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Segundo Oliveira (2003, 85-86), a influência de Karl Marx é patente na obra de Furtado. “Mas, sem dúvida, a contribuição mais marcante é de Keynes”, economista inglês que revolucionou a teoria econômica no século XX, com sua obra A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. A história econômica realizada por Furtado em Formação econômica do Brasil é uma releitura keynesiana da história brasileira. A teoria de Keynes ajudou Furtado a deslindar, por exemplo, a autonomia do Estado brasileiro para realizar as ações intervencionistas a partir da Revolução de 1930, bem como a ampliar o alcance das transformações econômicas do ciclo do café que ajudaram na criação do mercado interno, diferenciando-o dos ciclos anteriores da história econômica nacional: “[...] É a teoria keynesiana da demanda como núcleo do processo econômico capitalista que possibilita essa operação interpretativa”.

O lugar do Estado na obra de Furtado constitui-se na referência principal para pensar a economia e a sociedade brasileira; e a intervenção do Estado em moldes keynesianos foi paradigmática. Essa interpretação tornou-se hegemônica, influindo na ação estratégica de curto, médio e longo prazos, formando os quadros da burocracia estatal, influindo na formação acadêmica, moldando a ideologia do desenvolvimento que se firmou no país pelo menos durante o período populista. As orientações políticas tomaram a ideologia do desenvolvimento como seu objetivo maior; a esquerda, de início hostil e renitente, acabou rendendo-se ao esquema furtadiano, uma vez que, de um lado, ele permitia acolher o discurso antiimperialista e, de outro, a teorização de Furtado sobre o papel do mercado interno ajudou a dar plausibilidade ao rol que o Partido Comunista Brasileiro desejava para a burguesia nacional, como vanguarda de um desenvolvimento autônomo (OLIVEIRA, 2003).

Segundo Oliveira (2003, p. 60), Furtado racionalizou e ofereceu uma explicação científica para movimentos que já se haviam passado: como a famosa queima de café por Vargas nos anos 1930 para sustentar os preços e a renda dos produtores. (o keynesianismo antes de Keynes). Assim, projetou os anseios, desejos e projetos da expansão burguesa como um projeto nacional. O plano de metas de Juscelino Kubitschek, executado no seu mandato entre 1956 e 1960, foi inteiramente calcado nos trabalhos do grupo misto BNDE-CEPAL, dirigido por Furtado, no Rio de Janeiro, de 1952 a 1954, que lhe forneceu, inclusive, os materiais para a reflexão original contida na sua obra.

Na disputa política que aconteceu durante os anos 1950, pode-se perceber dois grandes campos ideológicos: o desenvolvimentismo e o liberalismo, sendo que o primeiro abarcava a maioria dos setores intelectuais brasileiros. A literatura denomina este período como populista e nacional/desenvolvimentista, sem que, no entanto, isso signifique que houvesse um projeto único entre os grupos que se aglutinavam em torno da bandeira do ‘desenvolvimento’. Tomando como definição do termo o proposto por Bielschowsky, desenvolvimentismo é um “projeto de superação do subdesenvolvimento através da industrialização integral, por meio de planejamento e decidido apoio estatal” (BIELSCHOWSKY, 1988, p: 39), autores com trajetórias bastante diversas como Roberto Campos, Lucas Lopes, Roberto Simonsen, Rômulo de Almeida e Celso Furtado são colocados como pertencentes ao bloco desenvolvimentista. Segundo Cepêda (1998), possuíam em comum a percepção de que o atraso só seria superado de forma artificial, o que os afasta da doutrina liberal. Esse setor ampliou-se ainda mais, incorporando os economistas do ISEB e do Partido Comunista Brasileiro. A diferença entre os desenvolvimentistas (que aglutinam o setor público não nacionalista, setor privado e setor público nacionalista) e os novos companheiros do ISEB e do PCB era a filiação teórica (linha

keynesiana para os primeiros e materialista-marxista para o segundo). Em conjunto, formara- se um campo ideológico em que a tônica do desenvolvimento correspondia à tarefa histórica do período: a construção do capitalismo no Brasil. No entanto, a própria acepção do termo “desenvolvimentismo” escondia uma outra face: a aceitação da premissa do subdesenvolvimento. Na construção desse par de conceitos, a influência dos cepalinos, principalmente de Celso Furtado, é um dos motores do debate intelectual do período.

O aumento da participação do Estado, como mecanismo atenuante dos conflitos capital/trabalho e como meio de aumentar o bem-estar das massas trabalhadoras, era uma tônica internacional. Furtado teve a chance de conhecer grande parte dos trabalhos produzidos mundialmente nessa época. Outro expressivo fenômeno que ocorria mundialmente era o surgimento da problemática do subdesenvolvimento. Com o fim da Era dos Impérios, a antiga oposição metrópole versus colônia seria substituída pela dicotomia países ricos versus países pobres, questão que se tornaria importante diante da contradição entre a pequena quantidade de países favorecidos frente à enorme constelação de países pobres, atrasados e subdesenvolvidos. A preocupação sobre a pobreza se desdobrou em dois comportamentos distintos. As nações atrasadas se preocupavam em sair da pobreza, e as nações ricas temiam que as sociedades pobres não conseguissem ultrapassar essa barreira, tornando-se uma ameaça para sua tranqüilidade (CEPÊDA, 1998).

Segundo Cepêda (1998), ao se analisar o pensamento furtadiano, observa-se que parte significativa da força de convencimento da obra de Celso Furtado se deve ao fato desta incorporar as novas contribuições da produção intelectual mundial, ao mesmo tempo em que se mantém no campo da anterior reflexão do pensamento social brasileiro. Como exemplo da assimilação de novas correntes de pensamento existente no cenário internacional, pode-se indicar a influência da teoria keynesiana e da questão da democracia econômica, ambas conseqüências das profundas mudanças ocorridas no capitalismo moderno desde o início do século XX. Naquele momento, eram correntes de pensamento representativas da nova ordem mundial que se firmaria no pós-guerra e da nova vestimenta institucional assumida pelo capitalismo. Elas incorporaram questões consideradas marginais pelo pensamento liberal clássico e que a teoria de Keynes viria substituir. O reconhecimento da importância reguladora e não apenas normativa do Estado, o problema da distribuição de riqueza e da incorporação de grandes contingentes de trabalhadores ao mercado de consumo como uma necessidade intrínseca ao próprio processo de crescimento capitalista, e a adoção de medidas de proteção ao trabalho, representaram uma revolução na forma de interação entre economia e política. Ao mesmo tempo, o aumento da invasão pública na esfera privada da produção e nas

relações de trabalho colidia de frente com a anterior ordem explicativa adotada pelo pensamento liberal. Ao lado desta questão, aparece a legitimação de procedimentos democráticos, com aumento tanto da participação política quanto da perspectiva de aumento do bem-estar material dos indivíduos.

Segundo Furtado (1962), o keynesianismo teve o atributo de retirar a ação do Estado do ostracismo em que tinha sido relegado pelo liberalismo. Diante das crises vividas pelo capitalismo no século XX, o Estado tornou-se um agente fundamental para a preservação do próprio sistema. No entanto, seu alcance limitava-se apenas para as economias avançadas que sofriam crises de desajustamento, e não podia ser utilizada na íntegra nos países periféricos que padeciam de outro tipo de problema: “O problema para os keynesianos resumia-se, contudo, na introdução de certas correções que restabelecessem o funcionamento dos automatismos. Uma vez logrado o pleno emprego, tudo voltaria a ocorrer como previam os clássicos” (Furtado, 1962, p: 34). Isso explica, segundo Cepêda (1998), porque Furtado adotou apenas alguns dos argumentos da teoria keynesiana. Dois pontos estratégicos claramente keynesianos foram adotados por Furtado em suas teorias: a crítica ao automatismo do mercado e a adoção do planejamento governamental como único meio viável de redefinir os rumos do capitalismo através de políticas de investimento e controle da demanda, corrigindo distorções no capitalismo avançado e gerando modificações estruturais no capitalismo retardatário. A questão do livre mercado é criticada tendo por base que a ação individual pode impor limites ao crescimento econômico.

Para Furtado (1964), o keynesianismo forneceu os alicerces para o compromisso entre as classes sociais, imbricando definitivamente as relações políticas e a organização econômica na sociedade capitalista moderna. Embora a aplicação mais imediata desta teoria tenha por foco o problema da participação e da distribuição de ganhos numa sociedade capitalista de tipo avançado, restringindo sua adequação as economias de outro tipo (como os países subdesenvolvidos), abriu, no entanto, enormes possibilidades teóricas e que coincidiram, em muitos casos, com os desafios encontrados pelos países que lutavam por superar o subdesenvolvimento. Auxiliava o combate aos setores mais conservadores que, aplicando o arsenal do liberalismo econômico, impediam tanto a entrada em cena do Estado, quanto uma modificação da estrutura política com aumento da participação política das classes populares. Nesse ambiente, Furtado (1964) colocou o aumento da participação política da sociedade (via legitimidade e eficácia do governo) e da pressão por distribuição de renda (via pressão sindical ou mesmo expressa nas eleições) como motor de desenvolvimento. Nos argumentos desenvolvidos nos textos do início da década de 1960 (momento em que se acirra a disputa

política pelo controle do aparelho de Estado e que se redefinem os rumos do capitalismo brasileiro), Furtado expõe que a consecução ou manutenção de um regime democrático aberto, em que as classes assalariadas podem organizar-se para lutar por objetivos próprios, deve ser considerada como condição necessária do desenvolvimento social em um país subdesenvolvido (FURTADO, 1964: p: 88).

Dessa maneira, o termo desenvolvimento social só pode ser entendido no próprio contexto proposto por Furtado: de que o ‘desenvolvimento econômico’ dos países subdesenvolvidos difere profundamente do conceito de ‘crescimento econômico’. O grande problema das economias atrasadas está em modernizar todas as estruturas sociais: organização da produção em moldes capitalistas (uma economia de perfil industrial, com mercados integrados e auto-sustentados), transformação da estrutura ocupacional (fundiária e com crescente perfil urbano), modernização das relações políticas (com avanços institucionais, aumento da participação política e, principalmente definindo um novo projeto de hegemonia que, no caso da modernização, corresponderia a preponderância do grupo burguês industrial). São mudanças qualitativas que escapam ao formalismo do cômputo quantitativo da produção, significando a adoção plena da essência operacional do capitalismo industrial em detrimento de formas mais pretéritas de capitalismo mercantil. No fundo, uma revolução, só que mantida dentro dos marcos institucionais: A tarefa básica no momento presente consiste, portanto, em dar maior elasticidade às estruturas. Temos que caminhar com audácia para modificações constitucionais que permitam realizar a reforma agrária e modificar pela base a maquinaria administrativa estatal, o sistema fiscal e a estrutura bancária (FURTADO, 1962).

Temos que dar meios ao governo para punir efetivamente aqueles que malversem fundos públicos, para controlar o consumo supérfluo, e para dignificar a função do servidor do Estado. Devemos ter um estatuto legal que discipline a ação do capital estrangeiro, subordinando-o aos objetivos do desenvolvimento econômico e da independência política (FURTADO, 1962, p: 31).

Benzer Belgeler