Segundo Adorno, no romance tradicional há um pesado tabu que paira sobre a
reflexão do narrador: “ela se torna o pecado capital contra a pureza objetiva” (ADORNO,
2003, p. 60). Isso ocorre porque, no romance tradicional, o narrador deve acusar-se o menos possível, não deve revelar nuances subjetivas, para que se possa assim descortinar objetivamente a realidade (ele não deve ser um ponto de inflexão ou de relativização da percepção do universo narrado pelo leitor, não deve se intrometer nessa relação – o leitor deve
“entrar” nos acontecimentos, participar da obra sem mediações, assim como o espectador do
drama clássico, em palco italiano).Mas, nos romances do século XX, esse tabu teria perdido sua força, e a reflexão do narrador aparece rompendo a pura imanência da forma (ADORNO, 2003, p. 60).
Mas essa reflexão, apesar do nome, não tem quase nada a ver com a reflexão pré- flaubertiana. Esta era de ordem moral: uma tomada de partido a favor ou contra determinados personagens do romance. A nova reflexão é uma tomada de partido contra o próprio narrador, que busca, como um atento comentador dos acontecimentos, corrigir sua inevitável perspectiva” (2003, p. 60).
O narrador em primeira pessoa de Elite da tropa, no entanto, opera de maneira distinta e diametralmente oposta à do narrador do século XX sugerida por Adorno, ainda que não seja nem o narrador do romance tradicional e tampouco o narrador pré-flaubertiano. Na verdade, ao assumir uma postura autoritária em relação à percepção dos fatos que narra, atacando costumeiramente o leitor, chamando-o de preconceituoso ou mal informado, busca,ao invés de corrigir a sua própria “inevitável perspectiva”, corrigir a perspectiva do leitor, que esse narrador assume ser uma perspectiva distorcida. Por exemplo:
Para você ver que eu não sou nenhuma besta, devo lhe dizer que isso me lembra um conto do Kafka com este nome e que conta a história de um sujeito chamado GregorSamsa, que vira barata. Não falo para me gabar, não. Seria ridículo. Falo para que você faça um juízo correto sobre mim e não se iluda com os próprios preconceitos. (SOARES et al., 2006, p. 45-46)
Deus escreve certo por linhas tortas. O livre-arbítrio foi respeitado. Mesmo assim, cumpriu-se o desígnio divino. Cuidado, não pense que sou evangélico. Isso é puro preconceito seu. Nem todo policial ou bandido que fala em Deus é evangélico. Está
vendo só? Não é só o policial que é preconceituoso, afinal de contas. (SOARES et al., 2006, p. 23)
Estamos com gana de invadir favela, um puta tesão. Desculpe falar assim, mas é para contar a verdade ou não é? Você vai logo descobrir que sou um cara bem formado, com uma educação que pouca gente tem no Brasil. Talvez você até se espante quando souber que estudo na PUC, falo inglês e li Foucault. Mas isso fica para depois. (SOARE et al., 2006, p. 21)63
Sua postura, assim, ao atacar o leitor para corrigir sua perspectiva, ao desmentir contundentemente aquilo que vê como uma visão equivocada do leitor em relação à figura do policial, ao assumir o leitor como preconceituoso, não deixa de ser o eco de um comportamento autoritário, que enfraquece o interlocutor, buscando assumir o controle total do relato e fortalecer seus laços com a verdade, com a representação real dos fatos. Não é uma tomada de partido contra o próprio narrador para corrigir sua (do narrador) inevitável perspectiva, mas uma tomada de partido contra o leitor para corrigir a perspectiva dele (leitor), assumindo a própria (do narrador) como correta. Se, ao refletir sobre os narradores de Thomas Mann, Adorno afirma que “o autor, com o gesto irônico que revoga seu próprio discurso, exime-se da pretensão de criar algo real” (2003, p. 60), em Elite da tropa, ao tentar
“revogar” um pouco a autonomia de julgamento do leitor, o narrador faz justamente o
contrário: afirma com muita força a pretensão de estar dizendo o real64.
Essa “correção de perspectiva” não acontece apenas quando o narrador tenta
surpreender o leitor com uma imagem de policial militar com formação superior e certa erudição, mas também quando acusa o leitor (estendendo algumas das acusações a toda população) de estar alienado em relação ao que realmente se passa no ringue da violência em sua cidade:
A população reclama da gente porque acha que é muito fácil manter a ordem na cidade. Mal sabe que, enquanto o jantar está sendo saboreado em família, na frente
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O narrador de Elite da tropa evoca constantemente suas “credenciais” intelectuais, ressaltando sua formação universitária e seu conhecimento de literatura, filosofia e línguas estrangeiras, de modo a dizer que a imagem do policial militar como alguém ignorante e sem formação não corresponde necessariamente à realidade. Esse dado é muito interessante se comparado à figuração do policial nos livros de García-Roza, que analisaremos no próximo capítulo.
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No prefácio, os autores reivindicam certo teor testemunhal, afirmando que os relatos são ficcionais mas que “se, por acaso, nossa imaginação se equiparar ao que efetivamente acontece, talvez isso decorra do fato de termos escrito este livro a partir das nossas experiências, e de termos vivido, cada um à sua maneira, a realidade da segurança pública do Rio de Janeiro” (SOARES et al., 2006, p. 11). A isso, somam-se outros elementos que contribuem para uma associação direta à realidade histórica, que vão desde um narrador em primeira pessoa como estratégia persuasiva, a relação íntima com o fato narrado, a exposição do texto na forma de relatos e o uso de fatos verídicos, que contribuem no sentido de convencer o leitor sobre a veracidade da perspectiva (conforme BRITO e SCHOLLHAMMER, 2009, p. 2 e 3). Além do mais, sugiro reparar na interessante frase que anuncia o filme Tropa de Elite em seu cartaz de divulgação: “uma guerra tem muitas versões. Esta é a verdadeira” (anexo E).
da televisão, no conforto do lar, do outro lado, no submundo, muito sangue está correndo, o nosso e o dos vagabundos. (SOARES et al., 2006, p. 39)
Mas o fato é que, quando você convive com a morte todo dia, toda noite, quando sabe que é matar ou morrer, enquanto você sobrevive, a sensação é de vitória sobre a morte, uma espécie de vôo rasante sobre o precipício. Se você quiser chamar isso de onipotência, tudo bem. Eu queria ver você passar por essa experiência. Seria interessante verificar se seus conceitos não mudariam um pouquinho. (SOARES et al., 2006, p. 42)
Além do endereçamento direto ao leitor, buscando passar algum tipo de “lição
corretiva”, percebe-se, principalmente noúltimo excerto citado, a exploração da violência e da
convivência com a morte na forma de experiências transformadoras, utilizadas como estratégias de convencimento, de maneira a conferir credenciais ao narrador para falar com propriedade da matéria narrada, e reforçando a intenção de darrealidade ao discurso. Cria-se, assim, a ideia de uma perspectiva narrativaque pretende ganhar valor a partir do ponto de vista interno à experiência, tida como “a perspectiva correta” (em meio à guerra de relatos e perspectivas distintas) por ser baseada na vivência pessoal, no testemunho65. A isso associa- se, no livro, a constante imagem deuma cidade partida66, e a figura do policial aparece como elemento de travessia (seria esse o termo correto?) entre os dois mundos. Segundo o narrador (SOARES et al., 2006, p. 42), ao vestir a farda do BOPE, o policial está saindo da cidade do Rio de Janeiro e entrando em outra dimensão: o inferno da guerra.
A cidade só tangenciava essa outra dimensão, essa outra versão de si mesma, quando uma bala perdida atravessava as fronteiras. No mais, carregava sua sombra como o peregrino traz no ombro a sua cruz, sentindo-lhe o peso e intuindo-lhe o tamanho, sem olhá-la de frente para conhecer sua forma e compreender sua natureza. (SOARES et al., 2006, p. 42)
Há, aí, um reconhecimento enunciado de uma outra forma de vivência da cidade do Rio de Janeiro como uma cidade violenta e em guerra. A Cidade Maravilhosa, assim, é colada à suacontra-face sombria de corrupçãoe crime organizado, engendrados num mecanismo que produz a guerra urbana entre facções criminosas rivais e corporações policiais. O alheamento da cidade em relação a essa sua sombra é apenas garantido à custa do trabalho arriscado do policial que, por sua vez, ao tirar a farda, sai do “inferno da guerra” e retorna (ou tenta retornar) ao que quer que seja a vida normal, atravessando as fronteiras. Ao
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Algo parecido ocorro em relação aCidade de Deus e seu autor, Paulo Lins. Em Elite da tropa, porém, o uso do ponto de vista interno como forma de legitimar e conferir maior valor de verdade ao discurso é trazido pelo próprio narrador em primeira pessoa.
66 Cabe lembrar que a imagem de uma cidade ou país partido é recorrente na produção cultural a respeito. Observe-se, por exemplo, o que diz Celso Athayde na página 33 de Cabeça de Porco: “nossa pesquisa poderia, quem sabe, apresentar um Brasil ao outro” (SOARES et al., 2005, grifos meus).
contrário das personagens de Cidade de Deus, confinadas na periferia, no miolo da guerra, e raras vezes em contato com a paz das regiões onde a civilidade é garantida, o policial pode transitar nos dois mundos e, algumas vezes, pela impossibilidade de desvencilhar-se da guerra mesmo após cruzar as fronteiras em direção à normalidade, chega a amalgamá-los em imagens que concentram, ao mesmo tempo, características das duas realidades (a cidade e a sombra). Como quando, ao visitar o necrotério no dia seguinte a um tiroteio, o narrador
reflete: “eu me senti numa gruta sombria, estuário secreto dos rios que fluem no subterrâneo da cidade. Ela continua a fazer barulho, alheia ao subsolo” (2006, p.30).