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O exercício muscular requer um suprimento constante de adenosina trifosfato (ATP) para fornecer a energia necessária à contração. Como os estoques de ATP no músculo são muito baixos, a energia obtida pela utilização do ATP livre é muito escassa (Boffi, 2007), de forma que, o organismo possui vários mecanismos para obter energia, sendo o primeiro, o desdobramento da fosfocreatina pela enzima creatina quinase, que produz energia para apenas poucos segundos de trabalho. Ainda de acordo com Boffi (2007), outra forma geradora de energia quando a necessidade de ATP é muito rápida, como em uma corrida, ou quando se acumula uma alta concentração de ADP no interior da fibra muscular, é a reação da mioquinase, em que duas moléculas de ADP se combinam, gerando um ATP e um AMP.

As principais fontes energéticas utilizadas para a produção de ATP são os carboidratos (glicose ou glicogênio muscular e hepático) e as gorduras (ácidos graxos). A produção de ATP pode ocorrer na presença (via aeróbia) ou na ausência (via anaeróbia) de oxigênio, sendo que, a definição da via metabólica utilizada depende essencialmente da velocidade e da intensidade do gasto energético (Bergero et al., 2005).

A via aeróbia oxida tanto os carboidratos como os lipídios, utilizando o Ciclo de Krebs. Já a via anaeróbia produz menos ATP, sendo a mais importante a glicólise anaeróbia, na qual o piruvato é convertido em ácido lático, pela ação da enzima lactato desidrogenase, o qual é rapidamente dissociado em íons hidrogênio e lactato. Este processo permite a reoxidação do NADH, importante para a continuidade da via glicolítica e fornecimento de ATP para a contração muscular. O lactato produzido circulante vai ao fígado e retorna a piruvato no chamado ciclo de Cori, podendo ser novamente usado como fonte energética (Hodgson e Rose, 1994).

Desta forma, quanto maior a intensidade do exercício, maior a participação da glicólise e da via anaeróbia, com consequente liberação de lactato das células musculares para o sangue, aumentando as concentrações de lactato e diminuindo o pH sanguíneo. Logo, a concentração de lactato é uma boa indicação da intensidade do exercício realizado. Quando um cavalo está condicionado aumenta a participação das rotas aeróbias de produção de energia, havendo um retardo no acúmulo de lactato (Castejón et al., 2007).

Segundo Evans (2009) a concentração de lactato em cavalos no repouso é de aproximadamente 1 a 1,5 mmol/L. Em baixas velocidades esses valores não são

modificados significativamente. Jordão (2011) registrou aumento de 1,89 para 2,09 mmol/L após 50 min de exercício aeróbio em cavalos MM. Prates (2007), também com equinos MM desenvolvendo provas de marcha com duração de 50 minutos, não verificou aumento significativo das concentrações de lactato.

Em velocidades moderadas o lactato começa a se acumular, e este acúmulo acontece mais rapidamente a partir de 4 mmol/L. Esta velocidade, definida como VLa4, é geralmente tomada como referência para a determinação do limiar anaeróbio, ou a velocidade onde se tem o início do acúmulo de lactato sanguíneo (Couroucé,1999). Já a velocidade em que a concentração de lactato é de 2 mmol/L (VLa2) é um parâmetro utilizado como referênciapara se determinar o limiar aeróbio.

Kindermann et al. (1979) citado por Bas et al. (2000) afirmaram que quando as concentrações de lactato são inferiores a 2 mmol/L existe predominância do metabolismo oxidativo, enquanto que entre 2 e 4 mmol/L ocorre um período de transição, havendo rotas tanto aeróbias quanto anaeróbias e, a partir de 4 mmol/L, o metabolismo será predominantemente anaeróbio. No entanto, essas definições vêm sofrendo críticas, por ser muito generalizada e desconsiderar diferenças individuais, estado de treinamento e disponibilidade de glicogênio (Gondim et al., 2007).

Entretanto, Ferraz (2007) enfatizou que é indiscutível a importância da determinação de limiar de lactato, tanto para a definição de esquemas e treinamento para cavalos atletas, como para a própria avaliação da eficácia de um determinado treinamento. Assim, VLa2 e VLa4 tem sido utilizadas para instituição e avaliação de eficácia de um treinamento. Mas de acordo com Ferraz (2007), adota-se uma postura muito conservadora quando se trabalha VLa2, não trazendo melhora na capacidade física dos animais, pois muitas vezes os animais trabalham a passo. O autor sugeriu carga de trabalho na VLa3 (velocidade em que a concentração de lactato é de 3mmol/L). Sem dúvida, mais estudos nos métodos de determinação de lactato devem ser feitos em equinos para resolver estas incongruências.

Gomide et al. (2006 ) afirmaram que a concentração de lactato sanguíneo possibilita avaliar o sistema de produção energético mais utilizado durante o exercício. Assim, o tipo de fibra muscular predominante na raça equina influencia no acúmulo de lactato e, portanto, no processo de fadiga. Bayly e Kline (2007) descreveram que, durante um exercício de intensidade moderada, o lactato produzido pela glicólise das fibras rápidas (IIA e IIX) é combustível de preferência para as fibras altamente oxidativas (tipo I). No

entanto, com o aumento da intensidade e duração do exercício, essas fibras não conseguem utilizar todo o lactato produzido, elevando-se as concentrações de lactato rapidamente, aumentando os íons de H+ com consequente redução do pH nos músculos, causando fadiga.

Com o treinamento, as concentrações de lactato no sangue aumentam devido à maior capacidade do cavalo eliminar o lactato dos músculos, pois os eritrócitos atuam como reserva do excesso de lactato que os músculos não podem usar (Bayly e Kline, 2007).

Na mensuração das concentrações de lactato podem ser utilizados aparelhos portáteis, permitindo avaliação em tempo bastante curto, ou através de espectrofotometria, coletando-se o sangue em tubos contendo fluoreto-oxalato. Porém, Miriam et al. (2008) demonstraram que os valores de lactato utilizando lactímetro portátil são superestimados em até 30% quando comparado com a determinação na concentração sérica. No entanto, de acordo com Lindner e Boffi (2007), não se pode comparar valores de lactatos medidos no sangue ou no plasma, pois a partir de 2 mmol/L, a concentração de lactato será sempre maior no plasma, porém não existe diferença entre o sangue venoso ou arterial.

Benzer Belgeler