Não lembro de ninguém que cantava e nem tocava na família. Quando eu era criança eu gostava de ouvir cantigas de roda, mas não lembro de nenhuma. Só me lembro do povo cantando apanhando o café, as mulheres cantavam cantigas de roda. Não tenho lembranças da minha mãe cantando músicas para mim. Ela não gostava de cantar. Meu pai gostava de cantar algumas músicas, mas não me lembro não. Acho que era samba que ele cantava (Sr. João W., 60).
Não lembro de canções. A não ser assim, roda, de cantigas de roda, porque eu era da roça, o povo apanhava café cantando. Outro dia teve um São João, eu acho, teve uma festa lá no grupo, agente falava versos. (tentou lembrar) Eu lembro de alguma (pausa), esqueci. Ah! eu lembro de uma que falava assim: 7e 7 são14, 3 x 7 21, tive sete namorados, só me casei com um (D. Salomé, 71).
Não gosto de cantar, gosto de ouvir. Nunca tive vontade de tocar nada. Não toco nada, nada, nada. E tem mais, não sei nem cantar nenhuma música inteira, não gravei. Eu não gosto de música. Pra música não dou. Eu não aprendo música (Sr. Carlos M., 74).
Minha avó era cantora de igreja em Amargosa (Bahia). Na minha família, tenho uma filha que canta. Ela cantava numa banda, agora deixou, ficou cristã, canta só na igreja (D. Mônica, 69).
Halbwacks (2006), no seu livro “A Memória Coletiva”, dedica o seu último capítulo a memória coletiva dos músicos. Ele inicia falando que a
memória de uma palavra se distingue da lembrança de um som qualquer, natural ou musical. O autor afirma que a palavra se refere a um modelo de esquema exterior, fixado nos hábitos fonéticos do grupo (em sua base orgânica) ou sob forma impressa (tendo uma base em superfície material), enquanto para a maioria das pessoas, os sons que não são palavras não seguem modelos puramente auditivos porque estes lhes faltam.
Considerando os sons musicais, concluímos que para fixá-los em nossa memória precisamos armazenar o maior número de notas. Mesmo desconhecendo a transcrição musical, podemos reconhecer e recordar qualquer seqüência de notas. A memória musical é especialmente preservada mesmo quando existem comprometimentos sérios, como é o caso de um processo de demência.
A música atinge as emoções, as faculdades cognitivas, os pensamentos e as memórias, o “self” do indivíduo para fazer aflorar experiências ora perdidas. “A intenção é enriquecer e ampliar a existência, dar liberdade, estabilidade, organização e foco. A percepção, a sensibilidade, a emoção e a memória para a música pode sobreviver até muito mais tempo depois de todas as outras formas de memória terem desaparecido” (SACKS, 2007).
Atestam esta constatação os idosos participantes dess grupo de cantoterapia; basta um estímulo, para que se lembrem de canções que ouviram e cantaram na infância.
Quando da coleta de informações, perguntei a D. Salomé se ela lembrava de alguma canção que ouvira na infância. D. Salomé pensou, e depois de algum tempo repetiu a letra e de uma parte da melodia de uma canção folclórica: - “7 e 7 são14, 3 x 7 21, tive sete namorados, só me casei com um”. Logo após, lembrou-se de outra canção que cantava para os filhos dormirem: “Eu cantava pra eles dormirem, cantava assim: Boi, boi. boi do currá vem pega menino que não quer chora, não, não, não coitadim tanto que ele chora mais é bonitim. Aí quando vê tá dormindo”. De acordo com Halbawcks (2006), distinguimos duas maneiras de recordar um motivo musical em pessoas que não sabem ler música nem tocar algum instrumento - umas recordam porque conseguem reproduzi-las cantando e outras porque já ouviram e reconhecem algum trecho.
Na discussão sobre a capacidade de armazenarmos músicas, Sacks (2007) chama a atenção para a extraordinária tenacidade da memória musical, graças à qual boa parte do que ouvimos nos primeiros anos de vida pode ficar registrado no cérebro pelo resto da nossa existência.
Sr. Carlos M. afirma não se lembrar de nenhuma música para cantar; percebemos que o fato de afirmar não se lembrar das canções poderia estar relacionado com o fenômeno gerado pela ansiedade do fazer música. Na nossa caminhada como profissional de música, observamos que algumas pessoas têm dificuldade de cantarem sozinhas. Quando realizamos testes para classificação vocal, solicitamos que a pessoa entoe uma canção de livre escolha. Na maioria das vezes percebemos uma situação de ansiedade, e grande parte dessas pessoas precisa de um estímulo pra lembrar e cantar a música; o medo de errar ou “desafinar” provoca ansiedade e apreensão e em alguns casos falha na memória musical. Miller (2002) chama a atenção para o fato de que a ansiedade por uma performance em música não difere da ansiedade em geral, implicando em sentimentos de medo e apreensão.
Sr. João W. diz: “Quando eu chegava pra cantar tinha uns colegas que cantava melhor do que eu”. “A minha voz pega um pouco”. “Sou praticamente desafinado”.
Na fala de Sr. João W. foi identificada a preocupação com a qualidade da emissão da voz cantada; ele compara a sua condição com a do colega. Admite que a sua voz tem comprometimentos. Então, mesmo sabendo que existe um mecanismo diferenciado para as performances vocais no que se refere a fala e ao canto, os bloqueios emocionais para a emissão da voz poderão afetar não só a expressão da voz cantada como da voz falada. Talvez o “desafinar” para Sr. João W. esteja relacionado a uma condição muito mais de natureza psicológica/ emocional do que propriamente a sua performance técnica musical. Entende-se assim, que existem paradoxos que permeiam as leituras das atividades ligadas às expressões artísticas e culturais desenvolvidas com idosos. Dependendo dos encaminhamentos, das formas de atuação, poderão emergir limites e/ou potencialidades. Podem tanto possibilitar vivências libertadoras e de estímulo à criatividade quanto desencadear um caráter excludente. Portanto, toda a estruturação e a
aplicação das abordagens artísticas, junto aos idosos requerem posturas políticas aprofundadas daqueles que conduzem os programas voltados para esse segmento. Faz-se necessário que as vivências e processos possam auxiliar no reforço da identidade, favorecer a criação de vínculos e propiciar o estímulo para a manifestação e desenvolvimento do potencial criativo de cada um.