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“O ressurgimento de São Paulo inicia-se com o café e consolida-se com ele” (SAMPAIO, 1900, p. 186). Assim, o geógrafo Theodoro Sampaio resumia, na virada do século XIX, a importância da cafeicultura para a economia paulista que, mesmo enfrentando dificuldades de toda a ordem, tornou-se o motor propulsor de uma expansão econômica vigorosa. Com o estímulo e a promessa de lucros e riqueza, todo o Estado de São Paulo se transformou, a partir de meados do século XIX, numa vasta região pioneira, atraindo capital, investimentos e pessoas de todos os cantos do Brasil e do mundo (MONBEIG, 1984). Tão grande foi o desenvolvimento das

atividades agrícolas nessas novas regiões que Carlos de Lemos afirmou exultante na Revista do Brasil:

A nossa terra está hoje produzindo, criando e commerciando numa escala tão prodigiosa, que os nossos coefficientes econômicos (...) já entravam a pesar na balança em que se está a aferir dos novos valores do mundo(LEMOS, 1921, p. 34).

A busca pelas novas terras paulistas desencadeou uma verdadeira guerra entre o homem e a natureza. Esta era, desde então, entendida como um obstáculo ao desenvolvimento; terra inculta, virgem, ainda não civilizada pelas mãos humanas. As florestas tropicais, os campos e cerrados, eram compreendidos como uma barreira a ser transposta pelos primeiros desbravadores; além das dificuldades enfrentadas nas lutas contra as tribos indígenas existentes nas terras agora cobiçadas.

Tal processo de colonização das novas áreas intensificou-se a partir de 1870, com a exploração mais sistemática da região oeste, antes inicialmente explorada pelos pioneiros de Minas Gerais. Das terras do oeste, ricamente constituídas pela valorizada terra roxa, os cafezais se alastraram rapidamente, chegando, a partir de 1890, na região do noroeste paulista, com solos não tão férteis, porém igualmente propícios ao café. Essa marcha paulista extrapolou inclusive os limites territoriais do Estado, sendo a força motriz para a abertura de novos espaços agrícolas em Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná, não só “porque o impulso é dado por São Paulo, como a maior parte dos homens provém desse Estado e as relações econômicas se fazem, sobretudo, em São Paulo e Santos” (MONBEIG, 1984, p. 23). É essa pujança econômica, resultado da expansão agrícola, que é exaltada por Amadeu de Queiroz nas páginas da Revista do Arquivo Municipal.

Até que, nas margens do Paraná, se levantem formidáveis, as extraordinárias cidades que a humanidade ai vai edificar, até que se possa vencer rapidamente a distância que separa os dois grandes rios do Norte e do Sul, e o homem, rompendo o sertão de lado a lado, domine o país definitivamente, São Paulo continuará o centro regulador, o vasto entreposto de tudo quanto produzem o próprio Estado, o Paraná, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais [...] (QUEIROZ, 1937, p. 188).

As novas terras desbravadas a golpes de machado e fogo eram designadas, na maioria das vezes, como sertões; palavra que se origina provavelmente do signo deserto, ou desertão. O

sertão era geralmente relacionado às regiões desconhecidas, longe dos centros urbanos; locais a serem conquistados (ou tomados) da natureza, e aonde a civilização deveria operar o seu processo de transformação, por meio do trabalho humano. O desconhecimento das reais condições das terras do interior abria espaço para a disseminação de notícias fantásticas e povoadas de mistério entre o público letrado:

O famoso explorador americano Richard declara que na primeira quinzena de novembro, emprehenderá uma expedição scientífica, cujo fim principal é examinar detidamente o sertão do Matto Grosso, afim de determinar o fundamento das affirmações da existência de uma remota civilização naquella zona (A NOTÍCIA, 1927, s.n.).

Essas regiões sertanejas a serem desbravadas, que povoavam o imaginário dos colonizadores, eram constituídas, segundo o educador e geógrafo Fernando Antonio Raja Gabáglia, emérito professor do tradicional colégio D. Pedro II, em conferência publicada na

Revista do Brasil em 1921, por uma “massa amorpha, entregues os seus habitantes a si próprios,

sem figura de ordem, nem de organização” (GABAGLIA, 1921, p. 17). Os sertões também eram o espaço do abandono e do isolamento, do homem “cercado pela solidão” (FREIRE, 1950, p. 44). As cidades de fronteira dessas linhas de povoamento eram então chamadas de bocas de sertão, últimos pontos de contato entre o mundo civilizado e a natureza desconhecida. Araraquara, São José do Rio Preto e Mirassol, na região Noroeste do Estado, são exemplos de cidades que já foram conhecidas com tal designação.

No Álbum da Comarca de Rio Preto, publicado entre os anos de 1927 e 1929, o jornalista

Abílio Augusto Abrunhosa Cavalheiro, em elegante estilo, apresenta os sertões que constituíam a cidade antes da chegada da força civilizadora, como “muitas terras, muitos mattos, muitas riquezas, mas pouca gente, pouco trabalho, pouca ordem e menos justiça” (CAVALHEIRO, 1927/29, s.n.). Tendo como base o modelo urbano de desenvolvimento, o autor apresenta-se desconfortável diante do passado incivilizado da região, que teria se erigido sem a presença do homem branco e da lei, com terras abandonadas em seu estado original, trabalhadas somente por mãos indígenas “A floresta conservando a virgindade primitiva, acalentava em seu seio a população selvagem com quem vivia a milhares de anos” (CAVALHEIRO, 1927/29, s.n.). O apelo que a existência dessas novas terras inexploradas trazia era imenso, levando escritores mais

exaltados a conclamarem “tratemos quanto antes de avançar para a conquista do desconhecido Oeste” (MACEDO, 1905, p. 487).

Nesse interior ainda misterioso, as populações indígenas nem sempre aceitaram, de forma pacífica, o convívio com os primeiros pioneiros, auto-intitulados civilizados. No processo de conquista do sertão, os confrontos entre índios e os recém chegados eram constantes e corriqueiros, sendo que tais embates foram alvo de discussões que poderiam ser acompanhadas na imprensa e nas revistas paulistas. Uma das polêmicas mais acirradas deu-se a partir de 1908, com a publicação de um artigo do Prof. Hermann Von Ihering, zoólogo renomado e importante nome nos meios intelectuais paulistas na virada do século XIX, que exerceu a direção da revista e do Museu Paulista.

Referindo-se aos constantes conflitos entre índios e colonizadores, ocorridos neste momento específico na região nas fronteiras de colonização à oeste do Estado, o pesquisador alemão justificou e defendeu a utilização da violência contra os índios Kaingangs, principalmente devido a sua suposta pouca adequação ao trabalho nas lavouras (GAGLIARDI, 1989).

As afirmações de Ihering geraram muitas controvérsias e foram rebatidas por muitos, como pelo professor L.B. Horta Barroso, de Campinas, ou pelos representantes da Congregação do Museu Nacional. As divergências em torno dessa temática estavam imersas em outros debates de natureza diversa, como os raciais, religiosos e humanitários. Muitos defendiam uma maior presença da Igreja Católica nas comunidades indígenas, facilitando o processo de aculturação desses povos; outros eram favoráveis a maior presença do Estado, com iniciativas laicas, como a liderada pelo Marechal Rondon; havia ainda aqueles que colocavam tais problemas no contexto dos paradigmas raciais.22

De todo o modo, a violência no interior que se refere aos contatos entre índios e brancos continuou e, durante toda a Primeira República, assim como as tentativas de diminuição dos conflitos que tiveram poucos resultados, com o prejuízo evidente para as culturas aborígines (GAGLIARDI, 1989). Portanto, era nos sertões que, apesar dos debates em torno da questão indígena, desenhava-se “o drama do ódio do índio contra o branco, e da reação do branco contra o índio” (FERNANDES, 1946, p. 163).

22 Em São Paulo, os debates raciais envolvendo os índios estão relacionados também à consolidação da imagem do

bandeirante, principalmente entre a elite paulista que se reunia em torno do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, durante a Primeira República. Sobre o assunto, ver Ferreira, 2002; Monteiro, 1994; Mahl, 2001.

A busca por terras virgens, a chegada dos desbravadores, o desenvolvimento de novos núcleos urbanos, as ferrovias, a destruição das matas e a violência generalizada levaram ao declínio dessas populações. A chegada de novas levas pioneiras, impulsionadas pela cafeicultura, destruiu ou empurrou vários grupos indígenas para regiões fora do Estado, abrindo espaço para a chegada maciça de trabalhadores com sonhos de riqueza e prosperidade. Progresso era a utopia do momento, e o passado, quando “pelos nossos sertões a barbaria recrudescia alarmando os núcleos do povoamento incipiente” (LEMOS, 1921, p. 38) deveria ser substituído pela nova ordem urbana. Os sertões, aos poucos, transformavam-se, ao mesmo tempo alumbrando e assustando aqueles que acompanhavam atentamente os resultados desse processo:

O panorama dos sertões de Araçatuba está mudado inteiramente, parecendo sonho, para quem o conheceu mesmo apenas a 15 anos. Não existe mais aquela mataria fechada, nem aqueles lugares tidos como desconhecidos e morada de índios adversos da civilização. Houve mesmo excesso na faina desbravadora do paulista. O arrazamento foi completo e quase insensato, das reservas milenares de matas férteis. Quem sobrevoar a região, pasmará da devassa cruel de tanta riqueza e se admirará da audácia paulista, dominando em tão curto espaço de tempo sertão tão grande, sem medir os sacrifícios de toda natureza. Acabou-se o Sertão dos orgulhosos Caingangs [...] (CARVALHO, 1945, p. 313). A utopia do progresso, assim como a espécie de êxtase experimentado pelo cronista ao viajar pela região de Araçatuba não o impediu, entretanto, de vislumbrar a “devassa cruel” da paisagem sertaneja. Mas a “audácia paulista” identificada aos signos da civilização inexorável era maior do que qualquer dano causado ao meio ambiente. O presente-futuro vislumbrado por Carvalho pertencia aos paulistas e não aos Kaingangs.

Na busca pela superação do isolamento geográfico experimentado em relação as regiões mais próximas da capital, a ferrovia foi um aliado fundamental. Símbolo dos tempos modernos, ela era o ponto de apoio dessa faina progressista. Resultado direto das novas demandas econômicas cafeeiras, a estrada de ferro tornou-se o principal meio de transporte da produção agrícola da região, facilitando, cada vez mais, o estabelecimento de fazendas nos pontos mais isolados do Estado e dando um novo alento às primeiras povoações fundadas em toda a região Oeste, antes da chegada do café.

Benzer Belgeler