Desde 1994, há uma defi nição precisa, disposta em normativa internacional, a respeito do que se deve entender por “pirataria” e por “contrafação”. O Acordo TRIPS defi ne “contrafação” e “pirataria” no contexto de dois direitos de pro- priedade intelectual: contrafação é a violação de direitos sobre marcas; pirataria a violação de direitos autorais11. O Brasil, enquanto signatário do TRIPS, deve obedecer essas defi nições. O debate público em torno desses problemas tam- 10 Para uma análise dos problemas suscitados pelo Projeto Escola Legal, ver KARAGANIS, Joe (ed.) Media
piracy in emerging economies. New York: SSRC, p. 289 -292.
11 Nota 14, artigo 51 do Acordo TRIPS: “Para os efeitos deste Acordo, entende -se por:
(a) “bens com marca contrafeita” quaisquer bens, inclusive a embalagem, que ostentem sem autorização uma marca que seja idêntica à marca registrada relativa a tais bens, ou que não pode ser distinguida, em seus aspectos essenciais, dessa marca e que, por conseguinte, viola os direitos do titular da marca registrada em questão na legislação do país de importação;
(b) “bens pirateados” quaisquer bens que constituam cópias efetuadas sem a permissão do titular do direito ou de pessoa por ele devidamente autorizada no país onde foi produzido e que são elaborados direta ou indiretamente a partir de um Artigo no qual a elaboração daquela cópia teria constituído uma violação de um direito autoral ou conexo na legislação do país de importação”.
CAPÍTULO 8 — PIRATARIA NO BRASIL: A NECESSIDADE DE UMA DISCUSSÃO RACIONAL SOBRE O TEMA 103
bém. Não existe, tecnicamente, algo como “pirataria fi scal” ou “pirataria de medicamentos”. O que existe é apenas a “pirataria marítima” e a “pirataria de direitos autorais”.
O decreto presidencial que criou o CNCP (Decreto 5244 de 14 de outubro de 2004) acerta ao defi nir pirataria em seu art. 1º, pará- grafo único: “Entende -se por pirataria, para os fi ns deste Decreto, a violação aos direitos autorais de que tratam as Leis nos 9.609 e 9.610, ambas de 19 de fevereiro de 1998”. Ou seja, pirataria equivale a vio- lação de direitos autorais.
A precisão da norma infralegal, contudo, não é verifi cada na LDA. A atual lei, de 1998, assim como sua antecessora, de 1973, defi ne “contrafação” sim- plesmente como a “reprodução não autorizada” (art. 5º, inciso VII). Os textos até o momento publicados como parte da consulta pública sobre a reforma da LDA, igualmente. Tem -se, com isso, uma boa oportunidade de compatibilizar o texto da LDA brasileira com TRIPS, no que diz respeito ao uso técnico da nomenclatura da área.
O uso do termo “contrafação” — quando utilizado em referência à viola- ção de direitos autorais — é uma relíquia de tempos em que pirataria implicava, no mais das vezes, reprodução física e, particularmente, a produção de edições literárias fraudulentas12. Outros países, como a França, ainda utilizam a pala-
vra (“contrefaçon”) no contexto da violação de direitos autorais. Desde TRIPS, todavia, há que se traçar uma diferença nítida entre contrafação e pirataria, sob pena de se tratar o que por vezes são fenômenos radicalmente diferentes com a mesma resposta.
O uso da palavra “pirataria” pelo discurso público e pela mídia, igualmen- te, costuma pecar pela falta de técnica. Pirataria é confundida com contrafação e, em alguns casos, até com infrações que não têm relação necessária com a pirataria, como evasão fi scal, contrabando, tráfi co de entorpecentes e “crimes virtuais”. O que pode, à primeira vista, não parecer um grande problema, acaba difi cultando muito a compreensão de todos esses fenômenos, esvaziando -se o 12 O signifi cado de dicionário da palavra refl ete essa realidade. “Contrafação”, segundo o dicionário Mi-
chaelis da língua portuguesa, equivale a “1 Ação ou efeito de contrafazer. 2 Imitação fraudulenta de um produto industrial ou de uma obra de arte. 3 Falsifi cação de assinaturas, moedas, papéis de crédito, selos etc. 4 Edição de um livro feita sem autorização do autor ou do proprietário da obra e em seu prejuízo. 5 A obra reproduzida ou imitada fraudulentamente. 6 Disfarce, fi ngimento. 7 Constrangimento.”
conteúdo do termo “pirataria”, principalmente por questões de estratégia de
lobby, comunicação e coordenação entre as indústrias de PI.
Quanto mais tópicos se insere sob o mesmo termo “guarda -chuva”, maio- res as oportunidades de aproveitamento de resultados de pesquisas entre grupos tão distintos quanto a indústria de medicamentos e a indústria fonográfi ca, bem como maiores as facilidades para a articulação entre esses atores em ativi- dades de lobby.
Duas das pesquisas sobre pirataria no Brasil, as patrocinadas pela FECOMÉRCIO -RJ (executada pela IPSOS) e a da U.S. Chamber of Commerce (executada pelo IBOPE) são, na verdade, principalmen- te sobre contrafação. E desta maneira, números que dizem respeito principalmente a produtos falsifi cados são inseridos no debate público sobre violação de direitos autorais.
Talvez mais importante sejam os resultados retóricos desta confusão téc- nica. Ao se associar pirataria à contrafação, procura -se vincular condutas que, apesar de ilícitas, não trazem malefícios à saúde do consumidor, a condutas que podem potencialmente provocar esses danos, como a venda de medicamentos irregulares13. Além disso, outro problema é associar -se os problemas relativos ao
comércio informal a um ecossistema totalmente diferente, que é o do ambiente online, que tem complexidades específi cas e demanda regulação diferenciada.
13 A questão dos medicamentos é ainda mais complicada, porque não necessariamente estamos aqui diante de produtos que causem danos à saúde do consumidor. A Organização Mundial da Saúde atualmente atua com quatro categorias de medicamento em situação irregular: (i) medicamentos espúrios (o que, ao contrário do rótulo, não contém o princípio ativo anunciado, contém quantia menor do que a anuncia- da, ou tem informação de fabricação incorreta), (ii) os com rótulos com informações falsas (a embalagem contém informações erradas sobre o produto, como a data de fabricação, validade, local de produção etc.), (iii) os substandard (de baixa qualidade), e (iv) os falsifi cados/contrafeitos (vendidos com marca falsa). Apenas estes últimos envolvem direitos de propriedade intelectual. O fato principal em se tratan- do do medicamento contrafeito é a violação do direito de marca, e mais uma questão de propriedade intelectual do que de saúde pública. Se o medicamento contrafeito também é espúrio, tem rótulos com informações falsas ou é substandard, a situação muda. Para uma exposição detalhada do problema, ver GOPAKUMAR, K. M. e SHASHIKANT, Sangeeta. Unpacking the issue of counterfeit medicines. Penang: TWN, 2010.
EPÍLOGO
Muitas das discussões tratadas neste livro não são recentes, ainda que pareçam ser. Por isso, neste último item, gostaríamos de apresentar uma breve síntese do histórico dos direitos autorais, apontando suas origens e como o tratamento internacional dado à matéria nos trouxe até aqui.