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1.6. Remineralize Edici Ajanlar

1.6.3. Kazein Fosfopeptit Amorf Kalsiyum Fosfat (CPP-ACP)

Trabalhar nesta pesquisa na perspectiva sistêmica e da complexidade propiciou-me construir uma metodologia que se apresentou como uma possibilidade de intervenção, já que pude criar espaços de reflexões e conversações entre pais, mães, filhos e filhas dos grupos familiares estudados, por meio dos instrumentos utilizados: as entrevistas de aprofundamento, os genogramas e os desenhos da imagem corporal. Além disso, favoreceu estabelecer conexões entre os indicadores levantados, os segredos familiares, a relação emaranhada mãe-filhos e filhas, o fenômeno transgeracional, os mitos e lealdades, gerando uma mudança de perspectiva para compreender o fenômeno da obesidade na infância, ou seja, desfocando-o como um problema exclusivamente da criança e ampliando-o ao contexto sociofamiliar.

Todavia, torna-se relevante ressaltar que intervenção, neste estudo, está sendo concebida no seu sentido de “contribuir com idéias” (HOUAISS, 2001), diferentemente de impor opiniões, como é típico da visão clínica tradicional. Preferimos adotar a perspectiva do inter-vir, ou seja, vir entre, para construir juntos.

Dessa forma, considerei importante apresentar essa perspectiva de conexão entre o trabalho de pesquisa e a intervenção clínica, levando em consideração suas distinções (REY, 2002). A entrevista de aprofundamento permitiu que as mães falassem sobre suas histórias e fossem ouvidas em suas vivências de sofrimento, realizando uma volta para si mesmas; ou seja, refletir e formular indagações quanto à relação com seus filhos e filhas, às suas histórias de vida. Assim, as mães expressaram suas inquietações:

Que é o valor da gente? A gente tem aquele valor que você guarda, pra cuidar do outro. Primeiro eles (filha e marido), depois eu. A gente fica tipo numa gaveta, fica guardada. (M.1)

Eu acho que menino criado o dia inteiro na rua não aprende o que presta. Será que eu devia deixar ele (filho)? Eu tenho medo. Menino que fica soltando papagaio fica naquela vida [...] (M.2)

Ela (filha) andou chorando muito em casa. Aí, fui conversando com ela. Ela contou que os meninos fica xingando ela de porquinho. Ela

fica triste. Aí, eu fui tentando ajudar, aí que interessei, mais a vim pra cá (ambulatório). (M.3)

Será que eu poderia ter escrito essa história diferente? (M.4)

A meu ver, as experiências desencadeadas pelo trabalho da pesquisa propiciaram a essas mães uma oportunidade para tentar se ver e rever em relação às suas vivências de sofrimentos acautelados, possibilitando uma abertura para que a repetição dessas vivências possa ser questionada e alterada. Quanto a isso, Silva (2004, p. 95) afirma: “A repetição pode ser questionada e contestada”, já que essas vivências dolorosas tornam-se elementos dificultadores para que essas mães estabeleçam uma relação de confiança com seus filhos e filhas.

Os questionamentos das mães apontaram perspectivas facilitadoras para ajudá-las a recolocar o cuidado na relação com elas mesmas, com seus filhos, naquilo que a palavra apresenta em sua raiz latina curios; “desejo de ver, saber, informar-se” (CUNHA,1986, p. 235). Nesse aspecto, torna-se fundamental criar espaços de conversação para os membros familiares, numa relação em que o profissional proporcione acolhimento e confiança para que os sujeitos se sintam compreendidos em suas vivências de segredos, sofrimentos e conflitos, e, diante disso, tentar ajudá-los a (res)significar essas vivências de suas histórias (DIAS; CARICATI, 2004).

Diante desse quadro, proponho que o profissional, além de acolher e escutar o dito, ou seja, aquilo que está por trás, do aparente ou do manifesto (MARQUES, 2003), devolva aos sujeitos a capacidade que têm para pensar e entender seus próprios problemas e sofrimentos, no intuito de criar alternativas de atuações possíveis na relação consigo mesmos, com a família e com sua rede de vínculos mais ampla. Quanto a isso, vejo que o trabalho realizado em grupo com as mães e crianças no ambulatório, como visto, as reflexões e as atividades de culinária e artísticas (desenhos, pinturas, etc.) ilustram possibilidades para se nutrir a relação de aprendizagem entre mães/filhos e filhas, diversificando a relação de superproteção. Nesse contexto, percebo que as famílias necessitam ser retratadas para alterar essas vivências de “segredo de si mesmas” (ROBERTO, 1994) para o “segredo do amor” (ERIKSON, 1987), no sentido de, segundo esse autor, estabelecerem relações recíprocas intra e extrafamiliares, bem como promover o desenvolvimento de uma autonomia relativa para a vida dos seus membros.

Em relação a isso, considero que a técnica do genograma favoreceu a criação de um espaço de conversação entre pais, mães e crianças, proporcionando uma abertura para que conflitos e segredos familiares fossem explicitados. Possibilitou aos familiares vislumbrar uma perspectiva de outra configuração familiar, já que em cada família ocorreram tentativas de alteração em face de suas relações emaranhadas e definições preconcebidas de identidade familiar.

Na família 1, a criança estabeleceu uma relação direta com o pai, divergindo das vivências estabelecidas com a mãe, expressando um sentido de pertencimento distinto relativo às conchas paterna e materna. Na família 2, o filho possibilitou à mãe perceber alternativas para novas possibilidades, como, também, tentou estabelecer uma identificação com o pai, apesar da prescrição de sua identidade à concha materna. Na família 3, a mãe abriu conflito com o marido, deslocando-se da posição de incapaz na família e, ao mesmo tempo, possibilitou ao pai tentar firmar sua autoridade na relação com a filha; e a criança, por sua vez, sentiu-se na posição de filha, e não de adulta. Na família 4, a criança pôde conhecer sua história sobre seu pai biológico e, diante dessa revelação, mostrou que se sente pertencente à família que a mãe constituiu com outro homem, o qual considera como seu pai.

Dessa forma, avalio que esses sujeitos iniciaram um caminho para mudar suas ações e posturas nas interações familiares. Nesse sentido, Sysmanki (1992, p. 27) comenta que “compreender como pensamos e como vivemos é, a nosso ver, o ponto de partida para um trabalho de mudança”.

Creio que a utilização do genograma representou um instrumento valioso para tentar aprofundar mais a compreensão da tessitura dessas tramas familiares, indicando o fenômeno transgeracional, mitos e lealdades como aspectos que se interligam ao biológico na constituição da obesidade dessas crianças. Dessa forma, agreguei essa técnica à minha prática profissional com as famílias e percebi como é importante, nos encontros familiares, tentar identificar saberes, gostos alimentares, valores e crenças, segredos, sofrimentos e conflitos, e, diante disso, incluí-los no tratamento da obesidade infantil, uma vez que, como já foi retratado, essas histórias familiares dizem respeito a concepções de identidade pessoal e familiar, no contexto da obesidade infantil. Nesse aspecto, Neubern (2004), em seu estudo sobre complexidade e psicologia clínica, comenta que se torna fundamental no processo clínico que os sujeitos sejam compreendidos em suas próprias referências, para que

se estabeleça um diálogo capaz de qualificar os sentidos construídos por eles em suas experiências de vida.

Enfatizo a importância de acolher e respeitar as famílias em suas histórias, como uma forma de facilitar a relação de confiança entre a família e o profissional, na tentativa de que o tratamento não se torne uma ameaça à identidade do grupo familiar. Pelo contrário, que possibilite envolvimento e participação das famílias no processo de mudanças. Nessa perspectiva, o trabalho não se reduz a cuidar da mudança de hábitos alimentares, já que inclui a vida das pessoas, seus vínculos afetivos familiares e sociais, valores, dores e conflitos. Todavia, representa um processo dinâmico e reconstrutivo de novas histórias familiares, para além de visões lineares e mecânicas da prática clínica tradicional.

La Taille (2001, p. 27) nos alerta: “Não trocamos de concepções de mundo como trocamos de camisa”. Toda essa discussão intrafamiliar propõe movimentações de papéis, fronteiras e territórios constitutivos da identidade familiar. Em relação a isso, Demo (2002, p. 141) aponta uma alternativa: “Continuamos pela vida afora reconstruindo nosso conhecimento e nossos projetos. Significa isso que a bagagem recebida na vida não é ponto final. É apenas ponto de partida”.

Tornou-se importante considerar, também, que na bagagem dessas famílias pesquisadas as relações não se reduzem a esses aprisionamentos. A união da família representou um valor importante, mesmo que se organizado em torno da alimentação, e, assim, apontou para outras perspectivas de relações. Quanto a isso, observa-se que os encontros familiares retratados pelos sujeitos da pesquisa apresentaram uma conotação positiva (MIERMONT et al., 1994), uma vez que pais, mães e crianças expressaram alegria quanto à preparação dos alimentos, envolvendo relações afetivas entre avós, pais, mães e crianças. O trabalho em grupo com a participação das mães, crianças e outros familiares na preparação de encontros festivos possibilitou recriar alternativas para que a alimentação não se tornasse o foco exclusivo de adoecimento, isto é, da obesidade. Ao contrário, essas reuniões proporcionaram criar um espaço de experimentação para resgatar o prazer de comer, saborear, incluindo a alegria da comunhão entre as pessoas. Além disso, favoreceu o estabelecimento de trocas afetivas entre os participantes, ajudando-os a ampliar as suas relações familiares.

Torna-se fundamental, então, trabalhar a diversificação dos encontros entre mães, pais e filhos e filhas, seja soltando papagaio, brincando de bola, isto é, ampliar a convivência entre eles em espaços públicos, como parques e praças. Essas iniciativas se tornam importantes para se tentar promover o crescimento de cada um, bem como gerar saúde no grupo familiar. Em outras palavras, possibilitar um movimento dinâmico de relações recíprocas e de ajuda mútua. Nesse aspecto, esse investimento afetivo nas relações familiares pode colaborar para que os pais e mães ajudem as crianças a escolher uma atividade física que seja de sua preferência e habilidade, de acordo com as condições socioeconômicas das famílias. Nesse contexto, torna-se um cuidado em face das vivências de constrangimentos e vergonha diante de seu corpo para realizar as atividades físicas, possibilitando a experimentação de outras movimentações corporais e de convívio social.

Percebo que os desenhos da imagem corporal se configuraram como uma forma de ampliação de possibilidades para essas crianças se imaginarem de maneira diversa de suas identidades tidas como dadas – ser gordo. Nesse sentido, o trabalho em grupo proporcionou uma oportunidade para as crianças experimentarem uma postura diferenciada na relação com as mães e os colegas. Foi interessante observar que as crianças sugeriram atividades que sabiam realizar, por exemplo, modelagem de balão e montar papagaio. Cada qual se posicionou de um modo diverso do habitual no contexto familiar; ou seja, puderam exercitar possibilidades de autonomia. Uma das recomendações da Academia Americana de Pediatra (AAP,2003) quanto ao tratamento da obesidade na infância refere-se ao encorajamento da autonomia da criança no processo.

Essa possibilidade de atuação das crianças no grupo favorece o processo de dinamismo da identidade pessoal e familiar, uma vez que as mães podem ver os filhos e filhas com outras potencialidades que enriquecem as relações intra e extrafamiliares, tornando um contraponto à diferenciação como ameaça ao grupo familiar. Quanto a isso, a mãe M.2 comentou sobre o aprendizado da criança na relação com o pai, antes de sua atuação no grupo: Falei com o pai dele (filho). Você tem que ensinar que ele não sabe. Aí, sentou lá na mesa. Ele (filho) segurou as taquaras pro pai colar. Foi até legal os dois fazendo papagaio!

Diante disso, vejo que as crianças precisam ser acolhidas em suas vivências de sofrimentos e conflitos para tentarmos ajudá-las a participar do contexto do

tratamento com as famílias não as reduzindo ao sintoma comunicado (SUDBRACK, 2003), ou seja, o comer em excesso. Nessa perspectiva, não se deposita o fracasso gerado pela dificuldade do processo de emagrecimento aos filhos e às filhas, mas se reconfigura para uma teia contextual e afetiva mais ampla, discutindo representações constitutivas dos grupos familiares. Nesse sentido, devem ser incentivadas a se abrir para outros canais de expressão, como falar, desenhar, brincar, correr e dançar. Demo (2002, p. 141) comenta: “Um dos aspectos mais ricos dos processos de aprendizagem é a gestação de oportunidades na vida. [...] aprender alarga seus horizontes, explora alternativas...”

A perspectiva adotada neste trabalho de pesquisa configurou-se de acordo com uma possibilidade reconstrutiva no contexto clínico, o qual perpassou por desconstruções de crenças e expectativas, pretensamente, dadas como acabadas e prescritas. Nesse processo, não fiquei alheia à necessidade de, também, rever minha maneira de enxergar o fenômeno. Pelo contrário, criou e recriou meu olhar diante de situações complexas e mutantes. No entanto, tudo isso se teceu em razão de um panorama interdisciplinar de abordar o problema. Diante disso, no item final deste capítulo, enfatizo a importância da interdisciplinaridade na intervenção clínica e social.

Benzer Belgeler