Para entender de que forma os discursos que as fotografias jornalísticas carregam nos levam a produzir determinados sentidos sobre as favelas cariocas, tomamos como um dos nossos quadros de referência teórica o modelo de análise do discurso proposto pela teoria Semiolinguística, baseado no funcionamento do ato de comunicação ou de linguagem. Tal abordagem considera o processo de interlocução entre as instâncias de produção e recepção, as quais se encontram subordinadas a um conjunto de restrições e a um contrato de comunicação, mas também possuem um espaço de liberdade no qual podem utilizar uma série de estratégias discursivas em busca de determinados efeitos.
Para compreender a proposta de Charaudeau (2005), é fundamental perceber que o autor aborda o discurso numa perspectiva que considera a intervenção de um sujeito no que ele denomina construção psicossocial e linguageira do sentido, de modo que linguagem, ação e influência se relacionem nesse processo. Portanto, em sua teoria, podemos destacar dois aspectos como pontos-chave:
a) a construção e a configuração do sentido são realizadas por um sujeito intencional, que possui um projeto de influência e situa-se em determinado quadro de ação;
b) a matéria da forma que contribui para essa construção/configuração do sentido é linguística81.
A partir desse pressuposto, precisamos verificar quem são os sujeitos envolvidos no ato de comunicação que estudamos e o que nos diz a materialidade linguageira, neste caso, as fotografias jornalísticas de favelas do Rio de Janeiro. Em relação aos sujeitos, estes são os responsáveis por produzir o ato de linguagem, o qual ocorre em função de certo jogo de expectativas, em uma situação de comunicação que se encontra regida por um contrato. Essa mise en scène é explicitada em um quadro que representa o ato de linguagem e seus participantes. Charaudeau (2005, 2009a) apresenta quatro sujeitos distribuídos em dois circuitos (FIGURA 28). No espaço externo estão os sujeitos da ação, empíricos, seres psicossociais, que organizam o mundo real em mundo linguageiro: são o Eu comunicante e o
81 Linguagem compreendida como sistema social e histórico de representação do mundo, ou seja, como forma
Tu interpretante. No âmbito interno, situam-se o Eu enunciador e o Tu destinatário, sujeitos da fala, do dizer. A significação discursiva decorrerá da articulação entre esses circuitos interno (linguístico-discursivo, da fala configurada) e externo (situacional, da organização psicossocial).
Figura 28 –Os sujeitos da linguagem
Fonte: Charaudeau (2009a, p.77)
Em relação ao corpus que selecionamos, observamos uma instância compósita: o Eu comunicante são os fotojornalistas, seres sociais. Mas também é o jornal O Globo, instituição veiculadora das imagens. Podemos ainda listar figuras intermediárias ao processo, como diretores de redação, editores, diagramadores, e outros que participem da seleção e do tratamento das imagens. Mas, para efeito de nossa investigação, focaremos no Eu comunicante que consideramos o responsável por dar o direcionamento à escolha das imagens produzidas: a instituição, com suas intenções e posicionamentos.
Já o Eu enunciador é o próprio gênero, o fotojornalismo. Ao termos ciência desse ambiente no qual se dá o enquadramento genérico do discurso visual, podemos buscar identificar as possíveis estratégias usadas na concretização do conteúdo e na elaboração do discurso (GALINARI, 2013). Isso porque o fato de estar inserido no fotojornalismo significa adotar determinados elementos da linguagem fotográfica, entre várias escolhas possíveis, geradores de sentidos; fazer parte de uma troca regida por um contrato de credibilidade e
verossimilhança; integrar um histórico de desenvolvimento da prática fotojornalística que gerou rotinas produtivas, técnicas, éticas e estéticas que impactam no modo de dar a ver determinada cena, entre outros fatores.
As imagens são direcionadas ao Tu interpretante. No jornal O Globo, trata-se das pessoas que leem efetivamente o jornal e às quais não temos acesso, a não ser que fizéssemos uma pesquisa de recepção. Podem ser leitores do Rio de Janeiro ou de outras partes do Brasil, já que o jornal tem circulação nacional, sendo o segundo mais lido no país, além de haver os assinantes da versão digital do jornal impresso82 e ainda todos aqueles que acessam a página de O Globo na internet83. As fotos também são dirigidas ao Tu destinatário, identidade discursiva, caracterizada como o leitor ideal do jornal, seu público alvo, que são as classes A e B da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
De acordo com os Princípios Editoriais do Grupo Globo84, seus veículos devem agir de acordo com as características de seu público alvo, adaptando a elas pauta, linguagem e formato. No entanto, apesar de focar em um segmento bem delimitado, o Grupo Globo considera qualquer público como portador de alto poder de discernimento e entendimento. Tal convicção deve ser levada em conta principalmente pelos veículos de massa, como é o caso do jornal O Globo, que deve produzir informação para pessoas de todos os níveis de instrução, segundo recomenda o documento. Sabemos, entretanto, pelas pesquisas da Infoglobo que 71% do público leitor de O Globo situam-se entre as classes A e B85.
A situação de comunicação é outra instância fundamental para nosso estudo. Refere-se ao espaço onde se define o jogo de expectativas (que efeitos se deseja produzir no outro e como o outro poderá perceber tais efeitos) e que nos permite entender qual a finalidade da troca comunicativa. Para o autor, situação de comunicação é o:
conjunto de condições situacionais não enunciadas que determinam em parte o sentido do ato de linguagem e que fariam deste um objeto de troca contratual entre as duas partes envolvidas. A situação de comunicação constitui um lugar de restrições à produção e à interpretação de enunciados, proporcionando aos sujeitos produtor e interpretante instruções de construção/interpretação do sentido. (CHARAUDEAU, 2010b, p. 274-275).
82
Trata-se da versão impressa integralmente digitalizada. Já a página do jornal na internet traz alguns conteúdos presentes na versão impressa e outras produções próprias, que estão disponíveis apenas no site.
83
A página de O Globo na internet tem mais de 2,5 milhões de usuários cadastrados e recebe, em média, 350 mil visitantes por dia. Cf.: INFOGLOBO (2015), em Sobre a Infoglobo.
84 O GLOBO (2011)
Nesse espaço em que os sujeitos se deparam com restrições, eles também encontram oportunidades para aplicar suas estratégias discursivas, uma espécie de margem de manobra, a fim de atingirem seus objetivos, isto é, seus propósitos comunicativos. Essa estratégia corresponde ao modo como o sujeito comunicante elabora seu discurso para atingir seu fim, seja informar, seduzir, persuadir etc., o sujeito interpretante. No entanto, para que o ato de linguagem se efetive, é necessário ainda que haja uma espécie de acordo entre os parceiros sobre as práticas sociais linguageiras, é o que se denomina contrato. As fotografias que analisamos neste trabalho são, segundo a abordagem de Charaudeau (2009a), a materialização dessa mise en scène.
O autor define o conceito de contrato como “um conjunto de restrições que se impõem ao sujeito falante fornecendo-lhes instruções discursivas que ele deverá considerar em sua enunciação” (CHARAUDEAU, 2010b, p. 279), sendo esta uma condição para que os interlocutores do ato de linguagem se compreendam. Tal contrato se define a partir de representações idealizadas que o justificam socialmente e o legitimam. Portanto, entre o jornal O Globo e seus leitores, é preciso que exista essa espécie de acordo, em que o veículo elaborará seu discurso tendo em vista as características do público alvo, além de considerar os princípios que regem a prática jornalística, os quais pressupõem veracidade, credibilidade, atualidade e objetividade na construção da informação, seja ela verbal ou visual.
Logo, para entender a situação de comunicação em que as fotos que selecionamos foram produzidas, é necessário saber que elas pertencem ao gênero fotojornalismo, o que implica um contrato de credibilidade com o leitor, o qual partirá de um pressuposto – dado por esse mesmo contrato – de que são fotos verdadeiras, ou seja, de momentos decorridos no mundo fenomênico os quais o fotógrafo presenciou e registrou. Tal postulado de objetividade, bem como configurações de regimes de verdade, marcados historicamente, surgiram e consolidaram-se com o desenvolvimento do próprio gênero, que adotou formas discursivas particulares, como abordamos no capítulo 1.
Enfim, as fotos do jornal O Globo situam-se no domínio da prática midiática jornalística, cujo contrato pressupõe a apresentação de imagens de acontecimentos verdadeiros e atuais, firmado a partir de uma proposta de testemunho e prova, de ligação com o “real” e a “verdade”. Tal condição decorre do fato de o jornalismo possuir o que Charaudeau (2010a) nomeia de visada de informação, isto é, ele tem a finalidade de informar o cidadão. Mas não
se pode deixar de mencionar que existe também uma visada de captação, que pretende buscar o interesse do leitor, numa lógica menos cívica que mercantil. O que o autor fala sobre a televisão em um de seus artigos, pode ser também compreendido para o dispositivo jornal impresso:
O dispositivo televisual da informação atribui de antemão um lugar ao telespectador, aquele de cidadão que deve se informar dos acontecimentos do mundo. Pela mesma ocasião, ele revela o lugar da instância da informação: relacionar os acontecimentos do mundo na sua autenticidade, e tentar explicá-los. Como, ao mesmo tempo, sabe- se que este dispositivo é feito para tentar tocar o maior número de telespectadores, dada a lógica comercial à qual é preciso obedecer, instância de informação e telespectadores se encontram em uma dupla relação que implica afeto (as emoções) e razão (a compreensão), sem que se possa distingui-los. Desde então se instaura um mal-entendido entre essas duas instâncias, pois, por contrato, o telespectador considera a imagem na sua função mimética, isto é, como dando conta da realidade do mundo, enquanto ela é encarregada de efeitos emocionais que são trazidos não apenas pelo seu valor sintoma, mas igualmente pelas descrições, pelos relatos e pelos comentários que lhe são feitos (CHARAUDEAU, 2006a, p. 15).
Dessa maneira, é preciso aliar duas lógicas distintas – cidadã e comercial – em uma situação que exige manter a credibilidade da informação publicada, mas também utilizar estratégias que impulsionem as vendas e atraiam publicidade. As fotos selecionadas para o jornal devem, portanto, informar sobre dado acontecimento para atender ao requisito jornalístico, mas também precisam atrair o leitor (e consequentemente ancorar as vendas e assinaturas).
Além disso, elas são selecionadas a partir do que se pressuponha que o leitor das classes A e B da Região Metropolitana do Rio de Janeiro queira ver, de acordo ainda com uma determinada linha editorial, considerada conservadora. Ademais, a escolha do que noticiar segue os chamados critérios de noticiabilidade, ou seja, critérios adotados pela prática jornalística para definir o que será ou não notícia, como atualidade, proximidade, imprevisibilidade, importância, negativismo, interesse, coletividade, repercussão entre outros86. É nessa tensão que se situam as fotos analisadas: de um lado, têm o papel de informar com autenticidade; de outro, captar o maior número de leitores. Tanto numa quanto na outra visada, é fundamental cumprir o contrato de “verdade”, que rege a troca e mantém a credibilidade da informação.
86
“Os valores-notícia (news values) [ou critérios de noticiabilidade] seriam o critério para selecionar o que entra
e o que não entra na pauta da imprensa. Eles são os atributos que orientam a seleção primária dos fatos e que também irão interferir no tratamento dado ao material produzido. Consolidados na prática histórica, tais valores agem em conjunto com outros critérios de noticiabilidade que envolvem desde o julgamento do jornalista às características do veículo e da empresa de comunicação, e apoiam-se em padrões culturais para que as notícias se
Apesar de percebermos que existem essas duas visadas, pois o jornal é um empreendimento comercial, os Princípios Editoriais do Grupo Globo, que determinam as bases da atuação de seus veículos, insistem em posicionar seu jornalismo apenas no âmbito da informação, afirmando que “noticia os fatos, analisa-os, opina, mas com a intenção consciente de não ter um viés, de tentar traduzir a realidade, no limite das possibilidades, livre de prismas”87
. O documento é enfático: “O Grupo Globo terá sempre e apenas veículos cujo propósito seja conhecer, produzir conhecimento, informar.” (grifo nosso)88
. Entretanto, sabemos que um discurso porta intencionalidades, seja explícita ou implicitamente, logo, a questão não seria diferente no caso do discurso jornalístico, ainda mais considerando que o veículo tem seu projeto de fala, caso contrário, não haveria razão para a troca comunicativa. Mais à frente, no mesmo documento, o Grupo Globo relativiza a afirmação anterior, esclarecendo que estar livre de prismas e vieses é algo no âmbito da intenção e que se restringe ao noticiário, estando cronistas, articulistas e analistas – inseridos em espaços categorizados como opinativos – livres para expor diversas tendências e, inclusive, para contrapor a opinião do veículo, o qual vê a realidade sobre o prisma de suas próprias crenças e valores. No entanto, não menciona quais seriam tais crenças e valores. Seja em qual espaço for, as estratégias discursivas, a nosso ver, terão que considerar tanto a informação quanto a captação, sem perder de vista o acordo contratual.
Nesse sentido, Charaudeau (2010a, p. 60) nos ajuda a compreender essa mecânica da informação (foto) jornalística, ao demonstrar que se trata de um fenômeno linguageiro que consiste em “fazer passar a comunicação pelo filtro dos imaginários característicos” das instâncias de produção e recepção, isto é, por saberes partilhados entre os parceiros da troca, e no qual o modelo proposto é o da credibilidade. Ao mesmo tempo, esse processo busca, por meio da simplificação, e às vezes da dramatização, captar e atingir seu público que é amplo e heterogêneo. Todos esses dados situacionais são essencias para estudarmos o ato de comunicação, pois todo discurso corresponde a um domínio da prática social no qual existem filtros que atuam na construção dos saberes, logo, dos imaginários (CHARAUDEAU, 2007).
Diante dessas visadas e das estratégias escolhidas para a construção do discurso, há três tipos de efeitos, conforme a perspectiva semiodiscursiva: i) os efeitos visados, ou seja, baseados na intencionalidade do sujeito ao produzir um ato de comunicação: ii) os efeitos produzidos, que
87 Cf.: Breve definição do jornalismo (O GLOBO, 2011).
dependem da interpretação do receptor; e iii) os efeitos possíveis, que resultam do encontro entre os efeitos visados e os produzidos (CHARAUDEAU, 2013). Dessa forma, o locutor não tem certeza se conseguirá produzir no interlocutor os efeitos desejados; este, por sua vez, ao receber o ato de comunicação, tem sua própria autonomia interpretativa e constrói seus próprios sentidos, que podem coincidir ou não com os efeitos visados pelo locutor. Enfim, um texto carrega tanto os efeitos visados quanto os produzidos. A soma desses efeitos de sentido resulta nos efeitos possíveis.