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2.5.1. Os Serviços Ecológicos

As cidades e centros urbanos, como qualquer outro ecossistema complexo, prestam determinados serviços aos seus habitantes e comunidades (La Rosa et al. 2015), no entanto, dependem dos ecossistemas naturais, mais precisamente dos seus componentes e dos seus serviços, para sustentarem as condições de vida, saúde, segurança e sociais a longo prazo, assim como outros aspetos importantes, para o conforto do Homem (Gómez-Baggethun & Barton 2013). Os serviços prestados pelos ecossistemas, designados por serviços ecológicos, são cruciais para o funcionamento da vida terrestre e, de acordo com Costanza et al. (1997), contribuem, direta e indiretamente, para o bem-estar da humanidade, possuindo um valor económico substancial a nível global.

Os serviços ecológicos podem ser definidos como bens, serviços e benefícios de natureza material ou imaterial, que as pessoas recebem de ecossistemas funcionais (Mooney 2014). Alguns desses serviços não são consumidos diretamente pelo Homem, no entanto são cruciais à sua sobrevivência e possuem diferentes escalas espaciais (Bolund & Hunhammar 1999). Os autores referem que os serviços estão disponíveis a escalas locais, regionais e globais, sendo possível ocorrer o seu transporte desde o sítio onde este é “produzido” até ao local onde os humanos beneficiem dele, através de transporte antrópico (bens materiais, alimentos, etc.) ou por meio natural (sementes, nutrientes, etc.).

A disponibilidade de serviços ecológicos nas cidades depende diretamente quer da quantidade quer da qualidade da Infraestrutura Verde Urbana (Anon 2013) e, em contexto urbano, a existência de uma gama de diferentes usos do solo e ecossistemas oferece uma variedade de serviços ecológicos distintos (La Rosa et al. 2015). Neste sentido, com base nos relatórios Millennium Ecosystem Assessment (2005) e The Economics of Ecosystems and

Biodiversity (Groot et al. 2010), foram identificados 23 tipos de serviços ecológicos, agrupados em quatro categorias diferentes - serviços de fornecimento, de regulação, de habitat e culturais – que se encontram identificados na tabela 2.1.

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Tabela 2.1 - Tipologia dos Serviços Prestados pelos Ecossistemas (Adaptado de Groot et al. 2010; Mooney 2014; Millennium Ecosystem Assessment 2005)

Tipo de Serviços Ecológicos Serviços Prestados

Serviços de Fornecimento

Alimentação (e.g. peixe, fruta) Água (e.g. para consumo, rega) Matérias-primas (e.g. madeira, metais) Recursos Genéticos (e.g. melhoria de culturas3)

Recursos Medicinais

Recursos de Ornamento (e.g. plantas decorativas)

Serviços de Regulação

Regulação do Ar (e.g. sequestro de poeiras) Redução do Ruído

Regulação Climática (e.g. sequestro de CO2) Moderação de eventos extremos (e.g. proteção de

tempestades)

Regulação de fluxos de água (e.g. drenagem natural) Tratamento de resíduos (e.g. purificação da água)

Controlo da Erosão

Manutenção da fertilidade do solo e ciclo de nutrientes Polinização

Controlo Biológico (e.g. dispersão de sementes)

Serviços de Habitat Manutenção da diversidade genética Manutenção dos ciclos migratórios

Serviços Culturais

Informação estética

Oportunidades de atividades recreativas e turismo Inspiração para cultura, arte e design

Experiencia espiritual

Informação para desenvolvimento cognitivo

Os serviços de fornecimento são serviços e bens ecológicos que concedem utilidades às pessoas, já os de regulação incluem a regulação climática, o ajuste da qualidade do ar, controlo da erosão e a purificação da água. Os serviços de habitat, também designados como serviços de suporte, mantêm a produção de outros bens e incluem a formação do solo e produção de oxigénio. Por fim, os culturais fornecem benefícios não materiais como funcionamento cognitivo, recreação e informação estética (Mooney 2014). É importante reter que, pelo facto de diferentes habitats proporcionarem diferentes géneros de serviços, a classificação geral necessita de ser adaptada para tipos específicos de ecossistemas (Gómez-Baggethun & Barton 2013).

Os ecossistemas urbanos proporcionam uma gama de serviços essenciais ao conforto do Homem, no entanto, esses ecossistemas também possuem aspetos inconvenientes, ou seja, os chamados desserviços. Gómez-Baggethun & Barton (2013) definem os desserviços como funções dos ecossistemas que são vistos como negativos para o bem-estar humano, sendo

3 A melhoria de culturas refere-se à modificação genética de culturas com o objetivo de aumentar a produção das mesmas (e.g. Organismos Geneticamente Modificados)

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considerados um desconforto para as pessoas residentes nos aglomerados urbanos. O ruído causado por algumas espécies de aves e de anfíbios perto de massas de água podem causar incómodos à população, bem como o aumento de mosquitos e odores desagradáveis provenientes de zonas húmidas (Bolund & Hunhammar 1999). Locais com pouca visibilidade, como parques ou florestas afastadas do centro as cidades, podem também ser considerados como pontos negativos, já que correm o risco de tornarem-se lugares inseguros num ambiente noturno.

A relevância dos serviços ecológicos depende fortemente das características ambientais e socioeconómicas de cada cidade (Gómez-Baggethun & Barton 2013) e, como tal, diferentes comunidades atribuem diferentes relevâncias a diversos serviços. Por exemplo, urbanizações com problemas de poluição atmosférica requerem uma rede extensa de corredores verdes para dar resposta a este problema, enquanto esta mesma estrutura, seria (possivelmente) dispensável numa cidade localizada numa zona costeira ameaçada pelo avanço do mar. Apesar disso, aquando do processo de planeamento da Infraestrutura Verde Urbana, é necessário a realização de uma análise de custo-benefício completa dos usos do solo e dos ecossistemas urbanos em que são tidos em consideração não só os aspetos positivos, mas também os aspetos negativos dos espaços verdes (Bolund & Hunhammar 1999), bem como uma avaliação das prioridades de cada território.

2.5.2. O Valor dos serviços Ecológicos

A contribuição dos serviços ecológicos para a melhoria da qualidade de vida da humanidade é uma demostração das ligações entre o Homem e o ambiente que o rodeia (Hattam

et al. 2015). Pelas funções que fornecem à população, estes possuem um “valor” associado que pode tomar diferentes naturezas, desde monetária a não-monetária (Anon 2013), e o seu valor pode ser utilizado para capturar e reconhecer a importância desses serviços para a sociedade.

Na verdade, a imposição de um valor aos serviços ecológicos é inseparável das escolhas e decisões tomadas pela sociedade. Costanza et al. (1997) afirma que a atribuição de valor a bens tão inatingíveis como vida humana, estética ambiental ou benefícios ecológicos de longo prazo é impossível e até mesmo imprudente. Porém, de facto, uma atribuição desta natureza ocorre diariamente. A definição de standards na construção de edifícios, autoestradas, pontes e outras infraestruturas, tem como objetivo a salvaguarda da vida humana e, mesmo não reconhecido, constitui uma atribuição de valor à vida do Homem. Hattam et al. (2015) acrescenta ainda que a difícil quantificação dos serviços ecológicos é justificada pelo facto destes serem usados indiretamente, ou apreciados diretamente (ainda que inconscientemente), e não serem negociados nos mercados económicos.

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A atribuição de valor aos serviços ecológicos consiste em determinar as diferenças que pequenas alterações nos ecossistemas causam ao ser humano (Costanza et al. 1997). Por outras palavras, quando uma alteração é introduzida num ecossistema, a diferença que ocorre nas atividades humanas decorrentes dessa mudança constitui o valor que lhe era atribuído. Por exemplo, os campos agrícolas fornecem alimentos que se podem consumir. O seu valor é precisamente a capacidade de produzir alimentos e a sua destruição implica a perda de stock de produtos agrícolas, resultando em perdas nos mercados económicos.

A definição de valores desses serviços pode ser dividida em três categorias principais, sendo elas os valores socioculturais, ecológicos e económicos (Hattam et al. 2015). O projeto URBES (Anon 2013) identifica ainda duas categorias complementares às mencionadas anteriormente, sendo, nomeadamente, os valores para a saúde e de segurança, como se observa na tabela 2.2.

Tabela 2.2 - Os valores dos Serviços Ecológicos (Adaptado de: URBES Project (Anon 2013))

Valores dos Serviços

Ecológicos Descrição

Valores Económicos

Valores monetários diretos ou indiretos fornecidos por ecossistemas urbanos (e.g. custos evitados por redução da

poluição do ar por soluções tecnológicas)

Valores Ecológicos Outputspurificação do ar, armazenamento de carbono) ambientais que têm valor para os humanos (e.g.

Valores Socioculturais

Valores morais, espirituais, estéticos, éticos e associados à biodiversidade urbana e serviços ecológicos, incluindo visões emocionais, afetivas e simbólicas relacionadas com a natureza

urbana, bem como conhecimento ecológico.

Valores de Saúde

Benefícios de saúde obtidos através dos espaços verdes urbanos, como por exemplo a redução da poluição do ar, aumento da

qualidade da água e saúde mental.

Valores de Segurança A contribuição da infraestrutura verde e serviços ecológicos para aumentar a resiliência e reduzir a vulnerabilidade a eventos extremos nas cidades

O desenvolvimento tecnológico verificado nas décadas passadas fomentou a conceção de uma sociedade urbana cada vez mais dissociada da natureza. Contudo, as cidades dependem dos ecossistemas e dos serviços ecológicos fornecidos por eles para sustentar a vida, saúde, segurança, relações sociais e para resolver alguns dos desafios mais preocupantes da atualidade, como as alterações climáticas, a segurança alimentar e gestão dos recursos hídricos (Anon 2013). Embora tenha ocorrido um crescente reconhecimento de que a biodiversidade e os serviços ecológicos podem contribuir para melhoria da qualidade de vida da população nas cidades, o seu valor não é tido em conta nos processos de gestão ambiental (Mooney 2014; Hattam et al. 2015; Anon 2013). A integração destes valores é essencial não só nas tomadas de decisão, mas também na elaboração de políticas de planeamento urbano, com o objetivo de

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aumentar a resiliência urbana, saúde e qualidade de vida dos cidadãos, contribuindo para a redução da pegada ecológica das cidades.

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Benzer Belgeler