Como indicado no capítulo do Método, seis dos fatores ambientais (oportunidade para exercer controle sobre o meio, clareza ambiental, variedade, oportunidade para utilização dos conhecimentos e capacidades pessoais, segurança física e oportunidade para estabelecer relações interpessoais) estão sendo sinteticamente avaliados, tomando-se como indicadores os fatores da EOCRT – Organização, Condições e Relações Sociais do Trabalho – e para os demais fatores ambientais do modelo ecológico de saúde mental tomam-se como indicadores: disponibilidade econômica, objetivos gerados pelo meio e posição social valorizada. Por isso, organizou-se a apresentação dos resultados nesta subseção começando pelos resultados na EOCRT e depois passando para os últimos três fatores ambientais do modelo.
4.2.1. Resultados nos fatores da Escala de Organização, Condições e Relações de Trabalho
Quatro são os fatores ambientais do modelo ecológico de saúde mental sintetizados no fator (empírico) Organização do Trabalho da EOCRT, quais sejam: “oportunidade para exercer controle sobre o meio”, “clareza ambiental”, “variedade” e “oportunidade para utilização dos conhecimentos e capacidades pessoais”. As respostas ao conjunto desses fatores (Tabela 20) revelaram que 67,5% (M = 3,39) indica que os requisitos (itens) de
uma organização desejável estão freqüentemente presentes no trabalho, atribuindo escores entre 3 e 4 (escala de freqüência de 1 a 5) e 10% indica que tais requisitos estão sempre (ou quase sempre) presentes, obtendo escores no fator superiores a 4. Dessa forma, os participantes tendem a perceber de maneira positiva a organização do trabalho.
No que tange ao segundo fator, “Condições do trabalho”, tomado como indicador do fator ambiental – segurança física –, os escores indicaram que os bancários (70,5%) percebem o ambiente de trabalho como seguro, pois apresentam escores a partir de 3, indicando que os requisitos de boas condições estão de freqüentemente a sempre presentes.
No fator “Relações Sociais de Trabalho”, que analisa um fator ambiental – oportunidade para estabelecer relações interpessoais – observa-se a predominância dos escores individuais entre os níveis intermediários da escala, apresentando a menor média (M = 3,12) em relação aos outros dois fatores citados. Os requisitos de adequadas “Relações Sociais de Trabalho” estão presentes de raramente a às vezes para 41% da amostra. Assim, as formas de relações interpessoais que se estabelecem são percebidas como razoáveis entre a população estudada.
Tabela 20
Escores do resultado da EOCRT
Freqüência de participantes por intervalo
FATORES N Média x<2 2<x <3 3<x <4 x >4 Desvio- padrão Organização do trabalho 200 3,39 2,0% 20,5% 67,5% 10,0% 0,56 Condições do trabalho 200 3,39 1,5% 28,0% 56,0% 14,5% 0,69 Relações de trabalho 200 3,12 3,0% 41,0% 52,0% 4,0% 0,58
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4.2.2 – Disponibilidade econômica
O fator “Disponibilidade Econômica” foi avaliado a partir de duas questões: uma nominal (solicitando as principais fontes de renda do bancário) e uma escala contínua (tipo de atividades que o bancário deixava de fazer no dia a dia, devido à falta de dinheiro). Na escala nominal, foram perguntados quais as suas principais fontes de renda.
Assim, observa-se (Tabela 21) que a maioria da amostra, 187 pessoas (N = 200), tem a principal fonte de renda no salário estável, o que corresponde a 93,5% da amostra.13 A segunda maior fonte de renda encontrada é proveniente das rendas do cônjuge, correspondendo a 24,0% dos respondentes, e a terceira maior (19,0%) corresponde às próprias economias.
Tabela 21
Escores sobre principais fontes de renda
Principais fontes de renda Freqüência Percentual dos casos
(N = 200)
1. Salário de um trabalho estável 187 93,5%
2. Rendas do cônjuge 48 24,0%
3. Minhas economias 39 19,5%
4. Dinheiro proporcionado pelos pais/familiares 25 12,5% 5. Ganhos com trabalhos ocasionais sem contrato de trabalho 14 7,0% 6. Ganhos obtidos em uma empresa ou negócio próprio 12 6,0%
7. Outras fontes 11 5,5%
A escala contínua explora o quanto o indivíduo tem renunciado realizar atividades do dia-a-dia devido à falta de dinheiro. A escala vai de 1 a 4, sendo que 1 (com
13 Esse resultado não anula os demais, pois a fonte de renda pode ser proveniente tanto do salário como
freqüência) está indicando que com freqüência renuncia às atividades devido à escassez de dinheiro; 2 (às vezes), indicando renunciar algumas vezes às atividades do dia-a-dia devido à falta de dinheiro; 3 (nunca), demonstrando que nunca renunciam às atividades devido à falta de dinheiro, ou seja, sempre estão disponíveis economicamente e 4 (não se aplica), designando os casos em que o indivíduo ou não realiza determinada atividade ou não precisa de dinheiro para realizá-la. As maiores freqüências (Tabela 22) indicaram que 121 participantes, correspondendo a 60,8% (N = 200) da amostra, responderam que às vezes renunciam realizar atividades do dia-a-dia que dependam do dinheiro e 62 (31,2%) responderam que nunca renunciam. As menores freqüências correspondem aos casos dos indivíduos que responderam marcando a alternativa ‘não se aplicam’, totalizando em 7 (3,5%) participantes e aos que renunciam com freqüência a realizar atividades devido à escassez de dinheiro, num total de 9 (4,5%). A média encontrada foi de 2,32. Assim, observa-se que, apesar da maioria concentrar-se entre aqueles que às vezes renuncia a alguma atividade devido à escassez do dinheiro, verifica-se que a prevalência é maior entre os que nunca renunciam em relação aos que com freqüência renunciam. É preciso considerar adicionalmente que para as pessoas se perceberem renunciando a alguma coisa, é necessário que a tenham tido em um momento anterior ou que tenham aspiração de a possuir. Em outras palavras, a noção de renúncia aqui se vincula às aspirações de consumo que não foram mensuradas. De qualquer forma, desprezando as razões que levam a isso, destaca-se aqui que o bancário se avalia numa situação econômica razoável, tendo em vista a pouca concentração de respondentes no escore 1 da escala e a maior tendência entre os níveis 2 e 3, considerados razoável e bom.
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Tabela 22
Escores acerca da renúncia a realizar atividades do dia a dia devido à escassez de dinheiro.
Freqüência de participantes por intervalo
Fator N Média X<1,5 1,5<x <2,5 2,5<x <3,5 x >3,5 Desvio- padrão Disponibilidade Econômica 199 2,32 9 121 62 7 0,62 4,5% 60,8% 31,2% 3,5%
4.2.3. Objetivos gerados no meio
Este fator ambiental foi avaliado a partir de um item isolado que explora se os objetivos e metas da organização onde se trabalha são relevantes. A escala vai de 1 a 5 (tipo Likert), sendo 1 correspondente a “Pouco/Quase nada” e 5 a “Muito/Bastante”. Dentre os resultados (Tabela 23), destaca-se que 90,5% (somatório entre as duas últimas freqüências da Tabela 23) aponta para o indicativo de que os objetivos são relevantes, que se percebem com objetivos gerados pelo meio organizacional.
Tabela 23
Escores do resultado sobre Objetivos gerados no meio
Freqüência de participantes por intervalo FATOR N
x<2 2<x <3 3<x <4 x >4 Objetivos gerados no meio 197 3,0% 24% 64,5% 26,0%
4.2.4. Posição social valorizada
Por fim, o último fator ambiental avaliado foi a posição social valorizada, que explora quanto o indivíduo sente-se valorizado na sociedade no que compete ao papel social que desempenha. Para avaliar este fator ambiental, foi aplicada uma escala do tipo
Likert (escores de 1 a 5), em que, a partir de uma frase (O trabalho me proporciona categoria e prestígio) o indivíduo marcava para menos, próximo de 1, (se se identificava pouco ou quase nada com a frase) ou para mais, próximo de 5, (se se identificava muito ou bastante com a frase). Assim, dentre os resultados encontrados (Tabela 24), verifica-se que o bancário, a despeito do que a literatura aponta sobre a perda de valorização que a categoria tem experimentado durante alguns anos para cá, muitos continuam percebendo- se numa posição valorizada socialmente. A Tabela 24 revela que há 128 pessoas (somatório entre escores 4 e 5, sendo N = 198), representando 63% da amostra, que se encontram entre os níveis alto (nível 4) e muito alto (nível 5) da escala que vai de 1 a 5. Por outro lado, o número dos que se encontram numa posição intermediária (48) não é desprezível, representando 24% da amostra, e os que não se sentem socialmente valorizados (22), o que representa 11% da amostra. Dessa forma, os bancários tendem a avaliar em um nível de moderado a positivo a posição social valorizada na sociedade. É preciso considerar que no mesmo momento histórico que a literatura consultada aponta uma queda na valorização do trabalho bancário, ocorreu também uma redução nos postos de emprego de longo prazo. O fato pode estar por trás desta avaliação dos bancários encontrada aqui.
Tabela 24
Escores do fator ambiental Posição social valorizada
Freqüência de participantes por intervalo FATOR N
1 2 3 4 5
Posição social valorizada 198 5 17 48 82 46
2,5% 8,5% 24,0% 41,0% 23,0%
Conclui-se, dessa forma, que os bancários, mediante os fatores ambientais do modelo ecológico de Warr (1987) percebem de maneira positiva a organização do
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trabalho (exercer controle sobre o meio, clareza ambiental, variedade e oportunidade para desenvolver os conhecimentos e capacidades pessoais), as condições do trabalho (segurança física) e os objetivos gerados no meio organizacional. Em relação à variedade, a literatura aponta para o aumento de complexidade das atividades bancárias, especificamente dos cargos gerenciais, e mesmo assim, os resultados foram satisfatórios no uso da variedade. Isso pode estar relacionado ao fato dos gerentes serem minoria entre a amostra.
Por outro lado, as relações interpessoais não são percebidas de forma tão positivas (pontuações variaram entre os níveis intermediários da escala) e que se pode aludir ao fato de que aumentou a competitividade entre os bancários devido à redução do número de empregados. Hoje em dia prega-se muito em favor do desenvolvimento da empregabilidade individual que os bancários necessitam: não basta apenas estar empregado, é necessário manter-se empregado.
A disponibilidade econômica encontrada revela que a maioria tem como única fonte de renda o próprio salário, e que às vezes tem renunciado realizar atividades do dia-a-dia devido à falta de dinheiro. Apesar da literatura apontar na direção da queda dos rendimentos do bancário, a percepção de que o bancário tem ao avaliar sua situação econômica com o contexto do mercado de trabalho segue sendo positiva. Esses resultados refletem, por sua vez, na percepção da “Posição Social Valorizada”, outro fator ambiental de Warr (1987), em que 35% deles não consideram que estão ocupando uma posição em que constrói prestígio na sociedade, contra os 63% que se sentem numa posição social privilegiada. Apesar do número dos que se sentem socialmente privilegiados ser maior, não é desprezível o número daqueles que não se sentem.