O apresentador João Kleber é parte da espetacularização dos quadros banais veiculados no sinal aberto de TV. À frente de um auditório, composto em sua maior parte por mulheres, o apresentador é quem conduz o fluxo das “pegadinhas” armadas e criadas pelos atores.
Sua postura é, desde o começo da exibição, prender a atenção do espectador, como se este não devesse deixar de acompanhar o programa. O uso repetido de certas expressões, como “Não sai daí”, “Olha o que vai acontecer”, “Aguarde que a gente tem muita coisa boa hoje”, “Daqui a pouco vocês vão ver o que a gente vai passar aqui de pegadinha, sensacional” e “Fique aí, voltamos já” reforça a tentativa de interagir com e se aproximar do público que assististe ao programa. O apresentador, ao buscar o estreitamento de laços com a sua audiência, legitima os conteúdos, exaltando que o programa de TV que está sendo veiculado é “bom” e, por conseguinte, recomendável “para todos”.
Outra forma de interferência, buscando um código linguístico em conformidade com as expectativas do público reside na ênfase de que os quadros divertem. “Vamos rir”; “Você que está chegando do trabalho, do colégio, vamos rir!” e “Sensacionais as pegadinhas” são alguns dos exemplos.
Outra característica observada pode ser ligada à tentativa de se definir um público médio para o qual o programa está sendo transmitido. “Milhões de pessoas estão assistindo ao programa. Obrigado pela audiência”; “Você que está chegando em casa agora” e “É um programa para toda a família rir” são algumas expressões do apresentador para sugerir a recomendação, sem quaisquer restrições, do programa para toda a família.
Este aspecto se enquadra na proposta da cultura de massa, que visa atingir o grande público, independente das diferenças de sua plateia. Trata-se da estratégia, do objetivo das empresas televisivas, nas quais seus produtores definem o que o público deve receber pela televisão, segundo a lógica de mercado. “Os fornecedores do universo vulgarizado compreendem que, se não trouxerem a natureza ao nosso nível, não a venderão, o que seria perder uma oportunidade de lucro”, aponta Gunther Anders (1973, p. 424).
Umberto Eco aborda esta temática:
Ao contrário, as reiteradas afirmações dos responsáveis pelos programas de TV, o intento declarado de adaptarem-se aos gostos médios do espectador para não descontentarem ninguém, se de um lado revelam a existência de uma efetiva competição comercial (a contenda do responsável com os caprichos do público, para não provocar dissensões que venham a pôr em dúvida, rumorosamente, sua idoneidade em preencher o cargo), manifestam, do outro, a tendência muitas vezes instintiva, inconsciente, ditada mais por obscuros instintos conformistas que por deliberado cálculo político, para promover, através dos programas, os gostos e as
opiniões de um cidadão ideal, um espectador perfeito, que satisfaça as necessidades de quem detém o poder, aceitando-lhe a direção, indiferente aos grandes problemas e amavelmente distraído por paixões periféricas. (ECO, 1987, p. 347).
A Escola de Frankfurt já buscava algumas explicações para esta tentativa de a indústria cultural encontrar um público determinado. Isto seria atingido, segundo a escola, por meio da padronização, que buscaria satisfazer as necessidades próximas dos consumidores dos bens culturais. (ADORNO; HORKHEIMER, p. 114).
As estratégias presentes no Tarde Quente permitem deduzir que seu conteúdo de cunho popularesco, com gírias, expressões de baixo calão e outras tendências vulgarizantes, busca atingir este público médio. O formato da atração, constituído em sua totalidade pelas “pegadinhas”, apresenta características padronizadas de elementos, considerando que as histórias são similares: começam com os atores abordando suas vítimas; seguem com a aplicação da farsa e terminam com agressões e o logro das vítimas.
O espectador já pressupõe como a história vai terminar, a partir do encaminhamento mostrado pelos atores do programa ou mesmo pelas intervenções do apresentador da atração. São quadros previstos no universo dos produtos culturais (ADORNO; HORKHEIMER, p. 118).
Também não há uma ordem nos temas abordados em cada historieta, mas sim a fragmentação de quadros sobre problemas humanos do cotidiano e situações onde o cômico e o inesperado se sobressaem.
Neste sentido, o programa conduz à banalização dos assuntos que trata – a busca por uma simpatia, a compra de um produto, o pedido de ajuda a uma pessoa ou uma simples solicitação de informação – transforma o telespectador em um mero consumidor destes produtos culturais, como afirmam os frankfurtianos.
Em conformidade com a lógica do mercado e da audiência, a intenção expressa por esta produção cultural seria simplesmente agradar, com o intuito de desviar o receptor de suas próprias dificuldades, anseios e desafios cotidianos.
A busca por este “denominador comum” e a finalidade de se “dirigir a todos”, tal qual se referia Edgar Morin, teriam como consequência a degradação cultural (BOURDIEU, 1997, p. 68), que pode ser compreendida como a presença do sensacionalismo, do extraordinário e da apelação. Esta fórmula aparece de modo constante nas “pegadinhas” veiculadas no programa de João Kleber.
As mesmas consistem em histórias desconexas e cômicas, distantes da normalidade. Pouco comuns no cotidiano, tais conteúdos são transpostos para a TV como algo hilário e
prazeroso. Porém, as brincadeiras carregam, de forma latente, humilhações e atribuem identidades a pessoas comuns e minorias sociais, já expostas a fragilidades, como é o caso dos homossexuais.
Outra observação é que João Kleber não se atenta para as formas de violência verbal e física que permeiam a atração. Em muitas ocasiões, a violência é reforçada pelo apresentador, ao prever o encaminhamento negativo dos quadros, que por sua vez desembocam na agressão. Exemplo: “Você vai apanhar, ceguinho”, “Ajuda ela, vai” (pegadinha 3 – 24/10/2005).
As manifestações de que o conteúdo apresentado está sendo agradável e benéfico para quem o assiste são outra constante verificada no posicionamento do apresentador do Tarde Quente. Ao dizer “Que maravilha!” e “Muito boa esta pegadinha”, ainda que haja violência e desrespeito aos direitos humanos e de minorias, as mensagens são colocadas nos planos positivo e de bom gosto.
Em outras intervenções, o apresentador acompanha o desenrolar das “pegadinhas” rindo das pessoas vítimas das armações. Exemplos: “Vai ficar olhando a mulher” (pegadinha 2 – 24/10/2005); “Olha a cara da mulher” (pegadinha 22 – 27/10/2005). Esse reforçador demonstra a desqualificação da vítima da armação, tratada como se dispusesse de pouca capacidade crítica. Sobre o apresentador de programas de auditório, Ciro Marcondes destaca que
Ele corporifica ou representa o caráter brasileiro da autodesvalorização, o da forma não-convencional e ao mesmo tempo a grosseira de imiscuir-se na vida, no trabalho, na situação do outro, aliada a um certo descompromisso geral em relação a todas as coisas. (MARCONDES FILHO, 1994, p. 76).
Em consonância com a cultura de massa, as “pegadinhas” trazem toda sorte de assuntos no qual se enfatiza a ingerência na vida privada das pessoas. A intromissão nas conversas dos transeuntes, a provocação, o ingresso em temas de foro íntimo, tudo é colocado no plano do exótico e do ridículo pelo próprio apresentador da atração.
Com uma postura espontânea e, ao mesmo tempo vulgar e debochada, o apresentador atua no sentido de confirmar o apoio e a aprovação às situações cômicas propostas nas “pegadinhas”.