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Também nesse mesmo período, no contexto de experiências que se somaram na produção de um novo modelo de atenção, outra iniciativa marcante foi desenvolvida, em 1989, a partir de um fato que modificou o cenário da cidade, dessa vez em âmbito municipal: a criação, na rede pública, do Modelo Integral em

Saúde Mental. As várias ofertas de atenção, articuladas por um sistema de

referência e contra-referência, incluíam equipes multidisciplinares na rede básica, hospitais-dia, enfermarias e prontos-socorros de saúde mental em hospitais gerais

e um projeto intersetorial que reunia saúde, cultura, educação e outras áreas: os Centros de Convivência e Cooperativas – CECCOs (Vieira al. 1999).

Esses centros foram criados em parques, centros esportivos, praças e centros comunitários municipais, na perspectiva de promover um resgate dos espaços públicos, enquanto espaços de convivência cidadã, em que se pudesse “estabelecer um patamar de reconhecimento da diversidade para a efetivação de trocas e edificações criativas” (Lopes 1999).

Essa era uma intenção clara nos documentos de normatização dos CECCOs, ainda que esses expressassem uma dicotomia ao distinguir população geral e população alvo17. Esta última dizia respeito a pessoas em diferentes situações de desigualdade de acesso a espaços de circulação social: psicóticos crônicos, deficientes físicos, mentais e sensoriais, pessoas em situação de rua, idosos etc. Dessa forma, esses centros se configuravam como “serviço-fronteira” (Galletti 2004:67), ao sinalizar:

Uma abertura inovadora do campo da saúde mental ao campo social, isto é, na busca da ampliação de horizontes vitais dos pacientes, retirando-os de uma espécie de limbo e de uma circulação restrita dos meios de tratamento para trânsitos mais espontâneos pela cidade (Galletti 2004:56).

      

17 Para Galletti, estas expressões são sustentadas por “conceitos que, por si mesmo, produzem 

exclusão”  (2004:55);  de  acordo  com  essa  autora,  a  compreensão  desse  problema  conceitual  poderia ter evitado desentendimentos e dificuldades nas relações institucionais, que vieram a se  manifestar ao longo do processo.      

As atividades oferecidas eram diversificadas e organizadas em dois eixos: o da convivência, com atividades plásticas, música, teatro, tai chi chuan, dança, atividades de jardinagem e esportes, entre outras; e o da formação de cooperativas a partir de iniciativas de trabalho solidário, como os empreendimentos artísticos e os ambientais (Maluf 2005).

As oficinas reuniam profissionais de saúde (psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e outros); educadores; e oficineiros (artistas plásticos, músicos, agrônomos, atores, marceneiros, dançarinos e outros). O trabalho em parceria demandou a desconstrução de papéis já estabelecidos conforme cada especialidade, assim como a revisão de conceitos prévios; ao mesmo tempo, criou oportunidades de interlocução que resultaram novos estilos de trabalho em comum, norteados pelas necessidades e desejos dos participantes (Lopes 1999, Galletti 2004).

Nessa mesma linha e nesse mesmo período, outra iniciativa envolveu uma articulação entre as políticas públicas de cultura e saúde mental: o Projeto Oficinas, produzido através de parceria entre o ambulatório de psiquiatria do Hospital do Servidor Público Municipal e o Centro Cultural São Paulo. Além de prover acesso a informações artísticas e culturais nesse centro de difusão cultural, essa experiência resultou em um ateliê de artes plásticas, ativo por mais de dez anos18, durante os quais diversos desafios cotidianos da produção do cuidado em parceria puderam se apresentar e motivar a criação de estratégias de superação dos impasses surgidos no convívio com a diferença (Barban 2001).

      

Durante todo o período em que o Modelo Integral de Saúde Mental vigorou como política pública municipal, “os hospitais-dia deixaram prioritariamente aos CECCOs a tarefa de oficinas, onde de fato existiu o trabalho com arte” 19. Em alguns desses hospitais-dia, porém, uma perspectiva de desenvolvimento da rede de cuidados fundada na continuidade dos vínculos estabelecidos nas situações de crise orientou abordagens terapêuticas e psicossociais com desdobramentos no campo da cultura, articuladas aos CECCOs e a outros espaços no território 20.

O Modelo Integral em Saúde Mental sofreu um colapso em 1996 21, com a descaracterização dos serviços e o desmonte das equipes de trabalho, em razão da implantação do Programa de Assistência à Saúde – PAS: “um projeto político de privatização do sistema público de saúde” (Galletti 2004:76), orientado pela perspectiva de implantação de um modelo médico-curativo nessa área.

Enquanto isso, em nível nacional, a formulação do novo modelo avançava, já, desde 1992, com base em experiências desenvolvidas em diversas localidades, no país. A portaria 224/92 instituía e regulamentava o funcionamento de Núcleos e Centros de Atenção Psicossocial - NAPS e CAPS, cujos nomes aludiam às experiências inaugurais de Santos (NAPS); e São Paulo (CAPS).

      

19  Comunicação  pessoal.  Profª  Drª    Isabel  Victoria  Marazina,  supervisora  de  equipes  de  saúde 

mental durante a vigência do Modelo Integral de Saúde Mental.  

20 Comunicação pessoal. Profª Drª Elisabete Meola, então gerente de hospital‐dia. 

21 Os CECCOs, contudo, sobreviveram a esse desinvestimento. Existem atualmente 22 unidades 

Em 2002, um novo normativo nacional, a portaria 336/200222, estabeleceu as atribuições dos CAPS, consolidando o seu lugar na assistência à Saúde Mental. Nesse mesmo ano também ocorreu a municipalização do SUS em São Paulo; e a expansão dos CAPS no município, com base nas experiências anteriores: em 2008, de 21 CAPS destinados ao atendimento de adultos, 10 derivaram de ambulatórios, oito, de hospitais-dia e três haviam sido criados como CAPS. Alguns serviços haviam passado pelas três formas de organização, outros resultaram de fusão de serviços pré-existentes ou de cisão de equipamentos (Nascimento e Galvanese 2009).

As experiências reunidas até aqui dão uma idéia do mosaico de composições que precede a configuração atual das atividades de arte e cultura nos CAPS, na cidade de São Paulo. Cabe, agora, apresentar as referências teóricas que nos orientam na investigação dessas atividades.

      

Benzer Belgeler