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Em um dos capítulos citei o conceito de tática desenvolvido por Certeau (1998) para compreender alguns dos mecanismos utilizados pelos professores para driblar o sistema de avaliação que foca resultados e não processo. Conforme ressaltei anteriormente, as táticas são nada mais que ações calculadas com o

momentos oportunos para desenvolver novas ações, sem, contudo, deixar de cumprir as que lhe foram exigidas.

Nesse âmbito, destaco algumas ações realizadas pelos gestores e

Tais ações vão desde o treino de atividades que se assimilam às questões apresentadas no SARESP ao treino do gabarito para tal avaliação. Também a própria Diretoria de Ensino faz uso de avaliações com estrutura semelhante à do SARESP e que é aplicada em todas as escolas da Diretoria. Essas avaliações ocorrem bimestralmente e por meio delas é possível, além de treinar, diagnosticar o andamento de cada uma de suas escolas.

são palpáveis, o professor consegue visualizar o resultado individual de cada aluno e assim fazer as intervenções necessárias.

E: Há alguma mudança nas práticas escolares e avaliativas em função do SARESP? Alguma que tenha te chamado a atenção?

Prof. Well: Sim. As avaliações diagnósticas voltadas para o

SARESP, sempre ajudam nas intervenções e melhorias. Principalmente porque essas sim a gente vê ali o que o aluno errou o que ele acertou e o que precisa trabalhar mais. Se o SARESP fosse assim, ia nos ajudar bastante!

E: Qual o grau de receptividade dos alunos em relação a essa avaliação no seu ponto de vista?

Prof. Well: Adolescente não gosta de imposições. As eleições estão

chegando, quantas vezes não ouvimos reclamações sobre a obrigatoriedade do voto.

Essa é a questão, avaliar somente alunos que querem ser avaliados, os demais devem ser colocados sim na estatística. É preciso pensar nisto.

E: Como assim na estatística?

Prof. Well: Tipo quantos realizaram, quantos tem e porque fulano de

tal não quis fazer a prova, se o aluno não quer ser avaliado não adianta, ele vai fazer de qualquer jeito.

E: E você acha que se fosse desse jeito teria aluno que queria ser avaliado?

Prof. Well: Tem, claro que tem, tem gente que gosta de medir seu

desempenho, se sente desafiado, depois quem quer seguir os estudos sabe que é importante ter um bom desempenho pro seu futuro. Acho que é o aluno que tem que ver sentido sabe, não a gente, não adianta ficar falando, falando...

(EN- Well)

O professor em questão destaca alguns pontos da avaliação que merecem ser analisados com mais calma, primeiramente porque ao adentrarmos ao campo dos sentidos produzidos pelos sujeitos, compreendo que o sentido da avaliação para este professor está na possibilidade de verificação da aprendizagem. Esse é um conceito de avaliação destacada por Luckesi (2008) a que chamou de avaliação formativa, como o próprio nome da avaliação citada por pelo professor diz, é uma avaliação diagnóstica. Nesse ponto, o próprio nome da avaliação proposta pela diretoria de ensino tira o peso da avaliação em si para os professores, uma vez que ela pode orientar a prática do professor em sala. Porém, a certo ponto, o professor se mostra contrário a avaliação como algo imposto, ele acredita que só deveria ser avaliado quem quisesse como se a avaliação fosse um instrumento apenas para analisar o desempenho dos alunos. Assim, aqueles que não tivessem pretensão nenhuma para o futuro não teriam a necessidade de serem avaliados, não veriam

sentido nisso. Essa fala desarticula o processo de avaliação do processo de ensino/aprendizagem.

Na fala da Prof. Lúcia transcrita abaixo, podemos entender que mesmo em uma avaliação a fim de cumprir outro propósito como classificar as escolas é possível promover outras aprendizagens colocando-as não apenas em momentos específicos para treinar, mas incorporar no currículo. Além disso, a própria seleção de material, conteúdos estimula a preparação das aulas dos professores fazendo com que eles reflitam sobre o que vão ensinar.

E: Você utiliza os dados do SARESP com a sua turma?

Prof. Lúcia: Muitas questões utilizadas no SARESP me ajudam a

norteiar os conteúdos a serem desenvolvidos, há questões boas pra trabalhar no dia-a-dia, dá pra desenvolver sim.

(EN- Lúcia)

Também é possível verificar o uso dessas táticas em uma passagem do livro reflexivo escrito pelo professor de arte da escola que chamarei aqui pelo nome

O uso de macetes é muito comum em cursinhos pré-vestibulares e estes estão mais relacionados a decorar conteúdos do que se apropriar deles, porém isso não significa que os professores não estejam ensinando, apenas preparando os alunos para uma avaliação específica que altera a rotina da escola.

Quanto aos alunos que frequentam a sala de recurso, a solução encontrada pelo grupo foram os treinos no gabarito, como ressalta a professora de atendimento educacional especializado:

E: Vai chegar o fim do ano e eles vão fazer o SARESP, e nesse dia você pode ajudá-los?

Prof. Rita: Não pode, o ano passado o que eu consegui com eles

assim, foi bastante treino no gabarito, eu imprimi porque as vezes assim eles se perdem na hora de passar a limpo, então as vezes, tá certo e ainda passa errado, então eu fiz esse treino com eles, a maioria até que foi, depois falaram que não precisava mais pintar, podia ser x, só que assim, o ano passado eu estava entrando na sala aí a PCNP perguntou onde que eu tava indo, porque até então o único que poderia entrar na sala seria o professor de recurso para acompanhar aquele aluno com dificuldade. Só que a dificuldade era só se fosse física, mas na parte da D.I eu fui barrada, eles fizeram a prova eu nem sei como...

(EN- Rita)

Como descreve Certeau (1998) sobre o uso das táticas, esta depende do no andamento das aulas, a professora da sala de recurso descobre a dificuldade que os seus alunos tem em preencher gabaritos, então utiliza como tática seu

se ganha não o guarda, tem constantemente que jogar com os acontecimentos para transformá-

Foi nesse ponto que a tática falhou, pois mudou a forma de preenchimento do gabarito, o que pode ter causado uma confusão na cabeça dos alunos que estavam condicionados a pintar a bolinha do gabarito.

Outra questão que salta aos olhos nesse trecho da entrevista é sobre a proibição da presença da professora de AEE no momento da realização do SARESP. Essa questão não pode ser tratada nem como uma tática, mas como um direito violado. Se o aluno necessita de atendimento especializado, porque no momento da avaliação ele deveria estar sozinho. Essa ação rejeita o que Vigotski chamou de ZDP (Zona de Desenvolvimento Proximal), a ele é dada a função de mediar a aprendizagem dos alunos em uma relação de interdependência entre os envolvidos nesse processo.