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A família de dona Clara Nunes foi escolhida para a pesquisa pelo fato de

estar entre as primeiras famílias que ingressaram no Bolsa Escola. Em 2004, ela

completou sete anos de permanência no Programa. Contudo, o mês de outubro de

2004 seria o último mês da família no Programa, pois o filho mais novo completou

17 anos e, portanto, não estava mais na faixa de idade da escolaridade

obrigatória. Além disso, esta família foi escolhida pelo fato de a pessoa

responsável pelo recebimento do benefício, ou seja, a dona Clara, estar entre as

que não eram escolarizadas.

Dona Clara Nunes é uma senhora de 61 anos de idade, que nasceu na

cidade de Santa Maria de Itabira, interior de Minas Gerais, e desde criança já

trabalhava:

Com seis anos, minha mãe me deu pra morá lá com a dona. Lá em casa eu lembro que... então ela deixou, eu olhava os meninos, varria o terreiro, lavava vasilha. Essas coisas eu fazia, o que eu agüentava eu fazia.

E aí eles me davam roupas, sapatos. Eles moravam lá na cidade onde eu morava. Aí eu fiquei com a dona lá seis anos, seis anos. Quando eu fiquei com dez anos eu carregava aqueles balaião de comida para pessoas que trabalhavam na roça. Pra pôr na minha cabeça assim, ela punha, chegava lá, meu patrão tirava. Porque não dava conta, era muito pesado! Então era um serviço assim o dia inteiro, que não dava tempo pra nada. Olhava menino...

Com cerca de doze anos mudou-se de cidade, foi para Itabira, também

interior de Minas Gerais, onde trabalhou em serviços domésticos e, mais tarde, foi

para Belo Horizonte, cidade na qual reside há cerca de trinta e cinco anos.

Em Belo Horizonte, ela também trabalhou em serviços domésticos, arrumou

um companheiro e teve filhos:

Eu não casei, eu morei com o pai dos meus meninos vinte anos. Mas não fui casada não. Agora ele mora lá em Betim e eu moro aqui.

Há aproximadamente dez anos ela está separada do pai dos seus filhos e,

quando se refere à sua família atualmente, ela diz: “agora tem cinco, seis comigo”,

considerando, assim, o número de pessoas que residem na mesma casa que ela.

São todos seus filhos, sendo quatro do sexo masculino e uma do sexo feminino.

Um filho tem 17 anos, outro, 18 anos, a filha tem 19 anos, outro filho, 21 e o outro

tem 23 anos.

Os dois filhos mais novos e a filha estão estudando: o de dezessete está

cursando a oitava série, o de dezoito, a sétima série e a filha está no segundo ano

do ensino médio. Os dois filhos mais velhos completaram o Ensino Fundamental e

estão trabalhando.

Além destes filhos, dona Clara teve mais três: o filho mais velho que está

casado e mora em outro bairro, um filho que faleceu aos 24 anos de idade, devido

ao uso de drogas, e uma filha de 29 anos, que é casada e morava em um

barracão aos fundos da casa de dona Clara. Atualmente esta filha foi morar em

Betim, deixando os três filhos e o marido. Segundo dona Clara: “ela está com

problema de cabeça e não quer tratar” e ainda “espanca os meninos demais”. Ela

tem dois filhos: um com nove, outro com quatro anos e uma filha com onze anos,

que cuida da casa e dos irmãos. Dona Clara também ajuda a cuidar deles.

O posicionamento de dona Clara na família é explicitamente definido, ela é

a “chefe de família” e é ela quem administra a renda familiar, define a organização

da casa e acompanha os filhos. Ela não trabalha, mas recebe mensalmente a

pensão do marido, o benefício do Bolsa Escola e, ainda, uma contribuição de cada

um dos filhos que trabalham. Com essa renda ela mantém a casa, os filhos que

ainda não trabalham e ainda paga o INSS

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para assegurar sua aposentadoria.

As atividades domésticas são distribuídas entre os filhos que não trabalham

e não há distinção de gênero nesta distribuição, tanto os rapazes quanto a moça

cuidam da casa, lavam vasilhas, fazem comida, etc. Dona Clara fez questão de

afirmar que ensina as atividades domésticas a todos os seus filhos desde

pequenos, pois considera que “o bom cristão tem que saber fazer de tudo em casa

e trabalhar também.”

As atividades cotidianas da família são marcadas pelo trabalho, pela escola

e pela igreja. Os filhos mais velhos são os que trabalham todos os dias fora de

casa, saem de manhã e só retornam à noite, os filhos mais novos, de segunda à

sexta-feira pela manhã, freqüentam a escola e à tarde ficam em casa, exercem

atividades domésticas e também as extra-escolares. O de dezoito anos de vez em

quando faz “bicos”, trabalhos informais no próprio bairro.

Dona Clara Nunes, que nunca freqüentou uma escola durante a sua

infância, está atualmente freqüentando um curso de alfabetização de adultos,

duas vezes por semana, no período da tarde. Conforme diz ela:

faz muita falta! Sabe por quê? Eu não tive tempo de aprender porque eu cresci no trabalho. Não tinha tempo de sair pra estudar. Então agora é que tá fazendo falta.

[...] porque eu tenho de ler a Bíblia, né. Então tá fazendo muita falta, né. Eu tenho que aprender ler. Sem ler não tem jeito, né, Maria José?

Além de trabalho e escola, a igreja também está presente no cotidiano das

mulheres da família. Dona Clara e sua filha fazem parte de uma igreja evangélica

que fica perto de sua casa, ambas freqüentam os cultos regularmente e, além

disso, dona Clara exerce outras atividades na igreja, como ela própria nos diz:

“quando a gente pode sair, a gente sai todo dia pra pregar nas casas, sai, fica três

horas, trabalha em campo. Trabalha para Deus”.

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O espaço da igreja se constitui como um espaço de socialização e lazer

para as mulheres da família, diferentemente dos homens, que não vão à igreja e,

mesmo com as restrições impostas pelas condições financeiras, eles freqüentam

outros espaços. De acordo com a filha de dona Clara, as possibilidades de lazer

são limitadas e assim diz ela: “A gente não passeia nada não. A gente não sai

não. Uma que a gente não tem dinheiro para sair, né. E a gente foi criada assim.”

Em relação aos seus irmãos ela diz: “ah, os meninos saem por aí, passeiam. Eles

já saem mais. Vão em algumas festinhas.” E dona Clara acrescenta: “Os homem

são sempre mais saídos, né!”

É assim a família de dona Clara, cuja apresentação ocorreu dentro de um

espaço e tempo específicos daquele momento em que mantivemos contato, mas

já nos permite compreender um pouco da dinâmica desta família, que conforme a

dona Clara nos diz: “espera por um futuro bom para eles”.

Esta dimensão de suas características, dinâmicas e especificidades se

fazem também na relação com outros espaços socioculturais, como o trabalho, a

escola e outras instituições sociais, conforme apresentado anteriormente. Mas

ainda há a moradia, o bairro, a cidade e as relações sociais nestes espaços

tecidas. Propomos, a seguir, a apresentação destes espaços com o qual a família

de dona Clara se relaciona.

2.1.1 Sobre a moradia, o bairro e as relações sociais

A casa em que a família de dona Clara Nunes mora se localiza no bairro

Milionários. Este nome poderia ser um indicativo das condições sócio-econômicas

das pessoas que nele residem, no entanto, é um bairro popular, composto por

casas residenciais que, em sua maioria, apresentam-se espaçosas e com

acabamentos externos como rebocos e/ou pinturas.

O bairro, situado numa região montanhosa, é facilmente localizado na

região pelo fato de possuir uma estátua do Cristo Redentor no seu ponto mais

alto. Ele é urbanizado e em suas ruas principais podemos encontrar igrejas

evangélicas e diversas casas comerciais, como padarias, escolas infantis,

academias, mercearias e lojas diversas. Em termos de infra-estrutura urbana,

possui: abastecimento de água potável, energia elétrica, rede de esgoto,

transporte, ruas asfaltadas e escola pública.

Não há postos médicos ou hospitais no bairro. O atendimento da população

é feito no bairro vizinho, onde há um hospital público e um posto médico.

Localizada numa das ruas principais do bairro, a casa da dona Clara Nunes

se destaca em relação às casas vizinhas pelo fato de ser construída na parte

baixa do terreno, que é acidentado, e também por ter um acesso livre de muros ou

cerca. As casas vizinhas são elevadas ao nível da rua e são cercadas, em sua

maioria, por muros de concreto.

Para chegar até a casa de dona Clara Nunes é preciso descer por alguns

degraus escorregadios, construídos no próprio barranco de terra.

De acordo com dona Clara, eles já moraram em outros bairros de Belo

Horizonte e há dezesseis anos eles residem nessa casa, que não é própria e nem

é alugada. Eles tomam conta da casa para o dono. Assim diz ela: “Antes nós

morou em vários lugares. Antes de morar aqui, nós morou em São Bernado

[bairro]. Do mesmo dono daqui. O dono de lá era dono daqui, então passou nós

para aqui. Pôs nós aqui para tomar conta.”

Em relação à possibilidade de esta casa ser adquirida pela família de dona

Clara Nunes, parece haver um conflito com o dono que tende a tirá-los da mesma,

pois, ao perguntarmos se poderiam ficar o tempo que quisessem naquela

residência, ela assim respondeu:

“É porque tem dez anos que eles não mexem aqui comigo. Com cinco anos eles mexeu. Eles queriam que eu saísse daqui. Que fizesse eles uma proposta, eles fazer casa lá em Ibirité pra gente. Mas depois eles parou com isso. Tem dez anos que eles não mexem com a gente, não.”

A imprevisibilidade da aquisição legal da casa não constitui limites à

apropriação de seu espaço, que se revela numa relação de cuidado e adaptação

às necessidades da família, como: a renovação da pintura das paredes, as

reformas diversas, a instalação do hidrômetro para garantir o abastecimento de

água potável e até alterações, como a retirada da porta da sala que dava acesso

ao lado externo da casa.

O interior da casa é dividido em cinco cômodos pequenos, sendo dois

quartos dormitórios, um banheiro, uma sala e uma cozinha.

Os quartos não são suficientes para o número de pessoas que residem na

casa, por isso, a sala também é utilizada como dormitório, tendo entre suas

mobílias uma cama. Os demais cômodos são compostos por mobílias já bastante

desgastadas e há poucos eletrodomésticos na casa. Todos os cômodos são

ventilados, têm janelas, possuem acabamentos simples e o acesso a casa é feito

pela porta da cozinha.

Dona Clara demonstra satisfação em relação a casa e ao bairro onde mora,

diz que conhece e tem um bom relacionamento com muita gente, gosta do bairro e

considera-o tranqüilo. A maioria de suas atividades cotidianas fica circunscrita ao

espaço do bairro onde mora ou dos bairros vizinhos, locais em que ela pode ir a

pé. Ir ao centro da cidade ou em outros locais mais distantes é mais raro,

conforme ela diz: “eu quase não vou ao centro, porque eu pago condução, aí fica

difícil”.

O mesmo procede em relação aos filhos que ainda não trabalham, já os

que trabalham têm acesso a outros bairros da cidade, devido ao próprio

deslocamento para o trabalho, cujos locais são distantes do bairro onde moram.

Os espaços do bairro freqüentados pela família são: as escolas, a igreja, o

posto de saúde e o comércio local. Eles não participam da associação do bairro e

nem de nenhum outro movimento social.

2.2. A família do Sr. Antônio: “Eu fico tão preocupado com

Benzer Belgeler