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KEMÂLÜDDĠN EL-FÂRĠSĠ

ORTAÇAĞ’DA OPTĠK

KEMÂLÜDDĠN EL-FÂRĠSĠ

O Direito tem na sociedade uma importante função que diz respeito ao estabelecimento da harmonia, já que visa a orientar os comportamentos e posturas, limitando a liberdade humana para que as interações sejam harmônicas. A busca de ordenamento da convivência humana está ligada à prescrição de normas de conduta aceitáveis, fazendo com que a vigência do Direito assuma características específicas já que ele incorpora em sua essência valores sociais diversos. Em razão do lugar social que ocupa, como bem aponta Bittar (2001, p. XX), “onde se lê ‘Direito’, ou quando se diz ‘Direito’, reclamam-se também os termos ordem, poder, violência simbólica, poder persuasivo, valor, normatividade, regras de conduta, coercitividade, eficácia, decidibilidade, sistematicidade [...]”.

É a linguagem que dá forma ao Direito e ele, por sua vez, se concretiza através de práticas de linguagem específicas, que, devido às suas características peculiares, constituem a dita linguagem jurídica. A linguagem jurídica é fundamentada em restrições as quais são advindas do contrato de comunicação inerente ao domínio jurídico e do próprio espaço em que se situa a prática jurídica. Complementando essa acepção, Bittar abre espaço para discutir que

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Esse universo de discurso, absolutamente particular, pois, possui regras, conceitos, definições, injunções [...] que o particularizam em meio a outros, de modo que se possa considerá-lo autônomo, mas não necessariamente independente, ou desligado dos demais sistemas. Preserva, pois, sua relação com os sistemas econômico, político, empresarial [...] e sobretudo com o universo da linguagem natural. (BITTAR, 2001 p. 38)

O discurso jurídico, portanto, embora demonstre características particulares, não é descontextualizado, está situado em uma teia sociocultural mais ampla, esboçando traços desse meio social de onde surge e onde atua. Assim, a mutabilidade é uma característica do discurso jurídico, já que ele está em frequente contato com sistemas sociais em recorrentes transformações e evolução.

A primeira restrição advinda do contrato de comunicação que se desenha no domínio jurídico diz respeito à identidade dos parceiros que se engajam nas trocas verbais. Os parceiros envolvidos em tal troca devem partilhar saberes em comum e reconhecer um ao outro como portadores de legitimidade para atuar em tal domínio. Quanto à questão da legitimidade, Charaudeau (2006a) chama atenção para o fato de que ela se constitui

[...] no resultado de um reconhecimento, pelos outros, daquilo que dá poder a alguém de fazer ou dizer em nome de um estatuto (ser reconhecido em função de um cargo institucional), em nome de um saber (ser reconhecido como sábio), em nome de um saber-fazer (ser reconhecido como especialista). (CHARAUDEAU, 2006a, p.67).

No domínio jurídico só pode atuar aquele que é reconhecidamente capacitado para isso, aquele que é profissional do Direito e tem licença legal para atuar em juízo. A legitimidade está relacionada não apenas ao poder fazer, mas também ao saber fazer, pois os profissionais do Direito devem ser aqueles que de fato têm conhecimento das leis e da maneira como essas leis devem ser aplicadas para fins de resolução dos conflitos sociais e estabelecimento da harmonia através da justiça. Assim, os advogados, juízes e juristas em geral devem demonstrar um conhecimento apurado que lhes permita e dê legitimidade para atuarem no exercício do poder, como Charaudeau (2009c) discute ao explanar que

[...] no domínio jurídico, que é regido por uma lógica da lei e da sanção, os atores são legitimados pela obtenção de um diploma e o status institucional é adquirido através de um sistema de ingresso por concurso, aliado a um sistema de nomeação pelos pares ou pelos superiores hierárquicos. (CHARAUDEAU, 2009c, p.314)

52 Em adição à observação feita acima há ainda que se salientar que os atores sociais que atuam dentro do domínio jurídico estão hierarquicamente organizados, o que os coloca em relação de desigualdade em se tratando da possibilidade e do espaço de atuação deles. Assim, por exemplo, um advogado pode entrar com uma ação e argumentar em favor dela, entretanto, a decisão e o pronunciamento da sentença cabem apenas ao juiz.

As práticas jurídicas têm o propósito de regular a vida em sociedade e buscar uma solução que desfaça os conflitos existentes. Para isso, se pautam em leis que servem de norte para o cidadão ter consciência sobre como deve agir a fim de não infringir as normas de boa conduta. Nesse sentido, observa-se assim, nesse âmbito, o entrecruzamento de duas visadas, a visada de instrução e a visada de prescrição. A lei traz a “instrução” de como deve ser a conduta de quem vive em comunidade, a fim de que ele aja conforme tais preceitos. O Direito, então, regula o comportamento humano, prescreve como ele deve ser.

O juiz, com seu poder de aplicar a sentença, é o maior responsável por “mandar fazer” (“fazer fazer”). Em razão do status hierárquico do domínio jurídico, o advogado não pode “mandar fazer”, mas está em posição de solicitar algo ao juiz. Assim, o advogado entra com uma ação que busca satisfazer os interesses de seu cliente, consequentemente, espera do juiz uma sentença que privilegie a causa defendida. Para isso, o advogado, enquanto sujeito do discurso, tem que validar o pedido, provar os fatos, buscando a adesão do magistrado. Vê-se aqui novamente o entrecruzamento de duas outras visadas, a visada de solicitação, pois o advogado remete ao juiz e espera uma resposta do mesmo e a visada de demonstração, pois é preciso que seja estabelecida uma verdade, uma prova que valide o pedido.

A existência de diferentes visadas que estruturam as trocas linguageiras do domínio jurídico é decorrente da natureza diversa dos discursos que constituem tal domínio. Em relação a isso, Bittar (2001) ressalta que 4 tipos de discursos constituem esse domínio: discurso normativo, discurso burocrático, discurso decisório e discurso científico.

O discurso normativo é a base do domínio jurídico, pois a manifestação do texto normativo é determinante para a busca do estabelecimento da harmonia social e das próprias decisões jurídicas, o que significa dizer que desconsiderar as normas, na esfera jurisdicional, é impossível (BITTAR, 2001).

A norma, conforme salienta Ferraz Junior (1988, apud BITTAR, 2001), é uma prescrição; a lei, fonte do Direito, é a manifestação das normas dentro de determinado âmbito. Bittar (2001) enfatiza que a norma jurídica é uma particularização das normas em geral e que “o que distingue as normas como jurídicas é o fato de serem vinculantes ou prescritivas, de

53 estarem revestidas de um poder de coerção da conduta [...]” (BITTAR, 2001, p. 184). Observa-se, destarte, que o discurso jurídico, por ser a manifestação do poder, se constitui pela finalidade poder-fazer-dever-fazer.

O discurso burocrático é aquele que desempenha um papel elocutivo, correspondendo à linguagem institucionalizada, aquela usada nas relações jurídicas, e através da qual mostra-se pertencer ao universo de um discurso particular, com suas regras, normas e costumes particulares. Em suma, esse discurso tem função ordinatória9 e está subordinado ao discurso normativo, obedecendo e se referindo a ele.

Bittar (2001) esclarece que o discurso burocrático atua nos procedimentos de preparação para o discurso decisório e é essa sua função e razão de existência. Em adição a isso, ele assevera que

esse discurso não está caracterizado pela riqueza semântica e muito menos pelo seu papel criativo. Trata-se de um discurso clausular, que se exerce mais pelo rito que pelo conteúdo [...]. Sua subserviência, com relação aos discurso normativo e decisório, constrange-lhe a natureza.” (BITTAR, 2001, p.254).

Em razão da função que desempenha, o discurso burocrático é definido como um poder- fazer-fazer.

O discurso decisório é a prática textual de caráter performativo que atua de modo a transformar a situação jurídica de um sujeito social, pois se pauta em uma enunciação oficial, no pronunciamento de uma sentença. Ele traz para a prática aquilo que antes era só norma, tornando-a concreta; ele é

[...] de um lado, derivado do discurso normativo, pois nele se sustenta, e dele extrai seus principais fundamentos, tendo por função básica sua individualização e sua concretização, e, de outro lado, terminal do discurso burocrático, ou seja, aquele para o qual tende toda a marcha procedimental com suas práticas burocráticas. (BITTAR, 2001, p.266)

O sujeito de discurso que está na base do dito discurso decisório é aquele que se encontra investido da condição de “poder dizer o direito”, tendo a capacidade de atuar para mudar o estado das coisas e das pessoas, dispondo, portanto, de legitimidade pra isso. Esse discurso liga-se à característica poder-fazer-dever.

Por fim, o discurso científico é também um constituinte do discurso jurídico. Ele se constrói ao passo em que atua na avaliação e até na reavaliação das produções do discurso

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54 jurídico, ou seja, atua na crítica das produções desse domínio. Assim, nesse tipo de discurso, a prática da exegese é fundamental, é sua principal função. Nos dizeres de Bittar, “é em função da necessidade de construir sentido sobre normas, decisões e atos administrativos que se constroem teses, teorias e interpretações científico-jurídicas.” (BITTAR, 2001, p.312). Complementando essa explanação, Bittar (2001) esclarece ainda que esse discurso é marcadamente ideológico e essa ideologia já se faz presente no momento inicial em que se julga algo como jurídico ou não jurídico. Esse discurso se define através da relação poder- fazer-saber.

Conforme ocorre em todo domínio, as situações de comunicação do domínio jurídico também resultam da realização de condições materiais específicas. Devido à grande relevância social e à função que o Direito tem na sociedade, os discursos desse domínio circulam geralmente através de documentos escritos. Também deve-se a isso a identidade e a relação hierárquica que se estabelece entre os atores sociais que fazem parte e atuam nesse domínio.