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O surgimento da retórica está relacionado a uma necessidade pragmática: resolver conflitos judiciários na Sicília grega após a expulsão dos persas da região. Segundo Reboul (2004), à guerra civil seguiram-se inúmeros conflitos judiciários da parte dos cidadãos gregos que reclamavam seus bens do governo local. Tal situação levou Córax, discípulo do filósofo Empédocles, juntamente com o seu discípulo Tísias, a publicarem uma “arte oratória” (tekné rhetoriké) que pudesse dar meios aos litigantes de defender suas causas. A coletânea reunia preceitos práticos e exemplos para que as pessoas comuns pudessem recorrer à justiça em busca dos seus direitos. Assim, o primeiro manual de retórica, surgido por volta de 465 a.C. na Grécia Antiga, define-a como “técnica criadora de persuasão”.

Posteriormente, mais precisamente por volta de 329 e 323 a. C., Aristóteles redefine a retórica como a “arte de persuadir”, isto é, como “(...) a capacidade de descobrir o que é adequado a cada caso com o fim de persuadir” (ARISTÓTELES, 2005, p. 95). Isso permitiu que a retórica fosse inserida em um quadro de tratamento teórico e sistemático, bem como ocupasse um lugar no cenário da antiga polis grega, estabelecendo, com isso, uma utilidade para a mesma no seio das atividades humanas: a retórica, até aquele momento, vinha sofrendo de um certo descrédito devido ao fato de ela lidar, não com a verdade científica, mas com o verossímil e com o plausível.

A Retórica de Aristóteles fez mostrar que as atividades e o conhecimento humano são organizados por meio de dois tipos de questões: por um lado, há aquelas de ordem

35 estritamente científica e exata e que exigem procedimentos próprios para demonstrar que tal questão é verdadeira; por outro lado, há aquelas de ordem estritamente verossímil e plausível e que exigem procedimentos de outra natureza para argumentar, com o intuito de persuadir, estando tal questão mais próxima daquilo que é admitido pelo bom senso social. Assim, como aponta Amossy (2000, p. 3):

[d]entro da concepção descendente de Aristóteles, a retórica aparece como uma fala destinada a um auditório que ela tenta influenciar submetendo-o a posições suscetíveis de o parecer razoáveis. Ela se exerce em todos os domínios humanos onde é preciso adotar uma opinião, tomar uma decisão, não sobre a base de qualquer verdade absoluta fora de valor, mas fundamentando-se nisso que parece plausível (...). O verossímil e a opinião constituem assim o horizonte da retórica. Eles foram frequentemente considerados como sua maior fraqueza: eles que a situam fora do ciclo da verdade. Eles constituem em verdade o princípio de sua força. Eles permitem raciocinar e comunicar em função de normas de racionalidade dentro de numerosos domínios onde a verdade absoluta não pode ser garantida. (AMOSSY, 2000, p. 3) [tradução nossa]10.

Portanto, a partir de Aristóteles, fica estabelecida a distinção entre Demonstração e Argumentação e o respectivo domínio de ambos os procedimentos. No interior dessa distinção, a argumentação está, nas palavras de Reboul (2004), a meio caminho da ignorância pura e simples e da demonstração científica, constituindo-se como um método de pesquisa e prova que está entre o necessário e o arbitrário, sendo um dos pilares da retórica.

Essa ideia de persuadir o outro, de levar alguém a crer em alguma coisa, de levar o auditório a partilhar um determinado ponto de vista através do discurso, constitui a principal característica da argumentação retórica, sendo, portanto, o principal fundamento desse tipo de abordagem. Podemos dizer, então, que, na retórica aristotélica, o discurso tem uma força que é exercida no interior das trocas verbais, ao curso das quais os homens conduzem seus semelhantes a partilhar suas visões sobre o que parece plausível e razoável, em função dos lugares comuns (topos) que eles compartilham e sobre o qual o discurso se apoia para se fazer valer.

Em suma, podemos concluir, juntamente com Amossy (2000, p.3), que a retórica, no interior da tradição aristotélica, se define:

10 No original: « Dans la conception issue d’Aristote, la rhétorique apparaît comme une parole destinée à

un auditoire qu’elle tente d’influencer en lui soumettant des positions suscepitbles de lui paraître raisonnables. Elle s’exerce dans tous les domaines humains òu il s’agit d’adpoter une opinion, de prendre

une décision, non sur la base de quelque vérité absolue nécessarement hors de portée, mas en se fondant ce qui semble plausible.(...) Le vraisemblable et l’opinable constituent ainsi l’horizon de la rhétorique. Ils ont souvent été considérés comme se faiblesse majeure : c’est qu’ils situent en dehors du cercle de la vérité. Ils constituent en realité le principe de sa force. Ils permettent de raisonner et de communiquer en fonction de normes de rationalité dans les innobrables domaines où la vérité absoule ne peut être garantie. »

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1) como um discurso que só existe dentro de um processo de troca verbal, na

qual o locutor leva em conta esse à qual ele se dirige. Nesse sentido, falar/escrever é comunicar;

2) como uma atividade verbal que, através do discurso, visa agir sobre os

demais. O dizer é, portanto, um fazer;

3) como uma atividade verbal calcada na razão e que se endereça a um auditório

capaz de raciocinar;

4) como um discurso construído a partir de técnicas e estratégias argumentativas

com a finalidade de persuasão. Aqui, falar é um mobilizar recursos linguísticos em um conjunto organizado e orientado.

Todavia, o sistema retórico aristotélico previa que o discurso, além do caráter lógico e racional que o constitui e do qual mencionamos acima, é interceptado por outras duas categorias: falamos aqui do ethos e do pathos. Aristóteles (2005) aponta que:

[a]s provas de persuasão fornecidas pelo discurso são de três espécies: umas residem no caráter moral do orador; outras, no modo como se dispõe o ouvinte; e outras, no próprio discurso, pelo o que ele demonstra ou parece demonstrar. (ARISTÓTELES, 2005, p. 96).

Portanto, na retórica aristotélica, o orador pode se valer de três tipos de provas para persuadir o seu auditório: ele pode utilizar de provas que residem no próprio discurso, pelo que ele demonstra o parece demonstrar, o logos; ele pode também utilizar de provas que residem no caráter moral do orador, o ethos; ele pode ainda se valer de provas que residem no modo como ele dispõe o seu ouvinte, o pathos. Assim, logos, ethos e pathos constituem os três polos do empreendimento persuasivo: o logos está relacionado ao discurso, o ethos ao orador e o pathos ao auditório.

Nesse contexto, percebemos que o ethos diz respeito ao caráter que o orador deve assumir para inspirar confiança no auditório, pois “(...) acreditamos mais e bem mais depressa em pessoas honestas (...)” (ARISTÓTELES, 2005, p. 96). O pathos é definido como o conjunto de emoções, paixões e sentimentos que o orador deve suscitar no auditório através do seu discurso. Já o logos diz respeito à argumentação propriamente dita do discurso, correspondendo ao aspecto dialético da retórica.

37 No que concerne à persuasão pela disposição dos ouvintes, ou seja, ao pathos, Aristóteles (2005) explica que:

[p]ersuade-se pela disposição dos ouvintes, quando estes são levados a sentir emoção por meio do discurso, pois os juízos que emitimos variam conforme sentimos tristeza ou alegria, amor ou ódio. É desta espécie de prova e só desta, dizíamos, se tentam ocupar os autores actuais das artes retóricas. (ARISTÓTELES, 2005, p. 97) [grifos nossos].

Pelos apontamentos de Aristóteles (2005), observamos que no que diz respeito ao pathos, assim como para o ethos, esses são materializados no discurso, isto é, a emoção que o orador deseja suscitar no auditório se faz via discurso (logos). Assim, sob a óptica de Aristóteles, o discurso é meio pelo qual o orador tem condições de agir sobre o auditório, suscitando nesse último emoções ou estados emotivos variados.

Segundo Amossy (2000), o termo “pathos” designa as emoções que o orador tem interesse de conhecer para agir eficazmente sobre os espíritos. Nesse sentido, a retórica aristotélica consagra um livro inteiro a essa questão do pathos (o Livro II da Retórica), examinando os diferentes tipos de paixão sobre três aspectos principais: a) o estado de espírito que as experimenta, b) a categoria de pessoas que se deseja tocar e c) o motivo (finalidade) pelo qual se utiliza essas paixões. Em outras palavras, o orador que deseja convencer seu auditório, valendo-se do pathos como uma prova de persuasão, deve conhecer as emoções de base – a cólera e a calma; a amizade e o ódio; o temor e a confiança; a vergonha; a obrigação; a piedade e a indignação; a inveja e a emulação –, deve também conhecer o seu auditório e deve ainda inseri-las na finalidade da situação de argumentação.

Portanto, o empreendimento aristotélico não corresponde a uma taxonomia das emoções, mas a um estudo das “emoções de base” que contribuem para a convicção.

O ponto de vista retórico-aristotélico sobre a emoção, o nosso pathos, serve de base para a teorização da emoção sob um enquadramento discursivo no âmbito da Teoria Semiolinguística do Discurso, a base teórico-metodológica de nosso trabalho. Assim, na seção abaixo, apresentaremos os postulados de Charaudeau (2000) a respeito da emoção e do fenômeno discursivo da patemização no que diz respeito à perspectiva adotada pela autor.

Benzer Belgeler