ARAŞTIRMACI KISA TANIMLAMA
4. BULGULAR 1 Bireylerin Fiziksel Özellikler
4.11. KCİÖ ve Alt Faktörlerine Ait Toplam Skorlar İle Tüm Parametreler Arasındaki İlişkilerin İncelenmes
Um segundo tema caro às sociedades urbanas do século XX diz respeito ao ócio, ao tempo “livre”, de lazer, ao qual Macedonio faz referência em “El neceser de la ociosidad”. Estreitamente ligado às formas contemporâneas de lidar com o tempo e a temporalidade, o ócio, tal como se configura na modernidade, principalmente em fins do século XIX e no início do XX, vincula-se, quase que através de sua forma negativa, à noção de progresso, que, como já vimos, foi também um ponto ao qual Macedonio Fernández dispensou atenção.
Se, para os antigos, o ócio significava uma atividade positiva, ou seja, uma postura criativa e marca do homem político, na modernidade o termo assume outra conotação. De acordo
41
FERNÁNDEZ, La nada de un viaje de Colón. In: FERNÁNDEZ, Continuación de la Nada, p. 93
42
FERNÁNDEZ, La nada de un viaje de Colón. In: FERNÁNDEZ, Continuación de la Nada, p. 94.
43
Cabe observar, aqui, que a exatidão e a precisão, temas caros à modernidade, são questões exploradas também com humor pelo texto, tanto no que diz respeito à exatidão da data de nascimento de Colombo, como na sua viagem não realizada, e que está entre a primeira e a terceira.
com Hannah Arendt44, a esfera pública antiga estava tão apoiada sobre o homem político que fala
e age quanto as sociedades modernas iriam se apoiar no homo faber, direcionado para o trabalho e sustentado pela crença na capacidade humana de produzir em sociedade. A modernidade, portanto, assiste não apenas à inversão, como também à hiper-valorização do trabalho em contraposição aos períodos anteriores.
Essa inversão não se fez sem críticas. Entre os séculos XIX e XX, alguns pensadores manifestaram-se contra o culto moderno ao trabalho, dentre os quais vale notar Paul Lafargue,45
em seu manifesto O direito à preguiça. Lafargue faz a seguinte afirmação: “Nossa época é, como dizem, o século do trabalho; na verdade é o século da dor, da miséria e da corrupção”.46 A
valorização do trabalho pela modernidade se faz, por certo, por associação com a questão do progresso. Se, por um lado, a crença na capacidade produtiva e transformadora do homem alimenta a noção de progresso, por outro, é a aspiração ao progresso que fomenta a super- valorização do trabalho e da produtividade. Nesse sentido, em que pese o seu tom explicitamente passional e panfletário, Lafargue explicita essa associação entre a ideologia do progresso e o trabalho:
[...]os filósofos e economistas burgueses, desde o lamentavelmente confuso Augusto Comte até o ridiculamente claro Leroy-Beaulieu; os homens de letras burgueses, desde o charlatanescamente romântico Victor Hugo até o
44
ARENDT, A condição humana.
45
Certamente poderíamos ter escolhido outros textos para ilustrar o questionamento do trabalho na modernidade. Se, por um lado, a opção pelo texto de Lafargue é arbitrária, por outro, essa eleição pauta-se pelo fato de o mesmo ter se tornado um manifesto bastante conhecido, de significativa circulação (talvez o fato de Lafargue ter sido genro de Marx tenha interferido na divulgação de seu texto até a atualidade), de um contemporâneo de Macedonio Fernández que, igualmente, assume um posicionamento crítico em relação ao progresso. Vale observar, entretanto, que a leitura que pretendemos fazer de O direito à preguiça tem como intuito levantar pontos que auxiliem na contextualização de algumas questões observadas no texto de Macedonio Fernández.
46
ingenuamente grotesco Paul de Kock, todos entoaram cantos nauseabundos em honra do deus Progresso, primogênito do Trabalho.47
Além de fazer referência ao corpo intelectual que sustentou e compartilhou a idéia de progresso, o texto apresenta uma relação de filiação entre Progresso e Trabalho, de acordo com a qual o primeiro seria “primogênito” do segundo.
Em outra passagem, Lafargue comenta as insalubres condições de trabalho dos operários de determinada indústria européia – crítica bastante comum da intelectualidade dos séculos XIX e XX, embora nem sempre associada ao questionamento das noções de progresso e de trabalho – para, e em seguida, comentar: “Que lúgubre o presente do seu deus, o Progresso!”48 Dessa vez, o
Trabalho aparece como um presente do Progresso, não mais como seu pai. A relação, portanto, entre progresso e trabalho é estabelecida como um caminho de mão dupla.
No contexto moderno, em que a sociedade toma por foco a produtividade e o progresso, o ócio passa a ser definido como não-trabalho, como o tempo improdutivo, ainda que seja uma “improdutividade” em termos, já que a regulamentação do tempo de lazer decorrente das leis trabalhistas esteja voltada para o aumento relativo da produtividade. Importa, aqui, ressaltar que, assim definido, o conceito de ócio é esvaziado do potencial positivo e criador que comportava na antigüidade.
Conforme sugere Baudrillard, nas sociedades contemporâneas, às quais chama de “sociedades de consumo”, o tempo “livre” – o qual este autor associa à “liberdade de perder tempo” – ou seja, o tempo do ócio e do não trabalho é, em certa medida, um produto social, um bem específico e muito particular. Entretanto, tal como “outros bens e serviços, também não
47
LAFARGUE, O direito à preguiça, p.73.
48
existe igualdade das possibilidades e democracia do tempo livre”,49 vale dizer, o tempo do ócio é
desigualmente distribuído pelos diversos segmentos da sociedade.
Nessa mesma perspectiva, “El neceser de la ociosidad” de Macedonio desenvolve-se justamente a partir da caracterização da heterogeneidade do ócio na sociedade contemporânea. Assim, ele sinaliza para a diferença entre o ócio do desempregado e o ócio do rico:
Me gusta lo difícil; nada más difícil que el ocio. Pero estoy despectivamente sospechado de trabajar, o al menos de ejecutar un ocio perezosamente ensayado. Hay que saberlo y parecerlo; sólo se cree en el del rico, porque se ve su abrumador utilaje, el peso de su complicado y enrevesado palacio, donde el obtener un vaso de agua requiere el zapateo atropellado de cuatro escaleras, dos ascensores, tres campanillas triples, una airada reprimenda del mayordomo a tres mucamos y de la señora al mayordomo.
El desocupado se quejó de exceso de horario, pero antes lo había hecho el rico pensando en el obligado Mar del Plata, el viaje a Europa, los conferencistas, el tedio del largo abono al Colón, el hospedaje al príncipe, la confección de gauchos para exhibición de la estancia.50
A partir de seu olhar característico, que mira o mundo pelo avesso, Macedonio comenta a desigualdade entre os ócios do rico e do desempregado. Desigualdade esta que aponta não só para a falta de prática do desempregado em “exercitar” o ócio em comparação ao rico (que tem uma série de engrenagens que funcionam no seu tempo ocioso) como, também, para a diferença de
status entre o ócio do rico e o do desempregado.
“Os filantropos proclamavam benfeitores da humanidade aqueles que, enriquecendo-se sem nada fazer, davam trabalho aos pobres”,51 afirma Lafargue no Direito à preguiça. De
maneira semelhante, em Macedonio, o rico não só emprega mucamas e mordomos para auxiliarem nas atividades domésticas do palácio como, também, se ocupa em confeccionar
gauchos para exibir em suas estancias.
49
BAUDRILLARD, A sociedade de consumo, p. 160.
50
“El neceser de la ociosidad” diz respeito a uma “distribuição sócio-econômica do tempo livre”, tempo “livre” este que pode ser entendido como um produto social, definindo-se pela sua diferença em relação ao tempo do trabalho. Por sua vez, como já discutido, a valorização do trabalho na modernidade está vinculada à ideologia do progresso.