1.2. O género é o problema: a problematização sociológica
A problemática da violência contra as mulheres, particularmente a doméstica, tem permanecido, desde há sensivelmente duas décadas, como um problema social de enorme relevância tanto ao nível da consciência social – nomeadamente ao nível da tomada de conhecimento e denúncia -‐ como da agenda política, como já referimos.
A informação reunida desde 1995 pela já citada equipa de investigação permite saber que, quando é pedido à mulher vítima que refira como reagiu a qualquer um dos actos de violência que mencionou, a opção de resposta mais apontada é não faz nada/vai calando (Lisboa, et al.,2003; Lisboa et al.,2009; Lisboa et al.,2006; Lisboa et al.,2008; Lisboa et al.,2005). Uma das explicações avançadas nestes estudos é que o acréscimo da dificuldade em agir se deve ao facto das próprias vítimas aceitarem esta violência como “normal”, sendo este um aspecto que explica a razão pela qual a violência exercida contra as mulheres apresenta um padrão de abuso continuado, seja da violência física, psicológica ou sexual.
Já definimos conceptualmente e amplamente a violência contra as mulheres e os tipos de violência mais comuns. Também já enquadramos a violência contra as mulheres num contexto de desigualdade entre homens e mulheres, no qual as mulheres são vítimas convenientes em sociedades onde o exercício da dominação masculina se faz sentir, também no uso da violência contra elas. No ponto 1 do presente capítulo, ao referirmos que os autores da violência praticada contra as mulheres são maioritariamente homens, consideramos que este era um dos elementos que permitia enquadrar esta violência numa perspectiva de género. No fundo uma violência de género uma vez que encontra as suas origens na discriminação e opressão das mulheres, «uma violência estritamente associada à reprodução de estereótipos e papéis de género e aos complexos e dinâmicos processos de construção de identidades, que não se confina às relações íntimas, heterossexuais e/ou homossexuais, mas que atravessa toda a dimensão interpessoal, e institucional (família, escola, trabalho), intergéneros, intrafeminina e intramasculina» (Lisboa, et al.,2009, p. 26).
Quando falamos em género ou quando discutimos as questões relacionadas com identidades de género, devemos evitar a «epistemologia do senso comum sobre os sexos» (Amâncio, 1994:29). De facto, sexo e género não são sinónimos. Se quando nos referimos ao sexo convocamos a dimensão biológica, dada à nascença, a homens e mulheres, quando falamos de género convocamos todo um imaginário social, um «sistema social que produziu conteúdos simbólicos associados ao sexo» (Idem, Ibidem, p.27).
O sexo não explica o género nem o género é adquirido com a pertença a um determinado sexo. É nesse sentido que Amâncio, ao distinguir entre sexo e género, adverte para a necessidade de «evitar a simples colagem do género ao sexo, das orientações comportamentais, dos papéis e divisões sociais que perpetuam a naturalização dos processos de produção de sentido sobre o sexo» (Amância, 2003: análise social). O género é então, uma produção social alicerçada na diferença biológica entre homens e mulheres, uma representação social socialmente partilhada onde «a natureza dá a diferença, e a leitura dessa diferença produz esse alfabeto simbólico universal que é o par masculino/feminino» (Héritier, 1996, p. 23). A biologia atribuiu o sexo mas o género é construído através da assimilação dos valores e normas sociais relacionados com a identidade de género. Género é uma «categorização vivida e imposta» (Ferreira, 2001, p. 48), uma convenção social que associa determinados comportamentos, atributos, valores, atitudes, expectativas e comportamentos a cada um dos sexos. Paralelamente à construção das identidades de género os processos de categorização do masculino e feminino na ordem social são inevitáveis. Masculino e feminino, são categorizações construídas socialmente e assentes na dualidade e no instrumentalismo das funções sociais atribuídas a homens e mulheres. Explica-‐nos Simone Beauvoir que à mulher é imposta uma categorização, uma vivência de uma categoria a que chamamos de feminilidade «Todo o ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-‐lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade» (1975, p.7). É essa «realidade misteriosa»
como apelida Beauvoir, que produz a atribuição de determinadas funções sociais associadas com as mulheres, como sendo a maternidade, o cuidado com o lar, etc., «transformaram o sexo feminino numa outra espécie, numa alteridade» como referia (Amâncio, ibidem, p.76). Ser homem ou mulher é estar aceitar pertencer a uma ordem
natural das coisas (Archer, 2002), onde o homem assume uma posição social superior à mulher.
A consciência ou representação social do género e das posições desiguais de poder entre homens e mulheres, não é um produto das sociedades contemporâneas. Pelo contrário, e por ser socialmente produzida, ela “é construída a partir de uma teia complexada de factores históricos, económicos e culturais, esbatida nas práticas sociais” (Idem, Ibidem, p.8). O discurso a posição inferior das mulheres na ordem social, enquanto produção histórica, pode ser encontrada desde os escritos do livro do Génese da Bíblia Cristã onde Eva é criada a partir da costela de Adão, simbolizando que «A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autónomo» (Beauvoir, Ibidem, p.10). A mesma autora também se refere a Aristóteles, para quem a mulher carecia de capacidades e cujo carácter se definia por «uma certa deficiência natural» (Idem, Ibidem), tal como para Santo Tomás para quem a mulher é «um ser incompleto, um ser “ocasional”» (Idem, Ibidem).
Esta assimetria e estado de oposição entre o género masculino e feminino, que assume na violência a sua expressão mais dramática da dominação, do primeiro para com o segundo, surge nas sociedades como ius naturali. Como salienta Bourdieu, «Esta experiência apreende o mundo social e as suas divisões arbitrárias, a começar pela divisão socialmente construída entre os sexos, como naturais, evidentes, e contém a esse título um reconhecimento pleno de legitimidade (…) A força da ordem masculina deixa-‐se ver pelo facto de dispensar justificação» (Bourdieu, 1999, p.8). O autor salienta, ainda, que o domínio simbólico do masculino sobre o feminino encontra na ordem social a máquina que faz o controlo e exercício efectivo dessa dominação quer através da divisão sexual do trabalho quer através da distribuição de determinadas actividades. Assim, adverte Bourdieu que «há na estrutura do espaço, com a oposição entre o local da assembleia ou do mercado, reservado aos homens, e a casa, reservada às mulheres (…)» (Idem, ibidem, p.9).
Pensamos que a explicação para a diferenciação de género não deve ser procurada nas consequências dessa mesma diferenciação, ou melhor, discriminação da estrutura social em relação às mulheres. Como explica Goffman, as consequências das assimetrias de poder entre ambos deve ser explicada através da compreensão das
formas como as diferenças entre homens e mulheres foram dadas como necessárias, uma espécie de garantia social, para o correto funcionamento da sociedade. No fundo «the way in which the institutional workings of society ensured that this accounting would seem sound (…) Observe that although gender is almost wholly a social, not biological, consequence of the workings of society, these consequences are objective» (Goffman, 1977, p.303).
O exercício da violência contra as mulheres inscreve-‐se numa categorização social que professando a superioridade do homem determina que contra a mulher se possam exercer variadas formas de discriminação e violência. A própria construção do que significa ser homem está dependente do exercício explícito da dominação masculina. Welzer-‐Lang descreve os requisitos para a construção social do estereótipo do homem “normal”: «De facto, o duplo paradigma naturalista que define, por um lado, a superioridade masculina sobre as mulheres e, por outro lado, normatiza o que deve ser a sexualidade masculina produz uma norma política andro-‐heterocentrada e homofóbica que nos diz o que deve ser o verdadeiro homem, o homem normal. Este homem viril na apresentação pessoal e em suas práticas, logo não afeminado, activo, dominante, pode aspirar a privilégios do género» (Welzer-‐Lang, 2001, p.21). Também Walker (2009) refere que os resultados das suas pesquisas indicam que a causa principal da violência de género é a estereotipização do papel sexual ou, no original, sex role stereotyping.
O estudo da violência de género enquanto produto das assimetrias de poder entre homens e mulheres posiciona as últimas enquanto objectos de dominação do homem. O homem por sua vez, para cimentar a sua condição de dominante necessita de controlar e regular o objecto que é entendido como sua propriedade. As questões relacionadas como o domínio, controlo e regulação dos comportamentos das mulheres, nos contextos da violência de género, colocam o foco nas assimetrias de género e de poder, identificando o ciúme e o sentimento de posse do homem como uma das principais dimensões que deve ter-‐se em conta no estudo deste tipo de violência. De facto, evidencias empíricas recolhidas para o desenvolvimento deste trabalho procurarão expressar, através de evidências estatísticas, a relevância destas dimensões.
Dado que o espaço da casa adquire protagonismo por ser o local privilegiado para o exercício da violência, especialmente contra as mulheres e crianças (Giddens, 1996), será incontornável a reflexão sobre a violência no seio da família. Longe do imaginário tradicional da família enquanto local de afectos, de conjugalidades ternas e imunes a perigo, a família constitui-‐se como um núcleo permeável a situações de tensões e violências. Gelles e Straus sublinham a necessidade de se confrontar a fábula de que o perigo da ocorrência de violência – física, psicológica ou sexual – reside, na sua maioria, na rua. Os mesmos autores, desprezam a ideia pré-‐concebida de que os actos violentos são perpetrados por desconhecidos, descrevendo, até como irónico, o facto do perigo real residir nas nossas casas e não nas ruas: «You are more likely to be physically assaulted, beaten, and killed in your own home at the hands of a loved one than anyplace else» (1988, p.18).
Segundo Kaufmann (2002), a intensidade dos afectos da família moderna pode estar na origem de um espaço familiar centrado no lar, cada vez mais instável e propenso a conflitualidades16, onde a mulher ocupa um lugar de destaque, quer pela imposição histórica da sua circunscrição à esfera doméstica, quer pela predominância que foi ganhando como principal responsável pela sua manutenção e harmonia. Não podemos deixar de considerar esta conjuntura histórico-‐politica como a armadilha perfeita: as mulheres adquirem predominância numa esfera, potencialmente violenta, num espaço onde essa violência é, maioritariamente, perpetrada por homens contra as mulheres, ao mesmo tempo que lhes é pedido que mantenham a coesão desse lar e do núcleo família, considerado o principal bastião da ordem social.
Temporalmente e deslocando-‐nos, no esforço, para a análise do percurso das mulheres em Portugal, não nos encontramos distantes de um quadro histórico-‐cultural que nos permite convocar explicações para o exercício da dominação masculina e do aprisionamento das mulheres à esfera doméstica. A ideologia salazarista em relação ao papel das mulheres, mas sobretudo ao arquétipo da família portuguesa, caracteriza-‐se
16 A construção social do ideal da família moderna rejeita, em absoluto, o exercício de violência entre
cônjuges ou crianças que a componham. Ela é vista como um lugar de companheirismo e realização afectiva (Nunes de Almeida, Sobral e Ferrão, 1997). No entanto o que os dados da violência de género e violência no contexto familiar e do espaço doméstico apontam que o exercício de violência tem como espaço de eleição a casa e a família. Como nos refere Dias (2010): «Tudo isto significa que ao lado da imagem ideal da «família refúgio» temos de considerar a imagem, também realista, da «família que mata» (Dias, 2010, p. 56).
da seguinte forma: «A ideologia dominante e conservadora que vigora durante o regime de Salazar impõe publicamente a noção de que Portugal é povoado por famílias felizes, ordeiras, trabalhadoras e pacatas. Insistentemente, e por todos os meios (incluindo do ponto de vista jurídico), defende-‐se a apologia da mulher «esposa», modesta, «maternal», submissa, com um papel expressivo no seio da família: a prestadora de cuidados cuja principal ocupação consiste em cuidar da casa, qual boa «fada do lar». A mulher era vista como o elemento que unifica e concilia e que deve auxílio e obediência ao marido» (Casimiro, 2011, p.112).
Este desvio propositado da mulher da esfera pública para a esfera privada, permite-‐nos explicar que Portugal apresentasse, em vésperas do 25 de Abril, 68,9% de donas de casa com idades compreendidas entre os 20 e os 54 anos (Rodrigues, 1983:913). Como dizia Salazar num dos seus Discursos e Notas Públicas: «Nunca houve uma boa dona de casa que não tivesse muito para fazer». (Guimarães, 1986, p.557).
Na própria legislação em vigor durante o Estado Novo, encontramos vários exemplos para do exercício de poder e dominação do homem sobre a mulher e até de desculpabilização o uso da violência quando contra ela exercida. A Constituição de 1933 e o Código Civil de 1966 sublinham o estatuto menor da mulher perante o marido. A igualdade de direitos dos cidadãos era, na Constituição, salvaguardada por uma pequena ressalva em relação à mulher, devido «às diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família». Essas diferenças permitiam aos maridos, entre outros exemplos, autorizar ou negar o acesso das suas mulheres a passaporte, abrir a sua correspondência, administrar os seus bens (Wall, 2011, p.345). Esta subalternidade encontra-‐se cunhada, de forma ainda mais explícita, pelo artigo 1674 da Constituição Portuguesa de 1933, que declara que «o marido é o chefe da família, competindo-‐lhe, nesta qualidade, representá-‐la e decidir todos os actos de vida conjugal».
Em relação à complacência do uso da violência contra a mulher, no contexto do matrimónio, um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 3 de Maio de 1952 referia que «se os maus tractos forem infligidos pelo marido à mulher, sem exceder os limites de uma moderada correcção doméstica, eles não constituirão sevícias capazes de justificar o pedido de divórcio» (Casimiro, 2011, p. 118).
Talvez porque esta naturalização histórica da dominação do homem sobre a mulher faz ainda parte de um passado tão recente, assistimos hoje, ao silenciar da
violência de género, especialmente quando ela é praticada na esfera doméstica. Se na altura do Estado Novo «As agressões físicas e psicológicas (…) não eram vividas por todas como um efectivo abuso por parte do homem», mas sim «integradas na sua mundividência como fazendo parte da ordem natural da vida familiar e, muito especificamente da relação hierárquica estabelecida entre marido e mulher» (Idem, ibidem), será que podemos hoje atribuir este silenciamento, e concomitantemente a manutenção da relação conjugal violenta a esta ideologia temporalmente tão próxima? Será o actual silenciamento e manutenção das relações conjugais violentas uma herança de um passado de 40 anos? Pais (2010) defende que ainda hoje a violência experienciada na conjugalidade é «por diversos motivos silenciada, ocupando um «lugar secreto» na conjugalidade (…) isto deve-‐se não só à pressão social para a não denúncia, como também a imperativos de ordem sociocultural, pelo que a violência contra a mulher tem sido considerada um comportamento normal, tradicional e socialmente legitimado na relação entre os cônjuges» (Pais, 2010, p.89).
Acreditamos que a violência de género tem a sua génese precisamente na construção social das identidades de género que contribuem para a produção e reprodução de uma prática de violência que é exercida contra as mulheres, que ocorre no espaço da casa-‐família e que é maioritariamente praticada pelos maridos/companheiros com contornos que remetem aos modelos e estereótipos de género.
Mas na génese da construção social das identidades e papéis de género, existem outros elementos, também eles historicamente produzidos, assimilados e (re) produzidos que poderão assumir particular interesse. A incorporação das emoções, nomeadamente as emoções sociais, passíveis de serem socialmente adquiridas e cuja inscrição é de tal forma subtil que incorporam elementos de socialização, nem sempre identificáveis, serão um dos pilares teóricos incontornáveis deste trabalho. Nesse sentido, emoções sociais como a vergonha e a culpa serão analisadas à luz do seu papel na manutenção da relação conjugal. Algumas teorias da sociologia das emoções referem o papel importante da vergonha e da culpa na acção dos indivíduos mas nenhuma ainda os utilizou como instrumentos de análise empírica em contexto sociológico. Tentaremos perceber se estas emoções sociais, sem prejuízo de outras emoções sociais que também abordaremos, se constituíram como inibidores da acção
das mulheres. Tal como a construção das identidades de género, masculino e feminino, se faz desde a infância (os valores, normas, modelos e expectativas pré-‐ existem ao nascimento) e se vai actualizando através de instituições, organizações e grupos como a família e a escola, os amigos, os colegas, através de relações interpessoais (Archer & Lloyd, 2002), também a incorporação das emoções sociais se faz nos mesmos trâmites inscrevendo-‐se por idênticos vectores.
Assim, um dos objectivos centrais da nossa pesquisa prende-‐se com a necessidade de compreendermos se determinadas emoções sociais, mais associadas às mulheres, fazem parte de uma herança cultural, passada de geração em geração e cuja (re) produção começa muito antes do tempo de vida dos actores sociais.
Desta forma, propusemos a análise dos percursos de vida das mulheres entrevistadas, com especial enfoque na análise e desconstrução do papel de determinadas emoções sociais. Para a compreensão dos motivos que conduziram à permanência na relação conjugal violenta, consideramos que os factores de ordem emocional poderão ser tão importantes como outros condicionalismos de ordem mais objectiva – dependência económica, existência de filhos, por exemplo.
Sabemos que as emoções sociais e porque são sociais, incorporam símbolos, normas, valores, crenças, e que variam de acordo com idade, extracto social, religião. Não obstante, no âmbito que definimos para o presente trabalho, interessa-‐nos sobretudo a forma como determinadas emoções sociais albergam, na sua incorporação, a condição de género, os seus papéis sociais e estereótipos. A sociologia, através dos modelos de socialização primária e secundária, já demonstrou a importância manifesta dos actores sociais na manutenção da ordem social. Nesse sentido, questionamo-‐nos sobre o peso efectivo do cumprimento do papel social de mulher/esposa/companheira, que a tem feito refém ao longo de várias décadas de uma posição de menoridade em relação aos homens. Poderá a necessidade de cumprir as expectativas sociais associadas ao mesmo papel de mulher/esposa/companheira, sobrepor-‐se ao direito de viverem livres de violência? E, se assim for, qual será o papel da família na transmissão desses mesmos modelos e arquétipos do género feminino?
Gelles e Straus, num estudo sobre a violência nas famílias, já tinham admitido como hipótese a necessidade que o indivíduo sente de cumprir os papéis sociais que
lhe são atribuídos e consequentemente reforçar a ordem social, necessidade que apelidam de «paixão pela ordem social» que faz com que tenhamos menos medo da violência do que da ordem social (1988, p.19).
Tentaremos a compreensão do fenómeno da violência de género, de acordo com as hipóteses levantadas e objectivos enunciados, pretendemos, através das entrevistas realizadas a mulheres vítimas, explorar as formas como estas mulheres desconstroem a vivência e experiência emocional individual da vergonha e da culpa17, o seu papel na relação e também na interacção com os outros, nomeadamente com a família. Tentámo-‐lo através da análise dos discursos das mulheres entrevistadas das dinâmicas entre vítima e outros intervenientes, no contexto da violência de género para que conseguíssemos identificar algumas causas e desconstruir a produção e reprodução dessa violência. Recorremos, concomitantemente, ao uso de uma metodologia que permitisse analisar as emoções e estados de espírito das entrevistadas para melhor compreender se as emoções sociais que assinalámos, poderiam ter manietado as vítimas e as suas (re)acções. Ao mesmo tempo, utilizamos essa metodologia, que nas considerações metodológicas explicaremos, para tentar perceber em situação de entrevista que emoções sobressaem nas descrições, narrativas e desconstruções das suas relações conjugais violentas.
Se este trabalho identificar as condições sob as quais decorre o exercício da violência e quais dessas causas são socialmente produzidas, conseguiremos isolar os elementos cruciais envolvidos no processo de concretização e perpetuação da violência. Importa, também compreender tais condições para que se possa actuar com maior e melhor conhecimento da problemática em causa. Estas são as linhas de foco que nortearão e nos propomos seguir com esta tese.
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Não serão apenas estas emoções sociais que merecerão análise neste trabalho. Como veremos mais à frente, o decurso do trabalho de campo e a análise da informação recolhida alertaram-‐nos para a