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A cidade de Fortaleza no decorrer do século XX teve seu espaço urbano bastante modificado, além de ter sido um período de grande crescimento demográfico com a inserção de transportes públicos, bondes e ônibus. A elite da cidade que antes habitava no centro teve um deslocamento para bairros mais distantes, a maioria para a área leste da cidade, em bairros como Meireles e Aldeota. Em decorrência desse deslocamento, o centro da cidade no qual antes era um local de moradia passa a ser um local de forte dinamismo comercial que atrai principalmente a população mais carente da cidade (SANTOS et al., 2011).

“Portanto, o Centro passa a ser local de consumo principalmente da população de menor poder aquisitivo, que proporciona dentre outros fatores o crescimento do comércio informal, que ao longo dos anos tomou grandes proporções”. Vários são os ramos do comércio que se concentram no centro, existe um intenso comércio informal nas praças centrais e ruas, prejudicando o patrimônio histórico-arquitetônico com a destruição de prédios antigos para a construção de estacionamentos (SANTOS et al., 2011).

De acordo com Nascimento (2013) a precarização das relações de trabalho é desencadeada pelo mercado informal, a partir da territorialização dos camelôs nos espaços urbanos, dentro do amplo leque de atividades informais.

Atualmente, as feiras possuem caráter popular e mantêm a forma tradicional de comércio – baseada na relação face a face – de maneira a resistir ao surgimento das modernas formas de consumo e à difusão de outros modos de atuação decorrentes da globalização. As feiras são capazes de absorver as mudanças e de se readaptar a partir da criatividade popular (DANTAS, 2008).

A Feira da Sé teve início em um pequeno aglomerado de artesões cearenses que comercializavam sua produção próxima ao Mercado Central e em frente à Catedral de Fortaleza. Esta Feira modifica-se atraindo produtores e intermediários de produtos artesanais e industriais, regionais e nacionais, alcançando grandes proporções e transformando-se em uma referência nacional no comércio de confecção (SANTOS, SILVA E SILVA, 2011, p. 8).

Segundo Chaves (2012) o comércio ambulante é um problema na cidade de Fortaleza, quinta cidade mais populosa do Brasil, isso posto que pela falta de ordenamento o comércio informal no centro da cidade tomou grandes proporções, hoje é conhecido como um grande comércio popular e possui grande atração, não só para a população local, mas também regional. “Em relação a 2010, o Produto Interno Bruto (PIB) cearense cresceu 4,3% no ano passado. Superou, inclusive, o desempenho da economia brasileira, que teve alta de 2,7% no mesmo período”.

O comercio informal formado nos centros urbanos das cidades é uma maneira que a população com menos recursos financeiros podem ter acesso a produtos. Produtos esses que de outra maneira seria de difícil acesso a esse público em questão (CHAVES, 2012).

Além desse acesso de produtos a uma população mais carente, o comercio informal no centro da cidade de Fortaleza também trouxe como benefício um turismo de negócio, que em consequência gerou pousadas e hotéis no bairro destinados aos compradores que vem de fora do estado para fazer negócios no centro da cidade. O comercio no centro de Fortaleza possui uma abrangência regional e internacional, de maneira que a cidade recebe compradores de vários estados do país, além de Cabo Verde, Porto Príncipe e Guiana Francesa. O veículo utilizado pela maioria desses compradores são ônibus que ficam estacionados próximos aos locais de compras, que geram muitas vezes dificuldades na mobilidade urbana da população que precisa se locomover pelo local (CHAVES, 2012).

“De acordo com pesquisa do Sistema Nacional de Emprego (SINE), realizada em 2007, mais da metade da população de Fortaleza estava trabalhando na informalidade, sem carteira assinada”. Nos anos de 1990 os trabalhadores formais diminuíram, antes eles eram maioria. Essa diminuição é decorrência de ajustes do setor público, recessão econômica e abertura comercial da economia brasileira. Na cidade de Fortaleza, entre 1984 a 2007 o mercado informal cresceu 11,78%, um crescimento significativo (SANTOS et al., 2011).

Segundo Chaves (2012) existem duas possibilidades de um trabalhador buscar o mercado informal; a necessidade ou a escolha. Apesar do crescimento da economia brasileira e do aumento de vagas em trabalhos formais o número de ambulantes vem crescendo, isso está associado a uma característica estrutural da economia local.

De acordo com Chaves (2012), diferentemente de antigamente, quando os mercadores viajavam para vender os seus produtos, as pessoas hoje buscam o comércio. Em razão disso, os ambulantes optam por oferecer e vender os seus produtos em locais que hajam grande fluxo de pessoas, como nos grandes centros urbanos das cidades. Os vendedores buscam clientes, a venda no contato direto “é na oferta do produto. É no falar, no ouvir, no oferecer, no ver”.

Quando o assunto é mercado formal, o Ceará vem apresentando índices promissores. De 2007 a 2011, o Estado acumulou um saldo de 287.203 novas vagas. No ano passado, o maior destaque na geração de emprego formal foi o setor de serviços, com a oferta de 27,9 mil postos, seguido pelo Comércio, com 17,9 mil vagas. Os números foram divulgados em março último, pelo Governo do Estado. Mesmo assim, a informalidade continua a atingir variados segmentos ocupacionais (CHAVES, 2012, p. 35).

Segundo Cleps (2009) os mercados informais nos centros urbanos das cidades modificam os seus espaços, transformando-os radicalmente. Espaços anteriormente destinados a centro de compras da elite da cidade e de sedes de escritórios tornaram-se comércio popular, ligado a informalidade. É comum que nesses espaços existam empreendimentos propostos a esse comércio popular chamados de “shoppings populares”, criado como uma tentativa de ordenação do espaço. “O comércio informal constitui-se num mercado paralelo, de economia invisível, formado por vendedores ambulantes, profissionais irregulares, servidores domésticos, contraventores, oficinas de fundo de quintal, fábricas caseiras de diferentes produtos entre outros”.

Além da venda em si dos produtos, os ambulantes podem desempenhar outras tarefas como: a compra ou fabricação da mercadoria vendida, mas o que mais destaca-se é a maneira de comercialização da mercadoria, que possui um contato com o cliente de forma bastante direta, “ ao comercializar diretamente o produto o preço dele é repassado sem o processo de especulação usual, sem taxas, impostos ou licenças a pagar”. Os ambulantes solicitam para si o direito de ocupar o espaço urbano para a realização da comercialização como uma condição de sobrevivência (CLEPS, 2009).

Essa nova modalidade de comércio faz parte do cotidiano das áreas centrais das cidades. Muitas vezes estão, inclusive, localizados em frente aos estabelecimentos de comércio formais. O resultado desse comércio é um conjunto de atividades econômicas e heterogêneas, onde não existe o predomínio de relações assalariadas, mas sim de profissionais autônomos. Funciona, portanto, como uma atividade de baixa capitalização e produtividade, pois, geralmente, tem uma baixa ou nenhuma capacidade de geração de excedentes. Caracteriza-se, assim, como uma atividade que busca enfrentar o desemprego e os baixos salários cada vez mais presentes em diferentes países que compõem o sistema capitalista atual (CLEPS, 2009, p. 334).

Segundo Nascimento (2013), as condições de trabalho dos feirantes são verdadeiramente muito precárias, os mesmos trabalham entre 8 a 14 horas por dia, e diversas vezes sem alimentação adequada, os locais de trabalho em bancas sem segurança, além de vias sujas, sem dispor de banheiros públicos em condições mínimas de uso. Além disso, vivem constantemente sob a insegurança de seus destinos em relação à constante ameaça do governo municipal de interferir na sua apropriação indevida do espaço público, de maneira que por diversas vezes houve combate entre guardas municipais e feirantes.

A Feira José Avelino localizada no centro da capital Cearense é considerada uma feira irregular e com caráter informal, a Prefeitura da cidade visa modificar essa situação, no decorrer do presente estudo, serão apresentados alguns projetos e ações desenvolvidos pelo Município voltadas para esse mercado.

Esse comércio passou a se desenvolver nos anos 1980 e persiste até os dias atuais, enfrentando as investidas do poder público para deslocá-lo e discipliná-lo de modo a submetê-lo às políticas de urbanização do centro da cidade. No entanto, em que pese os conflitos e as várias tentativas de retirar e controlar esse comércio, os feirantes, ambulantes e comerciantes que formam esse mercado (informal ou semiformal) tem se mantido e até ampliado (MOTA; BARBOSA ,2015, p.2).

Na cidade de Fortaleza são desenvolvidos projetos públicos direcionados aos feirantes. Porém, existem muitas discordâncias entre os ambulantes e o poder público, nos últimos três anos os confrontos entre eles aumentaram consideravelmente, o tema de maior impasse é a saída do centro da cidade, principalmente a desocupação das ruas, que são utilizadas para a venda e exposição dos produtos pelos ambulantes (SANTOS et al., 2011).

Segundo Oliveira (2015) a prefeitura exerce um papel de ordenamento do espaço, delimitando locais e horários para que a feira aconteça. Dessa forma, para que esses espaços e horários sejam cumpridos existe uma fiscalização da prefeitura que são compostos pelos fiscais, que são servidores públicos concursados, contando com um auxilio também da Guarda Municipal.

Algumas tentativas de transferência da feira para outros locais foram realizadas, os projetos do município são de desocupação do centro da cidade, pois não o consideram um local apropriado para a realização da feira. Um dos primeiros locais que o município indicou foi o Feira Center, localizado em Maracanaú, em 2009 a prefeitura determinou um prazo para a transferência dos ambulantes, houve uma resistência por parte dos mesmos e não se obteve êxito na transferência (SANTOS et al., 2011).

Segundo Oliveira (2005), não existe políticas públicas documentadas direcionadas para a Feira José Avelino, isso porque o município não possui registos oficiais sobre os

feirantes, assim, a feira é considerada inteiramente irregular. O trabalho realizado pela prefeitura é fundamentado no Decreto n° 9.300, de 17 de janeiro de 1994 e na Lei n° 5.530, de 17 de dezembro de 1982 (Código de Obras e Posturas do Município de Fortaleza). Essas legislações são consideradas atrasadas, tanto pelos feirantes quanto por alguns políticos.

Segundo Albuquerque (2011) a falta de uma legislação mais recente ameaça diretamente o trabalho dos ambulantes, as mesmas não condizem com a realidade vivenciada na cidade. “Representantes do poder público falaram do “vácuo” que a legislação deixa na fiscalização e reordenamento dos ambulantes na Capital”. Uma possível solução para esses embates seria uma legislação mais adequada e atual e o reordenamento dos ambulantes.

No último ano, o Prefeito vigente decretou a saída dos ambulantes, e o fim da Feira José Avelino, as ações para a desocupação começaram no mês de maio e trouxeram inúmeros conflitos. Os argumentos utilizados pelo prefeito são os danos coletivos que a feira está causando na cidade, entre eles, a grande quantidade de lixo, violência e evasão fiscal que ocorre no local da feira. Além desses, o gestor também comenta sobre o valor histórico do espaço em que ocorre a feira e a importância dessa desocupação (O ESTADO, 2017).

Segundo Scaliotti (2015) um novo projeto foi lançado com o objetivo de retirada dos feirantes da Rua José Avelino, o Prefeito Roberto Claudio em uma parceria Publico-Privado realizou a construção de um empreendimento chamado Centro Fashion, o mesmo, é um centro de comércio popular e se localiza também nas imediações do Centro da Cidade, e surge como uma alternativa aos trabalhadores da Feira José Avelino.

“São aproximadamente 67 mil m² de área construída, o equipamento contará com 6.500 boxes e 300 lojas. E além de toda estrutura para os comerciantes, haverá itens para receber clientes locais e de outras cidades com o máximo de conforto e praticidade, como praça de alimentação com 88 lanchonetes, hospedagem, estacionamento para carros e motos e mais 130 vagas exclusivas para ônibus, além de auditório, banco, escritório virtual, farmácia, salão de beleza, loja de aviamentos, ambulatório, circuito interno de tv e som e segurança ” (SCALIOTTI, 2015, p. 1). Em fevereiro de 2017 foi anunciado pela Prefeitura a interdição da Rua José Avelino para obras de revitalização, requalificação e urbanização, por se tratar de uma via tombada. No mês de maio, foi realizada a retirada dos feirantes que trabalhavam na rua, parte deles foram realocados em outros locais, porém, mesmo com a reforma, alguns ambulantes continuaram a realizar as vendas e exposições de mercadorias na rua, o que gerou conflitos com os fiscais e Guardas Municipais da Prefeitura. Após a entrega da Rua, os vendedores não poderão voltar a vender nela, para isso a Prefeitura vai montar uma fiscalização composta por fiscais, e a Guarda Municipal. Os galpões localizados na rua estão autorizados a funcionar, desde que regularizados pela Prefeitura (G1, 2017).

A regulamentação dos galpões, é outra ação da Prefeitura, ao todo são 32 funcionando na Rua José Avelino e no seu entorno, em uma fiscalização realizada pela Prefeitura foi constatado que os galpões não possuíam alvarás de funcionamento, ou qualquer documentação sobre brigada de incêndio ou vigilância sanitária. Assim, foi estabelecido um período para que esses galpões pudesses se regularizar, para maior segurança dos trabalhadores (NETO, 2017).

Benzer Belgeler