No quinto capítulo de O processo, intitulado O espancador (Der Prügler) lê-se:
Quando, numa das noites seguintes, K. passava pelo corredor que separava seu escritório da escada principal - desta vez ele era praticamente o último a ir para casa, apenas na expedição ainda trabalhavam dois contínuos no pequeno campo de luz de uma lâmpada - ouviu gemidos atrás de uma porta onde sempre supusera existir somente um quarto de despejo, sem nunca tê-lo visto pessoalmente. Ficou parado, perplexo, e escutou mais uma vez para verificar se não estava enganado - houve um instante de silêncio, mas depois os gemidos reapareceram. Quis primeiro ir buscar um dos contínuos, talvez fosse necessário uma testemunha, mas depois ficou tomado por uma curiosidade de tal modo indomável, que literalmente escancarou a porta. Era, como havia corretamente suposto, um quarto de despejo. Atrás da soleira jaziam velhos impressos imprestáveis e tinteiros de barro vazios emborcados no chão. No cubículo, porém, estavam três homens curvados sob o teto baixo. Uma vela fixada sobre uma estante os iluminava. - O que estão fazendo aqui? - perguntou K. atropelando-se de excitação, mas não em voz alta. Um dos homens, que manifestamente dominava os outros e era o primeiro a atrair o olhar, estava metido numa espécie de roupa escura de couro, que deixava o pescoço nu até o peito e os braços inteiramente à mostra. Ele não respondeu. Mas os outros dois exclamaram: - Senhor, devemos ser espancados porque se queixou de nós para o juiz de instrução. Só então K. reconheceu que de fato eram os guardas Franz e Willem, e que o terceiro homem tinha na mão uma vara para espancá- los.334
Esta imagem apresentada por Kafka, a do espancador com a vara em riste sobre suas vítimas, possui vários elementos. Nela comparecem Franz e Willem, dois personagens secundários, os guardas que foram incumbidos de efetuar a detenção de K. em sua casa, narrada no primeiro capítulo. São guardas corruptos e ladrões: tomam o café da manhã de K. e lhe subtraem as roupas de baixo sob a desculpa de que ele não precisaria delas na prisão ou então que elas lhe seriam em algum momento extraviadas.
Na ocasião do primeiro inquérito, descrito no segundo capítulo, K. denuncia esses ocorridos em sua defesa proferida ao juiz de instrução.
Há uma interpretação de que a cena dos homens vestidos com roupas de caráter sado-masoquista dentro de um armário sugere a homossexualidade do escritor, solteirão solitário, que estaria “saindo do armário”.335 Mas tal interpretação estaria muito aquém do
gênio de Kafka. Ele não ficaria em superfície tão pobre. Joseph K., nesse momento de O processo, fareja os refugos da cultura, e tomado por uma “curiosidade de tal modo indomável” (como a de um cão investigador!) abre o quarto de despejo (Rumpelkammer) da própria cultura forçando-a a encarar seus próprios dejetos.
A divisão do trabalho coloca o intelectual – o curioso, o que procura explicação para o funcionamento do mundo – diante da porta, enxergando o que está oculto para a maioria das pessoas que passam ao largo, como contínuos, preocupados com suas funções cotidianas. Kafka é o escritor que insiste em escancarar a porta do quarto da dispensa de uma cultura que despreza e teme aquilo que oculta. Suas imagens mostram tanto terror como esperança: se o homem perdeu a chance de ouvir o canto sedutor das sereias e fez da história da civilização uma história de introversão do sacrifício, ele precisaria agora ao menos enxergar o horror em que vive. Kafka já teria notado que as sereias se emudeceram; seria preciso compreender a visão do terror. A civilização teria alcançado um alto desenvolvimento produtivo e tecnológico que agora vinca dolorosamente no corpo do sujeito o preço a ser pago, apesar de todo o sacrifício.
Kafka às vezes é um otimista. Apesar de toda hesitação seu personagem mostra que é possível abrir a porta da dispensa e olhar para os refugos da civilização. Mas também é por isso que seu personagem precisa ser executado ao cabo: um cão farejante pode lembrar ao homem alegre que ele ainda é capaz de pensar.
Joseph K. é aquele que nada sabe sobre sua própria vida, e até mesmo desconfia que tenha merecido alguma acusação, às vezes quase se deixa convencer por isso. A lei tudo sabe, mas circula no subsolo do mundo, em salas escuras e corredores abafados, e sempre inacessível ao sujeito comum. O advogado é a figura que supostamente a representa, mas este se encontra debilitado em uma cama, embora sejam tão amplas suas
ramificações com a justiça que da cama ele controla todos os processos, por meio de suas amizades. Joseph K. não era um trabalhador que cultivava as boas relações favoráveis de trabalho, o que o indivíduo atualmente tornado empresa chama de network. K. mostra o preço que se paga por se manter nessa exclusão: aquele que não tem “contatos” tem a sorte de nunca se pôr à margem da lei ou então amarga as incertezas de um processo judicial do qual apenas seu advogado pode ter expertise e ele, portanto, vê mais um reflexo de sua alienação.
Figuras sociais
Não é fundamental para o leitor a interpretação que o artista faz de sua obra, nem mesmo importa tanto a visão de mundo deste último. Porém, não deixa de ser interessante quando se tem acesso a algumas de suas ideias, pois elas muitas vezes caminham na mesma direção de determinadas interpretações, de forma que o intérprete ao menos não se sente sozinho. Em uma conversa com seu amigo Janouch, momento raro em que aparece a palavra ‘capitalismo’, Kafka teria dito que: “O capitalismo é um sistema de dependências que vão de dentro para fora e de fora para dentro, de cima para baixo e de baixo para cima. Tudo é dependente, tudo está encadeado. O capitalismo é um estado do mundo e da alma”.336
Kafka teria feito esse comentário quando junto com o amigo folheavam um volume de desenhos de George Grosz e se detiveram em uma “imagem do capital: o gordo de cartola, sentado sobre o dinheiro dos pobres”. Kafka teria dito que a imagem era uma vista parcial, pois apesar de ser verdade que o gordo de cartola vive nas costas do pobre, esse gordo não é o próprio sistema, ele nem mesmo domina o sistema, mas também carrega correntes que não estavam representadas no desenho.
Foi com essa lucidez que Kafka retratou os personagens em O processo: o alto funcionário do banco carrega correntes que o aprisionam; também o advogado, amigo de autoridades da lei, passa seus dias deitado em sua cama. Não há ilusões que alguém possa ser livre sobre essas bases sociais.
Os personagens de Kafka mostram o que já era possível encontrar na Odisseia: o quanto é difícil o indivíduo escapar de seu papel social. Não apenas o oprimido, mas também o opressor não foge do que a sociedade lhe atribui. Assim também os companheiros de Ulisses nada podem fazer além do que lhes é esperado, não que eles não queiram, mas se tornou uma questão de salvação: “Eles reproduzem a vida do opressor juntamente com a própria vida, e aquele não consegue mais escapar a seu papel social”.337
Assim também as funcionárias do cartório dizem a K. que elas não são más, mas que elas simplesmente não podem ajudá-lo, e elas até sofrem com isso: “Talvez nenhum de nós seja duro de coração, gostaríamos talvez de ajudar a todos, mas como funcionários do tribunal damos facilmente a impressão de que somos empedernidos e não queremos ajudar ninguém. Sofro muito com isso”.338
No que se refere às relações entre os membros da sociedade é a integração forçada e violenta de todos, regidos por uma certa lei, que marca a diferença do que se passou a se convencionar pelo nome de capitalismo, em relação a momentos anteriores de troca comercial: “Multiplicando o poder pela mediação do mercado, a economia burguesa também multiplicou seus objetos e suas forças a tal ponto que para sua administração não só não precisa mais dos reis como também dos burgueses: agora ela só precisa de todos.”339 Todos necessitam fazer seu papel, são definidos por eles, caso contrário podem
estar infringindo a lei.
Ulisses já é o protótipo do sujeito econômico globalizado, solitário e astucioso, ávido por defender apenas seus próprios interesses. Ele saiu do âmbito da economia doméstica e ganhou o mundo em suas aventuras nas quais seu eu se forjou. Seu desamparo diante das forças da natureza legitima sua separação dos demais homens – que passam a ser inimigos ou instrumentos; de qualquer forma, coisas – e sua dominação sobre eles. É assim que a socialização universal implica a solidão absoluta, o que se torna cada dia mais manifesta: “Socialização radical significa alienação radical”.340
337 M. Horkheimer e T. Adorno, Dialética do esclarecimento, 1985, p.45. 338 F. Kafka, O processo, 1997, p.80.
339 M. Horkheimer e T. Adorno, Dialética do esclarecimento, 1985, p.52. 340 Ibidem, p.66.
Em O processo, as figuras sociais aparecem extremamente socializadas, todas plenamente de acordo com a lei, enquanto Joseph K. se torna cada vez mais estranho a essa socialização.
Se as figuras sociais são socializadas na mesma medida em que são alienadas, seus juízos são pouco confiáveis no que se refere às interpretações da lei. Mas dificilmente toda a realidade lhes escapa, afinal, para estes resta tentar uma interpretação do mundo, como faz o padre diante da lei, como faz o leitor diante de Kafka, como faz o psicanalista junto a seu paciente.
Em relação à total integração das figuras sociais no mundo da burocracia kafkiana, tem-se aí uma interessante estratégia do narrador em apresentar ao leitor como algo absolutamente normal o fato espetacular da personagem mais periférica e distante de Joseph K. estar totalmente inteirado acerca de seu processo. Mais uma vez o narrador, ao estilo que lembra Flaubert, espera que o leitor se dê conta do mundo administrado e se espante com ele.
Joseph K., próximo a um Dom Quixote moderno
Adorno interpreta que a culpa de K. consiste simplesmente em querer trazer a justiça para seu lado:
Kafka não glorifica o mundo pela subordinação, antes resiste a ele pela não-violência. Diante dela, o poder deve reconhecer-se como aquilo que realmente é. Kafka conta com isso. O mito deve se prostrar diante da própria imagem no espelho. Os heróis de O processo e de O castelo tornam-se culpados não por sua própria culpa – eles não têm nenhuma –, mas porque procuram trazer a justiça para o seu lado.341
Essa interpretação de Adorno combina com a passagem em que Joseph K. se irrita no tribunal e se coloca como um guardião burguês liberal do Estado de Direito, ofende os
juízes e diz que não faz isso por ele, mas pelas tantas pessoas contra as quais se movem processos injustos: “É só por elas que eu falo, não por mim”342.
Se há tantas pessoas que sofrem o mesmo que K., então não se trata de um perfeito equilíbrio entre direito e arbítrio, como deveria ocorrer em um Estado de Direito.
Walter Benjamin, em sua oitava tese sobre história, diz que “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é na verdade a regra geral”343. Seria necessário um conceito de história que correspondesse a esse fato. Ele
sugere que se deve construir um verdadeiro estado de exceção para resistir ao fascismo. Qual seria o conceito de indivíduo no qual seria necessário insistir como resistência ao fascismo? Se a psicanálise fosse tomada como teoria atual ela seria quixotesca. Porém, quando medida pelo conceito de história natural as conquistas e as derrotas da subjetividade saltam aos olhos. Ela ajuda a enxergar o que o homem alcançou e o que já seria possível alcançar em seu processo de formação.
Segundo Anders, ainda não foi escrito o Dom Quixote dos dias atuais. Não existe figura destemida que não se intimida pela realidade e cavalga pela era “descavalarizada”344. Mas os romances de Kafka, continua Anders, apresentam figuras
que realizam sondagens nessa direção e constatam a discrepância entre sujeito e mundo. Ao contrário de Dom Quixote, que sempre responde sem ser perguntado, Kafka pergunta sempre, mas nunca recebe resposta.
Nisso, O processo é exemplar. Joseph K. tem muitos elementos quixotescos. O que provoca essa aproximação é o fato do personagem processado de Kafka se enxergar como um cidadão – munido de seus direitos, e que é respaldado por um Estado de Direitos que os reconhece – em um mundo em que a cidadania foi extinta porque se tornou incompatível com os interesses do capital, na passagem do período liberal para uma sociedade administrada. Daí a discrepância entre sujeito e mundo. Costa Lima diz que a lógica do cidadão foi substituída pela lógica policial. Por isso também o diálogo é impossível no momento da detenção: Joseph K. usa a lógica do cidadão, ele, o alto
342 F. Kafka, O processo, 1997, p.50.
343 W. Benjamin, Sobre o conceito da história, in Magia e técnica, arte e política, 1994, p.226. 344 G. Anders, Kafka: pró & contra, 2007, p.33.
funcionário de uma instituição financeira, consciente de seus direitos e deveres, contra a cega força policial.
E aí se apresenta uma interessante ironia kafkiana, ainda seguindo Costa Lima: ninguém no romance pretende atrapalhar o perfeito funcionamento da sociedade. Nem o policial, que diz que a lei não comete erros, nem K., que está convencido de que se ele pode ocupar um alto cargo em um banco, pode muito bem resolver seu processo. Ambos concordam que tudo vai muito bem na sociedade, e para que isso continue assim, K. deve continuar a trabalhar, apesar de estar detido.
Seria injusto dizer que Joseph K. é igual a Dom Quixote. Aquele apenas lembra esse, pois Dom Quixote dava um sentido às suas ações deslocadas, enquanto K. persiste compulsivamente em algo como a racionalidade de tipo kantiana e em uma moral de Revolução Francesa em um mundo completamente policial. Há olhos em todos os cantos, desde a família até o padre-funcionário da catedral, todos são braços da lei. Mesmo a aparentemente inocente Senhora Grubach não se assusta com os funcionários em sua pensão; ela já atina com o mundo do homem totalmente desamparado: “Há algo de sábio em sua detenção”, ela diz a K., prenunciando o discurso dos atuais líderes religiosos aos desgraçados sem emprego, pastores-funcionários de um sistema que apenas parcialmente expõe sua face.
A inocente Senhora Grubach enxerga mais longe do que Joseph K. Os funcionários do seu banco são convocados na ocasião da detenção e indicam obviamente a ramificação da lei, a sociedade totalmente integrada, mas o alto funcionário do banco, o inteligente K., não percebe isso, vendo os funcionários como figuras insignificantes que de forma alguma são seus colegas: “eram efetivamente funcionários do seu banco, não colegas – isso era dizer demais e demonstrava uma lacuna na onisciência do inspetor”345
K. lembra o que pensavam, segundo Horkheimer e Adorno, os intelectuais às vésperas do Terceiro Reich sobre a impossibilidade de Hitler chegar ao poder. K., em 1915, já mostrava o quanto é “estúpido ser inteligente”346. Tão estúpido que chega a ser
345 F. Kafka, O processo, 1997, p.21.
346 “Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar ao poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia!” M. Horkheimer e T. Adorno, Dialética do esclarecimento, 1985, p.195.
engraçado, por isso é aplaudido pelos funcionários no momento do primeiro inquérito. Ele se recusa à realidade e pratica a rebeldia do humor, triunfo do seu Eu contra a realidade e conquista a simpatia de sua plateia. Joseph K. é visto por todos como o Pato Donald enquanto ele mesmo se vê como um Cícero. Deve ser algo semelhante o que se passa entre os poderosos e os trabalhadores sem terra reivindicando os direitos à propriedade privada.