VI. Tablo Listesi
9. Kaynaklar
A obra que se tornou referência para o tratamento teórico da questão da representação no meio acadêmico foi The Concept of Representation, de Hanna F. Pitkin (1967). Esta obra oferece, a princípio, dois conceitos de especial relevância para se pensar a questão da legitimidade, adquirindo, por isso, particular importância para este trabalho. Estes conceitos serão recuperados de maneira pontual, de forma a ajudarem na construção do argumento acerca da importância desta questão para o objeto em tela. O primeiro conceito trazido à baila por Pitkin é, na verdade, uma recuperação da própria noção geral de representação. Reside na sugestão de que a idéia base de toda forma de representação seria a de tornar presente o ausente, de agir e/ou falar em nome de outrem em situações específicas e em relação a assuntos e/ou issues determinados.
Esta concepção de representação ensejaria dois tipos possíveis de relação entre os seus respectivos partícipes, ou, em outras palavras, seriam duas as “figuras” de representação passíveis de serem geradas a partir dela. Primeiro, a do procurador, cuja origem residiria nas idéias de Cícero sobre o ato do representante de advogar os interesses do representado. Neste caso, todos os “anseios” deste último seriam levados criteriosamente a cabo pelo representante, tornando‐se este uma espécide de
porta‐voz daquele, nos moldes próprios de uma relação entre um advogado e seu cliente1. O conteúdo da relação de representação é, assim, um ou alguns interesses portados por um indivíduo específico ou, ainda, comungados por diversos indivíduos e que serão advogados pelo representante, por exemplo, a instâncias de negociação e/ou instâncias decisórias específicas. Neste sentido, pode‐ se dizer que o representante atua como um substituto do representado em tais instâncias. O nome dado a esta relação é de “representação por advocacy”.
A outra situação ressaltada é a do político. Neste caso, tenderia a não existir coincidência de tal monta entre os interesses dos entes da relação, uma vez que pressupõe‐se que os representados constituiriam, na verdade, uma coletividade formada por diversos indivíduos dotados cada qual de interesses e preferências específicas. O representante, neste caso, não age em relação a determinados interesses portados ou comungados por indivíduos específicos, mas, antes, atua em função do “interesse coletivo”. Este é o conteúdo da representação. Assim, ele, ao mesmo tempo, atua para os indivíduos, mas não em função dos indivíduos, ou como um substituto deles. A esta representação se dá o nome de “representação política”. Ela, assim como a anterior, está em consonância com o segundo conceito proposto pela autora.
O segundo conceito que Pitkin propõe é o de representatividade. Diz respeito à proporção em que os interesses dos representados estariam sendo considerados e/ou expressos nas ações dos representantes. Esta idéia fica melhor expressa ao se partir do pressuposto de que, na verdade, ainda que a representação implique tornar presente o ausente, os entes da relação são indivíduos diferentes. Apenas a existência de representação não implicaria, necessariamente, que o representante tomasse decisões que se aproximassem dos anseios do próprio representado, ou que, enfim, o representante estivesse sendo representativo deste último.
A confluência entre representação e representatividade, assim como, por outro lado, a existência de uma tensão entre estes dois signos, são, grosso modo, as duas perspectivas que balizam toda a discussão teórica acerca do tema da legitimidade na literatura sobre representação, sendo concretizadas nos extremos da “representação por advocacy” e da “representação política”. As possíveis relações estabelecidas entre ambos os conceitos – no sentido de ora existir uma aproximação entre eles e ora um distanciamento, ou uma tensão, entre ambos – são configuradas a partir do tratamento teórico‐analítico que lhes é conferido, em especial no sentido de se pensar mecanismos que consigam estabelecê‐las de alguma forma. Comumente, estudiosos e analistas do tema se referem a estas possíveis relações e aos respectivos tratamentos, ou mecanismos, que lhes
1 Avritzer (2007) afirma que “O procurador identifica‐se com a condição do representado antes de representá‐lo e isso gera
são endereçados como a “questão da representatividade” (Pitkin, 1967; Lavalle, Houtzager e Castello, 2006).
Basicamente, a questão da representatividade está, assim, no cerne de um debate que objetiva pensar engenharias que consigam estabelecer padrões de interatividade entre os signos representação e representatividade com fins, ressalte‐se, de esboçar concepções e/ou bases específicas para a variável legitimidade, seja no caso da representação política, seja no caso da representação por advocacy (Pitkin, 1967; Held, 1995; Mansbridge, 2003; Santos e Avritzer, 2003). A própria Pitkin (1967), por exemplo, dissolve, tal como será abordado mais a frente, a questão da representatividade e, por conseguinte, das origens da legitimidade, na existência de mecanismos
formais de autorização e controle para o agir. Modernamente, estes mecanismos se
consubstanciariam na instituição do voto (e da eleição), entendido como autorização explícita para o agir e controle periódico sobre esse agir. Negligenciar que a participação nos Conselhos é numericamente restrita levou a que os estudiosos relacionados no capítulo primeiro que tomaram estas instâncias como objeto de estudo para teorizar sobre participação política deixassem de considerar que ela implica a consubstanciação de relações de representação entre conselheiros e os diversos outros indivíduos potencialmente afetados pelas decisões por eles tomadas e/ou influenciadas. Em outras palavras, deixou‐se de considerar que o papel de conselheiro implica, sobretudo, representar oficialmente a sociedade civil nestes espaços (Avritzer, 2007). A partir disso, não empreenderam uma busca por bases e origens da (variável) legitimidade acerca da atuação dos respectivos agentes destas instituições, particularmente no caso daqueles conselheiros pertencentes à sociedade civil.
A forma, ou, enfim, os mecanismos para se pensar legitimidade no tocante às relações de representação que são concretizadas no interior dos Conselhos Gestores, não estão, afinal, expressos na literatura sobre participação política que trata destas instituições no Brasil. No entanto, não estarem expressos não implica que sejam sem importância para o estudo dos Conselhos Gestores. À própria concepção de existência destas instâncias e o formato institucional que assumem cabe ressaltar, como já dito, que os atores que deliberam e decidem em seu interior o fazem acerca de políticas que, na verdade, terão impactos na vida de diversos outros indivíduos. Assim, revela‐se, na verdade, patente a questão da necessidade de problematização da legitimidade da representação destes agentes. A próximo seção procura tratar este ponto com maior acuidade.