negócios de família.
2.2 Negócios de família
Na década de 1880, comerciantes como Luiz Ribeiro da Cunha, barão da Canafístula, e Joaquim da Cunha Freire voltaram especial atenção para a alegada necessidade de regulamentar as relações entre patrão e empregado, promovendo um controle da mão de obra dos pobres citadinos, sobretudo daqueles que seriam absorvidos pelos trabalhos domésticos. Daí a medida no sentido de matricular os criados de servir e condutores de bonds.
No Ceará, cognominado “terra da luz”, a liberdade foi, por um lado conquistada pelos escravos, por outro, foi também concebida, no mundo dos senhores, sob o signo do tráfico interprovincial. A Abolição, concebida pelas elites como dádiva, teve algo desse tom cínico com que se identificou a atuação de destacados comerciantes de Fortaleza. Sem desconsiderar o aspecto de conquista dos libertos, a libertação, em grande medida, foi gestada no bojo de uma sociedade senhorial, paternalista e afeita a perpetuar os vínculos de dependência entre dominantes e dominados mesmo no pós-Abolição; o que seria garantido por uma Abolição realizada nos marcos de uma sociedade em que a liberdade era estruturalmente definida como precária. No contexto de configuração da pobreza urbana, nas últimas décadas do XIX, a liberdade sempre esteve por um fio.
Como os escravos tinham sua versão da liberdade, e nem sempre deixavam-na vir à tona no discurso público, os senhores preocupavam-se com envidar engenharia de poder que mantivesse a ordem social, a Abolição não poderia afetar a hierarquia na sociedade. Deveria ser, na ótica de Sátiro Dias, então presidente do Ceará, “sempre vivaz mais pacifica, serena e
tranquila como convem que sejam as lutas da liberdade”134. Pois a liberdade não é um estado, é um processo. A libertação, como se deu no Ceará, conservou esse caráter de dádiva, que se atribuiu ao poder público e aos proprietários; muito embora boa parte dos cativos tenha logrado alcançar a alforria por meio de compra ou de modo conflituoso, com intermédio da justiça. Além disso, em Fortaleza, particularmente, os escravos, os poucos que sobraram até 1884, foram, a maioria, tragados pelo mundo dos trabalhos domésticos, onde se perpetuaram relações senhoriais e paternalistas. Mas também aqui, os criados e criadas alimentaram sua infrapolítica
134
CEARÁ. Relatórios de Província. Relatório de Satyro de Oliveira Dias, 1884, p. 28. Disponível em: <http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u225/000028.html>. Acesso em: 11 jul. 2015.
e mantiveram vivo seu repertório linguístico do discurso oculto. O que se depreende do diálogo estereotipado entre dois criados imaginado pelos redatores do Libertador, de maio de 1890,
Entre criados:
- Sahiste da casa do commendador?
- Pois não! ... Um homem insuportavel! ... Basta dizer-te que ele não dormia uma só noite fóra de casa.135
Nessa suposta conversa, o criado maldiz a presença devotada do patrão em casa e dá esse motivo para explicar a sua saída daquele lugar. No pós-Abolição, discursos dessa natureza visavam a chamar atenção para a alegada necessidade de constante regulação dos criados de servir. Questão, aliás, que remonta os anos de 1870, quando comerciantes negociavam cativos e alugavam criados(as) e/ou amas de leite. Todo esse processo de constituição de espaços de sociabilidade burguesa, de uma intelligentsia dita liberal, de infraestrutura da capital cearense, de recenseamento da população citadina e de regulamentação do trabalho doméstico se deu centrado na família, tendo a casa como locus de reprodução de costumes, de expectativas, de disciplinas morais, de ethos e habitus relativos à legitimação do trabalho, do comportamento e de representação do mundo social, caracterizado por suas assimetrias e distinções.
Uma das principais famílias envolvidas no tráfico interprovincial e na constituição de instituições asilares e de caridade para os pobres foi a dos irmãos Cunha Freire. Ao longo das décadas de 1860 e 1870, afirmaram-se no comércio e na estrutura política da Pronvíncia. Joaquim da Cunha Freire acumulou grande fortuna especulando nas esferas privada e pública. Foi o que denunciou em 1873 A Província, do Recife, ao dar conta de que Severiano Ribeiro da Cunha “irmão do vice-presidente Joaquim da Cunha Freire, actualmente em exercicio, com
dous outros corsarios obtiveram do presidente um privilegio (...) para esgoto d’esta cidade (...)
clandestinamente”136 e, como se não bastasse, “fizeram passar uma lei provincial, obrigando á
cada proprietario de casa á pagar 10% do valor da locação, á empreza, da limpeza”, corrupção
que teria sido cometida para desonra do ministério do visconde do Rio Branco (1871-1875), na análise daquele jornal. Enquanto se ganhava vantagens com contrato com o poder público, a limpeza cotidiana, de fato, era empreendida, em geral, por negros desvalidos. A sua especulação não se limitou à política, voltou-se para o comércio, a apropriação de imóveis, o trabalho de pobres e, como já se disse, escravos vendidos no circuito do tráfico interprovincial. Houve
135 Libertador, ano X, nº 105, Fortaleza, Quarta-feira, 07/05/1890, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/229865/per229865_1890_00105.pdf>. Acesso em: 23 ago. 2014.
136 A Província, ano II, nº 137, Recife, Terça-feira, 04/11/1873, p. 02. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/128066/per128066_1873_00137.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2015.
periódico que associou a firma do barão de Ibiapaba a uma quadrilha, “cujos socios devião estar
de braga ao pé, hombreando com os forçados da galé, em punição de seus crimes contra a vida, a liberdade, a honra e a propriedade alheia”137.
A censura a Joaquim da Cunha Freire e seu modus operandi, para enricar e manter- se sempre íntimo do poder, independentemente de que o governo fosse liberal ou conservador, foi realizada ao gosto da conveniência política. Houve suspeita, inclusive, na década de 1890, aventada pelo Libertador – que, em 1892, tornou-se A República, após fundir-se com o Estado
do Ceará, órgãos do Centro Republicano e da União Republicana, respectivamente –, de que
estivesse conferindo auxílio pecuniário ao jornal O Cearense, que lhe fazia oposição, ao que o barão declarou ser assinante e pagar regularmente a sua anuidade, e que tão-somente seria seu leitor138. Enquanto o A Constituição ressaltava seu talento para acumular avultada fortuna pelo próprio trabalho e a doação de seus vencimentos quando assumia a presidência da Província para alforriar escravos; O Cearense destacava que a grande escala de seres humanos traficados do Norte, desde o Piauí até Mossoró, no Rio Grande do Norte, segundo o qual teria alcançado o número de “15 mil escravos com as procurações dos proprietarios”. No mesmo periódico, especula-se que “os mandava comprar no centro do Piauhy, etc., e vender no Rio” (de Janeiro); e mais, “a propria casa de residencia do barão era o quartel dos pobres pretos e não ha n’esta
capital uma só pessôa que não tenha visto a mercadoria do barão e os magotes que embarcaram”139. O contingente mencionado naquele periódico é bastante vultoso. Mas o algarismo provavelmente não se justificava exclusivamente para fazer ecoar a retórica dos redatores d’O Cearense. Homem de grande influência, na polícia, justiça, imprensa – era dono do jornal A Constituição –, alfândega, enfim, em diversos setores da estrutura de governo da Província, certamente, traficou milhares de homens e mulheres dos litorais e dos sertões do Norte do Império.
O barão de Ibiapaba não escondia sua atuação no comércio interprovincial de gente. Os redatores do A Constituição esclareceram como procedia no envio de escravos para fora do Ceará:
nunca declaramos que o Sr. Joaquim da Cunha Freire & Irmão não mantinham commercio de escravos, e nem podíamos fazel-o, desde que é notoriamente sabido que Ss. Ss. tem algumas vezes negociado com esse gênero de commercio, que, embora
137 O Cearense, ano XXXI, nº 44, Fortaleza, Quinta-feira, 24/05/1877, p. 02. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1877_00044.pdf>. Acesso em: 19 mai. 2015.
138 O Cearense, ano XLVI, nº 225, Fortaleza, Quinta-feira, 29/10/1891, p. 02. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1891_00225.pdf>. Acesso em: 20 mai. 2015.
139 O Cearense, ano XXXIX, nº 88, Fortaleza, Sexta-feira, 22/05/1885, p. 02. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/7095-6/per709506_1885_00088.pdf>. Acesso em: 05 mai. 2015.
muito triste e afflictivo, não deixa comtudo de ser muito legal e licito, do qual fazem uso em grande escala negociantes muito honrados desta praça, como sejam, por exemplo, os Srs. Luiz Ribeiro da Cunha & Sobrinhos, Viuva Salgado & Comp., Francisco Rocha, Cunhada & Sobrinhos e Francisco Coelho da Fonseca & Filho, etc.140
Conforme a justificativa do tráfico interprovincial, seria leviana a alegação de que o barão de Ibiapaba burlava o pagamento da taxa de embarque dos cativos e, contra isso, explicava, “há escravos, que são embarcados para o Rio de Janeiro por conta e risco dos Srs.
Joaquim da Cunha Freire & Irmão, e outros que são exportados por conta dos vendedores, á quem incumbe tirar passaportes e pagar os respectivos direitos”141. Essa uma forma de reduzir custos, aumentar lucros e livrar-se do registro mais fidedigno de quantos milhares de trabalhadores teria embarcado para dar conta de encomendas do Sul. Sabe-se, por dados oficiais, que teriam sido exportados, apenas, do porto de Fortaleza, no primeiro quinquênio da década de 1870, 2.846 escravos, cujos dados, ano a ano, foram assim distribuídos: em 1872, 291; 1873, 505; 1874, 710; 1875, 894, 1876, 446142. Durante a seca de 1877-79, teriam saído 1.725, em 1877; 2.909, em 1878, e 1.925, em 1879, totalizando 6.559 exportados. Em 1857, o Ceará tinha algo próximo a 35.011 cativos143, no início dos anos de 1860, 35.441 (sendo 18.434 homens e 17.007 mulheres)144, em 1872, de acordo com o Censo do Império, 25.727 escravos (14.941 homens e 16.972 mulheres) e, em 1874, a matrícula de escravos no Ceará, revelou o total de 30.295 indivíduos145, e, por fim, n’O Cearense, nº 76, de setembro de 1877, estimou- se que restavam 22.378, “não contando alguns que devem ter sahido pelo porto do Aracaty e
outros, ou pelo interior da provincia”146. Justamente o começo da grande seca de 1877-79, em que se traficou em maior escala escravos. Na mesma edição d’O Cearense, de 1877, lê-se que, conquanto “tendo-se aberto o mercado de escravos nesta provincia, em 1845, ainda hoje eles
se não extinguirão”.
140 A Constituição, ano XII, nº 136, Fortaleza, Domingo, 18/10/1874, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/235334/per235334_1874_00136.pdf>. Acesso em; 12 jun. 2015.
141 A Constituição, ano XII, nº 136, Fortaleza, Domingo, 18/10/1874, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/235334/per235334_1874_00136.pdf>. Acesso em: 12 jun. 2015.
142 O Cearense, ano XXXI, nº 08, Fortaleza, Domingo, 28/01/1877, p. 02. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1877_00008.pdf>. Acesso em: 14 jun. 2014.
143 GIRÃO, Raimundo. A abolição no Ceará. Cit., p. 58-60. Ver, também, esses dados em: FERREIRA SOBRINHO, José Hilário. Catirina, minha nega, teu sinhô, ta te querendo vende, pero Rio de Janeiro, pero
nunca mais te vê: a tráfico interprovincial no Ceará. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2005, passim.
144BRASIL, Thomaz Pompeo de Sousa. Ensaio Estatistico da Provincia do Ceará. Tomo I. Typ. B. de Mattos, 1863, p. 299-300.
145 O Cearense, ano XXVIII, nº 26, Fortaleza, Domingo, 29/03/1874, p. 04. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1874_00026.pdf>. Acesso em: 26 out. 2014.
146 O Cearense, ano XXXI, nº 76, Fortaleza, Sábado, 08/09/1877, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1877_00076.pdf>. Acesso em: 23 mar. 2014.
Na perspectiva de homens e mulheres escravizados, a exportação significava a ruptura de laços de solidariedade e familiares, o corte de uma rede constituída de afetos.147 Na visão de alguns comerciantes, que de algum modo participaram de ações abolicionistas, contribuíam para escassear o Ceará de escravos, fazendo com que predominasse o trabalho dito livre. Os senhores do tráfico, por outro lado, tinham que lidar com a agência dos cativos, em função dos quais se tornaram recorrentes os anúncios de fuga, que perduraram até as vésperas da Abolição no Ceará. Alguns conseguiam escapar aos donos, evitando o seu próprio embarque. Clemente, cativo natural da vila de Ipu, era cabra, de 18 anos, pouco baixo e, conforme seu proprietário, Henrique Kalkmann, deixar-se-ia “facilmente conhecer pela falla fanhosa”148. Kalkmann, que era presidente da Associação Comercial quando, no dia 19 de outubro de 1867, Clemente evadiu-se, ofereceu gratificação de 100$000 (cem mil réis) para quem o devolvesse. Em quase todas as edições dos periódicos, ao longo dos anos 1860 e 1870, encontram-se relatos de fuga, que era a negação da propriedade senhorial. Destacados comerciantes e firmas constituídas eram os signatários desses avisos. Em agosto de 1868, Benedito, negro, de 28 anos, ao chegar em Fortaleza, vindo do Aracati, cidade igualmente portuária, fugiu. Deveria ser entregue caso capturado a José Smith de Vasconcelos & Comp. Havia uma gratificação de 50$000 prometida para quem o entregasse, na capital ou na cidade de origem do foragido.149
Benedito pretendeu escapar dessa importante firma de importação de produtos da modernidade europeia entre as duas principais cidades portuárias da Província. Quais táticas teria usado para não ser recapturado? Para disfarçar-se entre trabalhadores pobres livres? Difícil saber. A partir da documentação, entretanto, identificam-se estratégias dos traficantes para negociar pessoas e vendê-las sem pagar taxas devidas. Atento a esses expedientes que visavam a burlar a cobrança de impostos, o chefe de polícia do Ceará, em 1854, advertiu agentes da Companhia Brasileira de Paquetes a Vapores sobre a artimanha de “alguns senhores, que
embarcão escravos como pessoas livres [em geral, como criados(as) de servir], para assim
defraudar o imposto provincial, estabelecido sobre os mesmos escravos, que sahirem para fora da provincia”. A referida companhia de transporte de cabotagem deveria garantir que “pessoa alguma, a não serem aquellas sobre cuja liberdade não possa haver a minima duvida, embarque sem estar munido do competente passaporte”150. Os critérios utilizados para aferir
147FERREIRA SOBRINHO, José Hilário. Op. Cit.
148 O Cearense, ano XXII, nº 2505, Fortaleza, Domingo, 17/11/1867, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1867_02505.pdf>. Acesso em: 15 abr. 2014.
149 Pedro II, ano XXIX, nº 170, Fortaleza, 19/08/1868, p. 04. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/216828_1868_00170.pdf>. Acesso em: 06 abr. 2015.
150 O Comercial, ano II, nº 119, Fortaleza, Terça-feira, 07/11/1854, p. 03. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/404098/per404098_1854_00119.pdf>. Acesso em: 08 ago. 2014.
não haver dúvida sobre a liberdade de certa ou qual pessoa seriam em grande medida subjetivos, atinentes aos preconceitos de então, mas se apoiariam provavelmente na observação de determinados sinais inscritos no corpo, nos gestos e até na fala de quem se suspeitasse ser de condição servil – e aqui residia o “jogo de máscaras e dissimulações capaz de confundir e
até”151 salvar o escravo de uma provável recaptura caso fosse identificado. José do Amaral Lapa igualmente atinou para a fala enquanto elemento de identificação de cativos; de acordo com ele, os anúncios são ricos no que tange a observação da “peculiaridade sonora que era notada
em minudências”152.
Como se vê, identificar os escravos que fugiam, organizar o comércio cearense, estabelecer uma companhia de navegação a vapor na Província, cada assunto em diferente escala de preocupação, eram temas pautados nas reuniões de agregações senhoriais. A Associação Comercial do Ceará contou com a presença também de estrangeiros. José Smith de Vasconcelos, português, Jonh Mackee, Richard P. Hughes, Henrique Brocklehurst, ingleses, e Luís Sand, Henrique P. L. Kalkmann, ambos alemães, dentre outros, concorreram para arranjar o comércio dessa praça e estabelecer contatos com a Europa e outras províncias brasileiras.
Além de facilitar o embarque de escravos, na alegada condição de criados de servir, Joaquim da Cunha Freire tornou-se a partir dos anos 1870 representante, no Ceará, da Companhia Brasileira de Navegação a Vapor, visando a obter lucro obviamente com a navegação de cabotagem, mas também com as levas de emigrantes que buscavam outras paragens para ganhar a vida, deixando, em geral, mulheres e filhos que compunham, por sua vez, a multidão de pobres. Essa empresa surgiu da falência, em 1871, da pioneira Companhia Brasileira de Paquetes a Vapor, fundada em 1837. Duas companhias então cobriam o litoral brasileiro, a saber, a Companhia Nacional de Navegação a Vapor, responsável pela linha Sul (Santos, Paranaguá, São Francisco, Desterro, Rio Grande, Pelotas, Porto Alegre, Montevidéu e Bueno Aires), e a Companhia Brasileira de Navegação a Vapor, a cargo da qual ficava a demanda da linha Norte (Espírito Santo, Bahia, Maceió, Pernambuco, Paraíba, Natal, Ceará, Maranhão, Pará e Manaus)153.
Os irmãos Cunha Freire tiveram grande participação na constituição de caminhos e rotas marítimos para a ampliação e consolidação do comércio entre o Ceará, demais províncias do País e mercados estrangeiros. Além de agentes da Companhia Brasileira de Navegação a
151
LAPA, José Roberto do Amaral. Os excluídos: contribuição à história da pobreza no Brasil (1850-1930). Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2008, p. 217.
152Idem. Ibidem, p. 221. 153
GOULARTI FILHO, Alcides. História econômica da construção naval no Brasil: formação de aglomerado e performance inovativa. Revista Economia. Brasília, v. 12, nº 2, p. 309-336, maio/agosto 2011, p. 322.
Vapor e, nos anos 1880, da Compagne Française de Navigation a Vapeur154. Também se tornaram representantes no Ceará dos interesses da Companhia Maranhense, que perfazia o contorno litorâneo desde o Maranhão até Mossoró, no Rio Grande do Norte. Assim, Joaquim da Cunha Freire, nos anos 1870, quando passou a assumir com menor frequência a presidência da Província, ajudou a consolidar tal empresa de navegação como a principal no transporte de gêneros diversos e passageiros nessa rota, subvencionando-a. Um dos avisos da Companhia Maranhense, em 1876, informou a rota de um dos seus vapores, o “Odorico Mendes”, que fazia escala, regressando de Mossoró para “os portos do Norte”, por Mundaú, Granja, Parnaíba até chegar no Maranhão155.
Ao assumir a presidência do Ceará em 1871, Joaquim da Cunha Freire beneficiou, além de si mesmo, um grupo de negociantes interessados nos privilégios comerciais conotados por relativo controle da navegação costeira entre essa província e as demais, vizinhas, do Norte. Para tanto, “foi celebrado um contracto com Luiz Ribeiro da Cunha, Abel da Costa Pinheiro,
João Brígido dos Santos e Benjamim Theophilo & C.ª a fim de estabelecerem o serviço de cabotagem a vapor na costa d’esta provincia”. A companhia de navegação beneficiada nesse
contrato obrigar-se-ia a estabelecer duas linhas, a saber, “uma, do porto da Fortaleza a cidade
de Mossoró com escala pelo Aracaty e outra a partir tambem d’esta capital á Amarração com escala pelo Parasinho, Mundahú, Acaracú, Granja e portos intermedios”. A empresa ficaria, ainda, obrigada a garantir que a navegação fosse feita “por vapores de calado que permitta
entrar em todos esses portos não sendo a força de cada um menor a de cem cavallos” 156. Nesse contexto, a exportação de produtos era feita a partir de portos do Aracati, da capital, Acaracú (atual Acaraú) e Granja; destacando-se, porém, os dois primeiros.
Quanto às estradas, que levavam e traziam mercadorias e pessoas, desenhando toda uma geografia dinâmica do trabalho e do poder, eram as que ligavam Fortaleza a centros como São João do Príncipe (Tauá), Sobral, Aracati, Ipu, Viçosa, Icó, Crato e Jardim; e aquelas que desses lugares levavam aos portos do litoral.157 Por esses caminhos, o transporte de pessoas e
154Revue Commerciale Financière Et Maritime – 1882-1912, nº V, Rio de Janeiro, 1885-1886, p. 04. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/259764/per259764_1885_00005.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2015.
155 O Cearense, ano XXX, nº 9, Fortaleza, Domingo, 30/01/1876, p. 04. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1876_00009.pdf>. Acesso em: 01 mai. 2015.
156 O Cearense, ano XXV, nº 63, Fortaleza, Sexta-feira, 02/06/1871, p. 01. Disponível em: <http://memoria.bn.br/pdf/709506/per709506_1871_00063.pdf>. Acesso em: 18 mar. 2015.
157MELLO, Francisco Ignacio Marcondes Homem de. Excursões pelo Ceará, S. Pedro do Sul e S. Paulo. Memória lida no Instituto Historico e Geographico Brasileiro, em as sessões de 2 de Julho, 28 de Julho e 25 de Agosto de 1871. Revista Trimensal do Instituto Historico Geographico e Ethnographico do Brasil. Tomo XXXV, 2ª parte. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, p. 80-101, 1872, p. 97. Disponível em: <http://www.ihgb.org.br/rihgb.php?s=19>. Acesso em: 03 mai. 2015.
mercadorias era viabilizado em carroças, chamadas carros, e, a distâncias relativamente próximas, “em costas de animaes”, como esclareceu o relatório de Pedro Leão Velloso, de 1865, dando conta de como se dava a condução de produtos entre Messejana, Soure (atual Caucaia), ambos distritos da capital, e Fortaleza. Neste trecho, o transporte “não offerece dificuldades,
porque os dous districtos, mais productores, Mecejana e Soure, são proximos á capital e ligadas á ella por estradas regulares”158.
Se os caminhos em terra firme eram economicamente importantes e deviam, na visão dos comerciantes e produtores, ser aperfeiçoados pela “arte”, as rotas de navegação costeira revestiam-se ainda mais de valor, na medida em que representavam a comunicação do