência consolidou-se.

Um marco legislativo que também serviu de norte para dar conteúdo à in- significância nos crimes fiscais foi a Lei no 11.033/2004, alterando o art. 20 da

Lei no 10.522/2002,11 através da determinação do arquivamento de autos de

execução fiscal cujo valor da dívida fosse inferior a R$ 10.000,00 (dez mil reais). Com isto passou-se a associar o desinteresse da União na cobrança destes débi- tos com o princípio da insignificância no plano do direito penal, concernente aos crimes fiscais e contra a administração pública. Todavia, não há qualquer previsão legal semelhante para outras espécies criminosas, cujo bem jurídico seja o patrimônio: furto, estelionato etc., o que justifica uma discrepância no critério objetivo do valor para a aplicação do princípio em questão.

Portanto, o escopo do estudo empírico apresentado nos tópicos subsequen- tes foi analisar os julgados do STF envolvendo o princípio da insignificância no período de 2005 a 2009, mapeando os critérios e argumentos da Corte na aplicação do princípio analisado.12

Metodologia

Primeiramente, determinaram-se o espaço amostral e os parâmetros de seleção dos acórdãos que iriam compor o banco de dados. Quanto ao espaço amostral: 11 “Art. 20. Serão arquivados, sem baixa na distribuição, mediante requerimento do Procurador da

Fazenda Nacional, os autos das execuções fiscais de débitos inscritos como Dívida Ativa da União pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional ou por ela cobrados, de valor consolidado igual ou inferior a R$ 10.000,00 (dez mil reais).” (Redação dada pela Lei no 11.033, de 2004.)

12 Trata-se da pesquisa intitulada “O princípio da insignificância nos crimes contra o patrimônio

e contra a ordem econômica: análise das decisões do Supremo Tribunal Federal”, vinculada ao Departamento de Direito Penal, Medicina Forense e Criminologia da Faculdade de Direito da USP, coordenada pelo professor doutor Pierpaolo Cruz Bottini e realizada pelos seguintes pesquisadores: Ana Carolina Carlos de Oliveira, Daniela de Oliveira Rodrigues, Douglas de Barros Ibarra Papa, Priscila Aki Hoga e Thaísa Bernhardt Ribeiro, contando com a consultoria da professora Maria Tereza Sadek e o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

o prin cípio D a insiGnificân cia n os crimes c ontra o p a trimônio e c ontra a orDem ec onômic a 157 todos os julgados do STF referentes ao resultado da expressão “princípio da

insignificância” no período de 1o de janeiro de 2005 a 31 de dezembro de 2009,

disponíveis na pesquisa de jurisprudência do STF. O marco inicial foi delimi- tado pela edição da Lei no 11.033/2004, que alterou a Lei das Execuções Fiscais,

contribuindo para a consolidação do princípio em âmbito jurisprudencial. Já o marco final da pesquisa foi delimitado tanto para a construção da amostra estatística relevante (cinco anos), como para alcançar eventuais julgados ainda não publicados até 2009.

Quanto ao parâmetro de seleção: a não utilização de outras expressões como “crime de bagatela”, “princípio bagatelar” etc. justificou-se pela necessidade de evitar referências indiretas que apenas tocam marginalmente o conteúdo do princípio. Já a referência direta ao “princípio da insignificância” aponta situa- ções nas quais realmente se discute o conteúdo concernente ao objeto principal do tema sob análise, como o grau de afetação ao bem jurídico.

Em um segundo momento foi realizado o questionário, após diversos tes- tes, com vistas a determinar os elementos empíricos ou variáveis relevantes ao estudo: tipo penal, faixa de valor, tribunal de origem, órgão de defesa, espécie processual, data da decisão, principais argumentos utilizados para concessão ou não concessão, perfil das turmas de julgamento, bens, natureza da vítima (pessoa física, administração pública etc.). Os dados obtidos foram, em uma fase final, recombinados com a finalidade de verificar as influências e a inte- ração das variáveis expressadas, por exemplo, pelo cruzamento dos elementos tipo penal e faixa de valor ou entre o provimento e a data de decisão.

A fase seguinte foi a de leitura e novo recorte do espaço amostral. O total de julgados obtidos inicialmente de 108 acórdãos posteriormente foi reduzido a 75, em virtude da exclusão de crimes ambientais ou relacionados ao tráfico de drogas. Seguiu-se a subdivisão em dois grandes grupos: o primeiro referen- te aos crimes patrimoniais comuns e o segundo contendo os crimes fiscais/ contra a administração pública, ou seja, o recorte foi feito tendo em vista a verificação do efeito do parâmetro apresentado pela Lei de Execuções Fiscais.

O primeiro grupo foi composto pelos tipos penais contidos nos arts. 155, 157, 168, 169 e 171 do Código Penal, e 240 e 241 do Código Penal Militar, ou

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158 seja, os delitos que não têm por base o critério objetivo do valor inserido na Lei de Execuções Fiscais. Já o segundo grupo, dos crimes fiscais/contra a administração

pública, foi conformado pelos tipos representados nos arts. 1o, 2o e 3o da Lei no

8.137/1990 e os arts. 313, 316, 317, 334 e 337-A do Código Penal. Os tipos que potencialmente teriam sofrido o impacto da alteração na Lei no 10.522/2002.

Os dados foram tabelados pelo estatístico Fernão Dias de Lima, realizando- -se, através do Programa SPSS for Windows, o qual produziu as tabelas, com base nas quais foram construídos os gráficos e elaboradas algumas das conclu- sões a seguir apresentadas, com o escopo primordial de analisar o tratamento jurisprudencial do princípio da insignificância.

Benzer Belgeler