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Calvin (1997, p.115) arrola sobre o “darwinismo neuronal”, uma teoria que, também, elucida questões circundantes à percepção sinestésica e enfoca, sobremaneira, as idéias de Peirce sobre o evolucionismo. Ele expõe que uma máquina darwiniana deve possuir algumas propriedades fundamentais, como: um padrão, que, classicamente, é a cadeia de bases de DNA ou gene; as cópias constituídas a partir desse padrão (as células se dividem e a seqüência de genes no DNA é copiada de modo semiconfiável); a possibilidade de mudança dos padrões; as competições entre as cópias pela ocupação de um espaço ambiental limitado; a influência dos fatores ambientais no sucesso e a predominância de algumas variantes mais adequadas (seleção natural), e a sobrevivência das variantes mais adequadas e suas apostas reprodutivas. Porém, Calvin (1997, p.115-116), ao explanar sobre a máquina darwiniana, adverte que esse padrão pode ser concebido por outro ângulo, ou seja, como um padrão cultural, evocando, então, o conceito de “meme”, apontado por Richard Dawkins, em O gene egoísta. A noção de padrão, segundo o mesmo pesquisador, pode, inclusive, remeter-se aos padrões de atividade cerebral, associados ao processo de se pensar uma idéia.

Considerando, portanto, essas duas últimas concepções de padrão, diante das questões sinestesiológicas, salientam-se relevantes proposições: a existência de padrões convencionais, gerados no seio de uma determinada cultura, pode incidir sobre a percepção sensorial humana, que, por sua vez, estabelece esquemas sensoriais esculpidos conforme essa mesma modelagem. Na percepção sensorial, estão, logicamente, envolvidas as vias sensórias responsáveis pela apreensão dos estímulos, mas é o cérebro que, ao processar essas impressões e sensações, organiza tudo em padrões sensoriais. Assim sendo, pode-se

propor uma relação entre os padrões culturais e os padrões de atividade cerebral. O ambiente externo pode provocar, reivindicar mudanças no processamento interno das apreensões sensoriais. De certa forma, essa reflexão remete ao que, na teoria peirceana, pontua-se como ananquismo. Porém, a replicação desses padrões pode dar-se não por forças ananquistas internas ou externas, mas pelo acaso, pela arbitrariedade da mente, rumando, então, para uma variação. Essa variação casual traz à tona a evolução tiquista (também enfocada por Peirce), garantindo a diversificação por meio das novas variantes, surgidas como cópias de um padrão.

No caso da condição sinestésica, os fatores condicionantes do cultural podem provocar a anestesia do diálogo entre os sentidos, porém, pelo continuum sinequista, a percepção sinestésica original pode ser despertada a qualquer momento pela aleatoriedade tiquista ou, quem sabe até, por novas facetas impressas no ambiente cultural (novos fatores ananquistas que forcem a geração de diferenciadas organizações no processamento sensorial). Essas novas sintaxes sensoriais, engendradas a partir de um padrão, competem por espaço, a fim de se estabelecerem em áreas de trabalho cerebrais. A partir dessa ação competitiva entre as réplicas (ou variantes), pode ocorrer o descarte de padrões menos usuais ou desnecessários e o fortalecimento de alguns outros, vistos como vantajosos, adequados ou confortáveis, no que diz respeito à adaptabilidade ao ambiente natural ou cultural. Dessa forma, é possível vislumbrar a possibilidade de uma mudança dos padrões habituais em decorrência da ocupação e aco modação das variantes bem-sucedidas. Nesse ponto, é possível entrever uma oportunidade de os padrões sinestésicos, surgidos em meio a essas variantes (de modo fortuito, tiquista, ou por necessidade imposta pelo meio, requisição ananquista), competirem por espaço e, por conseguinte, firmarem-se como variantes de sucesso.

É, ainda, válido apontar que o surgimento de cópias, a partir de um padrão, remete ao amor criador e evolutivo, preconizado pelo agapismo. Calvin (1997, p.116) expõe que “muitas variantes novas serão piores do que a média dos progenitores, mas algumas podem ser ainda mais ‘aptas’ para enfrentar o conjunto de características do meio ambiente”. Logo, vê-se a ponte entre a idéia do amor que acolhe o ódio e o entende como uma parte degenerada de si, expressa no artigo Amor Evolutivo (Peirce), e a replicação de cópias melhores ou piores do que o padrão que as originou. Assim, percebe-se que, pela simpatia e amor criador, há uma espécie de acolhimento e afecção, mobilizando-se em direção a um aprimoramento.

O agapismo, intrinsecamente relacionado à idéia de continuidade sinequista, pode ser um fator legitimador da protopercepção sinestésica e, paradoxalmente, responsável pelo acolhimento dos padrões sensoriais segmentados, não sinestésicos. É cabív el inferir que, de uma matriz sinestésica original, surjam réplicas sensoriais melhores e piores e, que, pelo amor criador e acolhedor, recebam todas elas acomodação. Não cabe, de acordo com a doutrina agapista, a aplicação da “fria justiça” sobre as idéias débeis nem sobre as sintaxes sensoriais fracionadas. Ao contrário, pressupõe-se, no agapismo, o empenho regenerador ou reabilitador desses padrões inferiores mediante o amor evolutivo. Nessa trajetória evolutiva, por vias agapistas, tem-se, em suma, a possibilidade de retomada da condição sinestésica original. Sob seu caráter acolhedor, esse princípio evolutivo guarda as diversas sintaxes sensoriais, entre elas, a matriz sinestésica primordial, e, ainda que intuitivamente, persegue - a como meta de aprimora mento da percepção sensorial.

Calvin (1997, p.117), sobre a plasticidade cerebral, em virtude da versatilidade dos processos mentais, complementa:

[...] foi necessário um século para que os cientistas percebessem que os padrões de pensamento também podem necessitar ser copiados repetidamente e que cópias de pensamentos podem precisar competir com cópias de pensamentos alternativos em ‘ilhas’ durante uma série de ‘mudanças climáticas’ mentais para evoluir rapidamente, transformando-se em uma suposição inteligente.

Com essa afirmação, nota-se a idéia de cópias de pensamento, mas cabe acrescer que, nesse conceito de cópia, já se imprime a noção de variação; os pensamentos não poderiam reproduzir-se de modo idêntico, inclusive se considerado o processo dentro de uma mesma mente, pois é necessário que se concebam as variações relativas ao estado de consciência, ao espaço-tempo, entre outros elementos passíveis de mudança. Mas, note-se que esse curso, apontado para o pensamento, aclara o entendimento de qualquer processo mental e embasa, principalmente, o processamento das impressões, emoções e sensações no cérebro. Considere-se a existência de esquemas sensoriais especializados e monológicos, na seqüência, o surgimento de esquemas sensoriais concorrentes, co municantes e sinestésicos; admita-se, então, que eles concorrem entre si, impondo um espectro de possibilidades sensoriais; nessa corrida, alguns se sobrepõem e se estabelecem como novos padrões, enquanto outros podem ficar armazenados, aguardando sua chamada. A esse respeito, observe o trecho que abaixo segue:

Para lidar com o novo, precisaremos de alguns tipos empíricos de organização [...], formas que são usadas temporariamente e depois desaparecem. Às vezes, essas formas de organização são trazidas novamente à vida se algum de seus aspectos deixou anteriormente ‘sulcos’ suficientes no cenário das intensidades de interconexão - e, nesse caso, a organização empírica tornou-se uma memória nova ou hábito (CALVIN, 1997, p.133).

Desse modo, pode-se propor que áreas de trabalho temporárias do cérebro rascunham, esboçam novas articulações, sendo que algumas delas podem ser consideradas

úteis, eficientes, confortáveis e até vantajosas. Quanto à condição sinestésica, pode-se propor que os novos padrões que propõem o diálogo entre as modalidades sensoriais sejam captados pelo cérebro como ajustados e adequados aos estímulos apreendidos nas entradas da percepção (órgãos sensoriais), ganhando, portanto, espaço para sua acomodação. As apostas reprodutivas dessas variantes, cuja tendência é passar as mesmas características à sua “descendência”, podem explicar, por exemplo, o fenômeno da sinestesia múltipla, abordado no primeiro capítulo.

Finalizando a explanação sobre a teoria do darwinismo neuronal, transcreve-se, a seguir, um trecho, que revela a criatividade, a arbitrariedade e a busca qualitativa dos processos mentais:

E o melhor de tudo é que uma vez que as variantes podem replicar seu caminho até o sucesso temporário, a colcha de retalhos é criativa - ela pode ser transformada a partir de origens simples em algo de qualidade. Mesmo as formas superiores de relações, tais como as metáforas, parecem prováveis de surgir, pois os códigos cerebrais são arbitrários e capazes de formar novas combinações (1997 p.157).

Com vistas à aplicabilidade das idéias tratadas neste capítulo, debruça-se, na parte subseqüente, sobre a comunicação sinestésica midiática, rastreando suas implicações na aquisição, manutenção e mudança de hábitos, assim como suas influências sobre a percepção sensorial humana à medida que propõe, através de seus estímulos híbridos, novos modos de sentir.

C

apítulo V

Benzer Belgeler