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Vimos que os conceitos de força e vivacidade, em uma primeira instância, parecem ser um critério natural e praticamente inequívoco de diferenciação entre os conteúdos de nossa mente, os quais Hume nominou de impressões e idéias24. Tanto é assim que, como sugere o Tratado (T., I, I, 1: 26,1), a capacidade de distinguir entre impressões e idéias poderia até ajudar no diagnóstico de diferenciação entre o normal e o patológico ou entre a sanidade e a loucura, considerando que na vida comum seja sempre possível observar “que, em certos casos, elas possam estar muito próximas uma da outra”. Por isso, em nome da precaução, nada ainda nos autoriza a afirmar que os conceitos de força e vivacidade se apresentem como um critério eficaz e definitivo dessa diferenciação. Hume admite que embora necessários, eles nem sempre são suficientes para o estabelecimento de uma demarcação rigorosa [ou lógica] entre impressão e idéia25, já que apenas marcam isoladamente as notas características que nos fazem distinguir naturalmente e em circunstâncias normais, os termos “sentir” e “pensar”.

Assim, parece claro, que o próprio Hume concorda que a sua suposição inicial é válida somente para percepções simples, “sejam elas impressões ou idéias” (T. I, I, 2: 26, 2), pois, fosse a diferença entre sentir e pensar apenas quantitativa, toda percepção fraca deveria ser uma idéia e toda percepção forte, uma impressão. Por outro lado, como ele também admite num contexto cético-naturalista que uma idéia possa eventualmente ser confundida com uma impressão, segue-se que entre sentir e pensar existe uma distinção ontológica que na vida

24 A impressão é caracterizada pela força e vivacidade com que as percepções se apresentam à mente humana.

No pensamento humeano, a impressão é uma percepção [atual ou] imediata; a idéia, uma percepção mediata. Esta, que parece ser a principal tese do empirismo, nos sugere também que as impressões são os princípios das idéias, ou que estas podem ser consideradas efeitos daquelas, de modo que o cerne da atitude empirista estaria sempre na tentativa de perseguir a redução de toda idéia a uma impressão, iniciativa que Hume se comportaria como um cético mitigado [ou probabilista]. Tudo isto condiciona que a idéia, em linhas gerais, é um estado de consciência que se apresenta com um grau menor de força e vivacidade e, assim, “sempre que uma idéia é ambígua, ele recorre à impressão, que deve torná-la clara e precisa” (T. Sinopse: 686, 7), de modo que as idéias se distinguem das impressões por terem força e vivacidade menor quanto do seu reaparecimento à mente, e isto também nos sugere (T. I, I, 1: 29, 8) a anterioridade das impressões em relação às idéias que é a máxima empirista, ou melhor, o conhecido princípio da cópia que, como é de sólito no cético-naturalismo, não está imune a contra-exemplos, como tratamos de observar em nossa Introdução no exemplo do tom ausente de azul.

25 Com isso, Hume vai sugerir que a distinção entre impressão e idéia assim como a de causa e efeito não é

puramente lógica. Trata-se de uma redução psicológica, interna, à atualidade do conteúdo da impressão ou, se se quiser, de sua autenticidade. A originalidade deste primeiro princípio é que não se trata de uma redução ao plano puro e simples do sensorial, antes de um processo de crítica à linguagem como fica expresso em E., II, IX: 39, onde “sempre que alimentarmos alguma suspeita de que um termo filosófico esteja sendo empregado sem nenhum significado ou idéia associada (...), precisaremos apenas indagar: de que impressão deriva esta suposta

idéia?”. Assim, as impressões marcam o limite último de investigação das percepções: na acepção de Hume, a

questão de sua origem não cabe à filosofia, mas a fisiologia, e seria talvez incorrer em dogmatismo a não observância dessas recomendações acadêmicas como pode ser visto em T., I, III, 5: 113,2, o que não é novidade em face do que ele já mencionava em T., I, I, 1: 26,1 - nota: “Quanto ao termo impressão, gostaria que não se o entendesse aqui como exprimindo a maneira como nossas impressões vívidas são produzidas na alma (o grifo é nosso), mas como exprimindo apenas as próprias percepções (...)”.

comum não poderia ser reduzida a uma mera questão de diferença de graus entre nossas percepções. Hume é taxativo em T., I, I, 1: 27, 5, quando sustenta que [somente em estado puro] a “idéia de vermelho que formamos no escuro e a impressão que atinge nossos olhos à luz do sol diferem apenas em grau, não em natureza”26.

Com efeito, para se efetuar uma depuração convincente do princípio empirista da cópia é conveniente acrescentar “uma segunda divisão entre nossas percepções” (T. I, I, 1: 26, 2) que também podem ser simples e complexas. As primeiras não admitem distinção; as segundas podem ser decompostas em partes, de modo que às primeiras começo a vincular um conjunto de predicados e relações que possam representar melhor a função dos princípios da natureza humana no exame das possibilidades do entendimento, “e que terei de fazer uso da distinção das percepções em simples e complexas para limitar a conclusão geral de que todas as nossas idéias e impressões são semelhantes” (T., I, I, 1: 27, 4). De fato, nem sempre ocorre uma semelhança entre impressões e idéias como fica caracterizado no caso delas serem simples27. Faz-se, portanto, necessário uma clivagem adicional no princípio empirista ou, o que é o mesmo, sua cumplicidade sincrônica com o princípio associacionista [da faculdade] da imaginação sem o qual o primeiro seria mera abstração, isto é, estaria impossibilitado de representar um mundo [concreto] de impressões complexas que perfazem a ciência da natureza humana, no qual a afirmação de que todas as idéias são cópias exatas de impressões não tem aceitação universal28. Assim, é preciso perquirir que sentimentos concorrem para que

26 Num quadro psicológico, ainda quando transformamos uma diferença de natureza em diferença de grau, caso

de percepções simples, nem sempre podemos garantir que suprimimos a diferença; ao contrário, ela pode desempenhar o mesmo papel que a diferença de natureza desempenha num sistema demonstrativo. É evidente a carga ontológica a que fica submetida o primeiro princípio da natureza humana quando ele se depara com atomizar percepções complexas não facilmente redutíveis como seria no caso ideal da máxima empirista em “que todas as nossas idéias simples em sua primeira aparição, derivam de impressões simples, que lhes

correspondem e que elas representem com exatidão” (T., I, I, I: 28, 7). Apesar de seu conteúdo psicológico, este

princípio é desprovido de predicados e relações [filosóficas], de modo que isoladamente ele não apresenta, como veremos, uso plausível ou cognitivo e, muito embora não seja da ordem do “a priori” ele é indeterminado no sentido metodológico, ainda que não seja enquadrado como demonstrativamente válido. Por isso, isoladamente, o princípio da cópia é uma abstração metodológica restrito à relação entre impressões e idéias simples, isto porque somente hipoteticamente uma diferença de graus não implica uma distinção ontológica.

27 O que existe de fato é uma discrepância notória entre impressões e idéias e que “muitas de nossas idéias

complexas jamais tiveram impressões que lhes correspondessem, e que muitas de nossas impressões complexas nunca são copiadas de maneira exata como idéias” (T., I, I, 1, 4: 27,4). Sem dúvida, grosso modo, não é difícil aceitar que a idéia [complexa] de uma maçã seja um reflexo atenuado da impressão [complexa] das maçãs que já experimentei. Mas isto não acontece quando imagino “uma cidade como a Nova Jerusalém, pavimentada de ouro e com seus muros cobertos de rubis, mesmo que nunca tenha visto nenhuma cidade assim” (Ibid) ou, no sentido inverso, quando estive visitando Lisboa, nem por isso tornei-me “capaz de formar daquela cidade uma idéia que represente perfeitamente todas as suas ruas e casas” (Ibid), exatamente como são.

28 O primeiro (cópia) e o segundo (hábito) princípios da natureza humana estão relacionados de modo intrínseco,

embora do ponto de vista metodológico eles não sejam assim apresentados. De fato, para efeito de definição, Hume enuncia o princípio da cópia em T., I, I, 1: 28, 7. Ali fica claramente evidenciado que seu alcance se restringe a uma relação entre impressões e idéias simples (e mais uma vez destaco o termo simples) no que toca aos seguintes aspectos: a força, a vivacidade e, além disso, a anterioridade, das impressões em relação às idéias.

a ciência da natureza humana produza modelos de conhecimento mais plausíveis de descreverem a realidade factual da vida comum.

Essa segunda distinção entre impressões e idéias, embora isto não esteja ainda explícita, pressupõe a atuação da faculdade da imaginação e esta, como veremos, está associada ao segundo princípio da natureza humana, o princípio da associação de idéias, uma espécie de cimento probabilístico do universo que atuando conjuntamente com o princípio da cópia, ou como Hume afirma na sinopse do Tratado, “são os únicos laços de nossos pensamentos” (T. Sinopse:699, 35) ou “no que diz respeito à mente, estes são os únicos elos que ligam as diversas partes do universo, ou que nos conectam a pessoas ou objetos exteriores a nós” (Ibid). Tudo isto, é resultado da redução empírica e subjetiva de nossos conteúdos mentais que é a principal característica do método experimental de Hume e, como tal, constitui o cerne da ciência da natureza humana. Em conformidade ao estabelecido em nossa Introdução, neste sentido, é de bom alvitre registrar desde já que a aludida redução cético-naturalista é psicológica [“A t B; B ⊢ A”], e não transcendental [“A t B; A ⊢ B”] como a que foi proposta por Kant e que abordaremos a partir da segunda parte.

Devemos, portanto, estabelecer os passos fundamentais de nossa ação: partir para o exame de nossas próprias idéias complexas, para verificar, por investigação atenta, como elas próprias se resolvem em idéias simples, cada uma copiada de uma impressão que a precedeu. Tal análise deve incorporar um exercício de introspecção na busca de um conteúdo [empírico] fundamental: um corpúsculo mental, ou átomo de percepção ou, melhor dizendo, uma idéia simples. Se provarmos que essa decomposição29 é viável estará justificado, bem como fundamentada, assim cremos, uma teoria descritiva da experiência30 em Hume e, em

Vale destacar que a anterioridade das impressões ali suposta se torna um fato quase inequívoco logo em seguida: “Para dar a uma criança uma idéia do escarlate ou do laranja, do doce ou do amargo, apresento-lhes os objetos, ou, em outras palavras, transmito-lhe essas impressões; mas nunca faria o absurdo de tentar produzir as impressões excitando as idéias” (T., I, I, 1: 29, 8). O ponto é que a filosofia de Hume sempre ressaltará o caráter originário da impressão: seja na sensação que afeta nossa mente, seja na paixão que dela de apossa, a impressão é sempre considerada um dado imediato da experiência. Dito isto, podemos presumir que um dos benefícios indiretos do princípio da cópia é suspender boa parte das disputas estéreis sobre a questão das idéias inatas, notadamente aquelas oriundas das doutrinas racionalistas. Numa nota em E., II, IX: 40, Hume afirma expressamente que se “entendendo por inato aquilo que é original, ou que não é copiado de nenhuma impressão precedente, então podemos asseverar que todas as nossas impressões são inatas e nossas idéias não o são”. Argumentos análogos são apresentados na passagem T., I, I, 1: 31, 12 do Tratado.

29 A decomposição a que nos referimos é o conteúdo da Parte I do Livro I do Tratado da natureza humana (T., I,

I), ou “Das idéias, sua origem, composição, conexão, abstração etc”.

30 Trata-se da visão humeana de uma justificação do conhecimento em conformidade com um ideal de

racionalidade indutiva, como exposta na Parte III do Livro I do Tratado da natureza humana (T. I, III), ou “Do conhecimento e da probabilidade”. Neste sentido, o cético-naturalismo de Hume equivale a substituição de um ideal de racionalidade dedutiva por um ideal de racionalidade indutiva ou, em nossos termos, trocar a causalidade [, no sentido que lhe atribui o dogmatismo clássico,] pela indução ou conhecimento pela probabilidade.

particular, a sua doutrina da causalidade, ainda que não se tenha acesso ao conteúdo empírico da impressão fundamental31. Sendo assim, é necessário compreender o alcance do princípio da cópia quando estão em jogo percepções complexas32, sem as quais ele não pode ser de todo delimitado. Somente após cumprido esse passo, poderemos tratar pontualmente do princípio associacionista da faculdade da imaginação, o que será feito no tópico 1.3.

A divisão dos conteúdos mentais em simples e complexos, segundo Hume, permite isolar quaisquer qualidades sensíveis que possam estar agregadas em determinada percepção decompondo-a na multiplicidade de sensações que a constituem ou efetuando uma espécie de escrutínio em sua presumível unidade33. Essa possibilidade de decomposição das percepções é que vai garantir a aplicabilidade ou o critério de verificação empírica34 ao princípio da cópia. No entanto ela não é tão simples como a redução efetuada pelo critério de força e vivacidade já que a separação das qualidades unidas num objeto que afeta nossos sentidos não é o resultado imediato da mera percepção do objeto que seja independente da atividade do sujeito. Trata-se já de uma operação mediada por uma faculdade intelectual35 que tem a função de reunir ou separar qualidades sensíveis, respectivamente a qualquer percepção simples ou complexa, ou a átomos de percepção no primeiro caso. Portanto, é necessário compreender que esta nova divisão das percepções [em simples e complexas] não é um mero

31 Como vimos, remeter nossas idéias às impressões fundamentais é como estabelecer um processo genético de

nossas idéias, uma simples descrição ou representação fenomênica, de modo que temos acesso exclusivamente à cópia e é a partir dela que inferimos a existência da causa original. Hume não se interroga sobre a origem das impressões.

32 Cabe insistir que percepções simples, são aquelas que não admitem distinção nem separação, ao passo que a

percepção complexa é distinguível em partes. A percepção da maçã, por exemplo, é complexa, pois suas qualidades como a cor, o gosto, o cheiro, etc., podem ser distinguidas. As cores são exemplos de percepções simples.

33 Em T., I, I, 1: 26, 2 Hume mostra que a despeito de “uma cor, sabor e aroma particulares sejam todos

qualidades unidas nesta maçã, é fácil perceber que elas não são a mesma coisa, sendo ao menos distinguíveis umas das outras”.

34 Existe uma relação estreita entre o problema de verificação empírica das teorias e o problema da indução [em

Hume] que trataremos com mais vagar a partir do nosso tópico 1.5. A dificuldade da indução é exatamente porque não podemos confiar inteiramente no que aprendemos da experiência passada, que o que ela nos diz pode não valer para o futuro. A distinção das nossas percepções entre simples e complexas, para além do critério de força e vivacidade, permite então determinar com mais acuidade o escopo de validade do princípio da cópia de modo a facilitar a verificação dos experimentos. Com ela, reiteramos, Hume pode afirmar, como em T., I, I, 1: 28, 7, uma importante restrição teórica deste princípio: que ele se aplica somente à relação entre impressões e idéias simples.

35 Em Hume essa operação é mediada pela faculdade da imaginação que mais adiante vai estar associada com o

hábito ou costume. A distinção entre percepções simples e complexas só pode ser mediada por essa faculdade, pois aos passarmos da questão da vivacidade das percepções para a sua simplicidade, estamos nos deslocando daquilo que delas pode ser percebido diretamente pelos sentidos e, como tal, se constitui numa mera questão de grau, para aquilo que está na jurisdição de algo que parece não depender inteiramente dos sentidos, a saber, a operação de uma faculdade intelectual, que em Hume é precisamente a imaginação e que tem como questão precípua [ou de natureza] associar percepções empíricas em conhecimentos [, obviamente em sua concepção probabilística]. Essa faculdade, segundo Hume, embora não seja classificada como uma disposição a priori, pode ser reduzida “a qualidades originais da natureza humana” (T. I, I, 4: 37, 6), sendo, portanto, um alvo temático de destaque na ciência da natureza humana.

capricho nem algo arbitrário na temática humeana. Ao contrário, onde quer que seja possível operar uma separação entre idéias, pode-se realizar uma combinação ou conhecimento possível. Partamos então na busca do elemento simples e limite da análise empirista de Hume que já nomeamos de átomo de percepção ou idéia simples.

Registre-se, que na maior parte dos casos, pelo menos na tradição empirista britânica, não são os conceitos que surgem como candidatos a átomos de percepção ou a átomos simples como elementos irredutíveis de análise, mas sim os fugazes itens da experiência subjetiva, ou parte desses itens que Hume denominou “impressões simples”; e também as supostas cópias dessas impressões, presentes na imaginação ou na memória, denominadas “idéias simples”. É numa seção chamada “Das idéias abstratas” ou gerais36 que Hume vai descaracterizar o realismo dogmático, ao afirmar que tais espécimes “não passam de idéias particulares que vinculamos a um certo termo, termo este que lhes dá um significado mais extenso” (T., I, I, 7: 41, 1) e que, se elas forem recusadas, então todo um campo tradicional da especulação fica rejeitado de antemão e, parodiando o famoso princípio da economia de Ockham, o ganho foi enorme já que uma parte considerável da filosofia racionalista da tradição se acha definitivamente comprometida juntamente com termos inconfundíveis como “substância”, “idéias abstratas” e outros que lhes emprestavam expressão reflexiva. Como seguidor do chamado nominalismo, Hume vai mostrar que “é inteiramente impossível conceber qualquer quantidade ou qualidade sem formar uma noção precisa de seus graus” (T., I, I, 7: 42, 2) e que também aceita integralmente o princípio de que “todos os objetos diferentes são distinguíveis, e que todos os objetos distinguíveis são separáveis pelo pensamento e imaginação” (Ibid). Aplicada às nossas idéias e impressões, essa máxima de cariz nominalista mostra o limite ao qual deve chegar um projeto cético-naturalista radical, como o de Hume.37

Com efeito, na sua análise empírica e subjetiva - o seu cético-naturalismo -, qualidades diferentes como a cor e o sabor que estão agregados a uma maçã são diferentes e, portanto, são distinguíveis; e, já que distinguíveis, são separáveis pela faculdade da imaginação. A questão agora é justificar esse princípio nominalista da diferença e da separação que implica a

36 O principio da cópia já assevera que a idéia só difere no grau de vivacidade da impressão e comporta

necessariamente que cada idéia nada mais seja que uma imagem e, como tal, individual e particular. Ora, como é possível uma idéia particular ser usada como idéia geral? A clivagem adicional de Hume [em idéias simples e complexas] vai nos mostrar que mesmo as idéias superlativamente complexas podem ser isoladas numa composição de idéias simples ou átomos de percepção.

37 Parece que se não existe relação essencial e intrínseca entre as partes componentes de uma idéia ou impressão

simples, tampouco vai haver uma relação do mesmo tipo quando se trata de considerar as relações entre idéias e impressões. Com a conjunção dos dois princípios da natureza humana, o princípio da cópia e o associacionista da imaginação, parece que a intenção de Hume é mostrar que a experiência para o cético-naturalista é uma sucessão de percepções distintas entre si e que ela não se traduz numa totalidade contínua, e sim num agregado [indutivo] de conteúdos independentes uns dos outros.

decomposição das percepções e, portanto, não pode, em nenhuma hipótese, caracterizar qualquer idéia de relação38. Para exprimir essa situação Hume utiliza o termo “diferença”, ou seja, o que não apresenta nenhuma qualidade de relação:

Seria natural esperar que eu acrescentasse a diferença às demais relações. Mas considero este antes a negação de uma relação que algo real e positivo. A diferença pode ser de dois tipos, conforme seja oposta à identidade ou à semelhança. A primeira é denominada diferença de número; a outra, diferença de espécie (T., I; I, 5: 39, 10).

Vejamos como nessa passagem a diferença39 implica separação: a primeira é estabelecida em oposição tanto à relação de semelhança quanto à relação de identidade. A oposição [ou diferença] à relação de semelhança diz respeito às diversas espécies nas quais cada objeto pode ser classificado e, neste caso, ainda permanece uma relação [,a de semelhança,] já que preservam-se as qualidades de objetos pertencentes à mesma espécie. Em outros termos: esta diferença ainda não implica uma separação irrestrita. Isto só vai acontecer no caso da oposição [ou diferença] à relação de identidade. De fato, a diferença de identidade agora distingue irrestritamente os objetos uns dos outros e nesse caso eles diferem numericamente pelo fato de serem muitos e, sob esse ponto de vista, pode-se afirmar que há particulares plenamente separáveis uns dos outros pela faculdade da imaginação40.

38 Ainda vamos pormenorizar o alcance do termo “relação” na filosofia de Hume (ver 1.4). O termo no momento

Benzer Belgeler