• Sonuç bulunamadı

A finalização desta pesquisa é primeiramente a conclusão de uma etapa importante de um projeto pessoal e profissional que ao longo destes anos me modificou e hoje me constitui. Meu olhar sobre o professor de Música, sobre a escola e sobre a sociedade como um todo ganhou um novo colorido após as leituras, as entrevistas e as reflexões que este mergulho no tema me proporcionou. Iniciei esta pesquisa com a expectativa de um caminho, mas ao longo dela refiz meus próprios conceitos sobre os processos de formação e a identidade profissional de quem se propõe a trabalhar com Música na escola, que poderão me auxiliar pessoalmente, na minha atuação profissional e na área de Educação Musical como um todo.

Como ocorre em toda caminhada, este é o meu ponto de chegada, mas, a partir dele, outros caminhos se abrirão para mim e para outros que se interessam por este temas ou por outros a ele associados.

Apresento as considerações a que cheguei, na busca de responder a questão de pesquisa Como se constrói a identidade do professor de Música que atua na escola de

Educação Básica?

E cumprir com os objetivos traçados no início desta jornada:  Geral:

Analisar o processo de construção de identidade do professor de Música, a fim de compreender as relações que ela estabelece com o contexto da Educação Musical na escola de Educação Básica brasileira;

 Específicos:

Compreender quais os processos de socialização que influenciam na construção da identidade do professor de Música;

Analisar como as diferentes experiências, relações sociais e contextos influenciam na identidade dos professores de Música da escola de Educação Básica.

Iniciei a pesquisa movida pela curiosidade de verificar como se dá o processo de construção da identidade do professor de Música que atua na escola de Educação Básica e para isso busquei respostas nos artigos publicados sobre o tema e nas entrevistas com dois professores concursados na rede pública municipal de ensino.

No início do trabalho, fui influenciada pelas conversas com meus alunos de graduação e iniciei a pesquisa com a hipótese de que havia uma dicotomia entre a identidade de músico e de professor daqueles que escolheram fazer a licenciatura em Música. Pude verificar na leitura dos artigos que esta hipótese também foi levantada por muitos dos pesquisadores que, como eu, encontraram outra realidade.

Pude comprovar que a escolha da profissão é feita majoritariamente pela vontade de fazer música, ou seja, de tocar, de ser músico; são poucos os que escolhem, de início, se tornar professor. Isso se dá porque quem vislumbra trabalhar com música, foi primeiramente músico; com diferentes níveis de conhecimento e envolvimento, mas passaram, no mínimo por aulas particulares de instrumento, onde se envolveram com o fazer musical. O encantamento pela música, pelo instrumento, ou por tocar em grupo é a porta de entrada para a profissão. Isso se deu com os sujeitos participantes dos artigos analisados e pelos sujeitos por mim entrevistados.

A vontade de fazer música ainda é muito presente para muitos graduandos no início da faculdade, fazendo com que eles se fechem um pouco para o ensino musical, por isso a impressão de uma dicotomia. Os artigos que tinham como sujeitos alunos no início da graduação comprovaram esta hipótese. A grande maioria deles se via ou desejava ser músico e não professor, mas isso, ao longo da graduação foi se transformando, principalmente depois de terem contato com disciplinas da Educação Musical e de realizarem os estágios na prática pedagógica. Meus entrevistados também afirmaram que se viram como professores depois que se envolveram com a prática de ensinar música. Para eles, o envolvimento em projetos de extensão que os colocaram no papel de professor foi o motivo que os levou a se encantar com a profissão.

Diante deste dado, defendo – como muitos colegas de profissão – a importância de se ter disciplinas que envolvem a prática pedagógica e as vivências em Educação Musical desde o início do curso, reforçando a importância do professor de Música em nossa sociedade. A quebra da hierarquização, ainda presente, entre quem toca e quem ensina, precisa ter um fim. Isso porque ser músico e ser professor podem constituir diferentes profissões, com diferentes funções e importância, mas, também podem ser diferentes aspectos de uma mesma identidade, que não estão em conflito e sim se somam, como demonstrado pelos participantes desta pesquisa.

Durante e depois das vivências com o ensino de Música, a identidade do professor começa a se formar ou a se consolidar e, com isso, a dicotomia que parecia existir entre tocar e dar aulas se resolve, fato demonstrado na fala dos licenciandos no

final do curso ou dos professores atuantes que foram sujeitos dos artigos analisados e também na fala de meus entrevistados, que entraram na graduação sem a intenção de serem professores, mas que hoje se afirmam não só professores de Música, mas professores da escola pública, com o compromisso de buscar, através da educação uma sociedade melhor.

Outro aspecto que influencia na identidade do professor é o contexto em que ele está inserido. Tanto o contexto menor: sua sala de aula, sua escola, quanto o contexto maior, o seu bairro, cidade e país. A importância e reconhecimento social do papel deste profissional em sua sociedade têm modificado as perspectivas da profissão.

Foi possível verificar, por meio dos artigos oriundos de países em que a Música na escola é valorizada, que por consequência o valor social deste profissional é reconhecido. Destaco um dos artigos em que os professores de Música são vistos como professores de referência, de apoio, de confiança pelos seus alunos, e assim, se tornam um modelo a ser seguido, inclusive no momento de escolha da profissão. Muitos dos que escolheram cursar licenciatura em Música, segundo os artigos analisados, citaram seus professores de Música da escola como modelo que desejavam seguir, pela relação com eles estabelecida. O interessante é que segundo os artigos, os professores incentivam seus alunos a seguirem a carreira de músicos, mas seus alunos querem ser como eles, fazer o que eles fazem, ou seja, ensinar Música.

No entanto, em países como o Brasil, em que a Música na escola está longe de ser reconhecida e valorizada – como mostrado no capítulo 1 desta tese –, seguir uma carreira musical vai depender de um investimento da família ou de uma oportunidade que não é oferecida para todos. Nenhum dos meus dois entrevistados afirmou que teve Música na escola ou indicou um professor como sendo a referência para buscar a carreira musical. O exemplo deles nos informa que não estamos participando de um importante processo na socialização secundária dos indivíduos de nossa sociedade, sendo esta uma razão pela qual a Educação Musical não tem seu valor reconhecido.

Além disso, a falta de reconhecimento da Educação Musical afeta diretamente a atuação do profissional dentro da escola, como vimos com a situação vivida por Lígia. No caso dela, a confusão na legislação e o equívoco da polivalência nos concursos impossibilitou que ela continuasse a cumprir suas metas e desejos, gerando uma crise de identidade. Sua função de professora de Música exercida há 3 anos na escola foi destituída pela função de professora de Artes indicada em seu concurso, realidade

vivida por muitos profissionais não só da Música, mas das diferentes linguagens artísticas.

Já para Matheus, depois de muitos anos trabalhando na mesma escola, desenvolvendo projetos sociais com música, o reconhecimento que ele tem na comunidade em que atua fortaleceu sua identidade e sua atuação. Mesmo assim, ele ainda enfrenta desafios e limitações para continuar, como o corte de verba de seu projeto feito pela gestão municipal, mas o suporte e a valorização da comunidade motiva sua dedicação e empenho.

Neste sentido, é possível afirmar que o contexto social e profissional em que o professor atua é um componente importante na formação, fortalecimento ou crise de sua identidade profissional.

Destaco também a importância da função do professor em geral e do professor de Música em particular, e seu mandato profissional e social, como destacado pelos autores Mellouki e Gauthier, citados ao longo da tese. É fundamental que o professor cumpra sua tarefa de dar acesso, interpretar os conhecimentos de nossa cultura e preparar seus alunos para atuarem e modificarem o mundo em que vivem. Para isso, a escola precisa cumprir seu compromisso de formar cidadãos críticos e a graduação sua função de formar professores que estejam preparados para o trabalho em um ambiente tão específico como o da escola de Educação Básica.

Defendo que uma das responsabilidades da formação inicial é favorecer o desenvolvimento das habilidades pessoais e sociais dos futuros professores de Música, é sensibilizá-los para que possam sensibilizar, é fazê-los autônomos para que possam promover autonomia, é fazê-los críticos para que possam fazer boas escolhas e ensinar com o compromisso e responsabilidade de ajudarem a construir o mundo de amanhã.

Por fim, reafirmo que não existe dicotomia entre ser músico e ser professor. Para ser professor de Música é necessário saber fazer música, dominar seus símbolos e saber se expressar através dessa ferramenta. Fazer música nos traz prazer estético, nos conecta com nossa cultura, nos conecta com o ser humano, nos sensibiliza, nos gera as mais diferentes emoções; por isso, é inerente à nossa profissão manter o encantamento que nos levou a ela, tocando, cantando... fazendo Música.

Termino este trabalho fazendo um convite para que mais pesquisadores se juntem nesta defesa da importância da Música em nossa sociedade e do valor indiscutível do professor de Música nas escolas básicas. Mais pesquisas que ouçam a voz desses profissionais, que aumentem o reconhecimento da profissão serão

Benzer Belgeler