A farinha é considerada fundamental para a vida, pois é o elemento principal da dieta alimentar do caboclo ribeirinho, e, como me explicou Humberto Nobre, “pra cá, quem não tiver uma roça pra fazer farinha está morto”. Durante a pesquisa, ao falarem de doenças, os comunitários recorrentemente fizeram referências a vários episódios de agravos associados a essa atividade. Por outro lado, ela está intimamente relacionada com as condições de saúde das pessoas que a realizam, especialmente o chefe da família ou sua mulher, uma vez que afetam o abastecimento da casa.
Os vários movimentos e esforços envolvidos no processo de produção de farinha revelam técnicas de adestramento do corpo de modo a adaptá-lo ao seu uso (MAUSS, 2003a).
Uma engenheira florestal9 me disse que a “farinhada é como uma academia”, em razão dos
diferentes movimentos corporais realizados durante a sua produção.
Produzir farinha absorve os membros da família nuclear, em idade de trabalhar, durante praticamente o ano inteiro, mesmo que seja realizando pequenos serviços como servir água aos que se dedicam às atividades mais pesadas (cortar árvores ou amontoar os troncos para a queima, por exemplo); e exige grande esforço físico das pessoas envolvidas em cada fase do processo de produção, desde a abertura do roçado até o seu transporte para consumo doméstico. Qualquer alteração no estado de disposição física pode afetar o abastecimento da casa. Por isso, adoecer, especialmente no caso do chefe de uma família nuclear em que os filhos são pequenos, afeta diretamente a mesa, pois essas famílias estão mais vulneráveis, pelo reduzido número de braços para o trabalho. Quando os filhos já estão grandes, fisicamente em condições de assumir o trabalho, a doença de um dos pais não prejudica tanto, porque aqueles assumem temporariamente ou definitivamente a produção de farinha.
Para os comunitários, produzir farinha é considerado um trabalho “sacrificado”, uma “batalha”, que prejudica muito a saúde da pessoa e não garante retorno financeiro:
Produzir farinha é um trabalho muito lascado, afeta muito a saúde. [...] A fumaça prejudica muito a vista. Tem também a quentura: se não tomar cuidado, evitando tomar friagem ou entrar na água fria, a pessoa é atacada de reumatismo ou de derrame. Tanto trabalho e, ainda assim, o preço é baixo. Pode-se dividir o processo de produção de farinha nas seguintes fases: derrubar a mata, destocar, queimar, plantar a maniva, capinar periodicamente, colher e transportar a
9 Essa engenheira florestal, do interior do estado de São Paulo, trabalhava em projetos de implantação de
mandioca até o forno, descascá-la e ralá-la no caititu10, extrair o tucupi e, finalmente, torrar. Cada uma dessas fases, em maior ou menor grau, envolve riscos de acidentes que, por comprometerem a saúde, podem impedir a continuidade do trabalho de um ou mais membros da família.
Durante a derrubada da mata, há o risco de a pessoa ser ferida gravemente pelos troncos ou galhos das árvores em queda. Cortes, “golpes” com terçado ou machado são freqüentes durante a realização dessa atividade, e também as picadas de cobra. Na queimada de troncos e galhos, que ocorre entre outubro e novembro, são freqüentes as queimaduras, e irritações nos olhos e nas vias respiratórias devido à fumaça11.
O transporte dos talos de maniva para o plantio pode provocar “desmintidura” ou “rasgadura da carne” nas pessoas. Plantando, elas trabalham com o corpo curvado para baixo, e o esforço exigido da coluna leva muitas a sentir dor nas costas ao final do dia. Como a coluna “faz o movimento do corpo”, é preciso cuidado. Após o plantio, o trabalho de capinar periodicamente com o terçado obriga a pessoa a ficar curvada (próxima do chão), correndo o risco de ser picada por cobras ou ferrada por “lacraus” (escorpiões) ou tucanderas. “Na capina é o perigo maior que têm”, comentou dona Lira. Esses perigos estão presentes também na fase da colheita.
Semanalmente se produz farinha, ou “conforme a perseguição”, isto é, conforme o consumo familiar. Uma vez tirada da terra, é preciso transportar a mandioca até o forno, em sacos ou paneiros que, cheios, pesam em torno de 50 quilos. Dependendo do modo como são levantados, pode-se “desmentir” a coluna, o pescoço ou o ombro. Encontrei pessoas se queixando de hérnias abdominais decorrentes do excesso de peso transportado, sobretudo mulheres. Tais transtornos resultam do acúmulo de trabalho no corpo ao longo da vida (GUEDES, 1997), e se manifestam com o passar dos anos. Embora o peso seja indicado como responsável por alguns agravos, eles consideram os movimentos bruscos ainda mais prejudiciais ao corpo, porque, num escorregão, por exemplo, se “o peso está mal-agasalhado corre o risco de desmintir tudo”, explicou Lino.
Ao “tratar” (descascar) os tubérculos, é freqüente as pessoas cortarem as mãos ou as pernas com faca ou terçado; qualquer descuido pode resultar num golpe, superficial ou
10 Cilindro do aparelho de ralar mandioca, que comporta um conjunto de serras metálicas As raízes são
comprimidas manualmente contra esse cilindro, a fim de serem raladas. Qualquer descuido leva a pessoa a encostar a mão nas serras, correndo o risco de ter os dedos decepados.
11 Durante o período das queimadas, a fumaça se estende por grandes áreas, afetando até mesmo aqueles não
envolvidos diretamente no trabalho. No final de outubro de 2006, a fumaça era tanta que o piloto do barco no qual eu viajava perdeu o rumo, pois não conseguia ver o contorno da margem do rio, que lhe servia de referência.
profundo. Uma vez descascados, os pedaços são levados à “banca do cevador”, para serem ralados no caititu. A atividade de ralar é responsável por um elevado número de acidentes traumáticos nas mãos. Dona Lira me mostrou os dedos, cujas pontas foram cortadas enquanto “cevava” (ralava). Um caso exemplar da gravidade desse tipo de acidente merece menção: em 2006, um menino de Itapaiuna feriu gravemente os dedos das mãos no caititu, precisando ser removido com urgência para Santarém12.
Na preparação da massa de mandioca ralada (a ser torrada), há o perigo de os estados corporais afetarem, poluírem (DOUGLAS, [s.d.]) a “qualidade da farinha”. Mulheres menstruadas ou que tenham tido relações sexuais na noite anterior não devem manipular a massa (como no caso da produção do óleo de andiroba), para não contaminá-la, o que alteraria a sua qualidade. Geralmente essa atividade é realizada pelas mulheres mais velhas, que já estão na menopausa. Entretanto, entre os casais mais jovens, a menstruação da esposa condiciona o agendamento do dia em que a farinha será torrada.
Torrar farinha é uma atividade suscetível de provocar transtornos corporais que, se não cuidados, podem se agravar e se transformar em uma “doença alcançada” (doença grave). Isso porque a pessoa, ao torrá-la, fica diretamente exposta aos vapores, à fumaça e ao calor do fogo; ela aquece com os movimentos e com o calor do forno. Para evitar os transtornos decorrentes das doenças associadas a esse trabalho, é preciso ter o cuidado de não tomar friagem quando o corpo está quente, pois se isso acontece há o risco de “pegar derrame”, reumatismo ou estuporação.
“Deus o livre!”, exclamou dona Lira quando lhe perguntei o que aconteceria se uma pessoa cujo corpo estivesse quente fosse imediatamente tomar banho no rio, saísse na chuva ou pegasse friagem. Antes de tomar banho é preciso esperar o corpo esfriar, porque durante o trabalho “fica agitado o sangue, fica quente” — motivo pelo qual se deve tomar cuidado depois do longo período de exposição ao calor do forno de farinha.