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A criação de animais sempre foi usual no território de Osasco, como demonstra o trecho extraído do livro publicado pelo primeiro prefeito, Hirant Sanazar. Em relação aos fatores que influenciaram o resultado do primeiro plebiscito sobre a emancipação política municipal, ele afirma:

Analisando as razões, dessa decisão negativa, constatou-se que prevaleceram na decisão popular os boatos, intrigas e mentiras, como aqueles que diziam que o salário mínimo seria reduzido, os impostos se aumentariam, os ônibus não adentrariam a Vila Yara, que haveria proibição de criar animais, além de que amedrontavam a população de que as obras de alvenaria que não constassem com planta aprovada, seriam derrubadas, os imóveis seriam desvalorizados, rebaixamento de “status” de Capital para Interior, entre outros. (SANAZAR, s/d, p.79, grifo nosso)

Essa iniciativa, aparentemente, persistiu no território osasquense como uma prática muito mais espontânea do que as atividades de cultivo, podendo ser reconhecida a partir de disposições particulares e coletivas.

a) Iniciativas particulares

As iniciativas particulares demonstraram estar apoiadas basicamente em dois tipos de motivações: pessoais ou práticas. O relato da senhora Maria Agostine Fernandes (entrevista 12), por exemplo, descreve a criação de galinhas e patos através de um propósito pessoal. A iniciativa aparece como prática remanescente do seu núcleo familiar, motivada por sentimentos nostálgicos de herança e continuidade:

Só que o quintal é pequeno, não dá para plantar nada, até uma mina de água que eu tenho, o meu sonho é ainda criar umas galinhas, uns patos, eu gosto. De vez em quando que eu compro verdura, que eu lavo [a] verdura, a gente sempre tira aquelas folhas velhas, [então] eu lembro dos meus bichinhos porque eu jogava para eles. Às vezes sobra comida assim, [ao invés de] colocar no lixo, [a gente] pode dar para os bichinhos de casa. Porque desde quando [eu] nasci, a gente morava na roça e a minha mãe tinha, nós sempre tivemos a nossa criação. Meu pai foi trabalhar com um tio da minha mãe que tinha o sítio, mas ele tinha a vaquinha dele, tinha o animal para ir para cidade, para trabalhar na roça, trabalhar no arado, então ele sempre tinha os [animais] dele, os porquinhos...

Em relação às iniciativas particulares sustentadas por motivações práticas, notamos que a criação de animais ainda reproduz as mesmas finalidades descritas pela população pioneira: transporte de passageiros e/ou de carga. É assim que, mesmo nos dias atuais, as terras públicas devolutas são convertidas em campos de pastoreio.

No curto intervalo desta pesquisa, momento em que os olhos se mantiveram direcionados para essa perspectiva, testemunhamos a presença freqüente destes animais em pequenas praças (foto 05), no terreno adquirido em 2008, para construção do novo campus da Universidade Federal de São Paulo - Unifesp (foto 06), nas terras marginais ao Rodoanel (foto 07) e à linha ferroviária (foto 08).

Foto 05: Cavalo em frente ao posto de saúde localizado no bairro Cidade das Flores.

Autoria: Danielle Albino (data: 16/11/2013)

Foto 06: Cavalos no terreno adquirido em 2008 para o novo campus da Unifesp.

Foto 07: Porcos às margens do Rodoanel

Autoria: Danielle Albino (data: 09/11/2013)

Foto 08: Bois criados às margens da linha ferroviária.

É preciso ressaltar, entretanto, que todos estes registros representam um testemunho restrito da presença atual dos animais no território osasquense, pois correspondem apenas aos espaços de circulação cotidiana da pesquisadora. Os relatos revelam, entretanto, que essa presença se reproduz em outras áreas do município.

A predominância de lembranças associando atividades pecuárias aos arredores do quartel de Quitaúna, entretanto, é notável. E a existência de uma fábrica de selas, atuante em nível nacional, sediada no município reafirma a importância histórica que a criação de cavalos assumiu no cenário local.

Osasco teve seus dias de glória no mundo country, [mas] ela vem diminuindo a cada dia. Como selaria de fábrica só havia a nossa, aliás, acho que a única selaria que fabrica selas dentro da Grande São Paulo é a Bridle, têm outras dentro do Jóquei, mas são especializadas em cavalos de corrida. O mercado de Osasco vem diminuindo muito, principalmente agora que acabaram com aquele centro [onde] tinham as cocheiras ao lado do quartel, vinham uns 200 cavalos ali e eu atendia aquele mercado. (entrevista 21 - Marcos Aurélio Libanori)

O senhor Daniel Barbosa de Andrade, por exemplo, descreve suas iniciativas de criação de gado nos arredores do quartel de Quitaúna, no ano de 2003, mas ainda hoje encontramos tropas de cavalos destinadas à comercialização nas terras que margeiam o Rodoanel (fotos 09 e 10).

Foto 09: Criação de cavalos às margens do Rodoanel Mário Covas em Osasco.

Autoria: Danielle Albino (data: 18/05/2014)

Foto 10: Área de pastoreio dos animais.

Os relatos abaixo fazem referência a isso:

Eu fui em Salto de Pirapora um dia, como diz o nordestino, eu estava meio arretado, comprei dez garrotes [e] trouxe para Osasco, para a cocheira dos cavalos, depois não deu certo [e] eu [também] levei para Ibiúna, isso foi em 2003. Eu não sei [se] deu uma praga, [se] envenenaram os bichos, [mas] morreram três vacas só num dia, [então] eu fiquei só com os cavalos, porque o cavalo é mais resistente, o cavalo come capim, [mas] a vaca come qualquer outra comida, [então] parece que deram veneno porque morreu quase tudo. (entrevista 17 - Daniel Barbosa de Andrade)

Eu nunca tive, [mas] existiam vacas de leite [também], numa questão de 10 anos atrás, o China ainda tirava e vendia leite natural pela cidade, era bem forte ali naquela região [dos quartéis]. (entrevista 20 - Marcos Aurélio Libanori)

E o professor Daniel vai te falar detalhes que você vai dar risada: ele vai te contar a história de uma vaca que fugiu na avenida dos Autonomistas, eu que tive que pegar, ele e eu que corremos atrás, e ela deu um trabalho, fugiu [às] 11 horas da manhã [e] nós fomos pegar [às] 7 horas da noite, ela subiu para o lado do quartel. E foi engraçado porque a gente estava levando esses animais para Ibiúna, porque eu ia casar. Eu acho que foi em 2006 [ou] 2007. (entrevista 19 - Josias Nascimento de Jesus)

A motivação econômica aparentemente predomina nas iniciativas particulares, embora tais atividades não estejam desassociadas de um propósito ligado à continuidade das tradições. As iniciativas coletivas, de outra forma, reforçam a perspectiva cultural, em termos de tradição, mas sem uma vinculação econômica associada.

b) Iniciativas coletivas

Em relação às iniciativas coletivas, identificamos a presença de dois grupos recentemente organizados na região: o Clube de Cavaleiros Hirant Sanazar (2010) e a Associação dos Tropeiros de Osasco (2012). O primeiro grupo não possui sede coletiva, trata- se de uma comitiva que reúne cerca de 180 cavaleiros na ocasião de eventos. O segundo grupo manteve-se sediado no Racho Comanche, no bairro de Quitaúna, onde abrigava por volta de 183 animais.

No mês de dezembro de 2013, estabeleceu-se uma contenda entre a prefeitura e uma parte destes cavaleiros, dada a necessidade de desocupação dos ranchos localizados nas imediações do aquartelamento militar Duque de Caxias, no bairro de Quitaúna, para o encaminhamento de projetos habitacionais.

Essa divergência revelou um aspecto curioso que envolve a formação recente dos grupos, já que a legislação proíbe, desde 1986, a manutenção de estruturas para criação de animais no município: “fica proibida a permanência de estábulos, cocheiras, chiqueiros e pocilgas no perímetro urbano do município” (lei nº1903/86, artigo 1º). Curiosamente, o artigo 36, da lei 3999 (publicada em 17/01/2006), proíbe a criação e manutenção de animais suídeos, leporídeos, caprídeos, ovídeos, bovídeos e aves domésticas, mas não menciona o grupo dos eqüinos.

De acordo com Mariano (2009, p.01), as expressões culturais populares são comumente apropriadas pelo governo local ou por iniciativas particulares para serem mercantilizadas, mas essa dinâmica não abriga todos os processos que se realizam no território osasquense, pois muitas iniciativas sobrevivem ainda que existam fortes limitações impostas pela legislação local. Desta forma, a realização de alguns eventos guarda enorme espontaneidade como, por exemplo, a corrida de cavalos que se realiza nas manhãs de domingo na última rua da cidade, às margens do Rodoanel, na divisa com o município de Carapicuíba.

Essa corrida não possui uma organização formal, ela se divulga através do popular “boca a boca” reunindo cavaleiros de toda a região, dentre os quais identificamos participantes de Ibiúna, São Roque, Cotia (distrito de Caucaia do Alto) e São Paulo (distrito do Rio Pequeno).

As disputas realizadas entre charretes ocorrem sem a interdição da rua, de forma que a largada está intimamente associada ao sinal vermelho do semáforo que interrompe momentaneamente a passagem dos carros na avenida. Neste intervalo, um enorme grupo de motoqueiros e alguns veículos cercam os competidores como forma de proteger os charreteiros. A população acompanha às margens da avenida ou na passarela e alguns grupos formam um cordão humano interrompendo momentaneamente a circulação dos carros nas ruas vicinais para evitar que outros veículos assumam a frente dos cavalos.

O contraste produzido pela presença dos animais com o entorno urbanizado é notável, assim como a ruptura normativa que sua presença provoca naquele espaço: notamos, por exemplo, inúmeros cavaleiros e charreteiros percorrendo as vias públicas na contra-mão, por outro lado, a maior parte das motocicletas e todos os veículos que os acompanham, realizam o caminho regular através de um retorno para acessar novamente a linha de partida, demarcada por uma sinalização no poste (foto 11).

As pessoas que se reúnem para assistir ao evento realizam apostas e desfrutam de um espaço de refeição e lanche que se improvisa em uma das esquinas. Curiosamente, reúnem-se neste encontro desde as mais simples charretes de uso cotidiano, até modernas caminhonetes rebocando trailers para transporte de animais. De acordo com um dos frequentadores, todos os participantes são amigos, mas as divergências são constantes em função das apostas.

Este evento compartilha frequentadores com outra corrida de cavalos realizada no município de Ibiúna/SP, onde a disputa ocorre em pista mais apropriada, pois de acordo com alguns relatos, os cavalos correm em estrada de terra. O constante deslocamento para municípios vizinhos com o intuito de participar de rodeios, desfiles ou romarias demonstra a existência de uma rede de sociabilidade entre os criadores de toda a região.

Foto 11: Ponto de largada da corrida de cavalos e sinalização da saída no poste.

Autoria: Danielle Albino (08/06/14)

O evento mais tradicional que se realiza oficialmente dentro dos limites municipais constitui o desfile do sete de setembro.A figura dos cavaleiros tornou-se habitual na parada cívico-militar realizada anualmente, em função das festividades do Dia da Independência Nacional (fotos 12 e 13). Essa participação remonta à própria criação do município, de forma que, em 1963, eles eram anunciados como “cavaleiros da emancipação”.

Segundo relatos locais, este grupo permaneceu durante muitos anos fora da programação oficial do desfile, mas ainda assim os cavaleiros percorriam a avenida ao encerramento do mesmo, como iniciativa individual e espontânea. Recentemente, os cavaleiros foram reincorporados ao evento, agora sob a insígnia de comitivas organizadas, dada a necessidade de reforçar as condições de segurança.

É importante ressaltar que todas as atividades organizadas por tais grupos na região abrigam um forte apelo identitário, pois intencionam preservar a memória das tradições tropeiras. Esse aspecto cultural é notório, por exemplo, nos encontros de Queima do Alho58 e na Festa do Peão de Boiadeiro, substituída recentemente pelo Festival Sertanejo.

Foto 12: Foto do primeiro desfile na cidade após a emancipação (1963)

Fonte: www.camaraosasco.sp.gov.br/osasco/fotos/webs4/318.htm

Foto 13: Desfile do Clube dos Cavaleiros Hirant Sanazar (2013).

A nossa associação [...] tenta manter essas tradições [...] elas estão relacionadas: (a) à comida tropeira, [...] feijão tropeiro, arroz carreteiro, galinhada, vaca atolada; (b) [...] às danças, o pessoal do sul trouxe junto a catira [...] ; (c) à moda de viola que era uma forma de diversão para os nossos tropeiros [...]. Isso tudo faz parte da história de cada um de nós, mesmo quem [...] não tem cavalo, mas com certeza o seu avô, a sua avó, o seu bisavô passou por isso. Você imagina assim: hoje nós somos uma Grande São Paulo, nós somos uma área metropolitana, mas todos os nossos municípios foram montados aonde? Em cima do lombo de um burro, de um cavalo, o material de construção aqui chegou no lombo desses animais, nós comíamos a carne [dos bois] que esses animais tocavam [...] Então a gente tem esse intuito de manter essas tradições para elas não serem esquecidas. (Associação dos Tropeiros de Osasco e Região, informação verbal59)

Tais eventos são agregadores e mobilizam outros grupos interessados pelas manifestações culturais ligadas ao campo, frequentemente associadas à religiosidade popular. Na segunda parte desta pesquisa veremos como estes grupos apresentam um discurso semelhante no que diz respeito à retomada de tradições.

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Benzer Belgeler